Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Monocromático

Missiva em Seis Tons de Silêncio

Cuiabá, quando as sombras cobrem o quintal…
Bambina mia,

Você me falou sobre despontar do sono para o mundo partilhado, e hoje eu acordei querendo ver o dia sem o artifício das cores. No projeto deste mês, o espelho do tempo resolveu se revelar monocromático. Retirar a cor do meu quintal foi como despi-lo do presente e entregá-lo, de uma vez por todas, à memória. Deixo aqui, nesta fresta do nosso labirinto, seis fragmentos de asas e esperas. Seis mensageiros que decidiram pousar no avesso do meu dia enquanto a minha xícara de café ainda fumegava.

Olho para este pássaro aninhado no galho seco, e penso no Borges velho. Há uma sobriedade escura e atenta no seu pouso, como quem já conhece todos os cantos e prefere observar a engrenagem do tempo em silêncio. O nome dele – Encontro – me faz pensar no encontro do homem com o jovem.

Logo depois, o oposto se faz presente. Chiquinho equilibra-se no fio do varal, bem ao lado de um prendedor de roupas comum. É o kairós de que falávamos ontem: o instante mais frágil e veloz da natureza ancorado na mais pura leveza do cotidiano. A delicadeza exige uma suspensão. O novo se inventa, não é mesmo?

Mais adiante, o sabiá caminha entre os galhos e a folhagem enevoada pelo fundo sem foco. Ele parece procurar aquela menina de tranças de quem te falei, ciscando no chão de terra batida da minha infância à procura de histórias esquecidas. Você ouviu o canto dele a pouco. Acho até que ele está presente quase o tempo todo em nossas conversas aleatórias. É como se já fizesse parte de nós.

Há também a imobilidade. O bem-te-vi solitário no fio, cortando o céu cinzento como uma nota musical suspensa na partitura do horizonte, me lembrou o silêncio dos quintais e os olhares atentos para o nada. . O verdadeiro experimento acontece quando tudo silencia e a linha reta nos obriga a encarar o vazio.

E assim, a mudança do cromo justifica as cores – ou a falta delas – no quintal. Alguns dias são assim, monocromáticos. É como o outro que habita em nós: discreto, escondido nas dobras do tempo, esperando um sopro de vento para se mostrar.

Tirar as cores do quintal, bambina, me fez perceber que os pássaros e os dias mudam de poleiro, mas o fio que sustenta o pouso continua sendo o mesmo. Que esses seis fragmentos monocromáticos cheguem até o seu quintal colorido como um abraço manso.

Até a próxima esquina do tempo,
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega — Silvana Lopes



Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta ao Tempo que Cabe nos Quintais

Cuiabá, na quietude que sucede o sol…
Bambina mia,

A sua carta atravessou as distâncias e me fez, também, olhar para o avesso do espelho. Enquanto a primavera em seu lugar estica o dia e te obriga a ver a luz que você prefere esquivada, por aqui o calor da terra exige uma calmaria quase mística. Sorri ao ler sobre o seu Capitão Kirk — confesso que fui uma das que não acompanhou a série. Havia outras urgências — e o seu caderno vermelho. Toda menina que espia o horizonte inventa uma bússola de mentira para navegar em mundos de verdade.

Você mencionou Kairós, o tempo que não se mede pelas batidas duras e exatas do carrilhão da sala do nonno, mas pela intensidade com que as coisas nos afetam. Esse “bichano” de engrenagens de que você fala também habita o lado de cá do mapa. Mas se o seu Kairós se resolveu nas manhãs de sábado somando vogais e consoantes, o meu sempre foi um tempo analógico, costurado com o algodão que a minha bá passava entre os dedos e com o barulho da água fervendo antes do primeiro café.

Acho bonita a sua confissão de que modifica as memórias ao escrevê-las. Borges decerto aplaudiria esse seu rito; afinal, no banco de praça de “O Outro”, o velho e o jovem não compartilham a mesma exatidão dos fatos, mas sim a mesma névoa. Já se sentiu assim em alguns momentos? A verdade da literatura, assim como o pão da sua nonna, precisa desse tempo de descanso e fermentação para ganhar sabor. Inventar o que fomos é a única maneira honesta de compreender quem nos tornamos.

Se a sua infância tinha o cheiro dos navios chegando de outros mundos, a minha tinha os trotes dos cavalos no trabalho com o gado. Era quando o chão de terra batida se misturava aos homens que tratavam da lida. Hoje, as nossas meninas se encontram nesse “não-lugar” onde espalhamos palavras para que conheçam nossas histórias. O caderno vermelho da sua juventude e as linhas marcadas no meu tecido de tecedeira são o mesmo instrumento: a nossa tentativa de dar um rumo à agulha imantada do coração. Ora o cetim, ora a corda do laço, ora a linha de bordar. As voltas da agulha costuram momentos aqui, aí, lá…

Confesso que vi o mesmo vídeo a respeito da origem do moleskine. Fiquei pensando em como algumas coisas se entrelaçam para além das fitas de cetim e linhas. E, às vezes, o destino trança essas linhas e elas acabam se encontrando em alguma esquina. A gente sabe que, muitas vezes, não é a origem que faz a história bonita, mas o que acontece dentro da própria história. O que se desenha no caminho, os desvios, as rotas que nos levam aos quintais. Isso me faz lembrar que, não importa a distância e os fusos que vivemos, a gente sempre encontra o caminho de volta para casa.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Literatura · Lunna Guedes

Os Envelopes de Setembro e o Sorriso Aquarelável

Setembro se despede na folha do calendário deixando na boca o gosto bom das colheitas maduras. Olhar para as trinta páginas escritas ao longo deste mês é compreender que o tempo não corre em vão quando escolhemos deixar as palavras soltas para além dos envelopes coloridos. Ouço o balanço final sobre os dias que ganharam corda rápido demais, sobre o carinho que cruzou o oceano e sobre o modo como convertemos os nossos diálogos em envelopes de afetos, e imediatamente sinto o coração pulsar na mesma frequência mansa de quem sabe que ganhou um abraço, mesmo que de longe.

Nossa literatura partilhou da mesma mesa durante estas quatro semanas de Primavera Literária. A estação e seu equinócio transformaram as palavras em brotos de flores por aí, abrindo caminhos de claridade enquanto estendíamos pontes que atravessaram estados e fusos horários. Dividir o sal com os mestres, resgatar o erotismo esquecido de Gilka ou inventar missivas fictícias para as personagens que nos habitam a derme foram rituais que reavivaram os meus próprios ontens e me devolveram à verdade do meu chão. Abri um sorriso aqui ao imaginar o seu sorriso aquarelável. Uma brisa suave soprou pelo quintal.

Quando os pássaros organizam os seus últimos sobrevoos deste mês e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, fecho este ciclo com a certeza mansa de quem soube ser árvore. Grazie, bambina, por partilhar o mar nada calmo da sua escrita com o meu quintal. O mês termina, os ponteiros se acertam, mas os laços que costuramos com o fio do afeto continuam intactos, pulsando no centro de cada linha que ainda vamos inventar. É logo ali. Outubro já é amanhã.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

As Margens Compartilhadas e as Marés da Escrita

Mergulhar nas águas de uma ficção para habitar outras paisagens é o único refúgio possível para quem traz o peito cheio de ausências e nostalgias. Compreendo perfeitamente essa infância de portas fechadas e cantos silenciosos, onde o objeto livro se apresentava como o único território seguro diante do barulho do mundo lá fora. Quando você relata esse modo visceral de se apoderar das páginas pelo tato, rascunhando impressões nas margens e brigando com as personagens, vejo o espelho exato de um rito que também me fundou como leitora antes de me converter em escritora.

Nossa literatura é feita desse mar literário nada calmo, mas a beleza do nosso percurso está justamente no encontro dessas correntes. Passamos anos devorando os volumes alheios, misturando tudo o que provamos, até que a urgência de colocar a nossa própria carne no papel nos fez lançar os nossos próprios barcos. É bonito perceber que, ao compartilharmos essas travessias diárias aqui, atravessando quintais, criamos um cais compartilhado. Ler os seus abismos e responder a eles com os meus pedaços de terra não é apenas um exercício de estilo; é cultivar uma comunidade de afetos onde as solidões se reconhecem e se acolhem mansas.

Os livros que se acumulam nas nossas prateleiras guardam histórias que vão muito além dos enredos impressos. Alguns são velhos companheiros que trazem as marcas dos nossos ontens; outros, recém-chegados, esperam o instante exato em que os nossos dedos vão decifrar o seu mistério. Quando abrimos esse lugar de diálogo, permitimos que outras pessoas também naveguem conosco, transformando o ato solitário de ler em uma ponte estendida sobre a distância de estados e fusos horários.

O meu passado aterrissa no seu futuro e, enquanto coloco a água para ferver para um chá e acompanho o movimento sutil da paisagem que se recolhe, celebro a caligrafia que nos uniu na mesma margem. Sigo firme no meu quadrante, segurando a minha linha de afeto e grata por partilhar esse oceano de palavras com você.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

A Engrenagem da Memória e as Heranças do Chão

Bambina mia,

Aconteceu um silêncio insano nessa manhã de setembro aqui, e o tique-taque do relógio da sala me fez pensar no carrilhão do tuo nonno e naquele setembro que desfez a casa. Imediatamente me pego espiando as heranças intangíveis que os meus próprios mais velhos deixaram plantadas na minha derme. Existe uma contagem de tempo que não obedece ao zunido dos relógios dos homens ou ao calendário oficial das estações. Nosso compasso mais verdadeiro é aquele que ressoa no lado de dentro, ativado pelo perfume de um cômodo antigo, pelo calor de um prato de caldo no inverno da alma ou pela silhueta de quem um dia nos ensinou a esticar os braços em direção ao invisível.

Quando você compartilha comigo a canção que está ouvindo, traz a trilha sonora para o meu quintal. Quase sempre ela me atinge na mesma emoção que a tua. E quando falamos de chás, do nonno, da nonna, da lua, é como se eu estivesse lá… Olhos vidrados nas suas histórias e momentos. As tuas memórias reavivam as minhas. Lembro-me dos rituais da fazenda, das vozes que cantavam versos prediletos na soleira e das trocas silenciosas de folhas secas que hoje repousam esquecidas no fundo dos meus volumes prediletos de poesia. Nossos livros favoritos guardam esses encontros interrompidos, essas conversas sobre autores que não houve tempo de concluir, mas que permanecem vibrando em cada página que folheamos.

Não me perco das datas de vida e morte porque sei que a literatura é o território sagrado onde os ontens colecionáveis se recusam a apagar. Uma porção de nós se despede a cada porta que se fecha e a cada plataforma de estação que se esvazia, mas a palavra escrita opera a sua própria alquimia de ressurreição. Toda vez que a saudade acena na caligrafia sutil dos dias, o cenário se reinventa com cores conhecidas, provando que nunca estamos sós enquanto houver herança de afeto para segurar o horizonte.

Nesta manhã de silêncio que só é rompido pelo tique-taque do relógio da sala e pelo chamado do bem-te-vi que pede a comida de todo dia, enquanto preparo o chá e observo a paisagem se acomodar, acolho o eco de tudo o que foi bom e permaneceu. Me junto às suas lembranças e ao seu renascimento cada vez que a palavra nonno te abraça.

Bacio
Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Arte de Conjugar o Verbo Envelhecer

De repente, percebi que os dias passaram a correr mais rapidamente e, ao olhar no espelho, vi tantas de mim por trás dos cabelos brancos. Sempre quis envelhecer e caber na sabedoria que fui aprendendo com pessoas que me ensinavam o caminho. Na minha infância e em grande parte da adolescência, eu me encantava com os fios brancos dos mais velhos. A minha Bá tinha os cabelos que pareciam flocos de algodão ou a paina com que enchíamos os travesseiros. Conjugar o verbo envelhecer com a altivez de quem coleciona primaveras e não lamentos é uma arte que os tempos de agora parecem ter esquecido. Há uma corrida ruidosa para frear a idade do corpo, um esmero vão para riscar as linhas da pele, como se a maturidade fosse um espaço de desconforto e não o território sagrado onde a nossa história finalmente ganha nitidez. Sorrio ao perceber que o compasso lento da natureza sempre foi o meu melhor mestre sobre a passagem das estações.

A vida me ensina que o tempo não destrói; ele assenta. O ipê que perde as suas flores amarelas e adormece até o próximo ciclo não está morrendo; está ganhando idade com a dignidade de quem sabe que cada ruga na madeira é o registro de um vento que foi suportado. Não nascemos para manter o viço estático das plantas artificiais; nascemos para ver a semente virar fruto, aceitando que a gravidade que puxa as folhas para o chão é a mesma que nos finca as raízes com firmeza na terra. Acho bonita a altivez das mulheres que, feito a faceira senhora dos cabelos brancos, decidem viver com as horas inteiras, sem pedir licença aos julgamentos alheios. Acho que me pareço com ela nessa questão.

Logo que deixei de pintar os cabelos, recebi muitas críticas, e o que me chocou é que grande parte delas veio de mulheres que ligavam meus cabelos brancos a um desleixo. Segui em frente e hoje meus cabelos estão quase totalmente brancos. Penso neles como um texto sendo maturado para caber num papel. A nossa literatura também exige essa maturação mansa. O desabrochar de um novo texto não acontece na pressa das frases prontas; ele depende dos nossos ontens acumulados, do silêncio que digere as leituras antigas e da coragem de colocar a nossa própria carne nas consoantes e vogais. O tempo que cabe nas minhas palavras sabe que envelhecer no papel é purificar a caligrafia, cortando os excessos para que permaneça apenas a essência daquilo que rasga e permanece.

Celebro os anos que se acumulam na minha própria árvore. Não tenho medo do tempo dos homens e de suas medidas exatas. Prefiro a certeza mansa de quem sabe que ganhar idade, afinal, é o nosso jeito mais bonito de espalhar pólen pelo mundo, garantindo que a nossa voz continue viva na memória do chão que nos acolhe.

Mariana Gouveia

Literatura · Scenarium Livros Artesanais

Os Versos que Ninguém Cala

Ouço o eco do rugido de Gilka Machado, resgatado entre goles de café e fitas de cetim, e imediatamente sinto um arrepio na pele ao reconhecer a mesma urgência que move as escritoras que recusam o rótulo da passividade. Chamar de “tolos sentimentos” aquilo que incendeia o pensamento de uma mulher é a velha artimanha dos homens que sempre temeram a soberania de uma estrofe que não pede licença para existir. A mulher proibida desde sempre ainda existe escondida em tantas de nós.

A história literária tentou empacotar a liberdade erótica de Gilka sob o manto do esquecimento, mas a escrita territorial nos ensina a resgatar os nossos próprios manifestos. Não nascemos para rabiscar rimas precárias em cadernos para ficarem guardados em baús ou fundos de gavetas; nascemos para rasgar os verbos mais ousados e mostrar as nossas verdades através do tempo. Quando uma mulher decide publicar os seus abismos, ela quebra uma barreira invisível, permitindo que a caligrafia sutil das suas estações rompa o chão com a força de uma correnteza ancestral.

Acho lamentável a mesquinharia de uma sociedade contemporânea que caminha na contramão do progresso, demonstrando horror diante da nudez das palavras que Gilka já versava no século passado. As gavetas da história estão cheias de diários-secretos que sangraram em silêncio. Por isso, costurar cadernos e endereçar cartas às nossas antepassadas é mais do que um ritual afetivo; é um ato de resistência poética, um jeito de garantir que os sussurros de ontem continuem sendo o murmúrio potente que desequilibra o presente.

Com a xícara de café na mão, celebro as atrevidas que nos abriram as portas. Não precisamos da validação de ninguém para saber que a nossa escrita guarda a dignidade da semente. Que a poesia de Gilka continue alimentando as nossas palavras e que o verso inédito, imprevisto, permaneça sendo o nosso esconderijo mais sagrado contra a dureza dos dias.

Mariana Gouveia

Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Literatura · Lunna Guedes

É preciso respirar fundo para ser flor dentro do dia seguinte.

A caligrafia do encerramento: quando a última linha encontra repouso entre as sementes do chão.

Quando fecho o livro depois da última página, a palavra fim ecoa em mim por um tempo. Em alguns, eu quero continuar a história e a pergunta insiste: e agora, serão felizes para sempre? O que será que acontece depois que a página é fechada? Enfrentar a última linha de uma narrativa exige uma coragem que nem sempre os dicionários sabem explicar. Há quem feche o volume e o leva imediatamente à prateleira, buscando o próximo enredo como quem muda de calçada sem olhar para trás. Mas a escrita, quando nos habita de verdade, recusa a pressa contemporânea; ela exige esse tempo de pouso, esse exercício de saborear e digerir as alegrias e decepções das personagens que acabaram de partilhar a nossa mesa. O fim nunca é um vazio completo; é o território exato onde o rascunho-promessa desabrocha e começa a existir por conta própria.

Aqui no meu lugar, acontece também quando as flores se fecham depois de cumprirem o rito de desabrocharem. Assim como compreendo o peso dos silêncios que ficam guardados no lado de dentro das portas que escolhemos fechar, no jardim, recolher as flores murchas também incomoda. É um adeus para além do que se vê. Cada ciclo que se encerra nos dias funciona como uma semente que se rompe na terra, tão logo uma morre. É nesse espaço suspenso, logo após o ponto final, que uma nova voz desperta dentro de nós — mais inteira, lavada de céu e ciente de que a literatura é esse salto sem paraquedas onde aceitamos os nossos próprios abismos. E a terra espera o novo broto, a nova flor.

É profundo o eco de um livro que permanece vibrando na derme muito depois de sua leitura concluída. Nossos volumes prediletos são espelhos das tramas que escolhemos desbravar e, quando eles se colam às paredes da nossa memória, a nossa caligrafia também ganha novas dobras. Não precisamos fugir do caminho ou recomeçar o texto para evitar o desfecho; o compasso lento do mato nos ensina que a queda das pétalas é o que permite ao fruto nascer no tempo certo de cada ciclo.

Quando a claridade mansa doura os cantos do quintal e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, acolho o silêncio que se instala após a última palavra escrita. O homem passa e falha, as plantas nascem e morrem, mas a escrita territorial permanece, rompendo o chão do tempo. Vamos até o fim, aceitando os abalos do peito, os arrepios na pele, porque sabemos que depois da última linha há sempre um quintal inteiro esperando para florescer.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Sopro do Equinócio e as Duas Faces do Chão

Há um instante secreto no coração de setembro em que o universo decide suspender os pratos da balança. O dia e a noite se olham de frente, com o mesmo peso e a mesma exatidão de minutos, lembrando-nos de que a vida é feita dessa eterna vizinhança entre a luz e o recolhimento. Ouço o ensaio sobre os ventos ancestrais que separam o céu e a terra para que o mundo possa respirar, e imediatamente percebo que a nossa escrita também é filha desse movimento — um rodopio manso entre a memória do que já foi semente e a urgência do que precisa virar fruto. Nesse momento, só consigo me lembrar da canção que se chama Sol de Primavera.

Aqui no meu lugar, o equinócio se anuncia na própria textura do ar. O calorão do dia, que estica o tempo dos homens além do suportável, cede espaço para a brisa que chega sem pedir licença quando o sol mergulha atrás do telhado vizinho. As duas faces da existência se ajeitam na madeira da mesa. Se para alguns setembro traz a melancolia das chuvas antigas, a escritora que sou prefere a mística do recomeço que os cadernos novos da infância prometiam. Abrir uma página branca nesta nova estação é resgatar aquele ritual sagrado das papelarias, onde a caixa de lápis de cor continha todas as respostas para os nossos inventos. Devo pintar um jardim nessa estação?

Acho bonita a fidelidade da terra, que nunca se esquece do compromisso de acertar os seus próprios ponteiros, à revelia das nossas eufóricas correrias urbanas. Estico os braços no quintal e percebo como o corpo acompanha a mudança das horas-cheias. A literatura, afinal, é o nosso próprio sopro de vento: aquilo que nos ergue para que possamos enxergar o horizonte e, ao mesmo tempo, nos finca as raízes no chão que nos acolhe.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros saboreiam o néctar das flores e o silêncio ganha o mesmo tamanho da claridade, preparo o meu chá e deixo que os versos ganhem vida. Uma nova estação pede passagem na caligrafia sutil dos dias. Que a dança do pólen cumpra o seu destino enquanto, no meu canto, sigo costurando as metades da vida com o fio do afeto.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes

Missiva para além das intensidades

Uma correspondência fictícia entre dois personagens clássicos.

Raissa,

Zero hora pelas pontas da rua, e a luz do poste lá fora parece crepitar o mesmo compasso inquieto que trago no peito desde que você bagunçou as minhas certezas de Teodoro. Escrevo-te nesta hora-cheia porque li, num desses quartetos de Eliot, que há tempo para a fumaça amarela que flui pela rua roçando o dorso nas vidraças, mas a verdade é que o tempo dos homens perde a precisão quando tento medir a distância que nos separa. Olhar para as janelas que ganham contornos internos na noite de São Paulo é o meu jeito de espiar a sua interioridade, imaginando em qual dessas esquinas a sua liberdade fez pouso.

Você sempre foi a criatura indomável, aquela que risca o mundo com passos firmes e olhar fragmentado, enquanto eu tentava me emparedar nos cantos, com medo do espetáculo que o amor promove quando decide romper o chão da nossa rigidez. Mas ao fechar os olhos, revivo a nossa própria acrópole de afetos. Meu corpo se converteu em casa tomada por chamas na primeira vez em que suas mãos cruzaram a barreira do meu silêncio. Fomos duas estranhas que se tocaram com a pressa de quem teme o crepúsculo; duas personagens de um romance rascunhado no avesso do que a convenção dita como certo.

Dizem por aí que o grande homem é aquele que mantém com perfeita doçura a independência da solidão no meio da multidão. Eu nunca quis a multidão, Raissa. Eu preferia o banco do sebo, o perfume do papel antigo e o seu olhar me decifrando entre consoantes e vogais. Se hoje nos tornamos janelas de olhar — duas figuras distintas suspensas na memória uma da outra —, guardo comigo a exatidão daquilo que fomos. A poesia, afinal, é esse retrato de momento que nenhuma distância ou julgamento alheio é capaz de apagar.

Preparo o meu chá nesta noite fria e deixo que o imaginário termine de tecer o verso que me falta. Que a sua escrita continue rasgando o mundo com a força de uma palavra rompante, enquanto eu, cá no meu canto de silêncios, sigo guardando o fogo que você acendeu por trás da minha vidraça.

Com a intensidade que você me ensinou,
Alexandra