Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Com o tempo a gente se despede das coisas conhecidas.

Ultimamente, me tornei mais uma pessoa de caminhos… uma desculpa para espiar o bairro que moro e parece mudar cada dia e levar Yoshi para sua caminhada rotineira. Vou sempre pela manhã, quando o sol ainda não está tão forte.

Sempre levo como companhia minha câmera para registrar momentos que encontro em cada esquina-calçada-rua-postes… Não é raro me deparar com tucanos – vide foto – com araras e até pica paus. As flores, das mais variadas sempre me rendem mudas e novas amizades.

No sábado, caminhada é mais rápida e sem enrolação. Sábado é o dia das infinitudes do meu quintal e de lavar roupas, fazer faxinas… essas coisas comuns de dona de casa. Os afazeres tomam conta do meu dia e só no fim do dia é que me atrevo a escrever qualquer coisa ou vagar pelo quintal, enquanto a gente conversa.

Do meu cantinho vejo a lua, as nuvens se derretendo para o sol e hoje, se der certo, Júpiter estará brilhando mais perto da terra. Vamos ver?

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Os teus olhos de repente, viram-me, pela primeira vez

Quando vi você falar sobre Susan Sontag, uma imagem se passou como um filme em minha cabeça. A nossa primeira vez. Pera lá! Para não confundir ninguém, falo sobre a primeira vez que trocamos olhares, abraços e cuore.

A gente já se falava via mensagens e de repente, lá estava você, no saguão do aeroporto, com sua boina inconfundível a me procurar entre os passageiros que chegavam, ou seria o contrário? O abraço primeiro parecia continuação de algo que havia sido pausado em outros tempos. Ou parecia que tudo era como se já tivéssemos vivido antes aquele instante.

A gente dá muita importância para a primeira vez. Para mim também ficou marcado aquele momento como o primeiro, mas eu poderia enumerar cada outros primeiros momentos e adivinha? A gente vivenciou tanto aquele abraço, as primeiras falas interpelando uma na outra que não houve registro e só percebemos isso quando eu já havia ido embora. Tanto que a foto do post já foi na segunda vez, que para nós foi a primeira de novo. Coisa nossa.

Inventamos um desvios entre os quintais e um voo entre pássaros. Eu andei pelo seu bairro e te mostrei o meu e a garçonete do bar fez meu café com seu nome e o roteiro das ruas com nomes indígenas possuía ligação com meu lugar. Era dessa primeira vez que a gente falou? E quando em tantos momentos últimos a gente estendeu as mãos no maior sentimento que a vida pode dar. A amizade.

Por que rente aos primeiros momentos de cada manhã, andar pelo quintal e falar com você é sempre como a primeira vez.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar.

Hoje a tarde o pássaro gigante veio de novo e lembrei-me de você. Lendo seu texto e seu vagar pelo quintal, veio a memória o alma de gato – esse pássaro – que se pousar não cabe na minha mão.

Tempos atrás ele pousou ai no seu quintal e cantou. Ainda lembro-me dos nossos diálogos em torno dele. O cão daqui estranhou esse menino grande no galho da árvore e latiu. Não fosse pelo tamanho, mas pelo canto dele que lembra um miado de gato. Por aqui, voam sempre em dois… mas consegui fotografar um só.

Você sabe que minhas mãos sempre se transformam em pousos para os que voam… às vezes, até eu fico encantada e não me acostumo. Mas, não imagino de maneira nenhuma um pássaro desse tamanho pousando nelas. Por enquanto, já fiquei feliz com a volta deles nessa tarde intensa de calor.

De Susan Sontag conheço o que você me apresentou e me aliei a liberdade dessa mulher incrível que desvendei através de seus olhos e de suas palavras. É engraçado como voar e pousar tem tantas dimensões entre as esquinas que nos encontramos.

Grazie por isso!
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Nos meus olhos, acumulam-se esquinas…

As minhas esquinas somam poucas e as maiores são as que ficam ao lado da floresta ou do curral. Nasci nessa casinha da foto, lá em 1965, no friorento dia 1º de julho. Até meus 12 anos, eu conheci como a palma da minha mão cada cantinho desse lugar.

Depois, mudamos para a cidade que era tão pequena, de poucas ruas transversais e uma praça onde ficava a igreja matriz. Minha casa ficava no meio da quadra, com alpendre e calçada alta e grandes janelas de madeira. Logo o destino nos fez mudar de estado e minha casa passou a ter varanda ao redor da casa toda e um rio que serpenteava a estrada. A natureza batia na minha janela todos os dias.

Cuiabá me conheceu aos 15 para 16 anos. A casa que eu não conseguia chamar de minha tinha a rua acima da porta e foi onde perdi minha mãe. Logo após a morte dela, conheci a casa onde aprendi a entender o novo mundo que me fora apresentado. A porta de madeira tinha chaves pesadas e janelas com trancas. A cidade grande me engolia e engolia meus sonhos. No quintal, plantei uma horta e criei meus irmãos menores. Meu filho nasceu no hospital que ficava a poucas esquinas da casa.

Foram dez anos ali, entre as esquinas de um bairro que eu sentia que era meu, das esquinas que eu sabia de cor pelos nomes e elas me levavam para o programa de rádio onde eu conseguia voar através das ondas. Até que cheguei aqui… onde a esquina fica a duas casas da minha e o quadrante do muro me traz visões de voos deslumbrantes e de luas em todas as fases.

O que sou aqui tem toda uma trajetória de todas as esquinas percorridas e vividas. É a rua que me acolheu e o lugar onde meus desvios sempre me trazem para a rota certa.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Seis livros e uma xícara de chá.

Bambina mia,

Ainda ontem te convidei para uma xícara de chá e relatei meu ritual com as xícaras. Não me lembro se te contei sobre a importância do chá na minha vida. Aprendi desde cedo a providenciar o rito do chá, claro que sob os cuidados de bá e da minha mãe, por isso, quando chegou até mim o tema eu me animei para a preparação. O livro sempre é companhia para a xícara de chá de fumega ao lado, enquanto lá fora chove ou venta.

Atrevi-me a fazer os chás terapêuticos devido a uma gripe forte que me deixou de cama nesse início de ano. Coloquei em infusão as rosas amarelas – ricas em vitamina C e um antioxidante natural – e adocei com mel. A rosa amarela tem outras propriedades medicinais, mas eu me alongaria muito aqui para nomear todas.

Enquanto a manhã acontecia recorri ao chá de gengibre, cravo e canela. É anti-inflamatório e o combinado dos itens também ajuda no controle da glicemia. Optei pelo gengibre fresco e o aroma invadiu minha cozinha. Sabe, bambina, me trouxe lembranças da infância e do bolo de puba servido com esse chá.

A minha mãe tinha todo um aparato para os chás. As xícaras de porcelanas e os bules acompanhando as xícaras. Eram presentes de casamento. O caldeirão de água ficava o tempo todo em cima do fogão de lenha, já fervente. Mas eu, só tenho xícaras avulsas de minha coleção, e algumas possui o pires combinando. Nessa foto, o chá foi feita de erva cidreira, fresquinha, colhida do pé no quintal. É a melissa – outro nome chic dela – e suas propriedades vai desde calmante, analgésicas e anti-inflamatórias.

E para combinar com o livro Linhas, rabiscos e borrões em azul o meu preferido chá azul. Feito com as flores da Clitória Tematea… além de lindo, é muito gostoso. Com propriedades que melhoram desde a circulação, controle de glicemia, colesterol e o que torna ele mais legal, além do colorido, é que pode ser tomado gelado.

E claro que combinado com flores de alfavaca o chá fica mais gostoso ainda. Alfavaca que muitos chamam de manjericão de folhas largas e deixa a cozinha com seu aroma delicioso. Um dos pontos chaves dessa mistura é a ação antimicrobiana. De resto, é aproveitar a leitura e o chá.

Gosto de acrescentar ao chá de canela e cravo cascas de maçã. Alivia a tensão e ajuda na circulação e controle de glicemia. Porém, deixo claro que faço uso desses chás aqui desde pequena. Mas do que servir como medicamento, é necessário ter conhecimento de que você tomar alguns deles. A minha variedade de chás é grande e faço uso deles ao ler um livro, antes de deitar e sempre que sinto vontade. A preparação para mim se transforma em poesia.

Sei que te convidei para um chá, bambina e trouxe aqui um apanhado de minhas experiências e sobre a preparação, assim como algumas dicas para quem vier ler essa missiva… Além de saborear esse líquido com livros em mãos, o melhor mesmo foi sua companhia.

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi Silvana Lopes
Ps: para quem tiver interesse há muito mais sobre chás aqui

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Gosto da penumbra das madrugadas lentas.

Bambina mia,

a madrugada acontece serena e limpa. Dá para ver o azul escuro para além do quadrante dos muros. Caminho pelo quintal aspirando o chá de menta na xícara. Busco entre o escuro os pirilampos tão frequentes aqui, mas não tive sorte dessa vez.

Ouço algum pássaro noturno que não reconheço pelo canto. Uma brisa leve balança as folhas do coqueiro e o chá alivia um pouco a tosse e a febre. A noite foi longa e gosto de ver a madrugada chegando lentamente… a moça do tempo ontem alertou para um calor mais abrasante do que o normal e fico desejando que essa brisa dure a manhã toda.

Sinto no ar o perfume das flores da Orai pro nóbis e é certo que quando clarear o dia ela exibirá seus cachos cheios de flores cheias de pólen para as abelhas e borboletas. Um cão ladra e molho levemente algumas plantas e isso me faz lembrar de um poema de Casemiro de Abreu:

Levantei-me de madrugada. Reguei a buganvília.
O mundo já não é o que era

Volto à cozinha para mais uma xícara de chá enquanto ouço no quarto o ressonar do moço daqui. Logo o relógio despertará para o primeiro dia dele no trabalho depois das férias e já temos cinco dias vividos de janeiro, bambina. Os dias correm um após o outro e os meses virão… a cidade acorda, o cheiro de café e pão da casa da vizinha atiça uma fome que esteve ausente esses dias.

A manhã clareia e a vida pede urgência nos afazeres… sirvo mais uma xícara de chá. Aceita?

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Dos invernos que sua falta faz.

A ausência é uma forma de inverno 
Luís Garcia Montero

Eudes, minha flor,

hoje foi dia de separar as tampinhas para o projeto. Sim, eu continuo ajudando no projeto das tampinhas e não há uma vez que eu não pense em você. Ontem, eu conversei com Edi e falamos do frio – extremo para mim – que está fazendo lá na Bélgica.

Fiquei imaginando o tempo por lá e falei sobre o calendário que acho eu, esqueci de jogar fora desde que você se foi. Claro que aqui o verão impera e nem sonho em viver em um lugar com menos de 10º…

Sabe, me sinto pequena para te escrever… fico pensando nas respostas que você daria, nas interações que você faria … eu diria que não há espessura para a saudade e aquilo que a gente brincava de guardar segredos…eu ainda os guardo embrulhadinhos no meio das bonecas de panos e caixas do projeto.

De vez em quando falo em voz alta com você. Te conto coisas que não contaria para ninguém a não ser para você e fechei os olhos quando atravessei a ponte para ir ao aeroporto. Só os abri depois que a sua rua ficou para trás.

Alguém me perguntou sobre o modo poético do gosto da saudade e eu disse que tinha o gosto do quiabo frito e servido com molho de mostarda, mel e cebolas caramelizadas com pimenta calabresa. Nunca mais comi. Acho até que daria conta de seguir receitas, mas e seu riso diante de minhas piadas sem graça? Como eu poderia?

Os pedacinhos das nossas memórias estão guardadas no meu coração, como as colchas de fuxicos de retalhos que fizemos juntas ou como os quadros bordados que você sempre pedia para eu fazer. Até nas tampinhas que separo entre choros hoje.

Se eu te encontrasse hoje te falaria um monte de desaforos e cobraria todo esse tempo em que me deixou sem você. Eu acompanho seus meninos, Eudes e sempre divido com eles esse tanto de saudade que sinto, porém, mais do que a saudade, sinto um orgulho imenso de ter feito parte de sua vida.

Aceito nunca mais te abraçar… eu até aceito sua ausência em dias normais… mas quando chega esse dia em que o inverno da sua falta atravessa minha alma eu sinto frio, mesmo sendo verão aqui eu sinto muito frio nesse inverno que sua falta faz.

Te amo sempre!
Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

As ruas desse bairro são pequenos navios…

Retomei a pouco tempo minhas andanças pelo bairro e faço isso em grande parte no fim do dia. Pego a guia – que Yoshi já antecipa para colocar a coleirinha – e seguimos para a rua de cima. Em alguns dias vamos pela manhã, o que me agrada mais ver o bairro acordando e o cheiro de café exalando das casas. O pão exala a fragrância em algumas casas, ou um bolo, ora de laranja, ora de fubá. Consigo sentir o cheiro do leite sendo fervido. Isso me leva para a infância.

Também gosto dos dias de chuvas e ver as gotas se transformando em diamantes nas flores, mas não posso negar a predominância do sol no meu lugar. O bairro tem a singeleza de todo mundo se conhecer e em minha caminhada quase sempre paro para uma conversa com as senhorinhas do projeto de leitura de anos atrás. Algumas pedem para retomar enquanto justifico a correria do dia a dia para adiar mais um tempo.

D. Albina sempre troca comigo as ervas e mudas de plantas. Temos uma paixão que nos liga de alguma forma pelo por do sol nos dias comuns. Sempre fotografamos juntas o sol se escondendo céu afora. Falamos do tempo, do crochê que ensinei a ela e nos despedimos no portão. São só alguns minutos, mas sei que faz grande diferença no dia dela e confesso que no meu também.

Nas ruas de meu bairro perdi pessoas e ganhei pessoinhas, vi pessoas irem e chegarem e vi um oceano de possibilidades sem ter um mar, guiados apenas por um rio logo abaixo das ruas tirar vidas, mas dar vidas também. Gerar sonhos e vitórias. Os barcos que levam os ribeirinhos ganham forças de navios na força bruta das mulheres que vencem e vivem ali.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Eu sou um navio sem mastro.

Desde que eu nasci meus pais me fizeram alada… então, a bússola que me leva e traça meus roteiros são as asas… as imaginárias e as reais. Diante do misticismo de minha bá ganhei a benção do voo e perante tantas fés eu me vi acreditando no impossível. Fui batizada na igreja católica e por supremacia me escolheram por madrinha – acho que um dos erros dos meus pais – uma das tias tantas que eu possuía. Acho que a vi poucas vezes…

Porém, a bá me batizou nas águas do riozinho que serpenteava a estradinha rumo à rodovia, logo abaixo da ponte e também me benzeu com as folhas verdes da floresta, no meio do acampado, ao lado da maior árvore onde brotava os cogumelos. E de novo, como para ser moldada no fogo, pisei nas brasas de uma fogueira feita em noite de lua cheia.

Acompanhei as festas de santos – todos – e rodopiei a saia de adolescente com os ciganos. Desde então, chamo minha fé de liberdade. Os que me conhecem me reconhecem quando veem uma borboleta, pássaros que veem na minha mãe e todo tipo de bicho que voa.

De resto sou a pessoa das nuvens, das chuvas e tempestades, do sol e seus raios matinais, sou do mato, da mata, do vento. É por isso que sou essa misturas de fés e para o abrigo da alma sou a oração da poesia.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

Bambina mia,

A folhinha do ano passado e os calendários espalhados – com suas anotações de troca de gás, de dia de folga, de horas extras feitas – pela casa já foram para o lixo ontem mesmo. E aqueles ritos de último dia de ano passou batido por aqui.

Ainda há aqui alguns restinhos do ano outro… e como você falou em polaroide, não resisti e quis te mostrar o mar tão meu. Eu conheci o mar, bambina e vi a magia das ondas se debaterem entre meus pés e a areia fofa. Era um sonho antigo, você sabe e me senti navegando ali mesmo, rente a praia.

Tive alguns momentos ruins nesses 12 meses que se chamam de ano, e alguns poucos instantes de alegria na alma e no coração. Por isso, talvez minha expectativa seja apenas de que 2026 seja leve e tranquilo.

Já é o primeiro dia desse ano… aqui, ainda brigo com a tosse e com o calor insano. Não choveu como a moça do tempo anunciou e os fogos ainda pipocam em algum lugar. Acho idiotice vibrar por qualquer coisa a base de um estouro… prefiro o barulho do mar que gravei e vejo no repeat.

Um feliz 2026 para todos nós!
Bacio,
Mariana Gouveia