Delírios Comunistas · Scenarium Livros Artesanais

quem sobreviveria?

“com os olhos à deriva na janela, tentei me convencer de que não, corujas não voam para cima de telhados em plena manhã, não, nenhum presságio, talvez o ruído indevido da rua anuncie o final dos tempos sem direito a funeral, a mesma paisagem cínica, de máscara? nem isso. as horas são todas iguais, o oxímetro separa o pânico da pneumonia, é melhor trabalhar antes que eu morra, são tantas janelas, nenhuma é a minha, é necessário tomar sol, disseram, mas o ruído indevido da rua ensurdece o desejo de estar viva, não, normalidade não há mais, não há normal nem anormal, o nada é o horizonte que nunca decepciona. aqui, cinco mil trezentos e sessenta horas de conteúdo gratuito para o seu desenvolvimento pessoal durante a quarentena, disponíveis durante os próximos quinze dias, apresse-se, mas eu só queria estar vazia. entende? o nada é o horizonte que nunca decepciona. o nada nasce bom. a espera o corrompe. entende o que eu quero dizer? talvez o cheiro da comida empurre vida num corpo morto que se bate contra as paredes. mas como, um corpo morto de rosto rosado e mãos quentes? talvez um creme na cara. hora de gritar na janela. fora, genocida! fora, eu não quero morrer de vírus! mas, no fundo, sei que estou condenada. foi antes, bem antes de algum prenúncio do apocalipse. foi na época das eleições. não, eu não leio nenhum livro sagrado. orações não me interessam. estou já condenada, eu sei, para o inferno com essa fé de barganha! tento me convencer que fé e esperança são defeitos distintos. em mim, talvez nem uma, nem outra sobreviveram aos naufrágios sucessivos. quem sobreviveria?

mas hoje você me chamou pelo nome como se chama algo
perigosamente próximo
do coração”.

Anna Clara de Vitto
Texto publicado no livro: Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais

Você pode adquirir o livro aqui

Delírios Comunistas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

A teoria dos dois demônios

Eu nem estava por aqui quando o país enfrentou a grave ameaça comunista obrigando seus Militares — homens de bem, trajando fardas bem lustradas, com os peitos estufados, salários pontualmente pagos e armas toscas em punho — se viram obrigados a defender a Pátria… espanando a pobre Democracia, que convenhamos, por aqui, nunca foi lá uma de.mo.cra.cia.

Não sei se sabem, mas a tal da Proclamação da República — um ato não tão bem encenado do passado — foi um feito Militar ou como eles não gostam de afirmar: um Golpe contra o Império, que nesse caso não foi capaz de contra-atacar.

O fato é que naqueles tempos o exército brasileiro se considerava uma força política capaz de confrontar a aristocracia do Império tupiniquim e o fez. Mas não demonstrem surpresa ao saberem que uma mentira foi o estopim para tudo acontecer.

Essa mania que a história dos homens tem de se repetir… é tão monótona. Mas, acontece. Não há dados que nos posicione a respeito. De quanto em quanto tempo isso acontece. Nem a moça do tempo é capaz de aferir uma previsão a respeito. Duvido que algum cientista conceituado tenha se dado ao trabalho de investigar tal fenômeno.

Mas vamos lá… um fato que não se confirma, mas que eu desconfio é de que todo brasileiro é meio ditador. Adora apontar o dedo na direção do outro ou passar adiante a culpa. Responsabilizar o outro faz bem… principalmente à tal Elite brasileira — esse fenômeno quase impossível de identificar. Foco no quase! — por aqui, pobres pensam, classe média pensa… que é Elite! Se ganhar bem e realizar o tal sonho da casa própria, que pode — e acontece com frequência — virar um terrível pesadelo, pronto… é Elite e saí por aí com o nariz empinado no ar, com o rabinho a abanar. Porque o importante é sair sacudindo o molho de chaves e riscar o quadradinho do imóvel próprio na hora de fazer um cadastro em algum lugar. Se tem um carro — financiado em eternas prestações e juros absurdos — é o Senhor da rua e ouve na sua cabeça a marcha imperial. Convertido em Darth Vader, a criatura passa no sinal fechado, ao estacionar não deixa espaço para o outro. Não liga se a vaga é preferencial. Grita alucinado com o outro motorista e buzina com o pedestre que está sempre errado. O Cara é proprietário de uma máquina… abram caminho que ele está passando — cada vez menos, já que o preço do combustível, o desemprego, a inflação. Muita informação para um único dia em que pode terminar com ele instalando o aplicativo da Uber no celular para poder pagar as suas contas no final do mês.

E se o sujeito mora bem… ah é o Cara! Chega em casa com meia dúzia de cervas bem geladas, um pedaço de carne e vamos de churras na varanda, onde pode acender um cigarro e contribuir com o ar da cidade, cada vez mais seco e poluído. Tem aquele papo de aquecimento global — que chatice! É nessa hora que o cidadão — imita os milicos, estufando bem o peito — e do alto de sua santa estupidez, diz bem alto para os vizinhos

escutarem e fazerem coro com toda a raiva acumulada na vida: “isso é coisa de comunista”. E pronto… vai dormir satisfeito porque a sua bandeira jamais será vermelha e ele precisa acordar cedo pela manhã para manter as engrenagens do sistema funcionando.

Ano que vem tem eleição e ele já tem discurso pronto: nesse diabo que está aí eu não voto mais. E muito menos naquele outro, o barbudinho bandido de nove dedos que acabou com o meu Brasil.

Bom mesmo era no tempo dos Militares, que salvaram o país dos comunas — lembra que eu mencionei que o Império caiu graças a uma mentira? Pois é, a Democracia também.

Mas naquele tempo era bom… não se falava em corrupção, assalto, roubo. A gente saía às ruas numa boa. Ninguém ouvia falar em mulher que apanhava, criança estuprada. Não tinha esse mi mi mi de preto-gay e esse papo de gênero isso, gênero aquilo. Criança se educava no tapa e todo mundo crescia sem frescura. Existia limite. Filho tinha medo do pai. Mulher tinha medo do marido. Naquele tempo as coisas funcionavam… e tudo estava no seu devido lugar. Nunca existiu ditadura no meu país. Foi um momento militar e foi muito bom para todos nós. Um verdadeiro milagre brasileiro!

E lá vai o homem da zelite dormir seu sonho feliz de Brasil do passado… ops!

Tecla verde e confirma… quem sabe tudo volta! Mas sabe como é sonho, sempre pode virar pesadelo. Já pensou se o botão fica vermelho? Que diabos!

Lunna Guedes
Texto publicado no livro Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais