Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #26 – O voo: A cidade que nasce da escrita

Lunna,
eu poderia dizer que escrevo essa missiva — como você gosta de chamar — para a Scenarium. Poderia também endereçá-la para você e para o Marco. Hoje é dia da Scenarium e abro o meu baú de memórias com uma xícara de café em mãos, enquanto percorro a geografia da cidade que nasceu da minha escrita. Enquanto você cita Cartagena, eu cito os caminhos e as ruas que a Scenarium me permitiu e me permite percorrer. Você tem toda razão: um lugar só ganha alma e se transforma em cidade quando passa pelo filtro das nossas narrativas mais agudas e lineares. Comigo, o seu filtro me guiou como se traçasse um mapa, e fui seguindo por ele, fazendo-me escritora.

A cada livro publicado, a poesia ganhou formas entre as minhas palavras e a sua edição. Eu encontrei o meu verdadeiro solo literário em um cenário muito específico, que hoje celebra o seu aniversário: a Scenarium. Foi ela a cidade que me acolheu quando eu ainda guardava minhas primeiras linhas em um baú; o lugar que abriu as portas para as minhas palavras e ideias, transformando rascunhos em livros palpáveis e cheios de alma. A Scenarium não apenas emoldurou a escritora que sou, mas pavimentou as minhas ruas internas com um afeto que vai muito além das letras e dos papéis. É ali, naquele fazer artesanal e cúmplice, que dou o meu primeiro movimento em direção ao sol.

E não foi só em relação à escrita que a Scenarium passou a fazer parte de mim. Atrás da editora, havia duas pessoas que estavam sempre de mãos estendidas, funcionando como setas para que eu escolhesse o melhor caminho, dando-me direções, evitando que eu tropeçasse e servindo de conforto nos momentos mais difíceis. Hoje, falta o Marco e a sua gargalhada estrondosa — esse signore gentil que distribuía sorrisos e afetos.

Se a Scenarium se transformou na minha “cidade”, é porque o afeto me moldou na pessoa que sou dentro da escrita. Cheguei simplesmente uma crisálida e fui me transformando aos poucos na mulher que voa e alcança pessoas para além das minhas palavras. Ver a arte sendo espalhada entre fitas, papel e letras, com a leveza de quem entrega momentos, nos faz perceber que quem recebe o pacote contendo um livro em mãos apenas se oferece como pouso para esse nosso encanto em voos.

Parabéns à Scenarium por ser o nosso porto seguro e o ponto de partida para tantas asas.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #24 – A ruptura: A Costura do Que se Parte

Bambina mia,

Cuiabá é a capital da arte sacra. Não sei quem deu essa nomenclatura, mas o fato é que em cada rua no Centro Histórico há pequenas oficinas e salões onde são fabricadas essas artes. Os santos são variados e a fé também. Há quem tenha três ou mais santos ou santas para devoção. No corredor paralelo à rádio onde eu trabalhava funcionava o Museu de Arte Sacra, cujo acervo é composto por peças setecentistas. Hoje, por conta do mau estado do telhado, ele foi transferido para o Palácio da Instrução, no Centro.

O cuiabano é devoto por natureza e os artistas e artesãos, em sua maioria, têm um santo favorito para reproduzir. Um deles, e talvez o principal, seja São Benedito, ou Ditinho, ditando uma intimidade maior entre o santo e o devoto. É comum nos ateliês ver os santos expostos e toda espécie de arte sacra para venda.

Ler a sua caminhada atrás daquela signora com o São Francisco partido nos braços me fez pensar em como o divino afeta o povo de uma cidade inteira, claro que com algumas exceções. Há uma devoção muito bonita e quase secreta nos pequenos detalhes do cotidiano. Aquela mulher segurando a peça avariada como se fosse o próprio coração mostra o quanto nos apegamos às nossas primeiras versões e o quanto dói aceitar que nada volta a ser exatamente igual. O artesão da lona azul foi de uma sabedoria imensa: o que é feito à mão nunca se repete. Parecido, talvez. Igual, jamais. Acontece comigo quando faço meus artesanatos aqui. A comparação é diferente, mas quando um bordado tem de ser desmanchado por algum erro em um ponto, é difícil ficar igual. Melhor começar todo o trabalho de novo e seguir em frente.

Achei fantástica a sua observação sobre o olhar das estátuas. Escolher o São Francisco que ficou — aquele com os olhos voltados para o chão — é a tradução perfeita do que fazemos quando escrevemos. A santidade da escrita não está em olhar para o céu em busca de milagres abstratos, mas sim em curvar os olhos para a terra, para os bichos, para o rastro de saudade nas calçadas e para a humanidade que pulsa nas imperfeições. A beleza do trabalho artesanal, seja no barro ou nas palavras, mora justamente nessa incapacidade de ser cópia. Cada rascunho que a gente liberta é único.

No final das contas, o instante exato da libertação acontece quando aceitamos levar a peça nova, mesmo com o lamento do que ficou para trás. Seguimos valorizando os contornos feitos à mão e moldando as nossas próprias páginas, detalhe por detalhe, como se estivéssemos bordando histórias.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #21 – A ruptura: Quando as Paredes Viram Vento

Fotografia noturna em plano fechado da fachada de um casarão antigo em ruínas, exibindo duas janelas coloniais com venezianas de madeira desgastadas e uma coluna central de tijolos maciços expostos sob o reboco descascado.

O consultório da minha terapeuta ficava no Centro Histórico, em uma rua estreita com casarões antigos, a maioria tombada pelo patrimônio histórico. Feitos de adobe, com suas estruturas datadas do século passado, eles exibem fachadas em azulejos com as iniciais do dono ou de sua família, em grande parte tradicionais e relacionados à cultura cuiabana. Mas os casarões começaram a ruir e a se deteriorar por falta de manutenção, o que gerou a mudança do consultório para outro ponto.

As ruas com os nomes de Rua do Meio, Rua de Baixo e Rua de Cima são compostas de casas antigas e grande parte faz parte de disputas de herança, inventários ou vendas ilegais. É por elas que passo quando tenho sessões agendadas. Na última vez, muitas das casas pareciam saídas de um filme: desmanchavam ao menor toque. Paredes caídas sobre as calçadas, enquanto outras eram tapadas com placas ou tapumes.

Caminhar pelas calçadas e assistir aos cenários conhecidos virando poeira é uma das formas mais dolorosas de ruptura com o ontem. Ali, o tempo não pede licença e nem respeita as geografias do afeto. Lembrei-me uma tela de Hopper ao avistar uma mulher na janela de uma das casas que teima em ficar em pé, com suas cortinas de renda denunciando que mora alguém ali. Lembrei-me da carta que escrevi a Hopper, porque senti a solidão naquela janela entreaberta, mesmo com aquela mulher de olhar vazio mostrando presença.

Pensei no artista que sabia, como ninguém, pintar o isolamento e a alienação das cidades que crescem sem alma. Olhar aquele velho casarão com suas paredes “derretendo” e o portão ao lado entreaberto me trazia a sensação de olhar para meia casa. Não havia barulho de crianças, nem de cachorros ou gatos. Apenas o olhar triste da senhora e sua cortina de renda dançante, como se estivesse agarrada à única esperança de que as paredes não fossem ao chão. Imaginei a sala, as cadeiras de espaldar reto e um piano velho no canto, sem melodia nenhuma em suas teclas.

Acho fascinante como você encontra as casas dos seus personagens nas colisões inesperadas das suas caminhadas — como a da Alice ou o prédio da Raíssa no pós-CCBB. Para quem escreve, as casas nunca são apenas tijolos; são extensões da pele-alma dos personagens. Ver um teto ser devorado por cupins ou substituído por andares fantasmagóricos nos obriga a transformar a própria escrita em um arquivo histórico dessas ruínas ocupadas pelo mato, onde o ontem e o hoje insistem em se dissolver.

As fronteiras do mundo físico podem até cair sob as placas de demolição — no caso dos casarões daqui, há um projeto que nunca sai do papel —, enquanto a senhora quase não aparece mais na janela quando passo por lá. Mas a primeira lufada de ar puro vem quando percebemos que, nas nossas páginas, o passado permanece intacto. Seguimos fotografando os escombros do tempo e reconstruindo nossos próprios tetos, linha por linha, em paredes que atravessam nossos quintais.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #17 – A ruptura: O Desenho das Nossas Penumbras

Bambina mia,

Fazia dias que eu não bebia o ristretto, mas dizem que haverá chuva de estrelas. Então, liguei a cafeteira e, com a xícara em mãos, sentei-me no quintal para acompanhar o céu. Isso me fez lembrar de tantas coisas… Ler a sua missiva na calada da noite me fez caminhar pelas sombras que você tão bem sabe habitar. Há um fascínio quase sagrado no breu. Houve noites em que consegui visualizar imagens no muro: com as folhas do ipê caindo, os galhos formam figuras estranhas no chão que, em alguns momentos, parecem dançar de mãos dadas.

O escuro sempre me fascinou. Talvez porque, na fazenda, as estrelas chegavam bem perto da terra, ou os arbustos para além da estradinha serviam de ajuda ao meu pai para criar as histórias que ele adorava contar. Quando as luzes das casas daqui são desligadas, o quintal muda de configuração e um morcego aparece — o que causa pavor no moço daqui, que usa todas as expressões de “benza Deus”, enquanto o bichinho só quer beber a água açucarada do bebedouro do Chiquinho, meu beija-flor. Isso atiça meu modo escritora em muitas madrugadas.

Eu vi uma mísera estrela cadente e confundi muitas outras com satélites… mas desenhei o Caminho de Santiago com os dedos no ar, rindo ao lembrar daquela lenda de infância que diz que, se apontarmos o dedo para uma estrela, nascem verrugas na mão. Lembrei-me também do cemitério que ficava na rua à frente da rádio em que trabalhei. Costumava brincar com minha irmã, que ficava morrendo de medo dos meus plantões noturnos e dos meus almoços diários por lá. O Seu Lino dividia a marmita dele comigo, e quando eu contava para ela alguma história ligada ao cemitério, ela tapava os ouvidos. Nunca entendi esse medo, mas me divertia assustá-la às vezes.

E a imagem de você, menina, assistindo ao amanhecer sentada no telhado — arriscando o próprio corpo para tocar o céu antes de ganhar uma caneca de leite caramelado —, me fez olhar para o alto. Certas coisas pertencem mesmo à infância, mas o desejo de escalar o invisível continua tatuado em você. O velho relógio que bate as badaladas do passado aí também ecoa do lado de cá. As sombras nas rachaduras que marcam o chão do meu lugar formam desenhos que tento adivinhar o que significam. São as marcas das minhas histórias por aqui. Quase hora de ir para dentro; o Yoshi já me chamou algumas vezes.

O “dia seguinte” sempre chega com sua hora de ouro, mas é na magia das sombras que a gente se reconhece e se desmancha para criar novos formatos. Agosto é esse mês que amarela o quintal com as flores do ipê e deixa tudo em breu quando a noite cai. Não importa se de manhã, dentro do crepúsculo, ou se de noite, dentro do breu: nossas esquinas sempre se cruzam e se encontram.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #16 – A mutação: Esquinas Pavimentadas com Bolo

Bia,

Fiquei sabendo do seu último voo ontem e nem era outono… senti pena de não ser outono e imaginei você pisando as folhas rua afora. Você adorava o castanho das coisas e de sorrir. Lembrei-me de quando a gente se conheceu há mais de 30 anos no ponto de ônibus. Falamos sobre o tempo e você falou sobre bolos, principalmente o de abacaxi que você tanto gostava.

Eu confesso que nunca conheci alguém com o riso tão fácil e tão cativante. E era entre risos que você dizia que regava a vida com chás e pavimentava as esquinas com bolo. As pessoas te conheciam pela delicadeza das mãos em fazer os bolos para festas. E das várias vezes que nos encontramos lá ia você com sua caixa de bolo pronto para entrega.

Eu também sabia fazer o bolo de abacaxi que você gostava e, na última vez que nos demoramos em abraços, você pediu a receita. E lá fomos fazer o bolo — eu, uma simples dona de casa, fazendo bolo para uma profissional dele — entre risos e chá. Você descobriu o segredo da fofura e se espantou com uma receita sem medidas. Era o segredo que te contei dias antes de você ir.

Queria te contar que a leveza com que você me ofertou a amizade ficará em mim como a forma do amor mais simples. Embora seu quintal tivesse as mesmas flores que o meu, as borboletas voavam diferentes por lá quando passei em frente. Um cheiro de saudade já se esparramava na rua inteira e eu apenas te agradeci por ter enfeitado a vida de tanta gente com a docilidade que só seu abraço tinha.

Com carinho,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #10 – A Mutação: O que dói deixar de ser?

Bambina mia,

Ao ler sua missiva em um desses dias em que o tempo parece insistir em olhar para trás, foi como ver um filme sobre minha infância. Assim como você roubava os biscoitos da nonna – e mais uma vez nossas histórias se cruzarem como se fossem cúmplices me fez sorrir – eu também ajudava meus irmãos a roubar os biscoitos, que ficavam em latas no lugar mais alto da prateleira e sabendo disso, minha mãe dividia vários biscoitos em latas para sempre termos biscoitos.

Também tive mesa cheia em agostos passados e os domingos eram uma algazarra para quem teve seis irmãos. Acho que nunca vou esquecer o sabor da macarronada com queijo de minha mãe, os causos do meu pai e os vizinhos que se juntavam a nós. Aqueles dias pareciam que iam durar para sempre. O melhor vestido, o caderno de poesia para declamar, o queijo derretido em cima do prato esmaltado e as conversas atropelando todo mundo num converseiro sem fim.

A história do seu primo que se tornou um especialista em passos me tocou de perto. Afinal, mudar de caminho exige a coragem exata de se desmanchar por dentro. Dói deixar de ser o que os outros esperam de nós — engenheiros, psicanalistas, ou qualquer molde rígido em que tentaram nos encaixar. Você trocou a psicanálise pelo universo ficcional e eu, agradeço o universo por isso. A gente nem sabia, mas essa sua escolha lá atrás foi o que nos levou a nos encontrarmos tempos depois e nossos passos se encaixarem nos caminhos. A gente nem imagina o quanto de nós fica nas rotas e o que o universo nos reserva durante esse caminhar.

Hoje, meus domingos são feitos de silêncios e canções. Em alguns, eu fico sozinha – e adoro isso – e confesso que a mesa ainda parece pequena, às vezes, para tantas memórias. Prefiro a quietude dos dias que são apenas meus, onde o único ruído em alguns dias é o farfalhar das folhas e o canto das aves pelo quintal.

Às vezes, a solidão escolhida também é uma forma de preservação. Às vezes, o que dói deixar de ser é apenas o cenário que já não nos cabe mais. Quando é assim, o melhor jeito é nos cuidarmos.

Cuidar de si, em silêncio, também é um banquete.

Bacio,

Mariana Gouveia

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BEDA #9 – A Mutação: O avesso que herdei de você.

pai,

Hoje o calendário diz que é o teu dia, mas aqui dentro a vida exige o avesso. Dizem que há muitas fases para o luto, pai; a falta de uma pessoa que se foi provoca muitas mudanças nos anos que se seguem e descobri que mudar é um processo invisível e doloroso. Para que o voo aconteça amanhã, é preciso desmanchar-se por dentro hoje, recompor as certezas e aceitar a perda da antiga forma.

Dói deixar de ser o que eu era. Antes, eu era a filha; hoje, sou órfã. Mas, enquanto me desmonto no escuro desse processo, é a tua força que me sustenta. Olho para as minhas mãos e reconheço nelas os teus traços, a tua teimosia bonita e a herança da tua firmeza. As coisas de que você gostava passam a fazer parte das lembranças e, em diálogos com meus irmãos, é comum repetir: meu pai gostava disso. Cada um reage diferente à tua falta, cada um repete em gestos os teus gostos.

Neste domingo de sol forte, recolho os meus pedaços sabendo que herdei de você a coragem de enfrentar os próprios desertos. Bebo meu café pensando no teu abraço. Sigo daqui, sangrando as asas no silêncio, mas pronta para o tamanho do mundo que me espera.

Feliz dia, onde quer que a tua ilha esteja!

Com todo o meu amor,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Dos sonhos de voar…

“Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda essência de amar.”

Filho,

Você se lembra de quando brincávamos de voar? Meus braços te erguiam e te levavam ao céu — como você dizia. Aquilo sempre me lembrava o verso de um poema que dizia: “O céu é o limite…”.

E quando você me perguntava sobre o que era o limite, eu repetia o que meu pai me dizia quando eu ainda era menina: o limite é como a mudança da estação. Uma não pode roubar os dias da outra. É esse limite que a gente mastiga todo dia. Um dia querendo roubar as horas do outro. O verbo rasgando dentro de outra palavra. A dureza da vida tentando, em algum momento, nos roubar a alegria. A liberdade sendo colhida dentro de alguma regra, de algum “não pode”.

Mas eu sempre te disse que você podia. Para mim, a liberdade tem a ver com o céu — ou com o mar que me emocionou quando vi a imensidão dele — e com aquele azul imenso que presenciei no meu primeiro voo de avião.

Você era o menino do meu quintal. Aquele que sempre adorou a velocidade, os voos e a rebeldia do seu signo. Você sempre foi o sol do meu quintal. Aquele espaço onde desenhamos uma pista de Fórmula 1 para você voar. E você voou. Seguiu seus próprios voos e hoje tem total autonomia neles.

Hoje não é um dia comum. É o dia em que o ano se torna especial porque você nasceu nele. Como presente, eu te ofereço esse céu dourado que desenha sombras nos quintais por onde você anda.

Aqui, o céu está limpo, com poucas nuvens. Te ofereço esse céu como forma de abraço. Quero que saiba que, depois que você chegou, eu me senti completa e finquei raízes, como as plantas que teimam em se alastrar no quintal.

O sonho revolve o mundo, e dentro de cada sonho seu cabe a certeza da minha oração. Como tudo que voa precisa de pouso, eu quero sempre ser o seu lugar de pouso. Para te dar segurança na hora certa e para segurar a sua mão quando o caminho for difícil.

Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda a essência do verbo amar. Eu te amo de um modo único e real, daqueles que nenhuma poesia consegue explicar.

Que todos os seus momentos sejam de aprendizado, de conquistas e de um eterno céu de brigadeiro para você voar.

Feliz Tudo!

Com todo o meu amor,
Sua mãe,
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Anéis de Saturno e armaduras escuras

Desde menina eu ouço a Rita. Com suas músicas, ela fez a trilha sonora de tantos momentos importantes que vivi. Através de um velho Motor Rádio, entre o meio-dia e as dezesseis horas, eu acompanhava a programação da Rádio Globo lá pelo final dos anos setenta; ouvia-a fora da zona da música sertaneja de raiz que toda a minha família gostava.

Rita me colocava em um lugar de mundo fora daquela pequena fazenda. O rock vibrava no rádio — prêmio por eu ter sido boa o suficiente nas notas da escola. Eu era a diferente no meio de minhas irmãs: a que se rebelava, a que não aceitava as imposições de uma família conservadora. Cortava os cabelos curtíssimos e grande parte dos meus irmãos me comparava a um menino. Vestia macacão, andava pelo mato e, segundo toda gente, parecia com a Elis Regina — outra diva.

Mais tarde, já na maioridade, pude pintar o cabelo de vermelho, o que durante muito tempo foi minha marca registrada. Na chegada à cidade grande, já trabalhando em uma emissora de rádio, pude explorar na discoteca física da empresa todas as canções dela, já que o rádio antigo só me permitia sintonizar algumas.

Passei a amar ainda mais a artista. Suas letras questionadoras e seu jeito camaleônico me fascinavam. Eu também não fui amiga íntima dela, mas me permiti alguns diálogos desaforados em pensamento, ou me emocionei com as entrevistas que via na TV. Com certeza, ela roubaria os anéis de Saturno e faria uma tremenda bagunça onde quer que estivesse. Seria sempre ela: a Rita.

As canções dela ainda fazem parte de minha trilha sonora por aqui e, quando o meu pensamento combina com o seu, só consigo pensar nesta música aqui.

Junho chegou ao fim… amanhã inicia-se um novo ciclo. Grazie por essa caminhada deliciosa nos dias de junho. Amo tu imenso!

Mariana Gouveia