Cruzar oceanos inteiros para descobrir, anos mais tarde, o peso exato de sua própria origem deve ser compensador. Saber que viveu a água e depois a terra traz em si o misticismo das lendas. É uma sina bonita a dos andarilhos que herdam o nomadismo dos antigos aventureiros, desafiando os ventos a bordo de aeronaves e lidando com as correntes do mundo até que o corpo canse de flutuar. As cidades marítimas parecem nos despejar no movimento das águas para ver se sabemos nadar, mas é a solidez do chão firme que nos devolve o prumo e a calmaria quando as tempestades apertam.
Eu sempre achava que iria fazer o contrário, porque quando lia ou ouvia alguém falar de mar era como se precisasse pisar na areia e sentir as ondas batendo em meus pés. Embora minha pele tenha sido forjada no calor do cerrado, onde os horizontes se estendem em linhas largas de poeira e o único oceano visível é a imensidão azul do céu que abraça os topos dos ipês, queria sentir a maresia e a brisa marítima. Talvez pelo momento poético dos poemas, talvez pelo inusitado que eu só descobriria aos sessenta anos.
Saber-se de terra, mesmo conhecendo o barulho das ondas tão de perto, é apaixonante. Somos, afinal de contas, criaturas moldadas pelo barro, feitas da paciência de quem sabe o dia exato de plantar e o rito biológico de esperar a colheita. Embora o mar me encante, fui moldada pela terra das florestas e pelas correntezas mansas dos rios. Mas, ao evocar a mãe natureza, não esqueço que o oceano traz uma completude ao universo.
Sei que, mesmo vivendo tão longe do mar, as marés afetam as coisas por aqui, assim como a lua em suas fases distintas. Quando a corrente do rio afasta-se da margem, é como se fizesse reverência ao oceano em algum ponto do mundo. Espreito a precisão silenciosa das folhas que sabem quando cair e dos pássaros que encontram o galho ideal para interromper suas migrações ancestrais e encontrar a árvore certa para abrigo. Sirvo o café, sinto a quietude do meu lugar colar na pele e aceito o desfecho de mais uma semana. No idioma misterioso que tecemos linha por linha, a escrita é o nosso cais seguro, o território firme onde o passado e o presente deságuam para nos lembrar de que o mundo inteiro sempre coube no espaço sagrado do nosso quintal.
Mariana Gouveia
