Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Monocromático

Missiva em Seis Tons de Silêncio

Cuiabá, quando as sombras cobrem o quintal…
Bambina mia,

Você me falou sobre despontar do sono para o mundo partilhado, e hoje eu acordei querendo ver o dia sem o artifício das cores. No projeto deste mês, o espelho do tempo resolveu se revelar monocromático. Retirar a cor do meu quintal foi como despi-lo do presente e entregá-lo, de uma vez por todas, à memória. Deixo aqui, nesta fresta do nosso labirinto, seis fragmentos de asas e esperas. Seis mensageiros que decidiram pousar no avesso do meu dia enquanto a minha xícara de café ainda fumegava.

Olho para este pássaro aninhado no galho seco, e penso no Borges velho. Há uma sobriedade escura e atenta no seu pouso, como quem já conhece todos os cantos e prefere observar a engrenagem do tempo em silêncio. O nome dele – Encontro – me faz pensar no encontro do homem com o jovem.

Logo depois, o oposto se faz presente. Chiquinho equilibra-se no fio do varal, bem ao lado de um prendedor de roupas comum. É o kairós de que falávamos ontem: o instante mais frágil e veloz da natureza ancorado na mais pura leveza do cotidiano. A delicadeza exige uma suspensão. O novo se inventa, não é mesmo?

Mais adiante, o sabiá caminha entre os galhos e a folhagem enevoada pelo fundo sem foco. Ele parece procurar aquela menina de tranças de quem te falei, ciscando no chão de terra batida da minha infância à procura de histórias esquecidas. Você ouviu o canto dele a pouco. Acho até que ele está presente quase o tempo todo em nossas conversas aleatórias. É como se já fizesse parte de nós.

Há também a imobilidade. O bem-te-vi solitário no fio, cortando o céu cinzento como uma nota musical suspensa na partitura do horizonte, me lembrou o silêncio dos quintais e os olhares atentos para o nada. . O verdadeiro experimento acontece quando tudo silencia e a linha reta nos obriga a encarar o vazio.

E assim, a mudança do cromo justifica as cores – ou a falta delas – no quintal. Alguns dias são assim, monocromáticos. É como o outro que habita em nós: discreto, escondido nas dobras do tempo, esperando um sopro de vento para se mostrar.

Tirar as cores do quintal, bambina, me fez perceber que os pássaros e os dias mudam de poleiro, mas o fio que sustenta o pouso continua sendo o mesmo. Que esses seis fragmentos monocromáticos cheguem até o seu quintal colorido como um abraço manso.

Até a próxima esquina do tempo,
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega — Silvana Lopes



Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta ao Tempo que Cabe nos Quintais

Cuiabá, na quietude que sucede o sol…
Bambina mia,

A sua carta atravessou as distâncias e me fez, também, olhar para o avesso do espelho. Enquanto a primavera em seu lugar estica o dia e te obriga a ver a luz que você prefere esquivada, por aqui o calor da terra exige uma calmaria quase mística. Sorri ao ler sobre o seu Capitão Kirk — confesso que fui uma das que não acompanhou a série. Havia outras urgências — e o seu caderno vermelho. Toda menina que espia o horizonte inventa uma bússola de mentira para navegar em mundos de verdade.

Você mencionou Kairós, o tempo que não se mede pelas batidas duras e exatas do carrilhão da sala do nonno, mas pela intensidade com que as coisas nos afetam. Esse “bichano” de engrenagens de que você fala também habita o lado de cá do mapa. Mas se o seu Kairós se resolveu nas manhãs de sábado somando vogais e consoantes, o meu sempre foi um tempo analógico, costurado com o algodão que a minha bá passava entre os dedos e com o barulho da água fervendo antes do primeiro café.

Acho bonita a sua confissão de que modifica as memórias ao escrevê-las. Borges decerto aplaudiria esse seu rito; afinal, no banco de praça de “O Outro”, o velho e o jovem não compartilham a mesma exatidão dos fatos, mas sim a mesma névoa. Já se sentiu assim em alguns momentos? A verdade da literatura, assim como o pão da sua nonna, precisa desse tempo de descanso e fermentação para ganhar sabor. Inventar o que fomos é a única maneira honesta de compreender quem nos tornamos.

Se a sua infância tinha o cheiro dos navios chegando de outros mundos, a minha tinha os trotes dos cavalos no trabalho com o gado. Era quando o chão de terra batida se misturava aos homens que tratavam da lida. Hoje, as nossas meninas se encontram nesse “não-lugar” onde espalhamos palavras para que conheçam nossas histórias. O caderno vermelho da sua juventude e as linhas marcadas no meu tecido de tecedeira são o mesmo instrumento: a nossa tentativa de dar um rumo à agulha imantada do coração. Ora o cetim, ora a corda do laço, ora a linha de bordar. As voltas da agulha costuram momentos aqui, aí, lá…

Confesso que vi o mesmo vídeo a respeito da origem do moleskine. Fiquei pensando em como algumas coisas se entrelaçam para além das fitas de cetim e linhas. E, às vezes, o destino trança essas linhas e elas acabam se encontrando em alguma esquina. A gente sabe que, muitas vezes, não é a origem que faz a história bonita, mas o que acontece dentro da própria história. O que se desenha no caminho, os desvios, as rotas que nos levam aos quintais. Isso me faz lembrar que, não importa a distância e os fusos que vivemos, a gente sempre encontra o caminho de volta para casa.

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Carta às Linhas do Idioma Invisível

Meu caro Borges,

Nesse outubro onde vagamos por seu Outro, deparei-me com minha própria confusão, não fosse apenas por me deixar guiar pelos mapas que recebi, que me indicavam caminhos dentro da poesia ou de uma bússola imaginária. Há um norte que os mapas geográficos insistem em ignorar, mas que o peito reconhece no primeiro sopro de vento da manhã. Será que, se algum dia eu me encontrasse comigo mesma, daria sentido para a solidão dos quintais? Será que eu saberia descrever o pôr do sol e falaria dele de forma poética?

Às vezes, em alguns momentos, parece que começo a esquecer de coisas que vivi para além da rua de cima, e o que fica em mim são as memórias da infância. Alguém me disse que o que resta são os momentos felizes, mas o que é estranho é que me lembro também de episódios difíceis e que me afetaram para sempre. Uma linha contínua de momentos que repasso dentro do seu conto, como se fosse um enredo que outra pessoa viveu, e não eu.

O medo elemental do impossível me fez rir… e as linhas do idioma invisível pareceram a pipa que alguma criança da rua teima em empinar. O barulho me incomoda, e o clep clep da pipa rodopiando me faz pensar que é essa linha que me faz travar esse diálogo com você. Já te escrevi algumas cartas e as reli hoje. Em uma, eu falo sobre meu irmão e um momento delicado. Nem sei se devo esperar compaixão sua. Apenas te contei a história e, dias depois, ele se foi. Em outra, falei sobre as tardes no meu quintal e nem pensei se devia compartilhar esses momentos meus com você, como se fosse apenas a leveza de quem aprendeu a admirar o que você escreve, e não o homem que me foi apresentado. Mas, vá lá! Acho que posso fazer essa concessão.

Se todas as coisas deste mundo são palavras de um idioma misterioso que estamos sempre tentando decifrar, a minha escrita tem sido a tentativa de traduzir o silêncio. Talvez eu gostasse mais do seu outro mais novo. Me soou mais aberto ao rompante de entender aquele tempo. Os dois, no mesmo lugar, em tempos diferentes. Me sinto assim, às vezes, com uma certa bambina minha. Ainda assim, espero que o nosso norte permaneça assim: invisível aos olhos apressados, mas inteiramente nítido para quem sabe ler o avesso do tempo. Vamos aguardar os dias de outubro e, dentro de tudo que você viveu, que a gente possa resgatar o que há de melhor em você: sua escrita.

Abraço,
Mariana Gouveia

Crônicas · Das palavras das cartas · Ensaios Intimistas · Literatura · Outubro Literário

O caís do meu quintal

Bambina mia,

Peguei o mapa que sinaliza a minha cidade e as lembranças me trouxeram uma menina de tranças que sempre foram feitas pela minha bá e pela mãe. A bússola que meu pai sempre carregava no bolso fazia com que ele não perdesse o caminho – ele sempre repetia essa frase, como se com isso reafirmasse um compromisso feito em algum momento e alguns diários da infância sempre me mostram a menina que fui e se transformou na mulher que sou agora.

Arrancar a folha de setembro do calendário é sempre um rito tardio por aqui também. O moço daqui precisa de um tempo para realinhar os dias marcados para a contagem das horas extras e o dia da troca do gás. O tempo teima em se acumular nas paredes antes que tenhamos a coragem de lhe dar um novo nome. Mas agora é outubro. Um outubro-outro, como você bem disse, que chega trazendo Borges pela mão e nos sentando à mesa.

Enquanto você caminha desorientada pelas ruas de concreto de São Paulo, tentando em vão explodir o pensamento, eu me sento aqui no quintal. O café esfria no ritmo em que o dia se organiza. Olho para o horizonte que você espiava da janela com sua luneta de menina e me pergunto: onde vão parar os navios que cruzam o horizonte do nosso caderno vermelho?

A sua agulha imantada aponta para Borges; a minha, inevitavelmente, aponta para o reflexo que a sua escrita deixa no meu cais. No conto “O Outro”, as duas versões do escritor se encontram em latitudes distantes — uma em Boston, outra em Genebra —, separadas por anos de memórias e esquecimentos. Nós duas nos encontramos hoje entre a sua pressa urbana e o meu silêncio de quintal. O mar da sua infância, com o cheiro salgado e o arrulho das gaivotas, chega até aqui como um eco manso. Quase chega até mim o cheiro de maresia. Lembrei-me de que o curso do oceano nunca chega ao rio. É sempre o contrário e quando vi o mar pela primeira vez todas as coisas que você me disse sobre ele vieram como ondas em meu coração.

Você diz que falhou na missão de aprender a não-pensar. Que bom. Se o pensamento parasse, o que seria da nossa alquimia? São Paulo pode ser esse seu ponto vermelho de experimentos, mas a literatura é o mapa inteiro. É o território invisível onde a menina do telhado e a mulher que escreve hoje dividem o mesmo banco de praça. Aqui, as tranças deram lugar ao cabelo curto – embranqueceu – e quem as fazia voam em algum ponto além do que se pode ver. Mas confesso que sinto.

Que outubro seja manso, sim. Repito com você três vezes, feito desejo cigano. Mas se o desejo falhar e o mundo continuar barulhento aí fora, saiba que o lado de cá continua sendo porto. A agulha mudou de direção, o mês virou, mas a nossa linha de memória permanece intacta. Entremos, pois, no labirinto. Te dou a mão. Vem comigo?

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Literatura · Lunna Guedes

Os Envelopes de Setembro e o Sorriso Aquarelável

Setembro se despede na folha do calendário deixando na boca o gosto bom das colheitas maduras. Olhar para as trinta páginas escritas ao longo deste mês é compreender que o tempo não corre em vão quando escolhemos deixar as palavras soltas para além dos envelopes coloridos. Ouço o balanço final sobre os dias que ganharam corda rápido demais, sobre o carinho que cruzou o oceano e sobre o modo como convertemos os nossos diálogos em envelopes de afetos, e imediatamente sinto o coração pulsar na mesma frequência mansa de quem sabe que ganhou um abraço, mesmo que de longe.

Nossa literatura partilhou da mesma mesa durante estas quatro semanas de Primavera Literária. A estação e seu equinócio transformaram as palavras em brotos de flores por aí, abrindo caminhos de claridade enquanto estendíamos pontes que atravessaram estados e fusos horários. Dividir o sal com os mestres, resgatar o erotismo esquecido de Gilka ou inventar missivas fictícias para as personagens que nos habitam a derme foram rituais que reavivaram os meus próprios ontens e me devolveram à verdade do meu chão. Abri um sorriso aqui ao imaginar o seu sorriso aquarelável. Uma brisa suave soprou pelo quintal.

Quando os pássaros organizam os seus últimos sobrevoos deste mês e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, fecho este ciclo com a certeza mansa de quem soube ser árvore. Grazie, bambina, por partilhar o mar nada calmo da sua escrita com o meu quintal. O mês termina, os ponteiros se acertam, mas os laços que costuramos com o fio do afeto continuam intactos, pulsando no centro de cada linha que ainda vamos inventar. É logo ali. Outubro já é amanhã.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

A Engrenagem da Memória e as Heranças do Chão

Bambina mia,

Aconteceu um silêncio insano nessa manhã de setembro aqui, e o tique-taque do relógio da sala me fez pensar no carrilhão do tuo nonno e naquele setembro que desfez a casa. Imediatamente me pego espiando as heranças intangíveis que os meus próprios mais velhos deixaram plantadas na minha derme. Existe uma contagem de tempo que não obedece ao zunido dos relógios dos homens ou ao calendário oficial das estações. Nosso compasso mais verdadeiro é aquele que ressoa no lado de dentro, ativado pelo perfume de um cômodo antigo, pelo calor de um prato de caldo no inverno da alma ou pela silhueta de quem um dia nos ensinou a esticar os braços em direção ao invisível.

Quando você compartilha comigo a canção que está ouvindo, traz a trilha sonora para o meu quintal. Quase sempre ela me atinge na mesma emoção que a tua. E quando falamos de chás, do nonno, da nonna, da lua, é como se eu estivesse lá… Olhos vidrados nas suas histórias e momentos. As tuas memórias reavivam as minhas. Lembro-me dos rituais da fazenda, das vozes que cantavam versos prediletos na soleira e das trocas silenciosas de folhas secas que hoje repousam esquecidas no fundo dos meus volumes prediletos de poesia. Nossos livros favoritos guardam esses encontros interrompidos, essas conversas sobre autores que não houve tempo de concluir, mas que permanecem vibrando em cada página que folheamos.

Não me perco das datas de vida e morte porque sei que a literatura é o território sagrado onde os ontens colecionáveis se recusam a apagar. Uma porção de nós se despede a cada porta que se fecha e a cada plataforma de estação que se esvazia, mas a palavra escrita opera a sua própria alquimia de ressurreição. Toda vez que a saudade acena na caligrafia sutil dos dias, o cenário se reinventa com cores conhecidas, provando que nunca estamos sós enquanto houver herança de afeto para segurar o horizonte.

Nesta manhã de silêncio que só é rompido pelo tique-taque do relógio da sala e pelo chamado do bem-te-vi que pede a comida de todo dia, enquanto preparo o chá e observo a paisagem se acomodar, acolho o eco de tudo o que foi bom e permaneceu. Me junto às suas lembranças e ao seu renascimento cada vez que a palavra nonno te abraça.

Bacio
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

A Urgência das Flores e a Saudade nos Dias.

Rose,

Eu vi sua mensagem e fiquei dias pensando sobre essas coisas do tempo e a correria do dia a dia. É verdade: há uma pressa mansa nas coisas da terra que nenhuma engrenagem dos homens consegue imitar. As plantas não olham o relógio para saber a hora de romper o botão; elas simplesmente respondem a um chamado antigo, uma urgência oculta que transforma o galho seco em manifesto de cor em um piscar de olhos. Ouço os ensaios sobre a efemeridade do tempo e a necessidade de desabrochar antes que o vento da primavera mude o rumo das coisas, e imediatamente compreendo que a nossa vida é esse eterno ensaio de urgências guardadas.

O domingo passa por aqui desenhando sombras compridas nas paredes e lembrando que as horas são feitas de fumaça. Se o mundo corre para acumular certezas, a maturidade me ensina a saborear os minutos como quem bebe um café morno, sem a obrigação de dar respostas aos ruídos lá fora. A efemeridade não me assusta; ela me encanta. Saber que a beleza de uma pétala de ipê reside justamente no fato de que ela vai cair e virar tapete na terra é o que dá dignidade ao ciclo. O tempo passa rápido, sim, mas deixa os nossos ontens assentados com firmeza na memória.

A nossa caligrafia também carrega essa urgência bonita de florescer. Escrever é o jeito que encontramos de prender o instante fugaz na página impressa, transformando o sopro do vento em narrativa viva. O sabiá aqui amanheceu cantando. Costumo dizer que ele pede chuva com seu canto dolente. É quase poesia, Rose, e ela acontece no recolhimento manso, na curva de uma consoante que soube reter o impacto de um afeto ou no chilreio do pássaro que anuncia que o dia cumpriu o seu compromisso com a harmonia.

Fui contar os dias que a gente não se vê e desisti no meio do calendário. A gente não precisa deles. Foi como eu disse para você: mesmo que a gente demore para se ver, quando isso acontecer de novo, será sempre como se tivéssemos nos visto há pouco. O que eu sei é que, mesmo de longe, te acalento no meu coração e sei que há momentos em que é hora de acolher o silêncio que se instala na casa. Mas, quando penso em você, é a sua risada que vem na minha memória primeiro. Venha logo, já estou pronta para o abraço.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

A Colecionadora de Ontens e o voo de despedida

Mãe,

Mãe,

Hoje completam-se quarenta e quatro anos desde o dia em que você decidiu virar passarinho e migrar para além do horizonte. Setembro sempre me devolve a essa contagem mansa de tempo, uma matemática de ausência que aprendi a domesticar através da caligrafia do afeto. Ouço os relatos sobre as pessoas que acumulam casas por cinquenta anos e empilham objetos em gavetas, e imediatamente olho para as minhas próprias mãos: não herdei a capacidade de acumular moedas ou selos, mas guardo um sem-fim de palavras e um baú repleto de ontens que divido com o silêncio do meu lugar.

Ao caminhar pelas ruas, às vezes me pego repetindo aquele velho costume de conferir se as silhuetas antigas continuam onde deveriam estar. Dá uma angústia perceber que passei com você em diversas ruas e até o hospital onde você buscava a cura também foi o último lugar onde seu passo alçou voo. Mas quando fecho os olhos, as paredes do nosso território na fazenda reaparecem inteiras. Lembro-me da alquimia do tacho de cobre e da fumaça mansa que subia do fogão a lenha. Você não deixou heranças de alvenaria ou caixas pesadas para os herdeiros limparem; deixou em mim essa mania bonita de conversar com as coisas do mato e de buscar a poesia que nos salva das dores do mundo.

Há quem colecione fracassos ou amores impossíveis, suspendendo lamentos pelas esquinas dos dias. Eu escolhi colecionar a sua permanência em tudo o que escrevo. O seu voo, mãe, não me deixou vazia; converteu o meu próprio corpo em casa de memória. Cada ciclo que se renova no quintal, cada flor que desabrocha e cumpre o seu compromisso com a terra, traz um sopro da sua energia. Sigo sem me importar com o tempo dos homens e com as suas medidas exatas. Prefiro a maior precisão dos crepúsculos, quando la luz muda de tom e me avisa que nunca estamos sós enquanto houver escrita para vigiar o horizonte.

Preparo o meu chá neste amanhecer lento, enquanto os pássaros organizam os seus primeiros cantos e o sol ensaia rasgar a poeira do dia. Minha escrita atravessa a distância de mais um ano para te dizer que o chão onde finquei os meus pés continua lavado de céu. Corto o excesso das frases, limpo as frestas invisíveis da saudade e permaneço aqui, de pés descalços, honrando a árvore da qual sou galho. Que o seu voo continue alto, mãe, e que o seu rastro de luz permaneça alimentando as minhas consoantes e vogais.

Com o amor de sempre,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes

Missiva para além das intensidades

Uma correspondência fictícia entre dois personagens clássicos.

Raissa,

Zero hora pelas pontas da rua, e a luz do poste lá fora parece crepitar o mesmo compasso inquieto que trago no peito desde que você bagunçou as minhas certezas de Teodoro. Escrevo-te nesta hora-cheia porque li, num desses quartetos de Eliot, que há tempo para a fumaça amarela que flui pela rua roçando o dorso nas vidraças, mas a verdade é que o tempo dos homens perde a precisão quando tento medir a distância que nos separa. Olhar para as janelas que ganham contornos internos na noite de São Paulo é o meu jeito de espiar a sua interioridade, imaginando em qual dessas esquinas a sua liberdade fez pouso.

Você sempre foi a criatura indomável, aquela que risca o mundo com passos firmes e olhar fragmentado, enquanto eu tentava me emparedar nos cantos, com medo do espetáculo que o amor promove quando decide romper o chão da nossa rigidez. Mas ao fechar os olhos, revivo a nossa própria acrópole de afetos. Meu corpo se converteu em casa tomada por chamas na primeira vez em que suas mãos cruzaram a barreira do meu silêncio. Fomos duas estranhas que se tocaram com a pressa de quem teme o crepúsculo; duas personagens de um romance rascunhado no avesso do que a convenção dita como certo.

Dizem por aí que o grande homem é aquele que mantém com perfeita doçura a independência da solidão no meio da multidão. Eu nunca quis a multidão, Raissa. Eu preferia o banco do sebo, o perfume do papel antigo e o seu olhar me decifrando entre consoantes e vogais. Se hoje nos tornamos janelas de olhar — duas figuras distintas suspensas na memória uma da outra —, guardo comigo a exatidão daquilo que fomos. A poesia, afinal, é esse retrato de momento que nenhuma distância ou julgamento alheio é capaz de apagar.

Preparo o meu chá nesta noite fria e deixo que o imaginário termine de tecer o verso que me falta. Que a sua escrita continue rasgando o mundo com a força de uma palavra rompante, enquanto eu, cá no meu canto de silêncios, sigo guardando o fogo que você acendeu por trás da minha vidraça.

Com a intensidade que você me ensinou,
Alexandra

Afetos · Das palavras das cartas

A Matemática das Pétalas e o Desenho do Dia

Ana Regina,

Há uma precisão silenciosa na forma como a natureza distribui suas cores. Olhar para o desenho de uma flor não é apenas contemplar a sua beleza efêmera; é decifrar uma geometria sagrada, onde cada pétala sabe exatamente o ângulo que deve ocupar para alcançar a luz. Ouço os ensaios sobre as formas e as linhas que estruturam o desabrochar do mundo, e imediatamente compreendo que a escrita também possui a sua própria engenharia de afetos — uma matemática sutil que organiza os nossos silêncios e transborda nas horas certas. Ainda me lembro de quando você me apresentou a lanterna-chinesa. Eu, que sou apaixonada por flores, me encantei. Ganhei a muda e a perdi tempos depois.

Aqui no meu lugar, os acontecimentos dos dias não se prendem aos ângulos do muro. Minha métrica é circular, desenhada pelo movimento dos pássaros que riscam o céu e pelo tapete dourado que se refaz na terra. As cores não pedem licença; chegam com o peso de uma verdade que rompe o galho seco e altera toda a nossa geografia interna. No avesso das certezas humanas, a delicadeza de uma coroa de flores nos ensina que a força mais genuína reside naquilo que é simétrico e, ao mesmo tempo, frágil. Foi assim que consegui outra muda da Abutilon e a plantei com todo o cuidado.

Acho bonita a sabedoria de quem consegue enxergar um banquete inteiro na curva de uma folha tenra ou na disposição exata das consoantes e vogais sobre o papel branco. Escrever é, afinal, o nosso jeito de traçar mapas invisíveis para que os pensamentos se cruzem na mesma esquina. Não precisamos desvendar o mistério das formas; basta que a nossa escrita guarde a exatidão daquilo que sentimos e a coragem de nos mantermos inteiras em meio aos desacertos lá fora. Vi essa semana que sua família ganhou um amor a mais. Fiquei horas sentindo a alegria de quem vê uma flor desabrochar. Talvez você possa, a partir de agora, experimentar o maior amor do mundo. O fruto de uma filha é uma bênção e a prova de que sua árvore ganhou mais um galho.

Bendigo o Santiago e bendigo esse amor maior que uma mãe e avó pode sentir. Ao cair da tarde deste domingo, quando o ritmo desacelera e o silêncio reivindica o seu espaço na mesa, deixo que as cores do dia encontrem o seu repouso. A terra cumpre o seu compromisso com a harmonia e, diante da folha branca, sigo costurando as minhas próprias linhas. A literatura e uma nova vida, afinal, são as geometrias mais bonitas que o tempo encontrou de nos manter presentes.

Um abraço carinhoso,
Mariana Gouveia