Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #12 – A mutação: O Eco dos Nossos Silêncios

A tarde traz seu lusco fusco fazendo o céu ficar lilás onde o sol rompe atrás das casas vizinhas. Saí para além do quintal para alimentar a gata que foi abandonada no terreno baldio. Isso se tornou rotineiro por aqui e aproveito e cato os figos já maduros e as folhas para o chá da tarde. As suas palavras me encontraram exatamente no momento em que a água começava a ferver.

Há uma cumplicidade bonita em saber que, enquanto você resgata Okakura e folheia o Livro do Chá na prateleira, eu sinto o peso dessa mesma calmaria cruzar o meu quintal. Lembro-me de Kaori e as suas dezenas de chás baseado nesse livro. E nossos rituais às pequenas invisibilidades é, no fundo, o que liga os nossos quintais. Sempre percebo um espaço no canto do muro onde invado seu lugar e você o meu.

Gosto muito quando você fala da nonna e desse respeito pelo anoitecer e isso me fez viajar de volta para os dias em que o tempo não tinha essa pressa digital dos dias de hoje. A infusão exige exatamente o que nos falta: a coragem de esperar. Olhar para a fervura sem tentar acelerá-la é aceitar a não resistência que você buscou em Lao-tsé. A água contorna a pedra, o chá ganha cor no seu tempo, e nós encontramos abrigo no crepúsculo.

Você tem razão sobre o homem ocidental e essa necessidade febril de se exibir em telas. Ir na contramão disso, saboreando o silêncio em pequenos goles na varanda, não é apenas um ritual; é um ato de preservação. Nossos textos cumprem esse papel. Eles são os nossos bules postos ao fogo, esperando que o leitor aceite sentar-se à mesa conosco para tocar as próprias reticências.

Daqui, onde o céu também ameaça mudar de tom, seguro a minha xícara e reverencio o mesmo fluxo que nos une. Que a pressa dos outros nunca roube o nosso direito de silenciar juntas.

Mariana Gouveia