Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #31 – O voo: Certas Melancolias da Correspondência.

Composição artística em vista superior sobre uma toalha de renda branca, exibindo dois cartões postais — um com estampa de azulejos portugueses e outro com uma pintura vintage de paisagem —, uma ilustração em aquarela de flores azuis, uma borboleta artificial de asas vermelhas e pretas, um dado vermelho, uma pequena concha e duas moedas antigas de dois cruzeiros de 1945.

Bambina mia,

se você jogar a moeda para o alto, eu escolho coroa — porque a realeza deste agosto insano e quente esteve impressa em cada palavra artesanal que a gente teve a coragem de entregar ao papel. Ana C. tinha total razão: há nostalgias e certezas que só a correspondência é capaz de recuperar. Enquanto você equilibrava os seus dias nesse calendário imaginário em São Paulo, eu acompanhava os seus passos daqui do meu lugar, dividindo o som rouco da cafeteira, o canto do sabiá e a beleza de ver mais um ciclo se fechar. Trinta e um dias se passaram num sopro de vento, e se para alguns agosto teve a lentidão de noventa dias, para nós ele teve a intensidade exata de um voo que soube onde pousar.

Que alegria imensa ler que Lua de Papel (livro dois) finalmente encontrou a sua versão definitiva! Sei bem o peso e o afeto de reescrever uma centena de rascunhos, de diminuir capítulos e de brigar com as próprias linhas até que a obra ganhe a sua pele mais bonita. O fazer literário é esse café forte, expresso, que renova o colorido dos nossos lábios e nos obriga a encarar a realidade com um sorriso no rosto. Passamos o mês inteiro viajando de uma esquina a outra, sabendo que cada linha escrita cruzava os nossos 1.540 km de distância para inventar um porto seguro no lado de dentro das nossas páginas.

Agosto foi feito de ciclos aqui. Vento, calor, calor e fumaça, calor e aves, calor e crisálida, casulo, metamorfoses, ruptura e voos — dos mais intensos aos mais leves. A joaninha produziu uma ninhada de ovos e voou. O sanhaço-laranja veio em uma manhã mais fria e voou. O Chiquinho arranjou brigas no quintal e voou, e o bem-te-vi veio beber água e tomar seu banho rotineiro e voou. Mas sabe, bambina, acredito que o ciclo rompante e maior aconteceu do lado de dentro. Eu ouvi sua canção e a acrescentei na playlist que tem seu nome. Será mais uma que ouvirei e repetirei seu nome baixinho.

Amanhã será setembro, o dia seguinte a tudo o que fomos e tecemos juntas. A música já ressoa pelos cantos da casa nova e a gente devolve os livros para a prateleira com a certeza bonita de que as nossas asas continuam fortes. Ganhamos o céu, cara mia.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #30 – O voo: O horizonte visto de outra perspectiva

Fotografia em plano médio da copa densa e imponente de um ipê-amarelo completamente florido com cachos dourados e vibrantes, contrastando contra um céu azul límpido e sem nuvens.

Luci,

Vi que você disse que, nos últimos tempos, tem visitado árvores e, quando vi esse pé de ipê para além da rua de cima, lembrei-me de você. Acho que isso é o que faz a vida ficar mais bonita. De longe, eu o avistei; seu dourado emoldurava a rua, e fui seguindo a cor até encontrá-lo. Lá estava ele, majestoso e imponente. Vi também sobre o pedaço da revista que você guardou. Percebi que se fosse eu a pessoa entrevistada pela revista e me perguntassem: “O que lhe faz genuinamente feliz?” — ah, Luci! Eu diria que era ouvir o barulho das abelhas e dos pássaros nas flores do ipê amarelo.

É como um presente dar flor, sabe? E já aconteceu comigo também. Ganhei uns potinhos de sementes e plantei, cuidei de tudo. Desde aguar a terra a conversar com os rebentos e, por fim, os botões surgiram. Até fotografei na época. É como você mesma disse, Luci: as coisas bonitas da vida não são as coisas. A gente sabe disso e apenas ri diante do vento. Ou de uma réstia de sol que rouba um pequeno rasgo da telha. Era onde a Lolla gostava de deitar, a quase um palmo do nariz dela. Hoje vi esse rasgo de novo e resolvi te escrever.

Você me mostra o horizonte sob outra perspectiva, Luci. Quando você diz que sua rua tem uma tristeza bonita, ou quando vejo a Celestine — que eu amo tanto sem conhecer. Eu também acho os postes das ruas feios, coitados. Falo baixo para eles não ouvirem, mas na madrugada, quando o vagalume do meu lugar passa por eles, mesmo sem gotas de chuva, eles parecem setas indicando caminhos para o céu.

Eu bebi chá de gengibre e limão para uma coisa que nem sei o que é, Luci. Achei lindo o seu chá de cardamomo e rosa. Mas aqui, o calor beira os 40º e lembro-me de que ainda é agosto. Às vezes, penso em você numa rua de agosto e lembro-me da fotografia do caminhão de repolho e você ali, musa, confiando em árvores, pombos e seguindo as regras do sindicato.

Ah, Luci, às vezes, a vida é como uma árvore vista da janela do trem.

Te amo!

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Lunna Guedes

BEDA #29 – O voo: A Anatomia dos Sábados.

Fotografia em plano médio de um pássaro sanhaço-cinzento pousado sobre a corda de um varal de roupas, cercado por prendedores de madeira, tendo ao fundo um lençol com estampas florais azuis e verdes estendido sob a luz do sol.

Ler a anatomia dos seus sábados me fez olhar para o meu próprio quintal e perceber que a minha também tem os pássaros, o cheiro de roupa lavando na máquina, a música tocando no aplicativo, o banho no Yoshi, o quintal vivo entre as mais variadas asas e os prendedores segurando os lençóis e as roupas no varal. Sempre ligo a palavra sábado a você — talvez por causa de Aos sábados… — e passamos quase a manhã toda conversando entre uma mensagem e outra. Acontece a mesma coisa aqui também com o cão e o gato. Por aqui, os aromas se igualam no alho, e sábado — conforme a escolha do moço daqui — é sempre dia de comida “italiana”, na visão dele. A almôndega sendo preparada, tomates e pimentões para o molho, o manjericão colhido junto com a cebolinha e o arroz branco com purê de batatas… Não questione nunca esse rompante — mamma mia! — dele em querer estar perto ou junto das nossas conversas. Ai de mim! A cozinha, aos sábados — sábado sim, sábado não — é dele.

Acho lindo como você descreve o processo de escolher as palavras como quem escolhe frutas maduras no pé. Ver os pássaros festejando a próxima estação e sentir que estamos finalizando mais um ciclo dá uma sensação gostosa de dever cumprido. O BEDA está chegando ao fim, e perceber que a sua escrita — que começou na poesia e estacionou na prosa — continua tecendo pequenas histórias curtas é a certeza de que o voo valeu a pena. A realidade se refaz a cada amanhecer manso, e a gente se contenta com a beleza dessas paisagens que só a literatura nos permite revisitar. O quintal se transforma nesse portal onde atravessamos todos os dias. Aqui, a estação muda várias vezes por dia. É como se o calendário tivesse vontade própria. E assim, sábado caminha em seu curso e afazeres rotineiros.

As histórias curtas parecem até algumas que vivi aqui, no atravessar de nossas esquinas, em outros ontens que ficaram registrados na memória. É como se nossos passos passassem pelos mesmos caminhos em diferentes eras. Agosto já deixa apenas duas folhinhas no calendário da cozinha. Setembro logo acontecerá e agosto ficará em espera para o próximo ano. No final das contas, dar aos pés o colorido dos passos é aceitar que todo fim é também um recomeço. Se o horizonte agora é visto de outra perspectiva, a gente agradece a jornada, amarra as fitas de cetim nos nossos retalhos e segue voando alto, linha por linha, rumo à primavera.

Mariana Gouveia

Afetos · Colheita · Das rotinas · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #28 – O voo: Pequenos Goles de Permanência.

Perguntar-me o que ando lendo por aqui é abrir as portas do meu próprio refúgio de papel. Neste mês, entre um rascunho e outro, minhas manhãs também foram povoadas por versos e prosas que chegaram sem pedir licença, acomodando-se na mesa do quintal ao lado das folhas que caem. Agosto está quente e seco e entre um bordado e a rotina, pausei aqui para saborear o vento debaixo do pé de ipê. Esse mês eu estive muito Scenarium. Aliás, acho que nos últimos meses eu só li os livros da Scenarium. Alguns, foram relidos e absorvidos. A Colheita é meu favorito. Casa Cheia me trouxe uma avalanche de saudades e Roteiros Imaginários – delicioso – acompanhou uma parte das minhas tardes. Mulher Proibida, Casa de Marimbondo eu já tinha lido, mas vieram parar em minhas mãos em uma dessas limpezas e fiquei por um tempo relendo. Nem Sempre à Lápis e uma ressalva para Delírios Comunista que continua atuante diante dos delírios dos últimos tempos (?) ou nada mudou mesmo?

Antes me incomodava deixar um livro à minha espera, como se me cobrasse para finalizar o que comecei. Talvez pela fome intensa de ler. Mas, me rebelei com eles. O tempo-vida é curto demais para insistirmos em páginas que não conversam com o nosso silêncio. Deixar a mão percorrer as lombadas na prateleira e escolher pelo tato, enquanto a água do chá esquenta, transforma o ato de ler em um verdadeiro pacto de presença. Fiquei acompanhando os seus passos curtos em direção à cozinha, virando as páginas de Peixoto ou Pizarnik, e pensando no quanto a literatura nos dá esse poder de desacelerar as horas para degustar o mundo em pequenos goles.

Você sabe que amo Reticências. Tenho os dois exemplares que já separei para quando setembro chegar. Achei lindo o anúncio da volta de Reticências. Adoro essas repaginadas que você faz. Ver os livros que amamos ganhando novos voos e circulando pelos olhos de outros leitores dá um sentido imenso a esse nosso agosto.

No final das contas, ler na contramão das listas de mais vendidos é a nossa forma de dar as cartas no tabuleiro do tempo. Se as prateleiras do mundo estão cheias de urgências frias, a gente escolhe a nossa xícara, abre as asas e mergulha no infinito de uma página que teima em nos salvar.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

BEDA #27 – O voo: O Bordado Invisível do Tempo.

BEDA #27 – Uma resposta sobre rituais, receitas de bolo e o ritmo dos nossos dias.
Fotografia artística em plano detalhado mostrando uma borboleta da espécie Callicore, com asas pretas, vermelhas e amarelas, pousada sobre o tecido de uma calça jeans azul, bem ao lado de um detalhado ramo de flores coloridas bordadas à mão.

Nos últimos anos a nossa rotina se mantém a mesma: depois do passeio com os dogs — o meu aqui e o seu aí —, e até antes disso, a gente conversa. Brincamos que falamos de tudo. Desde os assuntos do momento, novelas, memes, aves, frutas, artes, música e bobagens… É como se fosse mesmo um ritual para eu começar o meu dia.

Hoje coloquei a água no fogo por aqui também. Fiz o chá azul de que você gosta e, quando a xícara esvaziou, a farfalla — como você diz — chegou e pousou na minha perna. Isso tem sido rotineiro aqui nas manhãs. Elas pousam e, depois de um tempo, alçam voo quintal afora, de flor em flor. Acontece também com os pássaros, insetos e outros bichos. Acredito que é na repetição sagrada dos pequenos gestos diários que a alma encontra chão para descansar. Chamar esses movimentos de rituais muda tudo: o som rouco da sua cafeteira, o sabiá laranjeira cantando por aqui, o perfume do café invadindo a casa e o sol mudando de lugar na parede deixam de ser obrigações e viram poesia pura. Entender e aceitar o ritmo do próprio cuore e dos passos é a maior sabedoria que a gente pode herdar da infância. Dividir isso com você tem sido prazeroso, confortante e feliz.

Conheço a sua cartografia dos bolos. O de fubá — que eu amo e conheço tão bem — é o causador da minha saudade de bolo. O de paçoquinha consegue ser sensorial, e o de laranja guarda a memória dos seus primeiros dias em São Paulo, batidos na vasilha nas noites de quinta-feira como quem tenta dar liga à própria vida. Daqui do meu lugar, eu te entendo perfeitamente. Para quem escreve, a rotina não nos tranca; ela nos liberta. É o porto seguro que nos permite abrir as asas e voar na contramão de um mundo que vive sem respiração prévia. Mudar o dia do bolo é a nossa única transgressão possível. Eu bordo os tecidos aqui, e você costura com fitas de cetim as páginas dos livros.

No fim das contas, a nossa escrita também é esse bordado invisível que o tempo faz na pele-alma. Se o mundo lá fora se contorce com a pressa, a gente senta à mesa, degusta nossas pessoas-personagens e saboreia cada pequeno gole de permanência. O voo só é bonito porque a gente sabe exatamente onde fica o ninho.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #26 – O voo: A cidade que nasce da escrita

Lunna,
eu poderia dizer que escrevo essa missiva — como você gosta de chamar — para a Scenarium. Poderia também endereçá-la para você e para o Marco. Hoje é dia da Scenarium e abro o meu baú de memórias com uma xícara de café em mãos, enquanto percorro a geografia da cidade que nasceu da minha escrita. Enquanto você cita Cartagena, eu cito os caminhos e as ruas que a Scenarium me permitiu e me permite percorrer. Você tem toda razão: um lugar só ganha alma e se transforma em cidade quando passa pelo filtro das nossas narrativas mais agudas e lineares. Comigo, o seu filtro me guiou como se traçasse um mapa, e fui seguindo por ele, fazendo-me escritora.

A cada livro publicado, a poesia ganhou formas entre as minhas palavras e a sua edição. Eu encontrei o meu verdadeiro solo literário em um cenário muito específico, que hoje celebra o seu aniversário: a Scenarium. Foi ela a cidade que me acolheu quando eu ainda guardava minhas primeiras linhas em um baú; o lugar que abriu as portas para as minhas palavras e ideias, transformando rascunhos em livros palpáveis e cheios de alma. A Scenarium não apenas emoldurou a escritora que sou, mas pavimentou as minhas ruas internas com um afeto que vai muito além das letras e dos papéis. É ali, naquele fazer artesanal e cúmplice, que dou o meu primeiro movimento em direção ao sol.

E não foi só em relação à escrita que a Scenarium passou a fazer parte de mim. Atrás da editora, havia duas pessoas que estavam sempre de mãos estendidas, funcionando como setas para que eu escolhesse o melhor caminho, dando-me direções, evitando que eu tropeçasse e servindo de conforto nos momentos mais difíceis. Hoje, falta o Marco e a sua gargalhada estrondosa — esse signore gentil que distribuía sorrisos e afetos.

Se a Scenarium se transformou na minha “cidade”, é porque o afeto me moldou na pessoa que sou dentro da escrita. Cheguei simplesmente uma crisálida e fui me transformando aos poucos na mulher que voa e alcança pessoas para além das minhas palavras. Ver a arte sendo espalhada entre fitas, papel e letras, com a leveza de quem entrega momentos, nos faz perceber que quem recebe o pacote contendo um livro em mãos apenas se oferece como pouso para esse nosso encanto em voos.

Parabéns à Scenarium por ser o nosso porto seguro e o ponto de partida para tantas asas.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #24 – A ruptura: A Costura do Que se Parte

Bambina mia,

Cuiabá é a capital da arte sacra. Não sei quem deu essa nomenclatura, mas o fato é que em cada rua no Centro Histórico há pequenas oficinas e salões onde são fabricadas essas artes. Os santos são variados e a fé também. Há quem tenha três ou mais santos ou santas para devoção. No corredor paralelo à rádio onde eu trabalhava funcionava o Museu de Arte Sacra, cujo acervo é composto por peças setecentistas. Hoje, por conta do mau estado do telhado, ele foi transferido para o Palácio da Instrução, no Centro.

O cuiabano é devoto por natureza e os artistas e artesãos, em sua maioria, têm um santo favorito para reproduzir. Um deles, e talvez o principal, seja São Benedito, ou Ditinho, ditando uma intimidade maior entre o santo e o devoto. É comum nos ateliês ver os santos expostos e toda espécie de arte sacra para venda.

Ler a sua caminhada atrás daquela signora com o São Francisco partido nos braços me fez pensar em como o divino afeta o povo de uma cidade inteira, claro que com algumas exceções. Há uma devoção muito bonita e quase secreta nos pequenos detalhes do cotidiano. Aquela mulher segurando a peça avariada como se fosse o próprio coração mostra o quanto nos apegamos às nossas primeiras versões e o quanto dói aceitar que nada volta a ser exatamente igual. O artesão da lona azul foi de uma sabedoria imensa: o que é feito à mão nunca se repete. Parecido, talvez. Igual, jamais. Acontece comigo quando faço meus artesanatos aqui. A comparação é diferente, mas quando um bordado tem de ser desmanchado por algum erro em um ponto, é difícil ficar igual. Melhor começar todo o trabalho de novo e seguir em frente.

Achei fantástica a sua observação sobre o olhar das estátuas. Escolher o São Francisco que ficou — aquele com os olhos voltados para o chão — é a tradução perfeita do que fazemos quando escrevemos. A santidade da escrita não está em olhar para o céu em busca de milagres abstratos, mas sim em curvar os olhos para a terra, para os bichos, para o rastro de saudade nas calçadas e para a humanidade que pulsa nas imperfeições. A beleza do trabalho artesanal, seja no barro ou nas palavras, mora justamente nessa incapacidade de ser cópia. Cada rascunho que a gente liberta é único.

No final das contas, o instante exato da libertação acontece quando aceitamos levar a peça nova, mesmo com o lamento do que ficou para trás. Seguimos valorizando os contornos feitos à mão e moldando as nossas próprias páginas, detalhe por detalhe, como se estivéssemos bordando histórias.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Literatura

BEDA #23 – A ruptura: O Plantador de Sorrisos

Sobre a perseverança das sementes e o pomar que mora no afeto.

Faz tempo que eu queria te contar essa história: Era uma vez um homem que mudou um lugar inteiro, tudo por conta da perseverança de uma semente. Conheci um homem que distribuía sorrisos para as pessoas e que, de repente, virou um espalhador de sementes. Ele não sabia que dentro de uma pequena semente cabia um pomar inteiro. Certo dia, pela estrada, ele encontrou um vendedor de frutas — dessas barracas que ficam montadas na beira da rodovia, vendendo suas frutas em uma banca. Ele parou o carro e comprou umas tangerinas tão doces, mas tão doces, que ele se encantou tanto pela fruta quanto pela semente. Colocou os grãozinhos no bolso e seguiu o seu caminho.

Tempos depois, em seu local de trabalho, ele percebeu as sementes esquecidas ali. Lembrou-se da fruta de que tinha gostado tanto. Havia um espaço de terra nos fundos do quintal do local onde faço minha fisioterapia e, ali, aquele dentista plantou a semente. De vez em quando a regava e, para sua alegria, tempos depois surgiram as primeiras folhas. A plantinha passou a ser o motivo de sua visita diária; ele cantava para ela quando chegava para trabalhar ou, pelo menos, duas vezes na semana. Generosamente, levava um copo com água e molhava a pequena planta, que crescia a cada dia.

E de repente, a semente rompe a casca e germina. O moço que planta sementes também espalha sorrisos ao cuidar dos dentes dos clientes ali. Para seu espanto, dentro de alguns meses o pé foi crescendo, crescendo… Mesmo quando uma árvore que repousava perto foi podada e descartada, o pezinho resistiu ali, sozinho, apenas com as ervas daninhas ao seu redor. Foi assim que eu me encantei por aquele pé de mexerica — que é como eu conheço a fruta. Resiliente e soberano.

Um dia, ele me pegou conversando com aquela árvore e me contou a história da semente. Eu disse que ele era um plantador. Ele brincou e respondeu: “Não, eu apenas distribuo sorrisos para as pessoas”. Mal sabe ele que o universo inteiro de um pomar pode caber num grão.

A árvore se agiganta a cada dia mais. E embora ele não soubesse, aquele homem espalhou um pomar inteiro no seu local de trabalho com um aperto de mão, um aceno de cabeça e a alegria de sempre. Além de plantar sementes, ele também é um plantador de sorrisos. E eu tenho certeza de que, logo, aquela pequena semente plantada ali dará os frutos mais doces.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #22 – A ruptura: O Vento que Move as Nossas Saias.

Ilustração modificada por IA.

Dia desses falamos sobre a Rita Lee e o seu poder de liberdade. Eu era menina quando Leila Diniz se foi. Lembro-me de ver em revistas antigas a foto dela com a barriga de grávida exposta. Talvez aquelas imagens de uma mulher grávida, com a barriga de fora em plena ditadura, tenham ressignificado em mim a vontade de ser mãe. Aos meus sete anos, já gritava em mim o desejo pela liberdade que ela exibia naquelas páginas.

Conheço a sua rebeldia sagitariana e imagino a sua braveza diante das regras impostas. Rita Lee e Leila Diniz sabiam exatamente o preço e a delícia de não caber nos moldes que a sociedade desenha para nós. É uma violência sutil, mas cortante, ver tantas mulheres equilibrando pratos e trancando-se em calabouços invisíveis, apenas para julgar aquelas que decidiram assumir a brancura dos próprios cabelos e o balanço das saias longas. A liberdade alheia sempre assombra quem escolheu permanecer no casulo.

Acho fascinante quando você observa que muitas dessas mulheres só descobrem as próprias asas tardiamente, ou quando finalmente decidem não esperar mais nada para assumir as rédeas da própria vida. O direito de afrontar esses grilhões com a nossa própria verdade é o que nos mantém inteiras. Não estamos aqui para carregar as regras ditadas pelas nossas avós ou os padrões estipulados pelas revistas de shopping; estamos aqui para escrever as nossas próprias linhas, sem dosagens ou moderações.

Acho que um dos meus maiores gritos de liberdade foi pintar o cabelo de vermelho. Mesmo vivendo em outra época, em outra era, fui apontada como subversiva – e senti a mesma cobrança quando anos depois o deixei embranquecer naturalmente – embora dentro de casa eu tivesse mais liberdade do que minhas irmãs — que enfrentaram uma dureza de meu pai que eu desconhecia —, sempre pensei que podia dar as cartas na maneira e no modo de viver, sem ser condenada por isso. Acho que a poesia me deu esse poder para romper casulos, mudar as metamorfoses que me impuseram e quebrar muros para além de mim.

Toda mulher tem uma força revolucionária guardada no peito, mesmo que algumas ainda não saibam disso. Se o mundo insiste em inventar jeitos e gestos para nos deixar desconfortáveis, a gente liga a música bem alto e responde em formato de prosa e poesia. Seguimos espalhando nossas saias coloridas e nossas verdades mais sinceras. Afinal de contas, não somos cartas fora do baralho. Somos as próprias cartas e a jogada é nossa, mesmo com tantos blefes tentando nos impedir.

Mariana Gouveia