Bambina mia,
Cuiabá é a capital da arte sacra. Não sei quem deu essa nomenclatura, mas o fato é que em cada rua no Centro Histórico há pequenas oficinas e salões onde são fabricadas essas artes. Os santos são variados e a fé também. Há quem tenha três ou mais santos ou santas para devoção. No corredor paralelo à rádio onde eu trabalhava funcionava o Museu de Arte Sacra, cujo acervo é composto por peças setecentistas. Hoje, por conta do mau estado do telhado, ele foi transferido para o Palácio da Instrução, no Centro.
O cuiabano é devoto por natureza e os artistas e artesãos, em sua maioria, têm um santo favorito para reproduzir. Um deles, e talvez o principal, seja São Benedito, ou Ditinho, ditando uma intimidade maior entre o santo e o devoto. É comum nos ateliês ver os santos expostos e toda espécie de arte sacra para venda.
Ler a sua caminhada atrás daquela signora com o São Francisco partido nos braços me fez pensar em como o divino afeta o povo de uma cidade inteira, claro que com algumas exceções. Há uma devoção muito bonita e quase secreta nos pequenos detalhes do cotidiano. Aquela mulher segurando a peça avariada como se fosse o próprio coração mostra o quanto nos apegamos às nossas primeiras versões e o quanto dói aceitar que nada volta a ser exatamente igual. O artesão da lona azul foi de uma sabedoria imensa: o que é feito à mão nunca se repete. Parecido, talvez. Igual, jamais. Acontece comigo quando faço meus artesanatos aqui. A comparação é diferente, mas quando um bordado tem de ser desmanchado por algum erro em um ponto, é difícil ficar igual. Melhor começar todo o trabalho de novo e seguir em frente.
Achei fantástica a sua observação sobre o olhar das estátuas. Escolher o São Francisco que ficou — aquele com os olhos voltados para o chão — é a tradução perfeita do que fazemos quando escrevemos. A santidade da escrita não está em olhar para o céu em busca de milagres abstratos, mas sim em curvar os olhos para a terra, para os bichos, para o rastro de saudade nas calçadas e para a humanidade que pulsa nas imperfeições. A beleza do trabalho artesanal, seja no barro ou nas palavras, mora justamente nessa incapacidade de ser cópia. Cada rascunho que a gente liberta é único.
No final das contas, o instante exato da libertação acontece quando aceitamos levar a peça nova, mesmo com o lamento do que ficou para trás. Seguimos valorizando os contornos feitos à mão e moldando as nossas próprias páginas, detalhe por detalhe, como se estivéssemos bordando histórias.
Bacio,
Mariana Gouveia
