Afetos · Das palavras das cartas · O calendário do novelo

Ponto de Partida, Linha de Chegada

Cuiabá, no momento em que as linhas são guardadas,
Bambina mia,

Sua carta me pegou com os olhos fixos na linha que atravessa a agulha, aqui onde o calor da tarde parece suspender as horas. Enquanto você voltava vinte e tantos anos no tempo para reencontrar a bancada do Marco, o gabarito e o silêncio que precede o furo, eu olhava para as minhas próprias mãos. Pensei em como os engenhos do tempo são, de fato, misteriosos. O primeiro ponto que você deu na sala de casa, costurando folhas furadas com precisão de mestre, é a mesma linha que hoje amarra as nossas distâncias e nos faz sentar à mesa nas segundas-feiras.

Você fala desse homem de engenhos e da sua lentidão necessária, e eu sorrio daqui, do meu canto. Sabia que a vida inteira dedicada às palavras exige essa mesma postura? Escrever e encadernar são artes irmãs que não aceitam o “para ontem”. Ambas pedem o aparato, o desenho prévio, o respeito ao papel e a sabedoria de saber onde fincar a agulha. O que o tuo menino fez na bancada dele com a furadeira é o que fazemos todos os dias com as memórias: criamos gabaritos invisíveis para que a dor e a beleza caibam, exatas, no tamanho das nossas páginas.

Se a memória trabalha devagar no avesso de nós, o meu carinho por você é o nó cego bem dado no final da costura, aquele que garante que nenhuma folha vai se soltar com o vento. Que bonito saber que o seu primeiro ponto precisou de sete furos. Sete é número de ciclos, de fechamentos e recomeços. Isso me leva a Septum, que você gosta. Cá estamos nós, duas mulheres de engenhos, puxando o fio da artesania para lembrar ao mundo que a vida, afinal, é feita de papel dobrado, linha esticada e conversas pautadas por observações, sem nenhuma opinião definitiva.

Deixo o café coar enquanto o sol vai embora na parede da vizinha. Guarda um abraço meu aí perto da escada que tanto me lembra o signore gentil..

Mariana Gouveia

Crônicas · O calendário do novelo · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

O tempo é um fio. Tecei! Tecei!

(Poema inspirador de Henriqueta Lisboa para este domingo)

O tempo, quando decide passar pelo meu lugar, não faz o barulho metálico dos ponteiros de um relógio comum. Ele se comporta como Henriqueta Lisboa bem sabia: é um fio bastante frágil, uma linha fina que teima em escapar por entre os dedos se tentarmos segurá-la com pressa. Mas, como conheço a densidade dos fios entre agulhas, linhas e fitas, começo a tecer desenhos e letras de maneiras diferentes.

Neste primeiro dia de novembro, o novelo se desenrola trazendo o aroma do papel e o tato exato da linha que prende as páginas. Olho para a metamorfose da Scenarium e percebo que os livros artesanais e as nossas próprias vidas compartilham do mesmo rito biológico: o que fomos não se perdeu, apenas se transformou na costura daquilo que está nascendo agora. Passar a agulha pelas dobras de um caderno, sentindo a resistência mansa da matéria, é a nossa forma de responder ao chamado da poesia. É o nosso jeito de dizer ao mundo que a memória não é um baú trancado, mas uma colcha de retalhos que continua a se costurar no avesso dos dias.

Lunna me lança o tema do outro lado do fuso, e aqui, onde a luz da tarde se estende sem pressa pelas paredes da vizinha, transformo o compasso do tempo em linha de bordar. Há quem gaste o tempo, destrançando dias, deixando o fio da própria existência jogado à toa e buscando comandar a vida dos outros. Prefiro a astúcia de quem usa o tempo para trançar fios que se transformam em bolsas, roupas e toalhas de mesa, ou para cultivar tranças espessas que, no momento certo, carregarão frutos no jardim.

Se o tempo é frágil, a nossa escrita é o tecido inquebrável que sustenta o agora. Enquanto misturo texturas de linhas para dar forma ao bordado, sinto o privilégio de simplesmente pertencer ao instante. Escapa o fio, é verdade, mas a soberania da palavra nos devolve o prumo.

Vencemos as etapas do ontem e acolhemos o novo que chega. E, no arremate de linha por linha, letra por letra, continuamos o nosso rito de prender a vida na margem limpa do papel.

Mariana Gouveia

Afetos · Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

O Labirinto dos Dias Invisíveis

Há uma parte de minha infância que parecia um conto de fadas. Minha bá era uma espécie de ser da natureza. Meus irmãos e até alguns adultos da região tinham medo dela. A chamavam de bruxa e a gente nem sabia sobre o halowween. Ela lidava com as ervas, os cogumelos e conhecia os caminhos ocultos da floresta e da magia. Alguns dos rituais que sigo hoje, além dos que aprendi com meu pai, também aprendi com ela. Ainda tenho na memória o cheiro dos chás e a oferta à natureza.

Algumas pessoas a ligavam à feitiçaria e ela parecia uma deusa vinda de outro tempo, outras eras. Durante o dia, o cabelo preso em coque,o chapéu feito com capim dourada, a bolsa de linho cru a tiracolo onde havia árvores e frutos do cerrado. Quando eu a seguia caminho afora, a via como se fosse mágica. Parava em frente a uma árvore, a abraçava, pronunciava coisas inaudíveis e depois pegava uma ou duas folhas e cheirava e colocava na bolsa. Mas a noite, ela mudava. Os cabelos brancos, em cachos caíam sobre os ombros e ela entoava uma canção em seu lingujar próprio. O fogão de lenha aceso, o caldeirão com suas porções curativas exalavam um cheiro que exalava floresta afora.

Outubro chegava soturno em nosso lugar e meu pai a consultava sobre a colheita. Ela inspirava o ar, a lua, rabiscava algo no chão e sorria. Aquilo acalentava meu pai que preparava os sacos e organizava a rotina dos dias seguintes. O ritual de oferendas quando o risco no chão não se fazia cabia a solitude dela e meu pai de costas para o rio e as folhas eram jogadas sobre os ombros… O vento sacudia as folhas próximas e o olho dela e de meu pai era de gratidão.

Na cozinha, ela operava a sua própria alquimia silenciosa. Picar o alho, sentir o aroma da manteiga na panela quente e servir o café coado na xícara esmaltada funcionava como âncoras para nos devolver o prumo. Ela servia afetos profundos e espalhava amor em cada gesto. Mesmo depois de tantos anos a presença de quem amamos continua viva na textura das folhas das ervas para o chá, no cheiro dos bolinhos de polvilho e na quietude mansa de uma casa que aprendeu a respeitar os seus próprios ciclos e saudades.

Ao plantar as sementes no quintal obedeço os calendários que inventamos para o nosso próprio uso; eles simplesmente aceitam o escuro, retendo o próprio silêncio enquanto o dia não chega. Escrever na calada da noite é uma tentativa constante de imitar a presença dela e seus ensinamentos.

Sirvo o chá das ervas colhidas, olho para as frestas de luz que desenham sombras na vidraça e caminho pelo quintal como se voltasse para aquela floresta. O ciclo de outubro caminha para o seu desfecho, mas as nossas linhas continuam a tecer essa colcha invisível de retalhos e lembranças. Deixamos que os sóis compridos da primavera se cumpram em seus ritos e se recolham e aceitamos o soluço que vez ou outra aperta o peito, certas de que o verdadeiro porto seguro reside na simplicidade de quem encontrou o infinito e a paz dentro do próprio lugar, diante de tudo que aprendeu sobre ancestralidade, paz e amor.

À minha bruxa atual, Lunna, agradeço o caminhar comigo nesse outubro onde o outro nos ofereceu abrigo e colo. Entre xícaras de chá e café, vinhos e cumplicidade brindamos ao mês novo que chega.

Mariana Gouveia

Afetos · Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

Rascunhos à Meia-Noite

Os relâmpagos me levaram para a varanda e Yoshi me acompanhou, como sempre faz quando saio para o quintal no meio da noite. Lá fora, além da chuva torrencial, o céu rugia com ventos e clarões. Volta e meia tudo se iluminava, dando formas diferentes ao pé de ipê. Chamei baixinho o nome de Lunna — isso já causou várias confusões entre meus vizinhos e a pergunta sempre era: “Quem é Lunna?” — e a tempestade tem esse eco que reverbera entre mim e ela. Não sei explicar.

Saber que tudo muda entre o ontem e o hoje sem deixar de ser a mesma é o jogo de espelhos que nos mantém vivos. Fiquei pensando em como as ausências vão nos modificando aos poucos. Meu pai dizia que o costume era a melhor coisa que existia — claro que, em outras ocasiões, sempre aparecia uma outra “melhor coisa para existir”, nas palavras dele. O costume prepara sua alma para o que não pode ser mudado. Eu achava aquilo estranho. Mas, hoje, pensando no menino de Lunna e nas nuances que ele deixou em mim, em tão pouco tempo, penso que é bom mesmo o costume. A gente se acostumou tanto com ele aqui, ali, entre as conversas, entre a gargalhada e a xícara de café, que é como se ele não tivesse ido.

Uma fala lembra a presença, um gol do seu time preferido faz parecer que ele vibrou por aqui, uma ultrapassagem na Fórmula 1 é como se ele soltasse um aaargh! A música que toca no rádio, a playlist salva e os livros lidos. Quando alguém é tão forte de presença e gentileza, todos os gestos de delicadeza parecem ser dele. Mas não existe nada com referência à tristeza. É apenas o costume de que aquela pessoa passa a existir dentro de uma energia tão vibrante que ela se torna palpável pelo coração; e isso só consegue quem soube marcar seu lugar no mundo.

Recordo-me bem de uma memória, da delicadeza mais gentil dele me indicando caminhos calçada afora num ritual de percurso que ele conhecia tão bem, e da alegria com que uma cachorrinha fazia o olho dele brilhar. Também não consigo conter a lágrima que se mistura com a chuva que cai, mas enfeito a madrugada de pensamentos bonitos só pela gratidão de tê-lo tido na minha vida. Toda vez que a palavra tempestade me acolher, vou continuar chamando o nome de Lunna, ora baixinho — quase como um sussurro —, ora cantado, como se com isso a palavra saudade pudesse evaporar.

Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

O Seminário Miúdo sob as Sombras da Tarde

Reeler os porões escuros da alma humana nos obriga a encarar as nossas próprias sombras com um olhar desarmado. Lygia Fagundes Telles possuía essa maestria rara de não dizer tudo, deixando perguntas suspensas no ar que devastam e encantam o leitor na mesma proporção. Suas histórias transformam construções antigas em cenários onde o horror caminha de mansinho, sussurrado entre vãos e janelas que parecem nos vigiar no cair das luzes naturais. Aprendemos com seus livros que conviver com a ausência de respostas exatas é o verdadeiro experimento da lucidez.

No meu quintal, quando o entardecer derrama o seu manto cinzento sobre as plantas, o mistério se manifesta sem alardes ou convenções. Meu próprio seminário acontece no movimento silencioso das formigas, que cruzam os vasos da horta simples carregando pedaços de folhas secas e restos orgânicos para o fundo da terra preta. O vento que sopra do sul provoca ruídos irreconhecíveis nas ramagens do pé de ipê, criando uma atmosfera onde o lúdico e o visível dividem o mesmo espaço rústico. É onde sinto o compasso natural de um jardim que sabe acolher a noite.

Driblar as censuras do tempo e manter a salvo as narrativas que nos fazem pensar é a grande herança que os mestres da literatura nos deixaram. Enquanto o mundo lá fora se perde em discursos barulhentos de figuras que tentam inutilmente convencer a si mesmas de que a situação está sob controle, a escrita teima em ser rastro daquilo que é livre e inquebrável. A soberania da palavra e a paciência com as coisas miúdas do quintal são as nossas pequenas trincheiras contra a barbárie que tenta sufocar o agora.

Inspiro o ar que traz o aroma das flores dessa primavera figurada entre verão e outono, sabendo que o que os apressados não conseguem decifrar na miudeza dos dias acaba virando ruído desnecessário. Prefiro o aconchego desse silêncio cúmplice e a certeza de que a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra o seu prumo nas margens limpas da nossa história. Se o fim é apenas um detalhe, que a nossa colcha de retalhos continue a se costurar com a solidez orgânica de quem aprendeu o valor de simplesmente pertencer ao instante.

Mariana Gouveia

Afetos · Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

As Cartas que a Natureza Escreve na Terra

Eu já contei aqui que fui apresentada aos poemas de Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, Lunna me fez ver a mulher e a poeta. Emily sabia que uma palavra não morre quando é dita; ela nasce exatamente no instante em que encontra eco na pele de quem a lê. Guardar poemas amarrados com barbantes em gavetas escuras, recusando as pequenas cirurgias dos editores de seu tempo, foi o maior rito de liberdade daquela rara e estranha criatura. Ela escrevia de sua janela, observando o voo dos pássaros de oeste para leste, sem a menor pretensão de se curvar às regras de uma literatura menor. Destinou suas cartas para um mundo que nunca havia escrito para ela, confiando suas mensagens às mãos do futuro.

Essa terna nobreza de que Emily falava em seus versos encontra morada certa nas frestas do meu quintal. Minha escrita também teima em ser rastro daquilo que é vivo, rústico e orgânico, sem a necessidade de comparações ou regras que tentem moldar o sentimento. Quando limpo os canteiros e vasos e me deparo com a persistência de uma semente que rompe a terra escura, percebo que a natureza escreve suas próprias cartas diárias na terra. Não usamos travessões na calçada, mas respeitamos as pausas necessárias que o calor exige de cada folha que aceita cair.

Certas casas vazias parecem esperar pela volta de seus donos a qualquer momento, mantendo os pertences e o ranger do chão intactos como um diário em aberto. Mas os verdadeiros encontros literários acontecem longe dos cenários estáticos e dos corrimãos de madeira dos museus. Eles se consolidam no balanço das ramagens do pé de ipê, no aroma do café fresco que exala casa afora e na calmaria de uma tarde de sol que se estende sem pressa, cobrando apenas o compromisso de simplesmente pertencer ao agora. O lúdico e a poesia vivem do lado de dentro.

Mariana Gouveia

Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

O gesto de recolher os próprios cacos

A maturidade nos entrega uma liberdade tardia e muito bonita: a de não precisar carregar o peso de agradar a todos. Olhar para trás e perceber o tempo em que aceitávamos mesas cheias por pura convenção nos faz valorizar o silêncio de quando a casa finalmente se aquieta. Gostar exige entrega, mas o direito de desgostar é o que nos devolve a calma ao corpo. Não existe nada de errado em fazer careta para o que é amargo demais ou em recusar o calor de peles que não encontram eco na nossa própria essência. A vida é curta demais para engolirmos em longos goles o que não agrada ao paladar.

No jardim, essa honestidade se resolve sem nenhum disfarce. A natureza não usa máscaras para negociar suas afinidades ou implicâncias. O pé de jurubeba finca suas raízes onde encontra sol e não pede desculpas por sua rusticidade. Certos canteiros rejeitam o excesso de água e os cactos erguem suas pontas de feltro e espinhos justamente para demarcar os limites do seu próprio espaço. Cada semente conhece o seu próprio tempo e o solo exato onde deseja partilhar sabor e aroma. Se até as plantas escolhem o chão que as nutre, por que nós insistiríamos em partilhar a mesa com o que já perdeu a validade?

Eu também tenho as minhas preferências bem desenhadas. O café coado há pouco, servido quente na xícara preferida. O barulho manso da chuva lavando as calçadas. O trieiro das formigas cumprindo sua rota silenciosa. O ronco brando de Yoshi dormindo no tapete da sala, alheio aos ruídos das engrenagens do mundo lá fora. Prefiro essa calmaria de pôr a mesa para dois ou três, sabendo exatamente de que são feitos os afetos que dividem o pão comigo.

Aceitar que algumas xícaras se quebram e que fios ficam soltos no meio do bordado faz parte do aprendizado de simplesmente pertencer ao agora. Não corremos para consertar o que o tempo já desgastou; deixamos que as folhas secas caiam para que a terra se renove no seu rito biológico. Desligo as expectativas alheias e acolho cada uma das minhas escolhas. Contra a insana seara de humanos em movimento, a verdadeira poesia consiste em saber recolher as próprias asas, saborear o instante em pequenos goles, jogar os cacos fora e ter a certeza de que o nosso lugar seguro é feito apenas do que é real, limpo e livre de disfarces.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

O Faro que Conhece a Noite

Abrindo a última semana do Outubro Literário, Mariana Gouveia responde à mística missiva de Lunna Guedes sobre fogueiras e sentidos. Ilustrada por uma boneca de bruxa fotografada na sala de Lunna, a crônica entrelaça os trieiros de formigas do pai de Mariana com as alquimias em caldeirões que ela aprendeu com sua bá.

Cuiabá, no instante em que a escuridão engole o horizonte…
Bambina mia,

A sua carta pousou por aqui trazendo o eco das fogueiras antigas e o compasso místico de All Souls Night. Ler sobre o seu caminhar desarmado de dogmas, descobrindo as coisas primeiro pelo faro e pelo tato antes que as palavras chegassem para limitar o mundo, me fez fechar os olhos e imitar o seu gesto. Ergui o nariz para o ar morno deste outono que inventamos em outubro e também senti o pulsar do lado de dentro. Há uma sabedoria ancestral — uma herança de deusas e bruxas antigas — em se deixar guiar pelo invisível, sem precisar de bússolas que apontem um Norte rígido e definitivo.

Você fala de ter sido uma criança meio canina, que usava os óculos como escudo para escolher quando ver ou ignorar os excessos da realidade. Por aqui, a infância na fazenda também me deu esse faro apurado para ler o que não é dito. Aprendi com meu pai que a verdadeira magia não está nos altares de pedra; está na cartografia dos animais, no jeito como o vento sussurra a chegada da tempestade e na paciência das formigas que desenham seus trieiros na terra preta. Fomos deixadas livres para acender nossas próprias fogueiras, bambina, e essa liberdade é a nossa maior fortuna. Já minha bá me ensinou a sabedoria das deusas e do inusitado. Das crenças e alquimias feitas em caldeirões antigos.

As lendas e os mitos que o homem inventa não são mentiras; são fogueiras necessárias que acendemos na vidraça da alma para aquecer o silêncio que nos cerca. No meu jardim, o caldeirão se resolve na alquimia das ervas medicinais que cultivo e no rito biológico das folhas que sabem a hora exata de cair. Não precisamos de dogmas para entender o milagre de uma semente que rompe o escuro. Quando a noite esparrama suas sombras e apaga os contornos do quintal, percebo que a nossa escrita é o ritual mais antigo de todos: o de riscar o papel para invocar as nossas origens e saudades.

Chegamos à última semana do nosso labirinto literário. Que as sombras na vidraça nos encontrem assim: com os olhos bem abertos para as luzes e mistérios do agora, mas com o coração guiado pelo faro antigo de quem sabe exatamente onde o tempo deságua e encontra sua paz.

Bacio,
Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

O Tecido Inquebrável dos Homens Livres

Há uma espada forjada no frio do alvorecer que os poetas dizem ser como o gelo e o fogo. No poema de Borges, o metal carrega runas que ninguém pode ignorar nem decifrar de todo, uma arma leal destinada a iluminar a batalha e a ceifar a selva de lanças nas mãos de heróis antigos. Mas o tempo das lâminas de ferro cedeu espaço a um combate muito mais profundo, sutil e urgente. Diante das fragilidades do agora, onde somos constantemente avisados de que vivemos sob a sombra de ameaças latentes, a nossa única e verdadeira espada é a palavra livre. É a memória que se recusa a ser silenciada.

A defesa da democracia é a nossa batalha contemporânea, o verdadeiro lema de homens e mulheres que escolhem não fechar os olhos diante dos retrocessos. Enquanto alguns tratam a liberdade como um filme de ficção na tela grande, ignorando o perigo dos discursos que tentam calar as instituições, por aqui a resistência se faz de forma orgânica e permanente. Não precisamos de ouro rubro ou de reinos conquistados no gume do metal; precisamos da solidez do chão firme, do direito de divergir sem medo e da coragem de manter as janelas do pensamento abertas para a luz do mundo.

Sentada à mesa do quintal, enquanto o café exala seu aroma casa afora, percebo que os ritos da terra também ensinam sobre cidadania. Eles nos lembram de que as conquistas democráticas, assim como as sementes plantadas na terra, exigem um cultivo diário, entrega e uma vigilância mansa que não se dobra aos autoritarismos do vento sul. A liberdade não é um conto de fadas com prazo de validade; é um pacto de permanência.

Sabendo que herdar a sorte dos que vieram antes de nós é também carregar a responsabilidade de manter o horizonte limpo. Que a nossa escrita continue sendo essa linha inquebrável, um rastro que insiste em não se apagar diante das engrenagens barulhentas do poder. Aceito o amanhecer, acolho o mistério e sigo tecendo, palavra por palavra, a tessitura invisível da democracia. Porque contra a barbárie que tenta embaçar as paisagens, o galho ideal onde a justiça repousa sempre será a soberania de um povo que aprendeu o valor de caminhar de mãos dadas.

* hoje votei pela democracia, pela dignidade e votei principalmente contra a extrema direita e contra o facismo.

Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

As Raízes que Conhecem o Chão

Cruzar oceanos inteiros para descobrir, anos mais tarde, o peso exato de sua própria origem deve ser compensador. Saber que viveu a água e depois a terra traz em si o misticismo das lendas. É uma sina bonita a dos andarilhos que herdam o nomadismo dos antigos aventureiros, desafiando os ventos a bordo de aeronaves e lidando com as correntes do mundo até que o corpo canse de flutuar. As cidades marítimas parecem nos despejar no movimento das águas para ver se sabemos nadar, mas é a solidez do chão firme que nos devolve o prumo e a calmaria quando as tempestades apertam.

Eu sempre achava que iria fazer o contrário, porque quando lia ou ouvia alguém falar de mar era como se precisasse pisar na areia e sentir as ondas batendo em meus pés. Embora minha pele tenha sido forjada no calor do cerrado, onde os horizontes se estendem em linhas largas de poeira e o único oceano visível é a imensidão azul do céu que abraça os topos dos ipês, queria sentir a maresia e a brisa marítima. Talvez pelo momento poético dos poemas, talvez pelo inusitado que eu só descobriria aos sessenta anos.

Saber-se de terra, mesmo conhecendo o barulho das ondas tão de perto, é apaixonante. Somos, afinal de contas, criaturas moldadas pelo barro, feitas da paciência de quem sabe o dia exato de plantar e o rito biológico de esperar a colheita. Embora o mar me encante, fui moldada pela terra das florestas e pelas correntezas mansas dos rios. Mas, ao evocar a mãe natureza, não esqueço que o oceano traz uma completude ao universo.

Sei que, mesmo vivendo tão longe do mar, as marés afetam as coisas por aqui, assim como a lua em suas fases distintas. Quando a corrente do rio afasta-se da margem, é como se fizesse reverência ao oceano em algum ponto do mundo. Espreito a precisão silenciosa das folhas que sabem quando cair e dos pássaros que encontram o galho ideal para interromper suas migrações ancestrais e encontrar a árvore certa para abrigo. Sirvo o café, sinto a quietude do meu lugar colar na pele e aceito o desfecho de mais uma semana. No idioma misterioso que tecemos linha por linha, a escrita é o nosso cais seguro, o território firme onde o passado e o presente deságuam para nos lembrar de que o mundo inteiro sempre coube no espaço sagrado do nosso quintal.

Mariana Gouveia