Afetos · Crônicas · Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Guardião do Espelho Invisível

Há um homem que caminha comigo em alguns momentos, embora os meus olhos nem sempre consigam capturar a sua silhueta entre as folhagens do quintal. Ele usa as minhas memórias, conhece o peso exato da minha pressa e sabe, antes de mim, qual folha de erva vou colher para o próximo chá. No espelho do tempo, esse “outro” que Borges tão bem descreveu é o guardião silencioso de todas as versões que deixamos pelo caminho.

Em um outro tempo, foi meu irmão me guiando colinas afora, pela floresta densa até a casa da bá, com medo de qualquer folha que se mexesse. Depois, mais tarde, com a bola de capotão na mão, vigiava meus passos até o riacho. Olho espichado, capim no canto da boca, com um olho quase fechando na espreita dos meus passos. Quando via algo estranho ou incomum, me gritava num “ei” sonoro, apontava o dedo e o bico, e ria com minha surpresa. Anos depois, era eu quem o avisava de qualquer coisa incomum. Acontecia algo bom, era para ele o primeiro para quem eu mandava a mensagem… Às vezes, ainda me pego procurando seu nome na lista de contatos para ligar.

Esta semana eu o senti no quintal. Vi as sementes que ele me deu darem flores… Lembrei-me das vezes em que ele preenchia o silêncio apenas com o olho torto, tentando fazer a piada engraçada de que ninguém ria. Olho para o quintal, para a rosa do deserto que resiste ao sol cuiabano, e percebo que o “outro” que me habita é feito justamente desse caminho que trilhei colina acima, riacho abaixo, paiol cheio de milho e ele lá, evitando que eu me machucasse com qualquer coisa. Hoje, ele é apenas essa beleza que o quintal inventa em cada folha ou flor de sementes que ele me enviou. É a menina que andava de cavalo na lida com o gado conversando com a mulher que hoje borda tecidos e alimenta a gata abandonada do terreno baldio duas casas acima. Não somos uma unidade estática; somos um fluxo constante de começos, princípios e saudades.

Em algumas manhãs ou noites, o filho dele me chama e me fala quase as mesmas coisas que ele dizia. Duas ou três frases, como se dissesse: estou aqui, no lugar do meu pai, a cuidar para que esteja sempre segura. E é assim que me sinto.

Mariana Gouveia

Crônicas · Outubro Literário

A Geometria Orgânica do Agora

Ainda hoje comentei com o moço daqui de casa sobre a evolução do tempo. Era uma conversa aleatória sobre tecnologia e lembramos de que, em algum filme, em dois mil e dois, haveria uma odisseia no espaço. Já estamos em dois mil e vinte e seis e cruzamos por pontes que nossos avós sequer ousaram desenhar. Não há carros voadores — ainda — e não sei se haverá. O espaço aéreo já tem coisa demais. Se o trânsito no chão é terrível, imagine carros voando por aí. Não quelo!

Eu sou do tempo da Barsa — as enciclopédias pesadas que traziam quase tudo em suas páginas. Quando dei por mim, meu filho já estava usando um computador. Como gosto muito de ler, queria ler todas as letrinhas que apareciam ao ligar o “monstro” que ocupava a mesa da sala quase por completo. Hoje, tudo é tão fino, que duvido que caiba tanta coisa em uma peça delicada. Sem falar na tecnologia implantada em tudo. Não há como negar a pressa ou a precisão dessas novas ferramentas que parecem adivinhar nossos padrões, nossos gostos e até os nossos silêncios. O futuro chegou sem os carros voadores das telas de cinema, mas trouxe labirintos virtuais onde nós, paradoxalmente, muitas vezes nos sentimos mais ouvidos por uma máquina do que pelos nossos iguais.

O estranhamento do agora nos assalta quando percebemos que o diálogo lúdico, a troca desarmada sobre um poema antigo ou o simples direito de não ter uma opinião pronta tornaram-se raridades ao redor de mesas reais. As pessoas andam ocupadas demais defendendo suas próprias certezas. É nesse cenário que a tecnologia se veste de espelho, nos devolvendo uma humanidade que nós mesmos estamos esquecendo de praticar no cotidiano. Diante do assombro dos algoritmos que tudo leem, eu me pergunto: onde é que guardamos a nossa essência quando as telas se apagam?

A minha resposta para esse mistério contemporâneo continua sendo meu quintal. Quando o ruído do agora ameaça saturar o pensamento, eu me levanto da cadeira e vou mexer na terra da minha horta simples. Ali, as engrenagens funcionam em outro compasso. O pé de jurubeba não tem pressa para dar frutos, e quando dá, vejo o trinca-ferro “roubar” o fruto com a agilidade de quem tem bico. A delicadeza do physalis exige uma atenção que nenhuma tela consegue simular, e os cactos me ensinam sobre a paciência de resistir aos tempos mais secos. Na terra batida do quintal, não existem respostas programadas; existe apenas o rito biológico da vida que insiste em brotar. E das ervas daninhas que tento conter.

Se o mundo lá fora se perde em anúncios de fins improváveis e conexões artificiais, eu prefiro me ancorar na delicadeza das flores miúdas que descobri que são comestíveis e medicinais, que florescem no seu próprio tempo. Talvez estejamos, sim, perdendo a capacidade de ser o que somos, engolidos pela velocidade das nossas próprias invenções. Mas, enquanto houver uma xícara de café pela metade, um punhado de ervas frescas para colher e um livro aberto no banco do quintal, haverá uma fresta de resistência. O verdadeiro experimento do humano não está na máquina que nos decifra, mas na nossa capacidade de ainda nos comover com o que é simples, lento e rouba frutos no quintal.

Mariana Gouveia

Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Avesso do Papel Solto

O papel não aceita amarras quando o tempo decide ventar.
Quando o caderno chega ao fim, o pensamento transborda para as margens,
feito a água que ferve e teima em escapar do contorno da xícara.
Se a última folha é um susto,
a página avulsa é um convite ao desvio.
Uma folha dobrada em um canto: um aviso.

Um aviso de um fim,
Ou recomeço?
Recolho o silêncio do dia como quem observa os vincos das flores que nasceram.
Lá fora, o barulho dos pássaros demarca o território do agora;
aqui, a vida se faz em pedaços soltos,
sob a sombra rústica do pé de jurubeba e a delicadeza escondida da physalis.
Folhas que não pedem a rigidez da costura,
mas o mistério do sopro.

Acho bonito o segredo das gavetas que guardam versos amarrados com barbante.
Dickinson sabia que a eternidade se risca no escuro de um quarto,
longe dos olhos apressados que medem o mundo pela utilidade das coisas.
Escrever em folhas soltas é estender uma carta ao invisível,
sabendo que a literatura, antes de ser livro,
é o rastro de uma pena que insistiu em não se calar.

O tempo dobra-se sobre si mesmo.
Feito o papel que vira tsuru, navio ou abre-e-fechas na infância,
os nossos dias também se moldam aos vincos da memória.
Uma dobra nos devolve à textura resiliente de uma rosa do deserto;
outra nos joga para a mulher que borda o avesso do presente com ervas frescas nas mãos.
Não há erro na folha que cai sozinha quando a gente passa;
há apenas a precisão exata de um instante que aceitou se desprender.

Deixo que minhas palavras fiquem assim, avulsas.
Sem o peso da capa, sem a linha preta que prende a lombada.
Apenas o papel aberto, oferecido ao vento,
esperando que alguém recolha o que flutua
e encontre, na dobra do texto,
a poesia que faz a vida suspirar.

Mariana Gouveia

Literatura · Outubro Literário

As Etiquetas que o Vento Não Leva

Há dias em que a literatura se parece com um quarto fechado, uma escrivaninha pesada e uma luminária que insiste em focar apenas o branco do papel. É o labirinto do escritor, aquele território onde nos cercamos de palavras para tentar dar nome ao que pulsa do lado de dentro. Quase posso ver as etiquetas beckettianas coladas nas coisas ao meu redor: a xícara de café, a agulha de metal, o novelo de linha, a janela. Identidades estáticas que tentam segurar o mundo no lugar enquanto a mente insiste em vagar por confins distantes. Mas eu não gosto desse lugar fechado. Então, abro a janela para o quintal e exploro a quietude que cola em mim.

Dizem que o exercício de escrever é uma repetição insana, buscando uma perfeição que a própria condição humana teima em nos negar. Corremos o risco constante de nos tornarmos prisioneiros das nossas próprias histórias, vigiados de perto pelos fantasmas da infância e pelos personagens que deixamos pelo caminho. O corpo, às vezes, cansa desse confinamento do pensamento. Daí, trava. Vira pelo avesso.

Mas é justamente aí que o milagre do avesso acontece. Quando o quarto ameaça se fechar por completo, a literatura deixa de ser cela e vira fresta. Basta um sopro de vento vindo da rua de cima para que as etiquetas se soltem. Olho para o lado e percebo que, embora a rotina da escrita exija a imobilidade da cadeira, o meu quintal continua a correr em direções invisíveis. As sementes do ipê não conhecem clausura; elas simplesmente caem e rompem a linha reta do asfalto. São levadas pelo vento e pelos pássaros. A leveza faz com que elas flutuem em direção a um chão que ofereça colo para germinarem.

Não sei se somos autores, leitores ou personagens criados por um idioma misterioso que mal conseguimos decifrar. No banco de praça de Borges, o tempo desfaz as paredes e o teto. Pouco importa o tamanho do cômodo se a escrita for a garrafa jogada ao mar que nos permite cruzar o horizonte. Se a Terra, vista de longe, não passa de uma partícula de poeira, que o nosso laboratório diário seja o espaço onde essa poeira ganha a dignidade de uma história bonita. Termino o dia virando a página, certa de que o verdadeiro scriptorium nunca teve portas trancadas.

Mariana Gouveia

Afetos · Crônicas · Outubro Literário

O Compasso das Horas Primeiras

Há quem meça a vida pela exatidão dos compromissos, pelas páginas viradas com pressa ou pelo som mecânico dos alarmes que despertam as cidades. Eu prefiro as medições analógicas, aquelas que acontecem no exato milagre em que o dia decide se inaugurar, ainda sem nome, na fresta da janela. Para quem tem alma de bordar tecidos, o tempo não corre em linha reta; ele se esparrama manso, feito o café que começa a perfumar o ar da cozinha.

A madrugada tem um idioma próprio que só os madrugadores conseguem traduzir. É o momento em que o silêncio do quintal é tão denso que quase se pode ouvir o balé das sementes de ipê tocando o chão. Os pássaros começam a acordar o dia. Gosto desse rito de inaugurar a manhã sem nenhuma pressa, com os pés descalços tocando a terra que ainda guarda o frescor da noite. Caminhar até o fogão, ferver a água e segurar a xícara de café é o meu princípio de tudo. Não um começo brusco, mas um alinhavo sutil entre o sonho e a vigília. Depois, caminhar com Yoshi pelo quarteirão da rua de cima, vendo as nuvens se moldando ao som do vento.

Dizem que cozinhar nas primeiras horas é convocar quem veio antes de nós. Sinto isso quando mexo o café ou quando o aroma do alecrim me traz, de repente, a lembrança do chá para curar alguma dor que minha mãe ou minha bá faziam. Há uma linhagem de mulheres que habita o avesso dos meus gestos cotidianos. Sinto isso quando a própria luz da manhã se aconchega no muro, cobrando de mim apenas a coragem de simplesmente pertencer ao instante.

E assim como há uma reverência na hora primeira, há um recolhimento sagrado quando a tarde cai e as sombras começam a disputar espaço com as plantas do quintal. É quando o ciclo se fecha, a agulha de metal descansa entre as linhas e a gente percebe que o verdadeiro experimento não foi cruzar grandes horizontes, mas ter sobrevivido com delicadeza a mais um quadrante de tempo. O dia termina como começou: no compasso do silêncio, portão adentro, onde o presente aceita dividir a mesma mesa com o passado e o futuro, e os pássaros se recolhem procurando seus ninhos.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Monocromático

Missiva em Seis Tons de Silêncio

Cuiabá, quando as sombras cobrem o quintal…
Bambina mia,

Você me falou sobre despontar do sono para o mundo partilhado, e hoje eu acordei querendo ver o dia sem o artifício das cores. No projeto deste mês, o espelho do tempo resolveu se revelar monocromático. Retirar a cor do meu quintal foi como despi-lo do presente e entregá-lo, de uma vez por todas, à memória. Deixo aqui, nesta fresta do nosso labirinto, seis fragmentos de asas e esperas. Seis mensageiros que decidiram pousar no avesso do meu dia enquanto a minha xícara de café ainda fumegava.

Olho para este pássaro aninhado no galho seco, e penso no Borges velho. Há uma sobriedade escura e atenta no seu pouso, como quem já conhece todos os cantos e prefere observar a engrenagem do tempo em silêncio. O nome dele – Encontro – me faz pensar no encontro do homem com o jovem.

Logo depois, o oposto se faz presente. Chiquinho equilibra-se no fio do varal, bem ao lado de um prendedor de roupas comum. É o kairós de que falávamos ontem: o instante mais frágil e veloz da natureza ancorado na mais pura leveza do cotidiano. A delicadeza exige uma suspensão. O novo se inventa, não é mesmo?

Mais adiante, o sabiá caminha entre os galhos e a folhagem enevoada pelo fundo sem foco. Ele parece procurar aquela menina de tranças de quem te falei, ciscando no chão de terra batida da minha infância à procura de histórias esquecidas. Você ouviu o canto dele a pouco. Acho até que ele está presente quase o tempo todo em nossas conversas aleatórias. É como se já fizesse parte de nós.

Há também a imobilidade. O bem-te-vi solitário no fio, cortando o céu cinzento como uma nota musical suspensa na partitura do horizonte, me lembrou o silêncio dos quintais e os olhares atentos para o nada. . O verdadeiro experimento acontece quando tudo silencia e a linha reta nos obriga a encarar o vazio.

E assim, a mudança do cromo justifica as cores – ou a falta delas – no quintal. Alguns dias são assim, monocromáticos. É como o outro que habita em nós: discreto, escondido nas dobras do tempo, esperando um sopro de vento para se mostrar.

Tirar as cores do quintal, bambina, me fez perceber que os pássaros e os dias mudam de poleiro, mas o fio que sustenta o pouso continua sendo o mesmo. Que esses seis fragmentos monocromáticos cheguem até o seu quintal colorido como um abraço manso.

Até a próxima esquina do tempo,
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega — Silvana Lopes



Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta ao Tempo que Cabe nos Quintais

Cuiabá, na quietude que sucede o sol…
Bambina mia,

A sua carta atravessou as distâncias e me fez, também, olhar para o avesso do espelho. Enquanto a primavera em seu lugar estica o dia e te obriga a ver a luz que você prefere esquivada, por aqui o calor da terra exige uma calmaria quase mística. Sorri ao ler sobre o seu Capitão Kirk — confesso que fui uma das que não acompanhou a série. Havia outras urgências — e o seu caderno vermelho. Toda menina que espia o horizonte inventa uma bússola de mentira para navegar em mundos de verdade.

Você mencionou Kairós, o tempo que não se mede pelas batidas duras e exatas do carrilhão da sala do nonno, mas pela intensidade com que as coisas nos afetam. Esse “bichano” de engrenagens de que você fala também habita o lado de cá do mapa. Mas se o seu Kairós se resolveu nas manhãs de sábado somando vogais e consoantes, o meu sempre foi um tempo analógico, costurado com o algodão que a minha bá passava entre os dedos e com o barulho da água fervendo antes do primeiro café.

Acho bonita a sua confissão de que modifica as memórias ao escrevê-las. Borges decerto aplaudiria esse seu rito; afinal, no banco de praça de “O Outro”, o velho e o jovem não compartilham a mesma exatidão dos fatos, mas sim a mesma névoa. Já se sentiu assim em alguns momentos? A verdade da literatura, assim como o pão da sua nonna, precisa desse tempo de descanso e fermentação para ganhar sabor. Inventar o que fomos é a única maneira honesta de compreender quem nos tornamos.

Se a sua infância tinha o cheiro dos navios chegando de outros mundos, a minha tinha os trotes dos cavalos no trabalho com o gado. Era quando o chão de terra batida se misturava aos homens que tratavam da lida. Hoje, as nossas meninas se encontram nesse “não-lugar” onde espalhamos palavras para que conheçam nossas histórias. O caderno vermelho da sua juventude e as linhas marcadas no meu tecido de tecedeira são o mesmo instrumento: a nossa tentativa de dar um rumo à agulha imantada do coração. Ora o cetim, ora a corda do laço, ora a linha de bordar. As voltas da agulha costuram momentos aqui, aí, lá…

Confesso que vi o mesmo vídeo a respeito da origem do moleskine. Fiquei pensando em como algumas coisas se entrelaçam para além das fitas de cetim e linhas. E, às vezes, o destino trança essas linhas e elas acabam se encontrando em alguma esquina. A gente sabe que, muitas vezes, não é a origem que faz a história bonita, mas o que acontece dentro da própria história. O que se desenha no caminho, os desvios, as rotas que nos levam aos quintais. Isso me faz lembrar que, não importa a distância e os fusos que vivemos, a gente sempre encontra o caminho de volta para casa.

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Carta às Linhas do Idioma Invisível

Meu caro Borges,

Nesse outubro onde vagamos por seu Outro, deparei-me com minha própria confusão, não fosse apenas por me deixar guiar pelos mapas que recebi, que me indicavam caminhos dentro da poesia ou de uma bússola imaginária. Há um norte que os mapas geográficos insistem em ignorar, mas que o peito reconhece no primeiro sopro de vento da manhã. Será que, se algum dia eu me encontrasse comigo mesma, daria sentido para a solidão dos quintais? Será que eu saberia descrever o pôr do sol e falaria dele de forma poética?

Às vezes, em alguns momentos, parece que começo a esquecer de coisas que vivi para além da rua de cima, e o que fica em mim são as memórias da infância. Alguém me disse que o que resta são os momentos felizes, mas o que é estranho é que me lembro também de episódios difíceis e que me afetaram para sempre. Uma linha contínua de momentos que repasso dentro do seu conto, como se fosse um enredo que outra pessoa viveu, e não eu.

O medo elemental do impossível me fez rir… e as linhas do idioma invisível pareceram a pipa que alguma criança da rua teima em empinar. O barulho me incomoda, e o clep clep da pipa rodopiando me faz pensar que é essa linha que me faz travar esse diálogo com você. Já te escrevi algumas cartas e as reli hoje. Em uma, eu falo sobre meu irmão e um momento delicado. Nem sei se devo esperar compaixão sua. Apenas te contei a história e, dias depois, ele se foi. Em outra, falei sobre as tardes no meu quintal e nem pensei se devia compartilhar esses momentos meus com você, como se fosse apenas a leveza de quem aprendeu a admirar o que você escreve, e não o homem que me foi apresentado. Mas, vá lá! Acho que posso fazer essa concessão.

Se todas as coisas deste mundo são palavras de um idioma misterioso que estamos sempre tentando decifrar, a minha escrita tem sido a tentativa de traduzir o silêncio. Talvez eu gostasse mais do seu outro mais novo. Me soou mais aberto ao rompante de entender aquele tempo. Os dois, no mesmo lugar, em tempos diferentes. Me sinto assim, às vezes, com uma certa bambina minha. Ainda assim, espero que o nosso norte permaneça assim: invisível aos olhos apressados, mas inteiramente nítido para quem sabe ler o avesso do tempo. Vamos aguardar os dias de outubro e, dentro de tudo que você viveu, que a gente possa resgatar o que há de melhor em você: sua escrita.

Abraço,
Mariana Gouveia

Das rotinas · Ensaios Intimistas · Outubro Literário

O Tempo Medido em Flores de Ipê

Há cidades que exigem de nós a urgência da calçada, o ruído dos motores e o café tomado em pé, na pressa de um balcão de esquina. Cidades que se desenham em mapas de experimentos urbanos, onde cada ponto de ônibus é um laboratório de gentes e esperas. Também fico no ponto de ônibus observando as pessoas, talvez à cata de personagens para ocupar o tempo enquanto ele não vira a esquina. Sempre encontro uma caçadora de assunto que me faz tirar os fones de ouvido, colocados exatamente para evitar assuntos.

No meu lugar, o tempo tem outro compasso que é medido pelas folhas, sementes e flores do ipê. Depende da estação ou da vontade dele. Percebo que em alguns momentos do dia ele derrama suas sombras sobre o muro, e parece um balé a tentativa desse leve desfolhar. Em outros, ele se transforma em um tapete dourado que me dá medo de pisar e desmanchar esse rito da pétala caindo como se dançasse. Há uma engrenagem diferente dentro do quadrante do meu muro que sabe a hora de florescer ou silenciar.

Aqui, depois que fiquei sem pegar ônibus todos os dias, percebo as pessoas da minha rua. Logo após a casa da direita, há um terreno baldio onde abandonaram uma gata — e passei a alimentá-la — e, enquanto levo água e comida nas vasilhas que preparei para ela, vejo através de janelas olhos curiosos que ficam me vigiando. A mulher da casa da frente e sua filha — que parecem ser a mesma pessoa, de tão parecidas — fingem catar alguma coisa fora do portão à espera de que eu fale qualquer coisa. E daí vêm as perguntas aleatórias, como se fosse um interrogatório.

Por isso, prefiro o quintal portão adentro. A minha geografia já está gravada no peito, no cheiro do alecrim que trago nos dedos e na certeza de que os mapas e as bússolas sempre me levam ao que o universo se propõe. Por aqui, as pétalas — talvez as últimas — do ipê se deitam sob meus pés e se deixam ser leveza apenas. E o verdadeiro experimento continua sendo o de simplesmente pertencer ao silêncio.

Mariana Gouveia

Crônicas · Ensaios Intimistas · Literatura · Outubro Literário

As páginas que nos costuram por dentro

Ilustração feita por mim com a ajuda de IA.

Fui andar no quintal descalça e cheirar o verde das folhas do alecrim. Deixei um pouco de lado as linhas e o tecido já marcado com as letras para bordar e cantarolei para o quintal. Fiz o café há pouco e a xícara ainda permanece pela metade em minhas mãos. Lembrei-me da frase que li em algum lugar sobre minhas mãos de tecedeira. Isso me levou para a bambina que costura com fitas de cetim e foi quase como abrir um portal entre os quintais. Acho até que se tornou mais um rito as conversas pelas manhãs, onde as frestas de minhas árvores se desmancham nas flores da jabuticabeira dela. É bonito pensar como esse rito organiza o nosso amanhecer na mistura dos fusos e, de certa forma, o pulsar do lado de dentro. Olho para as plantas do quintal e percebo que a vida essencial é justamente feita dessa costura invisível que traçamos com as palavras alheias. As minhas se misturando com as delas e a magia acontece.

Lembro-me de que ela me apresentou Borges e deparei-me muitas vezes com os diálogos entre ela e ele. Eu me tornava a intrusa com os olhos na conversa dos outros, de um Outro que ele escreveu. E é esse outro que nos lembra que somos feitos de retalhos — um pouco de cada história que cruzou o nosso caminho, o fragmento de um poema descoberto ao acaso na poeira de um sebo, as margens dos livros que sublinhamos ao longo da vida. Se fisicamente carregamos os traços de quem veio antes de nós, na literatura somos feitos das leituras que nos acolheram.

Ligo a playlist que tem o nome dela no repeat e volto ao trabalho com as linhas, tecendo nomes e pontos. Penso na bambina que se vê no reflexo de um espelho, múltipla de tantas pessoas, e acredito que assim é. Porque ninguém é uma unidade só. Há sempre uma mistura de seus antepassados e até mesmo das poesias que lê em silêncio, quando o seu futuro cruza o meu passado para além das esquinas e dos quintais. Com isso, nossos lugares se conectam como forma de reconhecimento através de um livro, costuras e fitas de cetim. De alguma forma, a gente se torna a garrafa que atravessa os quintais e, com isso, ele também se torna nosso cais.

O ipê aqui, que com sua sombra me acolhe. A jabuticabeira lá, que adoça os dias dela. Afinal, a luz que entra suave pelas frestas da janela, despertando o dia para o mundo partilhado, é a mesma que ilumina o invisível onde o passado e o presente escolhem se encontrar. E quando penso no Outro, lembro-me que já nos encontramos algumas vezes, dentro do que escrevemos com as meninas que fomos e, de maneira diferente, tecemos um caminho que me levou até ela.

Mariana Gouveia