Afetos · Das palavras das cartas · O calendário do novelo

Ponto de Partida, Linha de Chegada

Cuiabá, no momento em que as linhas são guardadas,
Bambina mia,

Sua carta me pegou com os olhos fixos na linha que atravessa a agulha, aqui onde o calor da tarde parece suspender as horas. Enquanto você voltava vinte e tantos anos no tempo para reencontrar a bancada do Marco, o gabarito e o silêncio que precede o furo, eu olhava para as minhas próprias mãos. Pensei em como os engenhos do tempo são, de fato, misteriosos. O primeiro ponto que você deu na sala de casa, costurando folhas furadas com precisão de mestre, é a mesma linha que hoje amarra as nossas distâncias e nos faz sentar à mesa nas segundas-feiras.

Você fala desse homem de engenhos e da sua lentidão necessária, e eu sorrio daqui, do meu canto. Sabia que a vida inteira dedicada às palavras exige essa mesma postura? Escrever e encadernar são artes irmãs que não aceitam o “para ontem”. Ambas pedem o aparato, o desenho prévio, o respeito ao papel e a sabedoria de saber onde fincar a agulha. O que o tuo menino fez na bancada dele com a furadeira é o que fazemos todos os dias com as memórias: criamos gabaritos invisíveis para que a dor e a beleza caibam, exatas, no tamanho das nossas páginas.

Se a memória trabalha devagar no avesso de nós, o meu carinho por você é o nó cego bem dado no final da costura, aquele que garante que nenhuma folha vai se soltar com o vento. Que bonito saber que o seu primeiro ponto precisou de sete furos. Sete é número de ciclos, de fechamentos e recomeços. Isso me leva a Septum, que você gosta. Cá estamos nós, duas mulheres de engenhos, puxando o fio da artesania para lembrar ao mundo que a vida, afinal, é feita de papel dobrado, linha esticada e conversas pautadas por observações, sem nenhuma opinião definitiva.

Deixo o café coar enquanto o sol vai embora na parede da vizinha. Guarda um abraço meu aí perto da escada que tanto me lembra o signore gentil..

Mariana Gouveia

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