Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #17 – A ruptura: O Desenho das Nossas Penumbras

Bambina mia,

Fazia dias que eu não bebia o ristretto, mas dizem que haverá chuva de estrelas. Então, liguei a cafeteira e, com a xícara em mãos, sentei-me no quintal para acompanhar o céu. Isso me fez lembrar de tantas coisas… Ler a sua missiva na calada da noite me fez caminhar pelas sombras que você tão bem sabe habitar. Há um fascínio quase sagrado no breu. Houve noites em que consegui visualizar imagens no muro: com as folhas do ipê caindo, os galhos formam figuras estranhas no chão que, em alguns momentos, parecem dançar de mãos dadas.

O escuro sempre me fascinou. Talvez porque, na fazenda, as estrelas chegavam bem perto da terra, ou os arbustos para além da estradinha serviam de ajuda ao meu pai para criar as histórias que ele adorava contar. Quando as luzes das casas daqui são desligadas, o quintal muda de configuração e um morcego aparece — o que causa pavor no moço daqui, que usa todas as expressões de “benza Deus”, enquanto o bichinho só quer beber a água açucarada do bebedouro do Chiquinho, meu beija-flor. Isso atiça meu modo escritora em muitas madrugadas.

Eu vi uma mísera estrela cadente e confundi muitas outras com satélites… mas desenhei o Caminho de Santiago com os dedos no ar, rindo ao lembrar daquela lenda de infância que diz que, se apontarmos o dedo para uma estrela, nascem verrugas na mão. Lembrei-me também do cemitério que ficava na rua à frente da rádio em que trabalhei. Costumava brincar com minha irmã, que ficava morrendo de medo dos meus plantões noturnos e dos meus almoços diários por lá. O Seu Lino dividia a marmita dele comigo, e quando eu contava para ela alguma história ligada ao cemitério, ela tapava os ouvidos. Nunca entendi esse medo, mas me divertia assustá-la às vezes.

E a imagem de você, menina, assistindo ao amanhecer sentada no telhado — arriscando o próprio corpo para tocar o céu antes de ganhar uma caneca de leite caramelado —, me fez olhar para o alto. Certas coisas pertencem mesmo à infância, mas o desejo de escalar o invisível continua tatuado em você. O velho relógio que bate as badaladas do passado aí também ecoa do lado de cá. As sombras nas rachaduras que marcam o chão do meu lugar formam desenhos que tento adivinhar o que significam. São as marcas das minhas histórias por aqui. Quase hora de ir para dentro; o Yoshi já me chamou algumas vezes.

O “dia seguinte” sempre chega com sua hora de ouro, mas é na magia das sombras que a gente se reconhece e se desmancha para criar novos formatos. Agosto é esse mês que amarela o quintal com as flores do ipê e deixa tudo em breu quando a noite cai. Não importa se de manhã, dentro do crepúsculo, ou se de noite, dentro do breu: nossas esquinas sempre se cruzam e se encontram.

Bacio,
Mariana Gouveia

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