Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #11 – A mutação: O Ninho que a Gente Inventa.

O seu texto me fez olhar para as paredes ao meu redor com outros olhos. Há uma poesia nômade e muito bonita nessa sua vocação para ser adotada pelos lugares, em vez de possuí-los. Nem todo mundo tem a coragem de habitar o provisório com tanta entrega. As suas palavras me levam sempre para o lugar de voyeur.

Enquanto você percorre as rachaduras dos casarões antigos como quem lê um mapa de vidas passadas, eu fico a pensar no seu “corpo-pele”. Talvez o seu verdadeiro lar não seja feito de tijolos, ferro ou portões, mas sim das palavras que você escolhe para erguer os tetos das suas histórias. Você migra como os pássaros porque sua estrutura é feita de vento e de tramas. É como ser sabedora de que o espaço é seu. Basta senti-lo.

Fiquei curiosa com o seu desfecho. Se os seus personagens são mais exigentes com as próprias casas, deve ser porque eles sabem que dependem da sua arquitetura interna para ganhar vida. Alguns dos seus personagens rondam minha vida desde que os conheci através dos livros e das histórias que você conta. Eles moram em mim, em cômodos provisórios que inventei para acolhê-los. Alexandra, por sinal, tem lugar cativo aqui, em cada canto meu, seja da alma, da vida, ou do quintal. Até mesmo na cidadezinha provinciana onde cresci.

No fim das contas, talvez a escrita seja a única coisa capaz de nos dar um teto definitivo, mesmo quando insistimos em voar. Quanto as exigências dos seus personagens, acho que, no fundo, eles aprenderam com você a arte de ocupar espaços provisórios na alma da gente. E, assim como você, decidiram ficar para o café. Ou quem sabe, para morar.

Bacio,

Mariana Gouveia

2 comentários em “BEDA #11 – A mutação: O Ninho que a Gente Inventa.

  1. Acho que vou ficar morando nesse texto-resposta! Porque passeei por um sem-fim de casas-corpos que habitei e outros nos quais fui penetra, entrusa. O único lugar, de fato, que é meu lar, não é composição minha, mas eu o habito com tudo de mim e não o emprestaria a ninguém. É meu, todo meu esse corpo com janelas e portas…

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