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Colcha de Retalhos
A primeira vez que vi os olhos dela… foi através da cortina da casa de Kaori. Um vento balançou a renda lilás e o vulto surgiu através da janela basculante. Eram da cor de avelã… ingrediente mais usado nas suas receitas. Reparei que acontecia um pedido de socorro dentro deles. E senti que ao socorrê-la… me afogaria…
Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos – Scenarium Livros Artesanais
Você pode pedir o seu aqui
5 – … ela pensou que algumas viagens são mais partidas que chegadas
Voltei ao seu quintal, e a sua presença é tão forte ali, que nem parece que se foi. As flores continuam perfeitas e as árvores em sintonia cantam a canção do vento que você dançava.
Parecia que estava ali. Passei por entre os azuis das Hortênsia que você ganhou de alguém.
O pé de amora está no auge e na exuberância – palavra que você repetia para qualquer coisa fora do comum – das frutas. Até parece que sua risada está ali, e a essência da geleia que você fazia parece encher o ar.
Geléia de amora é para amar, Maryann! – você dizia!
Minha missão era esvaziar a casa de suas coisas, de você. Mas vim embora com todas as lembranças. O diário que me continha em cada dia, a toalhinha de crochê que foi um presente há alguns anos atrás. Conto um mês hoje, e logo serão dois, 11. Logo será ano e volto do seu lugar com a imagens das poesias escritas no seu quarto onde a vida flutuava em você.
Qual planeta você habita hoje? Qual emoção te move nesse plano além do olhos?
– Marte é logo ali, Maryann! Basta bater no calcanhar três vezes e dar um pulinho que você já embarca.
Acho que perdi o jeito! Vejo Vênus, Órion, vejo todas as estrelas. Não vejo Marte.
Marte, hoje mora dentro de mim.
Mariana Gouveia
In, Colcha de Retalhos
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega e Suzana Martins
Beda – Sob o voo do tsuru.
A ave muda,
feita de papel
chora saudades
Watashi no amai Kaori,
私の甘いかおり,
Minha doce Kaori,
queria falar com você no seu idioma, mas minha limitação ficou apenas nas poucas palavras que me ensinou.
Na última segunda estive na rua em que moramos. Fui parar ali por acaso, na procura de um endereço e o aplicativo parece que seguiu meu coração e quando reparei – embora um pouco modificada – estava na esquina do lugar onde morei por tantos anos. No lugar da minha casa há um edifício enorme, a calçada alta onde sentei tantas vezes no fim da tarde nem existe mais. Tudo tão estranho.
Mas a casa que era sua ainda está lá… quase igual. As paredes em tons suaves de azul… Respirei saudades ali, Kaori e parece que o tempo voltou. Era quase noite e eu já não via mais o sol dourado… Ouvi vozes estranhas do lado de dentro da casa. Juro que pareceu a sua… mas, foi a minha imaginação que me pregou uma peça.
Ainda está lá a árvore que o Seiko plantou e ganhou galhos enormes. A cerca branca mudou de cor e já não há mais gerânios nas janelas. Uma cortina esvoaçava e vi vultos, ouvi risos e minha saudade encheu o coração de amor por você.
E há tanta vida em seu lugar, Kaori… olhando a ladeira que acaba na outra esquina – que era para onde eu deveria ir – pareceu ser seu vulto com seus passos desenhando nuvens no chão. Tantas vezes te esperei no pé dessa ladeira para te ajudar a carregar as sacolas de compras. Ali, lembrei-me de tudo que vivi… foi como se Colcha de Retalhos estivesse sendo exposto folha por folha, palavra por palavra. O livro, na lembrança e na pele que arrepiou.
Fui me afastando aos poucos e conversando com você as palavras dessa carta. Fui invadida por uma imensa gratidão e mais uma vez me senti inundada pelo seu amor. Foi como se um tsuru pudesse voar dentro de mim… foi como se mais uma vez Ana nos abraçasse em sua alegria contagiante. Foi como se Marte tivesse ao alcance das mãos.
Este é o meu livro, Kaori. Foi criado pelas mãos da Lunna Guedes, minha editora – ela soube captar o meu amor e transformar em um aconchego para aquecer os corações de quem o ler.
Quando sai de nossa antiga rua, rumo ao meu compromisso tantas lembranças me acompanharam… Programei voltar, Kaori e conhecer quem vive ali, no lugar que ainda guarda tanto de você. Prometo que assim que isso acontecer, volto a te escrever.
Um abraço de vento na asa de passarinho,
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de tsurus e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura –
Suzana Martins – Roseli Pedroso
quase perfeito alinhamento no céu…
O amor foi a lâmpada, mas no rompante de quem não era
O amor não existiu…
Ana,
Na terra de um, no mundo dos cem eu vivi para abrir o seu baú… eu já conhecia metade das coisas que habitavam ali, entre o vácuo de um tempo – o papel de bala, o pauzinho do picolé da Kibon que te dava direito a mais um e você não quis – e juro que esse tempo é quase meio século entre as idades todas e o pedaço de história costurada em letras japonesas.
Foi na madrugada de hoje quando o céu em seu perfeito estado de imperfeição quase alinhou Vênus, Júpiter e a Lua. Eu fiquei vagando em cantos de muros para fugir da árvore que tentava roubar os ângulos e eu me perguntava: cadê Marte? Li que querem saber como é Marte por dentro… Eu que vivi com suas variantes e instabilidade dou risadas por aqui…
Hoje, na conjunção de quase alinhamento de Vênus, Júpiter e Lua eu estranhei o céu em sua parte que eu não via. Mas quando o brilho do fenômeno me atraiu eu já imaginei que você mudou de planeta… tão ansiosa nesse modo de espera das coisas, você desbrava o caminho e se vai. Doze anos é muito tempo para um lugar só… Aposto que aquela estrela mais brilhante ali, nessa conjunção astral é você, quebrando barreiras e se misturando em um plano astral maior do que as lembranças que seu baú me traz.
Quando leio em alguma matéria: o que vimos em Marte é que temos um núcleo maior e mais leve do que era esperado – eu já imagino você e seus rompantes dominantes. Só que quando vejo essas coisas de céu daqui da Terra eu fico te buscando nas memórias ainda vivas, em mim.
Aspiro a brisa no quintal… o cheiro de folhas úmidas. Eu vim de um tempo que não sou e vivo pra um tempo que não sei ainda qual será… mas eu fico encantada – ainda – com a magia que seu nome me causa. De alguma forma, mesmo com algum termo desconhecido você habita o céu do meu lugar. Logo eu, que fui sempre de presença… de toque. Como se toca um planeta, Ana? Como uma estrelinha – aquela da Cartilha Caminho Suave – pode alcançar essa dimensão de luz quando nem se sabe ao certo o nome da estrela brilhante? Marte pode ter fugido de algum quadrante e ido parar anos luz na saudade?
Eu vivi em todos os séculos Eu fui o sentido, o fim e o meio… esse meio em um campo celeste que você está e por isso, o fim nunca é fim… Sempre o meio para que eu chegue até você. Eu fui autora e você a poesia. Te embrulhei em uma Colcha de Retalhos e hoje você é livro contado em fotos e emoções. Hoje, alguém já conta a história de amor entre um planeta e eu… Hoje, seu nome já é sabido na terra de um, no mundo dos cem.
Me disseram que amor assim não existe e eu acato… deve ser sonho essa conjunção no céu que rege o horóscopo do dia… afinal, esse alinhamento é quase perfeito nesse sentimento de estar com você, pelo menos até o sol amanhecer em um planeta mais brilhante nesse período, no céu.
Eu sempre soube que você saberia dar um jeito de chegar até a mim, mesmo que passasse doze anos… ou mais… mesmo que os séculos nos roubasse o riso entre um quase triângulo nesse pequeno quadrilátero entre os muros onde eu vivi você.
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura
só porque hoje fazem doze anos que ela virou estrela
*Testamento
“Deixo para Maryann a lua bordada, feita em ponto cruz por mim. Foi bordada nas noites em que a solidão varria a alma, mas o céu tinha domínio sobre a presença. Nunca vi uma noite mais linda. Nem a que passávamos juntas no quintal de Kaori
Deixo o pé de cerejeira do quintal. Ainda não deu uma flor sequer. Talvez precise escrever para Kaori e perguntar como proceder. Talvez seja o clima daqui. De qualquer forma é cerejeira. E servirá de morada para passarinho.
O quadro de ideogramas do quarto. Comprei em Paris e era para você. O dono da loja garantiu ter pertencido a algum samurai. O que não acredito. Mas, tem a delicadeza que te pertence e acho que nunca tive coragem de entregar
A toalha bordada que você fez e nunca usei. Mas, dormia todas as noites com ela.
E as pequenas coisas que podem te servir. O macacão amarelo que você gosta. O vestido de listas lilases. Os livros. Os discos. E meu riso ecoando em Marte.
E por fim, deixo-te meu diário. Com o baú. Onde estão guardadas pequenas coisas que fizemos. O papel de bala, os origamis multicoloridos e alguns bilhetes e cartas trocadas. No diário, em alguns dias não tem datas. Porque para mim, o tempo parava além de nós.
Lá estão as canções que cantávamos e grande parte das cicatrizes que o tempo curou. Guardei elas lá, como memória do que fui e do quão me tornei leve com você”.
Mariana Gouveia
*Texto publicado no meu livro Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina
só porque livro é lindo e você pode adquirir aqui
Eu me lembrei de você, em mim
Ana,
Abri as gavetas hoje e fazia tempo que eu não tocava em suas coisas… A cômoda ficava sempre ali, no canto, muda e eu ignorava o chamamento dela…
Confesso que, vez ou outra alguma fragrância escapava dali e me trazia a memória lembranças suas… mas, hoje, talvez por causa de fotos que recebi do meu livro passeando pelas ruas de Paris achei que devia vasculhar alguns momentos e tocar nas coisas que você tocou e eu me lembrei de você em mim.
Já faz tanto tempo e as coisas continuam tão iguais… nem os envelopes amarelaram e a camiseta com dizeres em inglês e que eu esqueci a tradução ainda tem o cheiro do amaciante como se tivesse sido lavada ontem.
Os papéis de bala – por que a gente guardou isso? – e os palitos de picolé estão intactos e pensando em uma faxina joguei no saco de lixo para pegar logo depois e devolvê-los para o saquinho de pano que bordei.
Em alguns dias, durante esses anos todos houve dias em que cheguei a te esquecer e a cômoda nem era incômodo no canto do quarto… O quadrinho com o poema de Ana Hatherly que você gostava: “há uma benção divina no esquecimento” me tocou como se fosse sua mão… e tem dias que lembrar é um sopro na alma, como hoje. Eu poderia escrever mil cartas só hoje contando coisas do dia a dia, mas imagino você subversiva mudando esse infinito todo com os pés na lua e a cabeça em Marte e é assim que me lembro de você…
Por fim, guardo tudo no lugar e devolvo o saco de lixo vazio no porta-saco e canto baixinho a canção que você gostava e vou ali, viver a vida.
Beijo meu
Mariana Gouveia
Projeto 52 Missivas
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Obdúlio Nunes Ortega – Lunna Guedes
Retrospectiva Literária.
*“Nenhum livro nasce sozinho.
Um livro contém os nomes e o amor de muita gente que se esforça nos bastidores.”
Não sou muito de fazer retrospectiva do ano que passou, fazer listas, que na maioria da vezes não cumprimos, mas nesse ano, movida pela Scenarium Livros Artesanais, como parte da Blogagem Coletiva venho trazer para vocês um pouco do que li nesse 2021 que pareceu ter um século.
Como parte do Clube do Livro da Scenarium tive vários encontros surpreendentes, sempre virtuais, no primeiro sábado de cada mês e mais do que falar sobre livros, os encontros nos aproximou e nos fez mais fortes.
* “Abrir um novo livro é abrir um lugar cheio de coisas favoritas.”
Alguns dos livros que li nesse ano, e embora faça parte dos projetos coletivos da Scenarium me tocaram de uma maneira sublinhar.
Colheita, um coletivo de poesia com o selo Scenarium me fez semear poemas e colher poesias de autoras maravilhosas.
Casa de Marimbondos – mais um projeto coletivo que nos envolveu em contos que encantaram e Casa Cheia, crônicas que nos embalou em histórias incríveis. Delírios Comunistas, Mulher Proibida, Nem sempre a Lápis, Roteiro Imaginário que nos pegou pela mão e nos levou rumos aos dias em que tudo parecia difícil e tornou mais leve a vida.
Outros livros que reli – por conta do Clube de Leitura – Receituário de uma expectadora, de Roseli Pedroso, REALidade, de Obdúlio Nunes Ortega, Agora Chega, de Iohanna Ca, Mia, a holandesa dos pés descalços, de Anselmo Vasconcellos, Um teto todo seu, de Virgínia Wolf, Amor Expresso, de Adriana Aneli me trouxeram realidades novas, descobertas impressionantes e a perspectiva de que tudo muda, dependendo do instante que a gente lê.
*“Mesmo que eu releia o livro várias vezes, continuo vendo frases novas que não tinha visto.
Será que você, leitora, não passou por alguma mudança?
O livro não mudou, mas sim você.
Alguma coisa mudou no coração da leitora.”
E por fim, não poderia deixar de falar sobre meu livro Colcha de Retalhos, que foi um presente lindo da minha editora Lunna Guedes, com o selo Scenarium Livros Artesanais. Uma história que escrevi com o coração e a alma cheia de saudades. Nesse livro, mais do que falar de amor, eu falei do sentimento único que é vivê-lo. Quando o livro chegou em minhas mãos, pronto, com a capa e a delicadeza das ilustrações da Carly Ca me emocionei… ainda me emociono porque vejo nele a entrega do amor de Lunna Guedes em encontrar detalhes que ninguém mais vê. Sinto o cheiro da saudade e ao mesmo tempo a leveza de cada instante vivido.
*“Um livro inspirador pra um pode não ser para outro. Encontre o seu.”
Não consegui falar aqui sobre os outros livros que li além dos da Scenarium… Quem sabe um outro dia, porque a Scenarium, nesse ano tão duro foi leveza dentro dos poemas, das poesias, das histórias, dos contos e das linhas costuradas para que você viaje no mais puro encanto de ler.
Mariana Gouveia
Blogagem Coletiva
Scenarium Livros Artesanais
*Frases retiradas da Série Coreana Romance is a Bonus Book
Participam desse projeto: Lunna Guedes – Darlene Regina – Roseli Pedroso
O livro escrito…
As palavras dela ainda ecoam aqui… e mesmo lendo e relendo algumas coisas parece que em algum momento ela vai chegar de um outro país, da universidade, do mercado ou da caminhada no fim da tarde.
Abro o site que fala sobre horóscopo e vou direto ao signo dela… mas, tudo fica mais brando quando em uma noite estrelada fica possível ver Marte sem luneta. Eu imagino quem ela cativou no além do que se pode ver.
O livro escrito conta minha história de amor… um amor que vivi em mil possibilidades e a sensação é de que tudo foi vivido na intensidade da vida dela. Tão mágico e rápido. Tão fugaz e leve ao mesmo tempo. Tão profundo e suave… costurado como se fosse mesmo uma colcha moldada, combinando momentos e cores. Ana de Marte era mesmo leve e ao mesmo tempo vibrante. E você vai conhecê-la nas páginas de Colcha de Retalhos.
Ana de Marte é a protagonista de uma história que se esbarrou na minha e consegui traduzi em um livro. Se eu te contar da leveza e da delicadeza que você sentirá, talvez, sob teus olhos, você duvidará… às vezes, até eu mesma duvido… Duvido porque o amor descrito em cada página seja único no sentido exato de ser e com certeza, de tudo que ficou, no posfácio do livro é a docilidade de uma carta de amor ou uma colcha de retalhos que vai aconchegar seu coração.
Trago as coisas que ela gostava. A avelã, que sirvo com chá de hortelã. O cheiro que invade o
espaço e a folha da cerejeira, já que flor mesmo, aqui, não deu.
Uso em alguns casos a terapia do desapego e descarto.
São os retalhos que não servem mais. Respiro aliviada.
O livro já está a venda aqui e o lançamento será no próximo sábado, dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília – em uma live no Instagram da Scenarium.
Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais
Fotografia: Lunna Guedes
Ao ler o meu livro você vai encontrar:
Primeiro, o cheiro… que talvez seus sentidos te levem a pensar em flores de cerejeiras – ou sakuras, como dizia Kaori – e claro que é apenas uma sugestão minha, para que você pense nas cerejeiras, na certeza de que você encontrará sonoridade, gratidão e amor nas páginas de Colcha de Retalhos.
Colcha de Retalhos se trata de uma história de amor. Na edição de Lunna Guedes – maravilhosa! – o amor se transformou na costura, em forma de quadros e os capítulos uma colcha, onde a emoção predomina.
As ilustrações de Carly Ca traz ainda mais sensibilidade para um livro já tão sensível e delicado. Os números, em homenagem a Seiko e Kaori trazem acima da página a tradução em japonês.
Então, para você que adquirir Colcha de Retalhos, digo que você vai se emocionar, se deliciar e andar de mãos dadas comigo nessa história linda de amor.
Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais
O lançamento acontecerá em uma live, no Instagram da Scenarium, no dia 27/11/2021, às 19hs – horário de Brasília.
Se desejar adquirir o livro, o caminho é aqui














