Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #16 – A mutação: Esquinas Pavimentadas com Bolo

Bia,

Fiquei sabendo do seu último voo ontem e nem era outono… senti pena de não ser outono e imaginei você pisando as folhas rua afora. Você adorava o castanho das coisas e de sorrir. Lembrei-me de quando a gente se conheceu há mais de 30 anos no ponto de ônibus. Falamos sobre o tempo e você falou sobre bolos, principalmente o de abacaxi que você tanto gostava.

Eu confesso que nunca conheci alguém com o riso tão fácil e tão cativante. E era entre risos que você dizia que regava a vida com chás e pavimentava as esquinas com bolo. As pessoas te conheciam pela delicadeza das mãos em fazer os bolos para festas. E das várias vezes que nos encontramos lá ia você com sua caixa de bolo pronto para entrega.

Eu também sabia fazer o bolo de abacaxi que você gostava e, na última vez que nos demoramos em abraços, você pediu a receita. E lá fomos fazer o bolo — eu, uma simples dona de casa, fazendo bolo para uma profissional dele — entre risos e chá. Você descobriu o segredo da fofura e se espantou com uma receita sem medidas. Era o segredo que te contei dias antes de você ir.

Queria te contar que a leveza com que você me ofertou a amizade ficará em mim como a forma do amor mais simples. Embora seu quintal tivesse as mesmas flores que o meu, as borboletas voavam diferentes por lá quando passei em frente. Um cheiro de saudade já se esparramava na rua inteira e eu apenas te agradeci por ter enfeitado a vida de tanta gente com a docilidade que só seu abraço tinha.

Com carinho,

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #15 – A mutação: O Catálogo das Nossas Janelas.

No meu bairro não tem prédios. Há apenas alguns pequenos sobrados para além da rua de cima. Durante minha caminhada matinal com o Yoshi por ali, já conheço a maioria dos moradores-personagens. Caminhar pelas ruas antes de o dia começar em rascunhos é quase como folhear um livro que nunca termina. Há agito para dentro dos portões, janelas se fechando, vozes se intercalando entre o acordar de alguém e o chiado da fechadura. Conheço quase todos pelos nomes ou pelos nomes das mães.

Depois da casa laranja do vô, o filho da Marlene sai apressado em sua motoca, o filho da Francisca brinca comigo sobre a derrota do meu time na noite anterior e segue com seu achocolatado ainda por terminar; e com eles, vão saindo pessoas para o trabalho, escola ou alguma consulta médica. Todos os dias crio histórias com alguns deles. Notas mentais que vão se acumulando na mente. Mas para além daqui, os condomínios fechados se multiplicam a cada dia, tal qual os prédios daí.

A sua imagem da cidade como uma grande prateleira, onde cada janela fechada ou aberta guarda um personagem não escrito, me fez acompanhar os seus passos por essa avenida. Há uma beleza dolorosa em perceber o quanto as tenebrosas construções urbanas tentam nos encaixar em formas e jaulas que nada sabem sobre a nossa verdadeira matéria.

Fiquei pensando nessa senhora que olha as nuvens e no rapaz que ajusta a luz para a tela. Estamos todos, de alguma maneira, tentando encontrar um ângulo para não sermos engolidos pela solidão das nossas próprias paredes. Eu mesma vi as janelas e seus esquadros quando estive aí. Enquanto aqui as casas são horizontais e as histórias se passam entre muros e portões, aí as paredes crescem verticalmente.

Você recorre à Susan Sontag para seu refúgio interno não se perder, e eu dou espaço às folhas do quintal… Sei que o quintal te salva aí também. É o que nos impede de virar apenas mais um volume esquecido na estante. Se o bairro é uma biblioteca de narrativas inéditas e secretas, que bom que a gente escolheu não ficar em silêncio. Continuamos arrancando páginas do cotidiano para devolvê-las ao mundo com o nosso próprio formato.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #14 – A mutação: O tecido das nossas armaduras.

Fotografia de minha autoria modificada por IA.

Ler sobre o baú do tuo nonno e a sua coleção de quadrinhos me fez sorrir com a imagem daquela menina fascinada pela Tempestade e pela Jean Grey. Claro que seria a Tempestade a sua heroína, com toda a misticidade que a envolve. Isso me faz lembrar da tempestade que assisti ao seu lado e o brilho nos seus olhos quando os relâmpagos cortavam o céu. Ficamos na sacada a respirar a fúria do céu. Essa é uma das cenas que nunca vou esquecer. Você parecia a própria Tempestade, com os olhos fixos e a voz ecoando a cada trovão.

Os meus quadrinhos eram outros, porque era o que a gente ganhava entre alguns livros. Os meus irmãos usavam as capas montados em cavalos de verdade no pastoreio do gado. A Mulher-Maravilha chegou na minha vida já quase na adolescência, e não como uma figura emblemática de poder feminino. A beleza de Lynda Carter — e mais recentemente Gal Gadot — exibia na tela uma Mulher-Maravilha cujas cenas eu via através de frestas da janela, isso quando a vizinha que tinha televisão não fechava de vez a cortina.

Para mim, a Mulher-Maravilha nessa época era Kaori, que com seu um metro e meio me acolheu em momentos dolorosos na perda de minha mãe. Ela estava sempre atenta a qualquer chamado meu, seja com uma xícara de chá, um colo, mãos estendidas ou um rolinho primavera — sem o biscoito da sorte, porque ela era a própria sorte.

Essas mulheres reais que me cercaram nunca precisaram de capas para comandar seus próprios raios e trovões. Nossas mães, nossas nonnas, e nós mesmas, tantas vezes precisamos endurecer a casca para proteger a sensibilidade que trazíamos por dentro. Olhando para trás, vejo que a vida nos exigiu mutações constantes: deixamos de ser frágeis ou invisíveis para nos tornarmos as anti-heroínas da nossa própria história, com desejos reais e caminhos conquistados a duras penas.

O universo das histórias nos moldou, é verdade, mas foi a coragem de assumir as nossas próprias metamorfoses que nos trouxe até aqui. Toda casca rígida esconde uma força imensa, e escrever com você neste agosto é a prova de que nenhuma de nós tem medo de abrir o baú e libertar os próprios fantasmas.

Bacio,

Mariana Gouveia

Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #13 – A mutação: O Avesso da Intimidade

Às vezes, dizemos tanto sobre nós e, ainda assim, o essencial permanece submerso. Andei pelo quintal pensando no tempo que levou para nos acolhermos. No primeiro abraço eu já entendi que havia um traço de confiança e respeito. Depois, a gente se reconheceu uma na outra e as conversas no meio das manhãs surgiram como um oásis.

A frase que surgiu aí — esse “quando eu tiver intimidade” dito num sopro — ecoou em mim como um sapato que já não serve mais. O corpo, às vezes, cansa das roupas velhas e das molduras rígidas que nos impõem. Ele pede um novo formato. Um formato que não precise se escancarar para ser visto.

Há quem confunda intimidade com desabamento, como se para tocar o outro fosse preciso demolir todas as paredes. Eu prefiro a arquitetura dos segredos bem guardados. O corpo que pede um novo formato é aquele que aprendeu a dizer “não” às invasões consentidas. É o corpo que escolhe a nudez do silêncio em vez do ruído das confissões desnecessárias.

Vestir-se de mistério não é esconder-se por medo; é proteger o que temos de mais sagrado. Quando as pessoas julgam que a proximidade lhes dá o direito de disparar palavras sem peso, meu corpo recua — sei que com você é igual — e muda de forma, contrai-se, vira bicho que busca a toca. Prefiro a comunhão das entrelinhas, porque tem coisas que não precisam ser ditas e nem compartilhadas. Ultrapassam o senso comum, ou pelo menos o meu senso.

A verdadeira intimidade, talvez, seja a liberdade de permanecermos um mistério um para o outro, sem que isso nos afaste. A ideia de alguém andando nu pelas ruas me arrancou um riso interno no meio do quintal, mas a verdade é que as pessoas fazem isso o tempo todo com as palavras. Desnudam-se de filtros, de delicadeza, achando que o crachá da “intimidade” zera a necessidade do respeitar o que o outro quer e pode ouvir. Saber tudo do outro não nos torna mais próximos; muitas vezes, só nos deixam entediados diante do que é previsível.

A ética do mistério é, no fundo, uma ética de preservação. Em alguns momentos a gente cansa de ser receptor do excesso alheio. Já nos bastam os nossos excessos, esses, guardados em respeito ao outro, porque há histórias que não precisam ser gritadas. Gosto do direito ao inacessível. Que o outro permaneça um território a ser descoberto aos poucos, com o respeito de quem tira os sapatos antes de entrar. Ou de quem espera que a porta se abra para que você seja convidada a entrar.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #12 – A mutação: O Eco dos Nossos Silêncios

A tarde traz seu lusco fusco fazendo o céu ficar lilás onde o sol rompe atrás das casas vizinhas. Saí para além do quintal para alimentar a gata que foi abandonada no terreno baldio. Isso se tornou rotineiro por aqui e aproveito e cato os figos já maduros e as folhas para o chá da tarde. As suas palavras me encontraram exatamente no momento em que a água começava a ferver.

Há uma cumplicidade bonita em saber que, enquanto você resgata Okakura e folheia o Livro do Chá na prateleira, eu sinto o peso dessa mesma calmaria cruzar o meu quintal. Lembro-me de Kaori e as suas dezenas de chás baseado nesse livro. E nossos rituais às pequenas invisibilidades é, no fundo, o que liga os nossos quintais. Sempre percebo um espaço no canto do muro onde invado seu lugar e você o meu.

Gosto muito quando você fala da nonna e desse respeito pelo anoitecer e isso me fez viajar de volta para os dias em que o tempo não tinha essa pressa digital dos dias de hoje. A infusão exige exatamente o que nos falta: a coragem de esperar. Olhar para a fervura sem tentar acelerá-la é aceitar a não resistência que você buscou em Lao-tsé. A água contorna a pedra, o chá ganha cor no seu tempo, e nós encontramos abrigo no crepúsculo.

Você tem razão sobre o homem ocidental e essa necessidade febril de se exibir em telas. Ir na contramão disso, saboreando o silêncio em pequenos goles na varanda, não é apenas um ritual; é um ato de preservação. Nossos textos cumprem esse papel. Eles são os nossos bules postos ao fogo, esperando que o leitor aceite sentar-se à mesa conosco para tocar as próprias reticências.

Daqui, onde o céu também ameaça mudar de tom, seguro a minha xícara e reverencio o mesmo fluxo que nos une. Que a pressa dos outros nunca roube o nosso direito de silenciar juntas.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #11 – A mutação: O Ninho que a Gente Inventa.

O seu texto me fez olhar para as paredes ao meu redor com outros olhos. Há uma poesia nômade e muito bonita nessa sua vocação para ser adotada pelos lugares, em vez de possuí-los. Nem todo mundo tem a coragem de habitar o provisório com tanta entrega. As suas palavras me levam sempre para o lugar de voyeur.

Enquanto você percorre as rachaduras dos casarões antigos como quem lê um mapa de vidas passadas, eu fico a pensar no seu “corpo-pele”. Talvez o seu verdadeiro lar não seja feito de tijolos, ferro ou portões, mas sim das palavras que você escolhe para erguer os tetos das suas histórias. Você migra como os pássaros porque sua estrutura é feita de vento e de tramas. É como ser sabedora de que o espaço é seu. Basta senti-lo.

Fiquei curiosa com o seu desfecho. Se os seus personagens são mais exigentes com as próprias casas, deve ser porque eles sabem que dependem da sua arquitetura interna para ganhar vida. Alguns dos seus personagens rondam minha vida desde que os conheci através dos livros e das histórias que você conta. Eles moram em mim, em cômodos provisórios que inventei para acolhê-los. Alexandra, por sinal, tem lugar cativo aqui, em cada canto meu, seja da alma, da vida, ou do quintal. Até mesmo na cidadezinha provinciana onde cresci.

No fim das contas, talvez a escrita seja a única coisa capaz de nos dar um teto definitivo, mesmo quando insistimos em voar. Quanto as exigências dos seus personagens, acho que, no fundo, eles aprenderam com você a arte de ocupar espaços provisórios na alma da gente. E, assim como você, decidiram ficar para o café. Ou quem sabe, para morar.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #10 – A Mutação: O que dói deixar de ser?

Bambina mia,

Ao ler sua missiva em um desses dias em que o tempo parece insistir em olhar para trás, foi como ver um filme sobre minha infância. Assim como você roubava os biscoitos da nonna – e mais uma vez nossas histórias se cruzarem como se fossem cúmplices me fez sorrir – eu também ajudava meus irmãos a roubar os biscoitos, que ficavam em latas no lugar mais alto da prateleira e sabendo disso, minha mãe dividia vários biscoitos em latas para sempre termos biscoitos.

Também tive mesa cheia em agostos passados e os domingos eram uma algazarra para quem teve seis irmãos. Acho que nunca vou esquecer o sabor da macarronada com queijo de minha mãe, os causos do meu pai e os vizinhos que se juntavam a nós. Aqueles dias pareciam que iam durar para sempre. O melhor vestido, o caderno de poesia para declamar, o queijo derretido em cima do prato esmaltado e as conversas atropelando todo mundo num converseiro sem fim.

A história do seu primo que se tornou um especialista em passos me tocou de perto. Afinal, mudar de caminho exige a coragem exata de se desmanchar por dentro. Dói deixar de ser o que os outros esperam de nós — engenheiros, psicanalistas, ou qualquer molde rígido em que tentaram nos encaixar. Você trocou a psicanálise pelo universo ficcional e eu, agradeço o universo por isso. A gente nem sabia, mas essa sua escolha lá atrás foi o que nos levou a nos encontrarmos tempos depois e nossos passos se encaixarem nos caminhos. A gente nem imagina o quanto de nós fica nas rotas e o que o universo nos reserva durante esse caminhar.

Hoje, meus domingos são feitos de silêncios e canções. Em alguns, eu fico sozinha – e adoro isso – e confesso que a mesa ainda parece pequena, às vezes, para tantas memórias. Prefiro a quietude dos dias que são apenas meus, onde o único ruído em alguns dias é o farfalhar das folhas e o canto das aves pelo quintal.

Às vezes, a solidão escolhida também é uma forma de preservação. Às vezes, o que dói deixar de ser é apenas o cenário que já não nos cabe mais. Quando é assim, o melhor jeito é nos cuidarmos.

Cuidar de si, em silêncio, também é um banquete.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #9 – A Mutação: O avesso que herdei de você.

pai,

Hoje o calendário diz que é o teu dia, mas aqui dentro a vida exige o avesso. Dizem que há muitas fases para o luto, pai; a falta de uma pessoa que se foi provoca muitas mudanças nos anos que se seguem e descobri que mudar é um processo invisível e doloroso. Para que o voo aconteça amanhã, é preciso desmanchar-se por dentro hoje, recompor as certezas e aceitar a perda da antiga forma.

Dói deixar de ser o que eu era. Antes, eu era a filha; hoje, sou órfã. Mas, enquanto me desmonto no escuro desse processo, é a tua força que me sustenta. Olho para as minhas mãos e reconheço nelas os teus traços, a tua teimosia bonita e a herança da tua firmeza. As coisas de que você gostava passam a fazer parte das lembranças e, em diálogos com meus irmãos, é comum repetir: meu pai gostava disso. Cada um reage diferente à tua falta, cada um repete em gestos os teus gostos.

Neste domingo de sol forte, recolho os meus pedaços sabendo que herdei de você a coragem de enfrentar os próprios desertos. Bebo meu café pensando no teu abraço. Sigo daqui, sangrando as asas no silêncio, mas pronta para o tamanho do mundo que me espera.

Feliz dia, onde quer que a tua ilha esteja!

Com todo o meu amor,

Mariana Gouveia