Afetos · Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

Rascunhos à Meia-Noite

Os relâmpagos me levaram para a varanda e Yoshi me acompanhou, como sempre faz quando saio para o quintal no meio da noite. Lá fora, além da chuva torrencial, o céu rugia com ventos e clarões. Volta e meia tudo se iluminava, dando formas diferentes ao pé de ipê. Chamei baixinho o nome de Lunna — isso já causou várias confusões entre meus vizinhos e a pergunta sempre era: “Quem é Lunna?” — e a tempestade tem esse eco que reverbera entre mim e ela. Não sei explicar.

Saber que tudo muda entre o ontem e o hoje sem deixar de ser a mesma é o jogo de espelhos que nos mantém vivos. Fiquei pensando em como as ausências vão nos modificando aos poucos. Meu pai dizia que o costume era a melhor coisa que existia — claro que, em outras ocasiões, sempre aparecia uma outra “melhor coisa para existir”, nas palavras dele. O costume prepara sua alma para o que não pode ser mudado. Eu achava aquilo estranho. Mas, hoje, pensando no menino de Lunna e nas nuances que ele deixou em mim, em tão pouco tempo, penso que é bom mesmo o costume. A gente se acostumou tanto com ele aqui, ali, entre as conversas, entre a gargalhada e a xícara de café, que é como se ele não tivesse ido.

Uma fala lembra a presença, um gol do seu time preferido faz parecer que ele vibrou por aqui, uma ultrapassagem na Fórmula 1 é como se ele soltasse um aaargh! A música que toca no rádio, a playlist salva e os livros lidos. Quando alguém é tão forte de presença e gentileza, todos os gestos de delicadeza parecem ser dele. Mas não existe nada com referência à tristeza. É apenas o costume de que aquela pessoa passa a existir dentro de uma energia tão vibrante que ela se torna palpável pelo coração; e isso só consegue quem soube marcar seu lugar no mundo.

Recordo-me bem de uma memória, da delicadeza mais gentil dele me indicando caminhos calçada afora num ritual de percurso que ele conhecia tão bem, e da alegria com que uma cachorrinha fazia o olho dele brilhar. Também não consigo conter a lágrima que se mistura com a chuva que cai, mas enfeito a madrugada de pensamentos bonitos só pela gratidão de tê-lo tido na minha vida. Toda vez que a palavra tempestade me acolher, vou continuar chamando o nome de Lunna, ora baixinho — quase como um sussurro —, ora cantado, como se com isso a palavra saudade pudesse evaporar.

Mariana Gouveia

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