Das palavras das cartas · Lunna Guedes

O Faro que Conhece a Noite

Abrindo a última semana do Outubro Literário, Mariana Gouveia responde à mística missiva de Lunna Guedes sobre fogueiras e sentidos. Ilustrada por uma boneca de bruxa fotografada na sala de Lunna, a crônica entrelaça os trieiros de formigas do pai de Mariana com as alquimias em caldeirões que ela aprendeu com sua bá.

Cuiabá, no instante em que a escuridão engole o horizonte…
Bambina mia,

A sua carta pousou por aqui trazendo o eco das fogueiras antigas e o compasso místico de All Souls Night. Ler sobre o seu caminhar desarmado de dogmas, descobrindo as coisas primeiro pelo faro e pelo tato antes que as palavras chegassem para limitar o mundo, me fez fechar os olhos e imitar o seu gesto. Ergui o nariz para o ar morno deste outono que inventamos em outubro e também senti o pulsar do lado de dentro. Há uma sabedoria ancestral — uma herança de deusas e bruxas antigas — em se deixar guiar pelo invisível, sem precisar de bússolas que apontem um Norte rígido e definitivo.

Você fala de ter sido uma criança meio canina, que usava os óculos como escudo para escolher quando ver ou ignorar os excessos da realidade. Por aqui, a infância na fazenda também me deu esse faro apurado para ler o que não é dito. Aprendi com meu pai que a verdadeira magia não está nos altares de pedra; está na cartografia dos animais, no jeito como o vento sussurra a chegada da tempestade e na paciência das formigas que desenham seus trieiros na terra preta. Fomos deixadas livres para acender nossas próprias fogueiras, bambina, e essa liberdade é a nossa maior fortuna. Já minha bá me ensinou a sabedoria das deusas e do inusitado. Das crenças e alquimias feitas em caldeirões antigos.

As lendas e os mitos que o homem inventa não são mentiras; são fogueiras necessárias que acendemos na vidraça da alma para aquecer o silêncio que nos cerca. No meu jardim, o caldeirão se resolve na alquimia das ervas medicinais que cultivo e no rito biológico das folhas que sabem a hora exata de cair. Não precisamos de dogmas para entender o milagre de uma semente que rompe o escuro. Quando a noite esparrama suas sombras e apaga os contornos do quintal, percebo que a nossa escrita é o ritual mais antigo de todos: o de riscar o papel para invocar as nossas origens e saudades.

Chegamos à última semana do nosso labirinto literário. Que as sombras na vidraça nos encontrem assim: com os olhos bem abertos para as luzes e mistérios do agora, mas com o coração guiado pelo faro antigo de quem sabe exatamente onde o tempo deságua e encontra sua paz.

Bacio,
Mariana Gouveia