Geral

Beda –  Sou peixe, a água é meu lugar.

Ph: Kurt Arrigo

“Um espírito livre não cabe nas gaiolas de um corpo domesticado”.

Às vezes a gente volta pra gaiola. Pra padrões antigos porque parecem seguros e são conhecidos. Às  vezes o medo da vida, de soltar a ilusão do controle fala mais alto. Mas a volta nunca é no mesmo lugar e, talvez por isso, lá no nosso íntimo, se permitirmos a abertura do coração, a gente reconhece e faz o movimento para o novo salto.
Tenho re-conhecido minhas águas e permitido que elas corram livre. E tem sido ali, com as mulheres  de maior idade que eu, que tenho recebido o sábio acolhimento delas pra fluir esse mar de emoções que também sou. E tem sido lá com as mulheres de menos idade do que eu que tenho remado por águas novas. Permitindo e brincando com minha autenticidade, luz e sombra, camadas e mais camadas. E sim, minhas águas compõem esse oceano infinito por onde tenho remado. Tem sido com o cuidado amoroso da Ana que me permito transitar em ser água e barco, onde me lanço e onde me acolho e me dou borda. Onde cultivo o movimento de minhas águas, da mais límpida à mais densa. O barco não navega na terra. A terra é de onde ele sai e onde ele atraca, pelo tempo que decide. É o porto seguro. O mar é a aventura. É lá onde se experimentam tempestades, remansos, ondas diversas, movimento contínuo. E é lindo e potente compor uma tripulação que vai dia a dia aprendendo a remar junto, cada uma a sua maneira e com o objetivo comum de atravessar, seja lá o que for. Não quero temer minhas águas. Quero cada dia mais aprender a fluir com elas. ” Sou peixe, a água é meu lugar”.

Luana Souza
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Geral · Scenarium Livros Artesanais

*Holograma

I.

do lado de fora, a vida
em estado de holograma
mergulho impossível!

II.

ainda assim,
crer no nado
fabular a margem

III.

do lado de fora, a foto
em tamanho real
dentro: a invenção do vivível!

Anna Clara de Vitto
Poema publicado no livro Feliz Ano Velho
Scenarium Livros Artesanais
*título criado pela dona do blog 🙂

Das palavras das cartas · Geral

Das cartas que recebi.

Mari,


Dessa vez não te contei para não te preocupar e também porque o pajé voou para o céu dos passarinhos… Quem iria rezar meu retrato para me pôr o buchinho no lugar e igualar minhas pernas? Meu pai adoeceu e eu também, tanto que ando precisando de terapia e achei a Clara Marina para cuidar de mim, ela vive na serra no Rio e eu no Vale em São Paulo. Clara me perguntou como era meu medo e eu disse que meu medo andava no sentido horário: meu medo era o tempo, porque eu não queria que chegasse quarta-feira para eu colocar a reciclagem no portão e nem a sexta-feira para eu voltar pra casa e nem o domingo… Nem o domingo! Tinha medo que o tempo passasse e chegasse o dia da cirurgia do meu pai que é bem velhinho e quanto mais velhinho, mais eu vou gostando dele e da minha mãe. Tenho medo de ficar sem eles, por isso não te contei. Faltei pra ficar com ele, foi uma alegria tão genuína… Voltei de cabeça baixa sem olhar janela em fora o céu lindo que fazia, então, para não desperdiçar céu, passei acordada vendo todas as variações que faz a rotação. Ontem, pareceu que tinha gastado tudo que restava de vida, por isso de cabeça baixa.
Mari, meu pai tem alta amanhã e domingo vou amanhecer no portão deles. Isso se chama sorte. Tenho sorte de poder falar tudo sem ordem nem sentido e você me entender.
Bom é ter amigo que conversa com beija-flor.


Te amo, Mari.

Luciane Recieri

Afetos · Geral

A Tempestade que eu sou

Chegar à margem e ter medo da quietude da água.
Antonio Gamoneda 

Muitas vezes já perguntei a mim mesma que tipo de tempestade seria. A palavra tempestade me absorve inteira. Fico embevecida quando vejo ela se iniciando no horizonte e seus sons chegam primeiro avisando que está chegando. Mas, qual seria […]

A Tempestade que eu sou — Adriana Aneli