Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Acordei na hora do sono.

Cheguei em casa na hora morna do dia. O sol desenhava seu ocaso no céu e um risco de lua estava ali, quase aos pés dele e revisitei minha noite/madrugada com os latidos do cão. À princípio, não encontrei nada que chamasse a minha atenção porque olhava para o telhado. Pensei se tratar de um gato – que tira a paz dele. Não vi o sapo que havia conseguido entrar pelo vão do portão.

Só consegui retirá-lo quando amanheceu… E o corpo reclamou da noite mal dormida, embora em muitas noites isso seja comum. Fui molhar as flores e lembrei-me de você e de sua flor preferida e, por acaso, no texto de hoje, você a mencionou. Coincidência? Você sabe que não acredito nisso.

Enquanto escrevo penso em tua nonna e na minha avó que passeou pelos meus pensamentos. Escrevi algumas vezes a respeito dela aqui Tivemos poucos pouco contato, embora morássemos na mesma rua. Eu idealizava muito minha avó materna. A paterna faleceu antes do meu nascimento.

Minha avó nos conheceu no nascimento e novo contato somente anos mais tarde. Quando digo que a idealizava é porque eu desejava muito aquele afeto de vó… o carinho que a vi entregar para outros netos. Penso que ela se assustou com as crianças-netas-estranhas quando chegamos. Isso aconteceu pouco depois da morte de minha mãe.

Eu superei o afeto negado e todo amor que eu guardava para ela ganhou um endereço novo no coração. Entreguei à avó do meu marido, que me deu tanto carinho que me esqueci da minha avó.

Lembro-me quando me disseram sobre a partida dela… Achei que deveria ir ao velório para me despedir. E fui. Mas o lugar não me cabia. A estranha ali era eu.

Os laços com os parentes do lado materno foram… quebrados-cortados? Um tio ou outro aparece vez ou outra, nas redes sociais — cobrando presença.

Para quem teve uma bá na infância e uma vó Léo não sente falta de afeto. Aliás, tem de sobra para ofertar em abraços e mãos estendidas.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

As vidraças nada sabem das pedras…

Bambina mia,

Chove torrencialmente depois de um dia de muito calor – minha realidade de sempre – e de uma ventania que espalhou as folhas todas pelo quintal. Senti aquela vontade de tomar banho de chuva, mas recuei diante de um ouvido ainda entupido.

Mais cedo, fui colher folhas de amora no quintal de uma amiga. É com a xícara cheia do chá pousada na mesinha junto ao notbook que te escrevo. Escureceu rápido demais e tão de repente, que pareceu uma passagem de tempo daquelas de filme. Um certo quê de nostalgia apareceu aqui. Estou no meu passado e os relâmpagos ecoam fortes, como se estivessem bem perto. Me fez lembrar de minha mãe que tapava todos os espelhos e vidraças de casa com lençóis brancos em dias de chuva com trovões.

Como você citou Patii Smith o pensamento me levou para uma livraria onde caminhamos juntas em um ontem que me traz saudades… você comprou o Ano do macaco e comentamos sobre a escrita das mulheres e a tentativa bruta de homens nos calarem. Já me disseram que eu uso a temática de Manoel de Barros e que quando fujo disso, falho. Fico repetitiva. O moço que quis corrigir meus escritos repetiu várias vezes as correções em poemas já publicados. Você sabe de quem falo.

Na novela das 18hs, ambientada nos anos 50, uma escritora se veste de homem para a novela que ela escreve ser aceita na rádio novela. Papel magistral vivido pela Nívea Maria. Daí, me pego pensando nas mulheres que você citou que vieram abrindo caminhos para que a gente pudesse hoje escrever sobre e como a gente quiser. E ainda bem, apesar de que ainda tentam nos calar.

O chá acabou, a chuva continua insistente e os trovões ecoam. As luzes da rua acenderam e a nostalgia ainda vaga por aqui. Grazie pela companhia.

Bacio
Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O signo da pele

Ph: Pinterest

O pouco que sobra
Do que não sabemos — a runa, a pedra
Um verso… o decanato
De forma errada, em dez graus
Plutão, em meu planeta regente
Que não rege nada
As estrelas, no céu noturno

— ursa maior —

Como se fosse uma xícara gigante
Como se fosse a pele exposta em arrepios

Mariana Gouveia
Coletivo O signo da pele
Scenarium Livros Artesanais

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A cidade que resta do outro lado da luz.

Ainda tenho a última carta que minha mãe me escreveu. Na época, ela estava aqui em Cuiabá e eu em Goiás, na fazenda ainda. Ela falava da saudade que sentia de nós e de como estava sendo difícil o tratamento renal. Depois, linhas abaixo, ela me pedia para cuidar da horta, dos meninos, do meu pai e pedia que eu escrevesse para a rádio que ela ouvia todos os dias e onde ela ainda me veria trabalhar, um dia. Foi dela que herdei a mania de escrever cartas.

Quando li seu texto fui atrás da minha caixa de cartas. Lembrei-me das nossas primeiras missivas e dos envelopes vermelhos. Eu ainda recebo alguns envelopes – a maioria, de Portugal – e longas cartas e envio também. Reli algumas hoje e lembrei-me de como cada uma delas fez diferença em meus dias, quando as recebi.

Dia desses, na minha esquina, três carteiros conversavam sobre o que eles mais entregavam e o que faz entrega na minha rua me chamou e disse aos colegas que minha casa era a única, em tantos anos que ele ainda entregava envelopes com cartas. Lembrei disso quando falamos sobre o ocorrido na Dinamarca.

Geralmente, aguardamos ansiosamente uma encomenda, consultamos códigos e rastreamos todo o trajeto feito , mas um envelope, com a carta que traz notícias de outra pessoa, é realmente mágico.

Já escrevi muitas cartas – e já escrevi tantas outras para outras pessoas – e tenho todas guardadas no coração. Converso há mais de oito anos com d. Dalva, de Jacareí. Mãe de uma amiga, que leu um post meu onde eu falava de cartas e ela me pediu uma. Depois da primeira, nunca mais paramos. Falamos de amenidades, de plantas – ela, de filhos e netos – e eu de artesanato e de coisas que nos encantam.

Todo mês chega a resposta da carta anterior que enviei e em cada palavra dela, o carinho e a tenacidade que minhas palavras causam nela. Não sei o que faria se aqui também acabassem com as entregas de cartas. Claro que ainda teríamos aplicativos de mensagens, mas o cheiro do papel e a letra bonitinha de d. Dalva aquece meu coração a cada envelope.

Acompanhei suas missivas de outono em nossos diálogos pela manhã e sei do quanto foi lindo e doloroso escrevê-las. Também tenho escrito muitas cartas aqui no blog. É um meio de atravessar barreiras e levar meu carinho e lembranças além dos envelopes.

Concordo com você. O mundo precisa de cartas. Acho que vou ali escrever uma. Ah, e tomar um chá também.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tudo é da cor do silêncio.

Já eu, nas horas de esperar as ervas crescerem no quintal, penso que ele é o meu portal secreto – agora já não é mais – para meus afetos. É por onde ando descalça, sentindo o chão e o cheiro de terra molhada. Há três árvores… um pé de ipê amarelo, um pé de jurubeba e um pé de jabuticaba.

Ainda tenho uma trepadeira que é o orai pro nóbis que se enrolou no pé de ipê e solta seus cachos cheirosos no ar. As outras plantas são de pequeno porte e cabem em vasos. O alecrim, que perfuma a tarde, a erva cidreira e o capim santo, a caninha do brejo e o hortelã pimenta, além de vários pés de pimentas.

Durante minhas manhãs, vagueio por ele e é onde as sombras me dão alívio no calor, durante meu trabalho. Tenho como companhia diversos pássaros e insetos, que amam algumas plantas nativas que cresceram aqui e ali, talvez trazidas pelos pássaros ou vento.

Há uma palmeira também, que produz a guariroba – um palmito amargo, mas delicioso – que expande suas folhas nas tardes mornas dançando com o vento. O meu quintal tem a docilidade de se doar para mim e cabe dentro da minha liberdade.

É onde os desvios acontecem e me leva para qualquer lugar lúdico – o seu quintal, por exemplo – e é a noite que ele me veste… e durante as madrugadas insones conhece a cor do silêncio que me atinge e me abraça.

Mariana Gouveia

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Tua tinta aprendeu a dureza do muro.

Já não leio as notícias há tempo. Acho que deixei esse hábito desde a pandemia. O medo dos números de vidas perdidas me assustava. Hoje, no máximo leio uma ou outra manchete que traz as notícias de agora.

Os sites do meu lugar passaram cada vez mais a noticiar os feminicídios e pasme… meu estado é onde mais acontece os casos no Brasil. No projeto que ajudo vejo a realidade bruta, nua e crua… e diante de tanta luta e dor a poesia me salva. É o que tento levar até elas. Você falou sobre a redescoberta de Sophia de Mello Breyner Andresen no Brasil. Suspirei. Lembrei-me da carta que escrevi para ela em 2018, em um projeto da Scenarium.

Como não tenho nenhum livro dela aqui, igual a você, fui aos arquivos buscar a missiva escrita e deixo aqui enquanto sorvo um chá de menta fresca:

Sophia,
Aqui, em uma mesa de canto, nesse café da rua do Meio, te escrevo.

Lembro-me da maneira que chegou até a mim e isso me leva para o cheiro da manga madura que fazia com que a biblioteca da escola fizesse quase parte da merenda. A fruta parecia quase tocável da janela, visto que o pé da mangueira anã resolveu dar o ar da graça ao toque de mão.

E por falar em mãos, foi pelas mãos da irmã Matilda que te descobri – ou ganhei – nunca sei ao certo.

Irmã Matilda era a freira boazinha que todo mundo amava e além de nos dar aula de ensino religioso era a responsável pela aula de leitura na biblioteca da escola.

Entre o exemplar de José de Alencar e parte da Bíblia Sagrada lá estava sua poesia camuflada de disfarce. Devo confessar que foi mais amor provocado pelo olho da freira do que propriamente amor de cara pela sua arte poética e lírica.

A maneira como ela me olhava enquanto eu te descobria nas leituras – parecia que havia cometido um pecado –  era como se partilhasse de um segredo tão dela e agora também meu.

Falou do quanto você a encantava e de onde era. Desenhou em palavras seu lugar, seu país e me levou em pensamentos para além do oceano até seu Portugal.

Depois disso, você se tornou companhia e eu te lia como oração.

Quantos poemas de amor foram lidos em voz alta nos corredores da escola, ou mesmo em apresentações para a família em dia de festa. Ou só, sob a luz de lamparina com sua cor azulada…

Hoje, te busco nos livros que ainda não li. Te encontro nas prateleiras do sebo ou na casa de uma amiga querida que a ama e cultiva tanto de coisas tuas e tudo traz à tona a poesia tua estampada no olho da irmã Matilda que voltou ao seu país de origem e nunca mais se soube dela.

É hora de ir, o café está esfriando enquanto as lembranças me fazem suspirar. O horizonte tem essas cores mistas entre o laranja e o lilás… Meu silêncio interno confronta – se com a correria de fim de dia, passos apressados em direção ao ponto de ônibus… Quase ouço a maresia quando te leio…

“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”

eu, sorvo a delicadeza da poesia no sabor do café. Aceita?

Beijos

Mariana

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tudo cabe dentro das palavras.

Minha mãe dizia que a imagem mais bonita que ela tinha na memória foi quando eu aprendi a escrever as palavras. Lembro-me bem da cartilha Caminho Suave – usada para alfabetizar nos idos anos 70 e lá vai pedrada – onde o a e i o u ecoava em minha mente como mágica.

Bastava misturar as cinco letrinhas com as outras tantas consoantes e lá surgia a frase feita. Talvez, para minha mãe, o fato de estarmos em uma fazenda, com todas as dificuldades para uma escola, a memória de saber que a partir dali, o mundo me caberia deve ter despertado nela a beleza da leitura – já que ela era uma apaixonada por ler.

Ela sempre reafirmava que a gente havia aberto um portal… e lá ia eu me sentir tal qual Alice e seu País das Maravilhas. Gostava da palavra voo, ovo, rumo, viagem e lua. As outras, depois, vieram por consequência… mas lua enchia minha imaginação de imagens que iam muito além do satélite no céu.

E com isso, eu escrevia em tudo que pudesse caber palavras e descobria em cada leitura e em cada palavra que eu podia criar mais de mil. O que se mostrava no céu em noite estrelada, além de uma lua em suas fases, era meu olho de menina escrevendo à luz de lamparina, depois, lampião de que o som dos grilos podia ser descrito em palavras e todo aquele sentimento que fazia o coração acelerar também podia caber em um poema.

Depois, bem depois, eu descobri que haviam outras palavras, que podia significar as mesmas coisas que eu escrevia, mas que eram escritas diferentemente do alfabeto que eu conhecia. E que o eu te amo da minha poesia cabia no I Love You em outro idioma em muitos outros que eu só fui descobrir bem mais tarde.

Descobri também que o encanto de minha mãe era muito mais do que saber que a gente saberia se virar em qualquer situação. Era saber que conhecendo as palavras qualquer lugar nos caberia e as palavras nos levaria ao mesmo encantamento que ela sentira lá, quando a gente descobriu o a e i o u.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

São mil e umas as noites em que não bato à tua porta e vens abrir-me

eu sempre acordo de madrugada… depois que o moço daqui sai para o trabalho às 3:30 da manhã muito raramente deito novamente. Mas percebo que não sou só eu quem espero essa hora estranha, parada no tempo entre o crepúsculo e o desabrochar do sol por traz do muro. Sinto cheiro de café na vizinhança.

Preparo o café, enquanto ando pelo quintal em um ritual de falar com Chiquinho – meu beija-flor – enquanto ele pousa no varal de roupas. Yoshi sempre vai aos meus pés. Quase pisando no meu calcanhar e cheira as coisas que aparecem cheirar ao faro de cachorro.

Já sei os ritos do lugar. O morcego que se envereda na árvore frondosa da casa abandonada da frente, o moço do clube que passa com sua bicicleta amarela assoviando, o gato que rompe o muro e o atravessa como se estivesse desfilando – para a bravura de Yoshi que odeia gatos – e o portão da vizinha que se abre as 5:15 pontualmente todos os dias, e ela rompe rua afora rumo ao ponto de ônibus.

Apago a lâmpada da cozinha e abro as janelas. Se chove, espio a chuva com uma xícara de café na mão e um livro. Se não há chuvas eu pego o regador e molho as plantas retirando as folhas mortas. A manhã se antecipa aos meus afazeres depois de um diálogo com você e em suspenso, o sopro que faz com que meu pensamento vai de encontro ao vento. Fuuuuuuu!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Voar é humano… é transitório, momentâneo…

Mariana,

Ontem, depois de muito tempo, visitou-me uma sairinha de máscara.
Estava para sair, o tempo contadinho e a coisica veio procurar comida, colo, pouso, sei lá.
Queria ter ficado mais e a despedida foi meio como quem se despede do grande amor sem saber se era grande o suficiente para voltar.
Ninguém entende porque olho tanto para fora, para cima, para dentro: estou sempre esperando esse momento em que algo bonito pouse em mim mesmo que fique só um pouquinho.

NB: ainda preciso falar da cama auxiliar.
Luciane Recieri

Luci,

eu já estava com saudades de você… embora sempre esteja te vendo andando por aí, sendo pouso, conhecendo as ruas de Cuba e fazendo meus olhos se maravilharem com suas fotos.

Gosto muito dessa parte de ser pouso, Luci e de ver voos também e sei que é esse o motivo da gente olhar para dentro, para fora, para cima. Faz todo sentido para nós que somos seres alados.

Hoje, pela manhã, depois de vender os recicláveis para o projeto dos cães, eu lembrei-me de você quando Chiquinho chegou pousando no galho do pé de ipê e suas flores temporãs. Fui podar as plantas do quintal, mudar algumas de lugar, fazer mudas para quem pediu e o voo rasante dele em mim me fez chamar seu nome e repeti várias vezes: saudades de tu, Luci… lembrei-me de Lunna também que não entende a palavra saudade como nós.

Para ela, mi manchi soa melhor e achei lindo o contexto e o significado. Sinto sua falta… e foi daí que comecei a te escrever. Pensei na sua cama de não dormir e de como os embaixos de coisas não acontecem aí. Aqui é cheio de embaixos de coisas. Um dia te conto como são.

Janeiro está voando, Luci e parece que ainda há ontens perdidos em tempos que trazem saudade – olha a palavra aí, de novo – e de repente, o calendário nos mostra que já é metade do primeiro mês do ano e você já viu as ruas e os cães de Cuba e sorriu para seus sobrinhos. Tenho certeza de que, e a partir daqui, eu te copio em ser feliz. Não que já não seja. Mas não é desta felicidade amiúde que eu falo. É bem outra. Ando até a conferir a sinastria, porque acredito que entre as doze constelações, uma combina com a minha. Júpiter teria a ver com sinastria, Luci? Ontem ele estava esplendoroso na madrugada. Sabe lá, o que Júpiter nos reserva?

Recebi hoje algumas esperanças. Me deram sonhos antigos por ordem de importância, não data. Logo eu, que sou tão ligada em datas. Essa carta eu não vou usar os carteiros, Luci. Não haverá selos para ela. Por que amor, segundo minha mãe me disse um dia, antes de morrer, não tem selo. E hoje, eu só queria dizer que mi manchi

Beijo meu,
Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

O decanato da pele – a sua –

Ph: Omerika

Há coisas que as previsões

não conseguem prever

Outros toques, outras cartas
Atrás das sílabas o monólogo

era um meio de solidão.

Os retratos e suas datas

dando contornos para a numerologia

A toalha de mês, de cetim,

volatiza a memória que guardei…

As estrelas, todas de carreirinha

— três marias —

De repente, na previsão, a minha pele
Tatuagem de minhas mãos nas suas.

Mariana Gouveia
Coletivo O signo da pele
Scenarium Livros Artesanais