Afetos · Das palavras das cartas

A Colecionadora de Ontens e o voo de despedida

Mãe,

Mãe,

Hoje completam-se quarenta e quatro anos desde o dia em que você decidiu virar passarinho e migrar para além do horizonte. Setembro sempre me devolve a essa contagem mansa de tempo, uma matemática de ausência que aprendi a domesticar através da caligrafia do afeto. Ouço os relatos sobre as pessoas que acumulam casas por cinquenta anos e empilham objetos em gavetas, e imediatamente olho para as minhas próprias mãos: não herdei a capacidade de acumular moedas ou selos, mas guardo um sem-fim de palavras e um baú repleto de ontens que divido com o silêncio do meu lugar.

Ao caminhar pelas ruas, às vezes me pego repetindo aquele velho costume de conferir se as silhuetas antigas continuam onde deveriam estar. Dá uma angústia perceber que passei com você em diversas ruas e até o hospital onde você buscava a cura também foi o último lugar onde seu passo alçou voo. Mas quando fecho os olhos, as paredes do nosso território na fazenda reaparecem inteiras. Lembro-me da alquimia do tacho de cobre e da fumaça mansa que subia do fogão a lenha. Você não deixou heranças de alvenaria ou caixas pesadas para os herdeiros limparem; deixou em mim essa mania bonita de conversar com as coisas do mato e de buscar a poesia que nos salva das dores do mundo.

Há quem colecione fracassos ou amores impossíveis, suspendendo lamentos pelas esquinas dos dias. Eu escolhi colecionar a sua permanência em tudo o que escrevo. O seu voo, mãe, não me deixou vazia; converteu o meu próprio corpo em casa de memória. Cada ciclo que se renova no quintal, cada flor que desabrocha e cumpre o seu compromisso com a terra, traz um sopro da sua energia. Sigo sem me importar com o tempo dos homens e com as suas medidas exatas. Prefiro a maior precisão dos crepúsculos, quando la luz muda de tom e me avisa que nunca estamos sós enquanto houver escrita para vigiar o horizonte.

Preparo o meu chá neste amanhecer lento, enquanto os pássaros organizam os seus primeiros cantos e o sol ensaia rasgar a poeira do dia. Minha escrita atravessa a distância de mais um ano para te dizer que o chão onde finquei os meus pés continua lavado de céu. Corto o excesso das frases, limpo as frestas invisíveis da saudade e permaneço aqui, de pés descalços, honrando a árvore da qual sou galho. Que o seu voo continue alto, mãe, e que o seu rastro de luz permaneça alimentando as minhas consoantes e vogais.

Com o amor de sempre,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

Casas-Personagens e os Alicerces do Afeto

As paredes que agasalham uma vida inteira costumam aprender os sussurros de quem as habita. Quando ouço relatos sobre as acrópoles urbanas de casas-túmulos, onde fachadas imponentes viram museus vazios e pequenas construções charmosas desaparecem do mapa em uma manhã de demolição, volto os olhos para os alicerces do meu próprio território. Para mim, uma casa nunca é feita apenas de alvenaria, venezianas de madeira ou degraus de cimento; ela é um organismo vivo que acumula as tramas mambembes dos dias e guarda o eco das existências que ali fincaram pé. A minha rua tem a alma das pessoas que nela vivem. A maioria das casas não conheço por dentro, mas conheço os personagens que moram ali.

As casinhas coloridas da rua de cima trazem a sensação de interior e lembram a cidade pequena que ficava perto da fazenda onde nasci. Ali, a cumplicidade dos espaços povoados de presença tinha os nomes dos pais. Mesmo com o sobrenome sendo conhecido por todos, eu era a filha do Louro Eugênio — apelido do meu pai, que se chamava Laurindo Eugênio — e assim acontecia com cada um dos meus irmãos. Os primos, cada um era chamado como filho do João Eugênio, do Luís, do Francisco ou do Antônio Eugênio. Aqui, para além das esquinas, morou dona Iolanda. Era a cuidadora da rua; com sua vassoura feita de vassourinha, levava horas limpando de uma esquina a outra, enquanto contava as fofocas para quem demorasse um pouco mais no banquinho de cimento feito por ela mesma.

Hoje, quando observo as residências antigas que resistem ao ruído do progresso nas esquinas da cidade, sinto uma pressa mansa de decifrar os moradores invisíveis que lavaram suas roupas sob o sol e plantaram os pés de fruta que dão sombra nos fundos do quintal. A história que fica gravada na madeira e na cal é o que nos protege do esquecimento.

É um aborrecimento ver as paredes do afeto irem ao chão para virar tapume verde e placa de empreendimento moderno. O mercado imobiliário tem pressa, mas a literatura exige uma maturação lenta, um tempo de pouso onde as ruínas ganham dignidade através das palavras. Se as calçadas do concreto paulistano perdem os seus cenários para as máquinas, daqui eu sigo tecendo o meu microcosmo como uma resistência poética. Minha escrita recolhe os rascunhos dessas estruturas esquecidas e os acomoda nas páginas dos meus cadernos, onde nenhuma demolição é capaz de alcançar a alma do que foi inventado ou vivido.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Aroma da Terra e o Voo das Consoantes

Interpretar o mundo através do olfato é o modo mais antigo que a alma encontrou de fazer alquimia. Antes mesmo que os olhos decifrem a luz que muda de tom além do muro, as narinas já sabem exatamente qual história a tarde pretende nos contar. Os aromas que chegam das casas vizinhas me fazem adivinhar o que terão para o jantar. Alguém come pipoca na vizinhança. Dá para sentir o cheiro atravessando o muro. Ontem, senti o cheiro de leite fervido, e isso me trouxe memórias lá da infância: minha mãe fervia o leite até ele se transformar em doce no tacho de cobre. O cheiro da flor do girassol lembra o mel, e as fragrâncias que as flores de ora-pro-nóbis exalam fazem parecer que o meu quintal é uma perfumaria.

Aqui no meu lugar, a literatura se escreve com aromas de chão e de tempo. Há dias que cheiram ao café fresco que ferve, anunciando a pulsação do cursor na tela branca; outros trazem a urgência do vento morno que carrega a poeira fina das prateleiras, lembrando-nos de que o inverno finalmente vai recolher suas malas. Mas o meu aroma favorito — aquele que rasga a pele e me devolve à dignidade da infância descalça na fazenda — é o petricor. O perfume da terra sendo tocada pela primeira chuva como se fosse uma carícia é um abalo sensorial que nenhuma enciclopédia consegue traduzir. É o cheiro do próprio recomeço.

Acho bonita a sabedoria de quem folheia um livro antigo apenas para aspirar o cheiro da cola e do papel guardado, resgatando receitas de bolo e tardes de sábado que adormeceram nas páginas. Quando cato ervas frescas no quintal para o chá das horas ímpares, o perfume que fica impregnado nos meus dedos é o mesmo que me conectava à floresta da Bá. A natureza opera nesse sutil banquete: entrega-nos a fragrância exata de que precisamos para que a palavra rompa o papel com a força de uma semente que acordou.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros organizam seus chilreios no telhado vizinho e os grilos começam o seu compasso, deixo que os perfumes do dia se acomodem na madeira da mesa. Escrever, afinal, é o nosso jeito de colocar frascos invisíveis de memória nas missivas que enviamos ao tempo. Não precisamos decifrar a química dos encontros; o aroma do perfume Rhea — que infelizmente não é mais fabricado — atiça minhas memórias afetivas. Explicar os cheiros que invadem o meu microcosmo é uma viagem que a lembrança trata de acompanhar. O cheiro do seu pão e do bolo de fubá me leva para o bairro da Liberdade e o aconchego de sua cozinha. Se eu fechar os olhos, me vejo ali, ouvindo Carly Simon enquanto você lida com as letras da página impressa e as fitas de cetim. Acho que é nesse momento que meu quintal atravessa o seu na essência do afeto.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Altar de Ouro e as Árvores que nos Guardam

Há árvores que funcionam como verdadeiras sentinelas do nosso destino. Ouço relatos de vidas costuradas pela sombra perfumada das jabuticabeiras, acompanhando mudanças e florescendo em quintais antes esquecidos, e imediatamente olho para os guardiões do meu próprio chão. Aqui no meu lugar, as boas-vindas da nova estação não chegam com o negrume dos pequenos frutos colados ao tronco — o pé que tenho aqui ainda está em fase de bebê, com folhas tenras, coloridas e miúdas que crescem tão devagar que já ameacei arrancá-lo várias vezes —; chegam com a explosão silenciosa e urgente do ipê amarelo. É ele quem me avisa que, apesar da bruteza do inverno e da poeira que insiste em cobrir a madeira, a terra nunca esquece o seu compromisso com a beleza.

O ipê ensaia o seu espetáculo na fresta dos dias secos. Olhar para os galhos que pareciam sem vida e, de repente, flagrar os primeiros salpicos de ouro rasgando o azul do céu é um abalo agradável que repercute por dentro do peito. Assim como as estações afetam o corpo e mudam o rumo da escrita, a floração do ipê altera a minha própria geografia interna. Ele exige atenção. Obriga-me a esticar os braços, a erguer os olhos além do quadrante do muro e a agradecer pela permanência das coisas que fincam raízes. Enquanto o vento morno balança suas copas, sinto um arrepio na pele que é, no fundo, a caligrafia da própria primavera se anunciando.

Acho bonita a fidelidade de quem acompanha o crescimento de uma árvore ao longo de uma vida, tratando-a como cúmplice de romances escritos e cafés tomados na proximidade de suas folhas. Minhas cumplicidades com o mato são feitas desses reencontros anuais, onde o amarelo cai com aquela leveza de quem tem medo de tocar o chão, cobrindo a terra úmida com um tapete sagrado. Não precisamos mudar de cenário para entender o milagre da renovação; basta sabermos cuidar do pedaço de chão que nos foi confiado, seja limpando as folhas secas ou observando os seres alados que fazem dali o seu porto seguro.

Ao final da manhã, quando a luz solar doura a copa do meu guardião e o Yoshi se ajeita na sua cadeira, percebo que cada quintal tem a árvore que merece. Eu sou feita de sol e terra, abençoada pelo ouro que brota do galho seco. Olho para o alto, respiro o ar lavado e deixo que o amarelo me guie pelos próximos começos.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

Os Horizontes da Janela e as Árvores da Infância

Minha paixão por horizontes também começou na infância, vivida com os pés descalços na fazenda. Meu território de desbravamento misturava os galhos firmes das árvores e as telhas; mas vim me aventurar nelas apenas aqui, em Cuiabá. Lá na fazenda, a casa era forrada com palhas de babaçu, e os morros da colina da cruz me davam um horizonte inteiro para espiar. Os olhos campeavam onde o gado estava, se o carteiro já vinha vindo nos dias de quinta com sua bicicleta amarela e, se eu fosse um pouquinho mais para a direita, dava para ver o meu pai na lida da roça. Já aqui no meu lugar, eu subia para alcançar o infinito do meu próprio quintal. Minhas fugas planejadas eram para ver o sol se escondendo ou nascendo, trazendo as pinceladas do dia antes de chegarem ao quadrante do meu muro.

Crescer com o olhar solto no campo ensina que a liberdade é feita tanto de voo quanto de frestas. A janela sempre foi uma moldura para o tempo. Hoje, quando o primeiro sopro de vento morno bate no vidro anunciando que o clima aqui no meu lugar está mudando de tom, sou transportada para aquelas tardes em que eu listava o mundo além da rua de cima. Eu também tinha meus livros e cadernos guardados como tesouros, e lia nas alturas, dividindo os galhos e os telhados com o vento, sabendo que a natureza ao redor compreendia cada verso silencioso.

Acho bonita a sabedoria dos adultos que facilitam os caminhos da nossa audácia em vez de podá-la. Na minha infância, a cumplicidade vinha do silêncio dos mais velhos, que sabiam exatamente em qual copa ou cumeeira eu estava escondida, mas fingiam procurar-me apenas para manter vivo o mistério da minha própria fuga. Eles entendiam que o desejo de descobrir o mundo nasce desse espaço sagrado onde ninguém nos alcança. E quando o dia findava, o mistério da volta também se cumpria em silêncio: eu descia com os joelhos ralados, as mãos sujas de seiva e a alma lavada de céu. A bússola dos meus pais era meu irmão mais velho, que me seguia de longe, com um capim no canto da boca, como se estivesse entediado — e na maioria das vezes estava mesmo —, porque preferia a brincadeira dos meninos simulando treinar os cavalos mansos a “vigiar a irmã do meio que gostava de conversar com as coisas do mato”.

Agora, na quietude da casa, abro as frestas da janela para deixar o vento da nova estação entrar. Não sou mais a menina que se escondia lá no alto, mas sigo tramando novos começos a cada página em branco. Escrever, afinal, é a nossa forma mais bonita de continuar desbravando os cantos do tempo. Acho que eu espiaria o mar e os navios também, se morasse perto dele, mas daqui, eu sigo acompanhando o balanço das asas e o sopro morno que agita as folhas do meu próprio chão.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Fermento do Tempo e as Chuvas do Caju.

Há uma alquimia muito secreta no modo como o passado se transforma em alimento dentro da gente. Quando ouço histórias de cozinhas, com cheiro de trigo chovendo em tigelas de louça e pães assados no calor do verão, sou imediatamente transportada para o meu próprio templo de começos. Na minha memória de infância, o frescor não vinha da farinha amassada pelas mãos dos antigos, mas do cheiro de terra molhada que subia do chão logo após a primeira chuva do cadju. Era ali que o ano de fato recomeçava. As estações se refaziam e o forno ganhava utilidade. Mas os pães de outrora aconteciam pelas mãos de minha mãe e da minha bá. Pães feitos no forno a lenha, com a massa de puba que fazia a nossa festa.

Crescer com os pés na terra me ensinou que não precisamos de receitas rígidas para entender os ciclos da vida. A natureza, assim como as cozinhas de família, opera por intuição. Olho para o meu quintal hoje e percebo que escrever é um ato muito parecido com o de assar um pão: misturamos um punhado de frestas de sol, duas colheres de saudades mansas, o pulsar do relógio na parede da cozinha que guardamos no peito e deixamos a massa descansar na penumbra da gaveta até que ela dobre de tamanho. O tempo é o fermento invisível da nossa história.

Quando cresci, o pão de puba ficou na memória. Outros pães vieram fazer parte da minha vida, mas ver a Lunna preparar a massa e o cheiro invadir um edifício inteiro em São Paulo me mostrou que a poesia acontecia em 3d. Aquela imagem nunca mais saiu das minhas lembranças. Dizem que as estações aprisionam as melhores recordações, mas aqui no calor do meu lugar, o recomeço tem a ver com a espera. Espera pelas nuvens que desenham promessas no céu, pelo amadurecimento dos frutos no pé, pela coragem de virar a página e inaugurar uma nova estação. Quando resgatamos os gestos daqueles que vieram antes de nós — seja sovando a massa com sentimento ou tecendo palavras em uma tela em branco —, nós reabrimos as janelas da alma. É um sopro de ar puro que afasta a poeira dos dias antigos.

Ao final da tarde, enquanto coloco o café para passar e espio os pássaros disputando os galhos secos lá fora, sinto que o mistério está renovado. O passado e o presente se misturam na fumaça quente que sobe da xícara. Não há solidão possível para quem traz o quintal povoado de heranças. A terra desperta, a memória ferve e, em cada linha que escrevo, saboreio a certeza de que a vida sempre encontra um jeito bonito de recomeçar.

Aqui, a expectativa finalmente se fez presença: eis que desceu a bendita chuva do cadju — com a pronúncia assim mesmo, igualzinha à escrita pelo linguajar cuiabano. A terra, que antes parecia fingir que nada recebia, agora bebeu com vontade a água do céu, e o cheiro de poeira lavada trouxe o aviso de que a doçura dos frutos novos finalmente vai chegar no tempo certo. Alguém assa pão na redondeza. E as minhas memórias são imediatamente ativadas pelo olfato, misturadas ao perfume da terra molhada. Deixo que o pão asse na cozinha dos outros. No meu canto, eu cultivo as lembranças, a saudade e o frescor desse chão renascido.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

O Chão que Reivindica o Pouso.

Ao longo deste mês, a convite da Scenarium Livros Artesanais, participo do projeto Primavera Literária Os textos publicados aqui serão travessias diárias; respostas sensíveis e diálogos de quintal com a escrita de Lunna Guedes.

O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.
O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.

Você pergunta onde pousa Setembro, enquanto eu ainda tento decifrar o mistério de como a terra sabe a hora exata de acordar. Olho para o calendário que você mencionou — esse arranjo gregoriano que empurrou o Septem para o nono lugar — e percebo que, embora os homens tenham bagunçado as gavetas do tempo, a natureza ignora a contagem dos Césares. Para o chão que pisamos, Setembro nunca deixou de ser o começo. De repente, me vem à memória você desenhando as letras a grafite no papel, rabiscando os contornos de ontem, enquanto tocava Pink no repeat. Parece que foi ontem, mas já se vão vários ontens dentro de hoje.

Septem: as linhas do tempo rabiscadas a grafite no papel.

Você fala da ventania que arrancou as flores dos ipês em Agosto, como se o inverno estivesse com pressa de recolher suas malas. Aqui no meu quintal, eu brinco de amarelinha com essas mesmas flores amarelas que caem; uma leveza tão bonita, que parece que elas têm medo de tocar o chão. A paisagem não muda num estalo de dedos; ela ensaia. Há um silêncio grávido nos galhos secos, uma teimosia secreta sob a terra que, mesmo quando a gente dá água para elas, parece fingir que nada foi feito. Ela guarda o segredo para si.

Se você ainda não abandonou Agosto e se agarra aos ponteiros da realidade, eu me pego observando as frestas. Há várias delas por todo canto. Uma telha fora do lugar abre um pequeno clarão de sol na cozinha, bem rente aonde a Lolla costumava se deitar. Parece-me, às vezes, que ela ainda está ali. Para não pisar na ausência, dou um salto no espaço e me lembro, de novo, da amarelinha que desenhei no chão em uma tarde morna, sem nada para fazer. Pisando descalça de casa em casa, do um ao oito. O giz acabou na oitava casa e não cheguei ao céu.

Escrever é um modo de cavar o tempo. Enquanto você finalizava seu romance no pulsar do cuore, eu espiava a linha certa do meu bordado. Todos os dias olho para o céu, procurando por nuvens que finalmente trarão as chuvas. A expectativa de ver a paisagem mudar é, no fundo, a expectativa de mudarmos nós mesmos. Queremos que a primavera nos justifique. Mas, muitas vezes, aqui no meu lugar é primavera todo dia; a terra desperta as flores que plantei alheia a qualquer estação.

Não sei se pulamos a amarelinha do tempo ou se caminhamos arrastando os pés na poeira dos meses passados. Mas sei que Setembro não espera estarmos prontas para pousar. Ele simplesmente brota. O despertar da terra é um chamado bruto e delicado: a vida exige passagem.

Vamos virar a página. O chão do quintal já está pronto para o seu pouso.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

BEDA #27 – O voo: O Bordado Invisível do Tempo.

BEDA #27 – Uma resposta sobre rituais, receitas de bolo e o ritmo dos nossos dias.
Fotografia artística em plano detalhado mostrando uma borboleta da espécie Callicore, com asas pretas, vermelhas e amarelas, pousada sobre o tecido de uma calça jeans azul, bem ao lado de um detalhado ramo de flores coloridas bordadas à mão.

Nos últimos anos a nossa rotina se mantém a mesma: depois do passeio com os dogs — o meu aqui e o seu aí —, e até antes disso, a gente conversa. Brincamos que falamos de tudo. Desde os assuntos do momento, novelas, memes, aves, frutas, artes, música e bobagens… É como se fosse mesmo um ritual para eu começar o meu dia.

Hoje coloquei a água no fogo por aqui também. Fiz o chá azul de que você gosta e, quando a xícara esvaziou, a farfalla — como você diz — chegou e pousou na minha perna. Isso tem sido rotineiro aqui nas manhãs. Elas pousam e, depois de um tempo, alçam voo quintal afora, de flor em flor. Acontece também com os pássaros, insetos e outros bichos. Acredito que é na repetição sagrada dos pequenos gestos diários que a alma encontra chão para descansar. Chamar esses movimentos de rituais muda tudo: o som rouco da sua cafeteira, o sabiá laranjeira cantando por aqui, o perfume do café invadindo a casa e o sol mudando de lugar na parede deixam de ser obrigações e viram poesia pura. Entender e aceitar o ritmo do próprio cuore e dos passos é a maior sabedoria que a gente pode herdar da infância. Dividir isso com você tem sido prazeroso, confortante e feliz.

Conheço a sua cartografia dos bolos. O de fubá — que eu amo e conheço tão bem — é o causador da minha saudade de bolo. O de paçoquinha consegue ser sensorial, e o de laranja guarda a memória dos seus primeiros dias em São Paulo, batidos na vasilha nas noites de quinta-feira como quem tenta dar liga à própria vida. Daqui do meu lugar, eu te entendo perfeitamente. Para quem escreve, a rotina não nos tranca; ela nos liberta. É o porto seguro que nos permite abrir as asas e voar na contramão de um mundo que vive sem respiração prévia. Mudar o dia do bolo é a nossa única transgressão possível. Eu bordo os tecidos aqui, e você costura com fitas de cetim as páginas dos livros.

No fim das contas, a nossa escrita também é esse bordado invisível que o tempo faz na pele-alma. Se o mundo lá fora se contorce com a pressa, a gente senta à mesa, degusta nossas pessoas-personagens e saboreia cada pequeno gole de permanência. O voo só é bonito porque a gente sabe exatamente onde fica o ninho.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #26 – O voo: A cidade que nasce da escrita

Lunna,
eu poderia dizer que escrevo essa missiva — como você gosta de chamar — para a Scenarium. Poderia também endereçá-la para você e para o Marco. Hoje é dia da Scenarium e abro o meu baú de memórias com uma xícara de café em mãos, enquanto percorro a geografia da cidade que nasceu da minha escrita. Enquanto você cita Cartagena, eu cito os caminhos e as ruas que a Scenarium me permitiu e me permite percorrer. Você tem toda razão: um lugar só ganha alma e se transforma em cidade quando passa pelo filtro das nossas narrativas mais agudas e lineares. Comigo, o seu filtro me guiou como se traçasse um mapa, e fui seguindo por ele, fazendo-me escritora.

A cada livro publicado, a poesia ganhou formas entre as minhas palavras e a sua edição. Eu encontrei o meu verdadeiro solo literário em um cenário muito específico, que hoje celebra o seu aniversário: a Scenarium. Foi ela a cidade que me acolheu quando eu ainda guardava minhas primeiras linhas em um baú; o lugar que abriu as portas para as minhas palavras e ideias, transformando rascunhos em livros palpáveis e cheios de alma. A Scenarium não apenas emoldurou a escritora que sou, mas pavimentou as minhas ruas internas com um afeto que vai muito além das letras e dos papéis. É ali, naquele fazer artesanal e cúmplice, que dou o meu primeiro movimento em direção ao sol.

E não foi só em relação à escrita que a Scenarium passou a fazer parte de mim. Atrás da editora, havia duas pessoas que estavam sempre de mãos estendidas, funcionando como setas para que eu escolhesse o melhor caminho, dando-me direções, evitando que eu tropeçasse e servindo de conforto nos momentos mais difíceis. Hoje, falta o Marco e a sua gargalhada estrondosa — esse signore gentil que distribuía sorrisos e afetos.

Se a Scenarium se transformou na minha “cidade”, é porque o afeto me moldou na pessoa que sou dentro da escrita. Cheguei simplesmente uma crisálida e fui me transformando aos poucos na mulher que voa e alcança pessoas para além das minhas palavras. Ver a arte sendo espalhada entre fitas, papel e letras, com a leveza de quem entrega momentos, nos faz perceber que quem recebe o pacote contendo um livro em mãos apenas se oferece como pouso para esse nosso encanto em voos.

Parabéns à Scenarium por ser o nosso porto seguro e o ponto de partida para tantas asas.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia