Afetos · Corredores, Codinome Locura · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #20 – O Gole que Demora na Memória

aspirei o aroma do chá quando a manhã se desenhava aqui e fiquei imaginando as mulheres que você me trouxe pelas mãos, criando em mim uma intimidade a ponto de escrever cartas para elas. Não li esse livro da Lygia, mas foi em homenagem a ela que caminhei no meu lugar, da mesma forma que você fez aí, entre as prateleiras e os quintais da memória. O livro físico guarda o peso, o cheiro e a textura do tempo. É a primeira coisa que faço ao pegar um: cheirá-lo e apertá-lo ao peito. Curiosamente não empresto muito, mas pego bastante emprestado. Sempre devolvo assim que termino de ler; já tenho até as “minhas emprestadoras” de estimação. Os meus, quando já li e reli, esqueço-os em ônibus, em um banco de praça ou doo para as meninas do bairro.

A imagem de Lygia conversando com Mário em 1944 ou segurando a mão de Hilda Hilst em uma cumplicidade de cinquenta anos mostra que a verdadeira literatura é feita de encontros movidos pela paixão. E foi mesmo a paixão pela literatura que nos uniu, mesmo com os 1.540 km que nos separam. Acho que é essa paixão que rasga a alma e nos faz acreditar que um poeta não morre. Eles continuam vivos e viscerais a cada vez que a gente coloca a água no fogo e aceita tomar esse estranho chá com eles através das palavras.

Mário, Cecília, Clarice, Lygia e Hilda… todos eles continuam sentados à nossa mesa, dividindo os galhos mais altos da jabuticabeira ou do pé de ipê, e os rascunhos que insistimos em tirar do casulo. Seguimos encomendando nossos livros físicos e esperando o tempo da infusão, sorvendo lembranças que, de tanto que nos tocam, acabam sendo nossas também.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Desenha o cotidiano como quem cria rotas.

Era um domingo inteiro e dia nenhum onde vasculhou a palavra saudade.
A solidão é um luxo para quem tem companhia. Guarda as linhas, a tesoura e agulhas. A estrela desafiou o tempo e hoje, a saudade criou asas. Ganha alento no vento da tarde e a liberdade tem olhos que espiam. Para onde eu for aqui dentro, tudo é traço. Resquícios de que quem saiu aos seus não degenera.
As rosas não moram no jardim do lado e o sopro é a voz que a solidão trouxe aqui.

Mariana Gouveia
Projeto: Na rota das borboletas – do voo ao pouso.

Corredores, Codinome Locura

dos desvios para atravessar os quintais.

Uso a lunação de câncer para traçar as rotas dos desvios para atravessar os quintais.
O baile imaginário no voo do pássaro enquanto um jazz toca na solidão da lua.
Haverá eclipse na madrugada e já antecipo a penumbra da noite. Fecho as janelas e as cortinas balançam com a suavidade do vento.
Leio poesias que alguém desenhou na pele e quase me perco dentro da dimensão dos arrepios.
Havia flores ao longo da rua quando a lua chegou em seu estado real de cheia e nem varal, ao invés das roupas brancas, o amor brinca de beijar a lua.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

grafite

já não sei começar ansiosa
o voo inacabado do sonho
já não sei escrever o teu nome
nas esquinas impacientes da espera
já não sei afirmar o desejo
em frases pelos muros
(pichei os meus, os da vizinhança toda, do bairro, da cidade)
fui pega com a lata de tinta da mão.
grafitei
grafitei sonhos de esperas e momentos em que minha timidez
me deixa sem palavras
passou o tempo
do tempo parado
num poema cansado de te esperar
eu queria qualquer reação,
o menor movimento
que me desse o leve toque de que o teu nome escrito simplesmente
passa a ser poema.
a ser o que era. Meu
e assim, seguir em frente
escrevendo nos muros
a mesma canção
Grafitei a palavra saudade
e ela se chama você.


Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Corredores, Codinome Locura

como se o voo do pássaro pousasse

 

Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos
e tu abre os pulsos para me livrar da gaiola

que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse
como se achasse a ilha, meu ninho

seu corpo

como se o voo do pássaro pousasse
sobre os sonhos de tua cabeça
e suas asas delirantes
fossem o mapa do caminho que tenho de trilhar

como se eu  fosse o jardim
na tua mão, eu, semente florindo desejos

como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos

no céu
da tua boca. 

 

Mariana Gouveia

* imagem: Cheong-ah Hwang

Corredores, Codinome Locura

Nem todo dia tem noite pros lados do Sul.

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Efeito borboleta

Ph: Laura Makabresku

 

I

Em gaiolas a boca
rouba a chave e liberta-se para o beijo.

II
A liberdade chama-se a doçura
do beijo dela.

III

E o voo conhece o ninho
no céu
da boca.

Uma vez, me disseram que o mistério do corpo está na boca. Na época, eu questionei e disse sobre ser o coração. Hoje, eu teria motivos para afirmar que é a mais pura verdade. É a boca mesmo o mistério do corpo.

Quando a vi pela primeira vez, ela tentava em vão, na minha frente, a encontrar o cartão transporte dentro da bolsa e travava a roleta. Depois de minutos que pareciam uma eternidade, peguei o meu cartão e disse para ela passar. O que foi um alívio para o motorista e o restante dos passageiros que insistiam em subir no ônibus. Indicou-me o banco ao lado dela que triunfante exibia o cartão encontrado.
– Às vezes, quando você quer algo a bolsa esconde. Parece mágica. – disse rindo – foi quando reparei na boca dela, entre a suavidade e um mistério.
Agradeceu meu gesto e colocou o fone, embalando o corpo ao som de uma música, que confesso desejei saber quem era.
– Amy. Você curte? – disse ela, como se tivesse ouvido meus pensamentos.
Disse que sim com um sinal de cabeça, já maravilhada pelo jeito que ela movimentava o corpo ao ritmo de alguma música qualquer de Amy.
Assustei-me quando ela estendeu a mão dividindo comigo o fone e com isso pude ouvir o refrão de Will you still love me tomorrow.
Ficamos próximas uma da outra e o perfume cítrico dela me inundou. Ela me instigou a seguir o ritmo da música. Fiquei ali como que encantada pela boca dela que repetia as palavras de Amy e quase perdi o ponto de descer.

Não perguntei o nome, nem nada. Fiquei apenas com o refrão da canção e o riso e o perfume dela a povoar minha mente.
|Alguém uma vez me disse que as borboletas causavam efeitos que podiam mudar o mundo|

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Das horas

As horas não passam no sentido das coisas.
Ela anota meus desafios diários.
A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanecem fechadas e isso foi ontem.
Hoje eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio. Anota.
Deve ser essa pressa de ir embora que me move.
– Pra onde?
– De nada para lugar nenhum.
Eu tive de desenhar um mapa.
Falando em mapa tive de fazer o mapa astral dela.
Falei de horóscopo. Ela riu.
Eu tinha síndrome de fuga.
Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas
que eu precisaria de um dicionário para entender.
– Não quero fugir. Nunca quis. – falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi.
Ela anotou.
O relógio na parede.
Tic-tac só não era maior do meu suspiro.
O tempo mudou de repente.
Não quis dizer que não acredito em meteorologia.
Seria considerado fuga do tempo
e esse, para mim, seria como diz a música:
um dos deuses mais lindo.
E ela disparou a falar de canções.
Dancei.

Mariana Gouveia – Divã

Corredores, Codinome Locura

Conversas aleatórias com o sol.

Dia 6.

Eu sei que você espera que eu defina a
rota dos pássaros e que diga que o
coração sabe o caminho certo para o ninho. Mas o coração é apenas um
músculo – como o mar é a rota do Sol
no fim do dia.
Só quero que saiba que apesar do azul
do céu em alguns dias parecer cinza,
durante os próximos séculos te buscarei
além das nuvens.
Foi tudo tão temporário dentro do nosso
tempo que paro no silêncio de suas
palavras. E chego a duvidar de que você
realmente existiu.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Beda – Conversas aleatórias com o sol

Dia 2 –

O desafio em dias nublados é
descobrir-te entre as nuvens. Como aqui,
você sempre é o rei maior nessa parede
que é o céu… sua ardência atravessa a camada de nuvens e seus raios fazem morada aqui.
O azul é o manto que me acolhe
enquanto te busco nas sombras das
paredes dos muros – criando figuras para meu imaginário. Descubro que
te quero no meu corpo. Mas fujo de você
quando me aquece demais.  Abrasante,
domina o espaço para além das horas
e o vento brinca de te encobrir
entre as nuvens.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais