Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Vertigem do meio dia emoldurada em vertigens.

Janeiro chegou ao seu final e me perguntei várias vezes se ele voou ou se foi como a maioria diz que o mês durou um ano… Mas, ele foi generoso comigo, até certo ponto. Te trouxe em notas diárias e a gente se deu as mãos nas manhãs mornas ou frias, secas ou chuvosas.

Estive com você nos passeios com o cão, nas ruas com nomes de flores e até mesmo na sua solidão. Você compreendeu minhas dores, minha surdez e até mesmo o meu silêncio. Muita gente acha que compartilhar momentos é estar juntos, ao toque das mãos. A gente fez isso de maneira diferente nesses 31 dias. Tomamos chás, cuidamos das plantas em uma situação muito de dona de casa… sei que você vai rir disso… e até andamos pelo quintal.

Eu falei de sol, você falou de chuva e vice e versa. Ouvi no mesmo repeat suas canções… coisas nossas que só a gente entende e isso basta.

Foi um passeio interessante, foi um janeiro carinhoso e agora trovoa aqui… Você disse sobre começo e fim… eu digo sobre continuação para além dos dias que não serão feitos de notas diárias, pelo menos desse lado aqui.

Grazie!

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim.

Já faz tempo que sei de sua paixão por casarios antigos e tenho um certo fascínio por eles também. O centro histórico de minha cidade está cheio deles, que contam histórias fascinantes, com seus personagens históricos, em sua maioria, com nome de rua.

A maioria está em situação de abandono e cada vez que passo por ali, fico como você, imaginando os mistérios que estão grudados em suas paredes – quase todas de adobo – e telhados antigos… Em suas fachadas, em algumas casas há iniciais que indicam os nomes dos proprietários e datas de construção.

Grande parte dos imóveis em estado de deterioração são privados e estão em inventário, outros sequer têm a documentação necessária. E, por fim, cabe aos donos a restauração, essa sim, seguindo os critérios de intervenção do Iphan.

Cada vez que passo por ali é uma casa a menos que vejo, seja porque choveu e a estrutura não resistiu ou um novo prédio – assim como aí – surge imponente em meio à história. Há casas construídas no século 18 e 19. Poucos foram restaurados e abrigam casas culturais e arte.

Conheço algumas histórias de pessoas que viveram ali e infelizmente, hoje são apenas pedaços da história cultural e social da cidade e os telhados vermelhos fazem parte apenas das fotografias.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Todas as auroras raiam no mesmo lugar

Hoje ao amanhecer, durante o passeio com o cão fui ao descampado onde vejo o sol nascer antes de todo mundo. Há sempre uma árvore solitária à espera. Um avião passa, um galo canta ao longe e o cão puxa a guia pedindo para voltar.

A manhã acontece ligeira no meu quintal enquanto termino algumas encomendas. Ainda há resquícios da chuva de ontem aqui, apesar do sol já ultrapassar o quadrante do muro. Há flores e folhas com as gotas ainda dependuradas esperando um balanço de vento para se dissipar. Um dia, li num livro que o oceano começa por uma gota e esse pensamento me atravessa…

Quando li seu texto busquei nas memórias quais livros estiveram comigo nesse janeiro – que já mostra seu ocaso – e percebi que estive a bordo de três livros da Scenarium Livros Artesanais. Projetos coletivos com coletâneas de autoras que admiro demais. Plural Alice, que marca o ano 10 da Scenarium, Caderno de desaforos – um luxo de desaforos – e Linhas e rabiscos em borrões de azul. Esse último ainda não conclui. Dá licença que vou ali fazer isso.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Virou todos os dias todas as esquinas de todas as ruas.

Ph: Raquel Pellicano

Seu texto me fez lembrar de alguns ontens e mais uma vez me vejo repetitiva aqui quando nossas esquinas se cruzam. Na época em que eu trabalhava no rádio, durante dois anos, fui a responsável para editar coluna de astrologia tanto do rádio quanto do jornal. A astróloga fazia as previsões e eu editava e não se espante… era a maior audiência nas manhãs, em um tempo em que o mercúrio retrógrado não era tão falado, pelo menos não nas previsões dela.

Tarô, runas e até baralho cigano era com ela. Um dia, tive de ir até sua casa pegar as previsões e como toda aura de misticidade me encantava entrei na tenda. Mesmo sem ler nenhuma carta ou qualquer outra coisa, ela me disse que eu teria sete filhos. A previsão não se confirmou. Tive três filhos, dos quais dois faleceram no parto. E as outras coisas que ela reafirmou várias vezes ser um aviso nunca se concretizou. Eu seria mãe de sete filhas. Os meus eram meninos.

As pessoas a adoravam e a rádio recebia várias cartas endereçadas à ela. Mas, o rádio sofreu mudanças, e o programa acabou, assim como as edições para o jornal… Nunca mais havia visto ou ouvido falar dela, até que, na última ida ao centro da cidade para comprar materiais a vi… de princípio, não a conheci e acredito que ela também não se lembrou de mim, porque fez um psiu… e estendeu a mão para mim.

Vestida com roupas coloridas e saia longa parecia uma cigana. Lembrei-me das que eu conheci na minha infância… Recusei apressadamente. Foi quando nossos olhos se cruzaram. Houve um resquício de conhecimento, mas ela fingiu que não e eu não me atrevi a relembrar.

Segui rumo a rua do meio, para a loja dos aviamentos e senti o olhar dela algumas vezes. O futuro que ela viu para mim tornou-se obsoleto na memória… Prefiro meu presente com uma chuva deliciosa que cai nesse fim de tarde. O amanhã? Vamos aguardar.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

E a rota que deveria seguir estava escrita no ritmo.

Quando li seu texto, mais do que pensar nos aromas, lembrei-me de um poema de Adélia Prado:

“Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava”.

E é exatamente o que me lembro… das cantorias de minha mãe enquanto manuseava as panelas ou colocava mais lenha no fogão e preparava as brasas para assar o bolo mané pelado.

(Aqui abro um parêntese para explicar o modo que minha mãe fazia. Não tínhamos o fogão a gás e preparar o forno de barro para assar um bolo era desperdício de tempo e de lenha. Minha mãe colocava a massa em uma panela e tampava com um prato cheio de brasas. O tempo de assadura era o mesmo do forno e o cheiro era a fragrância do amor a exalar na cozinha toda.)

– O alimento é a poesia para o corpo! – minha mãe dizia enquanto ao redor do fogão a lenha preparava os ingredientes para fazer os biscoitos – o que se tornava um ritual, quase festa. Depois da massa feita, passávamos eu e meus irmãos a enrolar e fazer figuras com a massa, enquanto ela fritava. Lembro-me que haviam cavalos, estrelas, letras com a iniciais de cada um dos nomes dos filhos.

O polvilho, nós mesmo fazíamos, logo depois da colheita da mandioca tudo marcado por rituais para não desandar a massa, para não azedar o pão, para ficar na memória o rito da mandioca sendo ralada, lavada, espremida e daquela água branca da cor de leite, ficava no fundo das bacias o pó branco que serviria para fazer quase tudo nos próximos meses.

Desde o pão de queijo ao mingau. O jirau montado no quintal para secar o polvilho. O tempo certo para o polvilho doce e o azedo. Repetir a receita e com o chá de erva doce merendar em volta dela.

Descrever isso é como voltar no tempo… preparar os ingredientes, sovar a massa. A memória se volta para o passado e o tempero se chama saudade.

A memória busca as lembranças dentro da cozinha. Os temperos a traduzir a saudade. Minha mãe sempre figura central da cozinha. A mesa sempre larga e grande para caber os sete filhos e a turma do trabalho da fazenda. Tenho isso tudo vivo em minha e com certeza foram esses instantes que me fizeram o que sou.

O momento da partilha dos pães, o fogo a crepitar no fogão. O cheiro do leite a ferver enquanto queima os dedos na ânsia de não deixar derramar o leite sobre a chapa quente.
A lembrança presa nas coisas. As xícaras de ágata verde com florzinhas miúdas, o bule a combinar com a toalha xadrez na mesa.
Minha mãe dizia que a casa começa com as xícaras e o coador de café. Foi dela que herdei esse amor pelo grão que nós mesmos colhíamos e o pai torrava para depois moer e coar.  Aquele era o tempo do queria.
Falar disso é como abrir a janela e respirar o tempero da memória.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.

Bambina mia,

escrevo-te nessa tarde quase noite com nuvens grossas no céu que avançam rapidamente sob o quadrante do meu quintal. Sinto o cheiro de chuva chegando… acabei de ler sua missiva para uma outra pessoa e ainda me impressiona como nossas esquinas se cruzam em instantes iguais em tempos diferentes. Quando você falou sobre sua settimana meu coração reativou as memórias de nossos rituais diários. Posso dizer que viajei com você nas lembranças.

Na segunda, a gente não vendia o leite. Já era combinado que todo leite tirado na segunda iria para os doces, e os queijos. Além de tirar uma parte para a coalhada e a manteiga. Íamos para o galpão e os tachos de cobre entravam em ação.

Terça, cuidávamos da horta. Era o dia de retirar as ervas daninhas, revolver a terra, colher as pimentas, amoras, pimentões, quiabos, jilós, berinjelas e arranjar os canteiros para as novas mudas. Desde a mais velha à mais nova tinham sua função.

Quarta embrenhávamos na floresta e colhíamos desde as ervas medicinais ciceroneadas pela bá aos cogumelos. Também fazíamos pic nic e aprendíamos como sobreviver ali se algum se perdesse. As buchas vegetais cresciam perto do riacho, e os pés de palmito, que a gente conhecia como gueiroba – uma espécie de palmito amargo – além dos coquinhos que tinham as castanhas mais deliciosas do mundo.

A quinta era nosso dia preferido, acho eu. O dia dos quitutes. Logo pela madrugada meu pai colocava o forno de barro para aquecer e mãos na massa para modelar os biscoitos, ralar o milho para a pamonha e bolo para o resto da semana… o fogão a lenha crepitava e saia guloseimas deliciosas. Os pãezinhos e as broinhas, que depois de assados iam para as latas. Nesse dia, também se juntava a nós algumas das vizinhas da região. As histórias surgiam entre um assado e outro.

Na sexta a gente ia para as costuras, os bordados e para as tarefas do curso de bordados e corte e costura. do Instituto Universal Brasileiro. O linho para bordar, os riscos que minha mãe fazia, o dedal e as linhas tingidas por nós mesmo.

O sábado ganhava ares de festa na beira do rio. As minhas irmãs mais velhas lavavam roupas e estendiam sobre as pedras, enquanto os mais novos banhavam na parte rasa do rio. Na casa, era o dia de manter a despensa das carnes cheia. A fritura do toucinho para a banha, a preparação para as carnes de lata ficavam a cargo do meu pai e dos homens que trabalhavam ali. Como a professora da escola rural morava com a gente, ela nos ensinava usando em cada dia da semana, a natureza e sua forma de vida.

Já no domingo, era antes de tudo, o dia da missa, na igrejinha que meu pai construiu ao pé da colina. Depois, todos os vizinhos chegavam para o futebol. Enquanto as mulheres cuidavam do almoço. Lembrar de tudo isso deixou meu coração quentinho. Há ainda algumas coisas que se perderam na memória, entre um dia e outro… mas, de resto, a chuva começou forte aqui… um dia, escrevo sobre os dias de chuva para você.

Grazie por ativar essas memórias.
Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir…

Sua frase: quando foi que a Solidão se tornou um problema? me tocou em cheio. Lembrei-me das conversas com minha irmã caçula ultimamente. Ela se recupera há um ano de um transplante renal. Antes, à espera da cirurgia, ela fazia hemodiálise dia sim, dia não. Também se queixava da solidão entre ela e a máquina.

Agora, já em franca recuperação, a solidão do dia a dia está mexendo com ela. Os filhos cresceram, casaram, mudaram e o marido trabalha o dia todo e em alguns dias, até o período noturno. Ela mora no interior de Mato Grosso, em uma cidade pequena e por mais que eu indique opções para amenizar esse sentimento, não tive sucesso.

A gente cresceu rodeados de irmãos, primos e quando cada um seguiu sua vida, a solidão pairou em quase todos eles. Eu adoro a minha solidão. Gosto de estar comigo, de vagar no meu quintal, de falar com os pássaros, insetos e plantas. Lido bem com esse espaço de estar só. O moço daqui de casa sai de madrugada e só volta no fim do dia. Claro que tenho a companhia de Yoshi e meu quintal tem passagem para o seu, onde nossas mãos se cruzam em carinho e mensagens.

Não tenho problema em estar só. O artesanato me acompanha nas longas manhãs. A não solidão de Rubem me atordoa, mesmo gostando de algumas companhias de vez em quando, mesmo não estando de mãos dadas as minhas nunca estão vazias. Sempre servem de pouso para a solidão de voos e de outras pessoas.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele

Sempre respondo a pergunta de como e porquê me tornei escritora e qual é a sensação de escrever um livro. Claro que a influência de minha mãe – que amava livros – cabe nas minhas respostas. Desde pequena, eu e meus irmãos fomos incentivados a ler por ela. No meio de sete crianças, era natural que algum ou outro não morresse de amor pelos livros. Um seguiu outro tipo de arte, outras, partiram para o artesanato.

Quando li seu texto de hoje sobre livros e escritores, as lembranças me levaram até meu pai. Talvez, minha maior inspiração era os causos que ele contava e eu nem tenha me dado conta disso, porque lá no início da minha escrita, ainda criança, queria ser contadora de histórias, como ele. É o que acaba se tornando um escritor… um contador de histórias.

Enchi cadernos e mais cadernos de causos que eu queria contar e dizia que se eu tivesse pelo menos um expectador para ouvir, já estava de bom tamanho. Como eu havia crescido em uma fazenda, minhas histórias envolvia a natureza, os bichos, os homens do lugar, até que surgiu o primeiro amor, a mudança para a cidade grande. Foi quando caiu em minhas mãos a vivência de Maria – minha personagem do meu primeiro romance Corredores – codinome: loucura.

Meu pai ainda viu meus sete livros serem lançados, no formato tão cheio de ternura que eu nem poderia imaginar. Um livro artesanal, costurado com fitas de cetim, com toda dedicação de sua curadoria e do Marco Antônio, que deixa em mim tanto afeto e saudades. Tenho certeza de que cada leitor que recebeu em mãos um desses livros teve o mesmo brilho nos olhos que meu pai, mesmo que nos últimos lançados, ele quase não entendia o que a gente lia.

Ainda tenho algumas histórias para contar. Ainda quero tocar o coração de quem me lê e sendo repetitiva, ainda quero que você edite as minhas palavras com a mesma emoção com que toca minha alma e me alcança todos os dias em causos onde a gente ri, chora e nos cruzamos entre quintais, esquinas, luas, tempestades e sóis.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

O branco de uma palavra arranhada na parede.

Confesso que já tentei várias frases curtas ao iniciar um romance, texto, prosa e nunca consegui. Acho que sou das frases longas que contam quase a história toda de uma vez.

A frase do tema me fez lembrar do amor do João e Joana – claro mudei os nomes para não expor ninguém – já que ele é um tatuador conhecido por aqui. Um dia, voltando do trabalho vi o grafite exposto na parede de uma universidade particular, que havia sido fechada ou transferida para outro lugar. A frase me chamou a atenção. Era sucinta e objetiva: porque o “nós” não existe mais.

Quando isso acontece, toda a história se desqualifica e passa a ser passado. Foi isso que ele me disse quando o conheci, por acaso, quando ele fez minhas tatuagens. Joana era Joana mesmo, só que o J tinha a conotação do R, devido ser estrangeira. Não perguntei de onde, porque as palavras correram soltas quando ele falou sobre ela.

Gostava de flores, de borboletas – como eu – e de grafites… ele, gostava dos grafites, do riso dela, da fala dela, mas não gostava das frases soltas, como se sempre estivesse se despedindo. Era andarilha. Não tinha rumo, nem planos. Amanhecia aqui hoje e no fim do dia já a sabia em outro canto, kms de distância, às vezes. Ele ficava perdido, como se sua bússola o tivesse deixado mais desnorteado do que antes dela.

Ele, além dos dreads, sabia seu lugar aqui… no stúdio onde cabia todos os bonecos de sua coleção, o rádio antigo do avó, as casinhas de epóxi que a mãe fizera antes de partir, as pranchas que já usara nas férias em Mangaratiba, onde pensou que havia encontrado o “nós” que não só os do cabelo, mas o nós que transformava dois em um.

Ela o acompanhou na volta para casa e grafitaram juntos todos os muros das avenidas com suas histórias de amor. Mostrou pra ela todas as cachoeiras da região, onde ela havia se encantado com os paredões da Chapada e dito que ali, ela moraria a vida inteira…

Até que um dia, ela pintou o desfolhar do malmequer e a frase mais dura de um adeus. Simbólica, curta e nem sorriu. Colocou a mochila nas costas e seguiu a avenida afora até o ponto de ônibus. Ele ficou ali, tentando tirar as aspas do nós e foi a primeira vez que chorou por amor.

Depois, soube dela por outros lugares que não os seus e a admirou pela liberdade que ela cantava e exercia e a partir daí, viveu de saudades e de grafitar coisas com frases longas, porque frases curtas não caberia em tudo aquilo que ele viveu.

Acho que ainda estou buscando frases curtas depois disso.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Passei dormindo o silêncio… em um dia alquebrado.

Aceitei seu convite e aumentei o som enquanto coloquei um bolo de fubá para assar. Lembrei-me dos tempos em que todo nosso meio de comunicação-informação na infância chegava pelas ondas do rádio. Lá pelos idos anos 70, um programa de rádio tocava bossa-nova. Era as canções que encerravam nossas noites antes de dormir. Claro que todas as canções tocavam a nós e principalmente, minha mãe… mas uma, em especial, me cativou. Nara Leão. A Narinha e toda controvérsia de sua história.

Já contei que minha mãe era apaixonada por fotonovelas e as revistas chegavam via carteiro e sua bicicleta amarela, assim como as cartas e os livros do Instituto Universal Brasileiro com os cursos de cada um de nós. Nas revistas, naquela época, a maioria das capa trazia a musa da bossa-nova… em uma das edições tinha Nara Leão como A pobre menina rica, que contava sua própria história. A menina que saiu da Zona Sul e subiu o morro para emprestar a voz às canções.

Era um musical, de antes de eu nascer e virou uma fotonovela. Não me lembro de toda história. Lembro-me das canções, todas que você citou. Ouvi-las, com você cantarolando ao fundo me trouxe doces lembranças. O bolo ficou pronto, vou lá fazer um café enquanto a trilha sonora me leva até você.

Mariana Gouveia