Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Monocromático

Missiva em Seis Tons de Silêncio

Cuiabá, quando as sombras cobrem o quintal…
Bambina mia,

Você me falou sobre despontar do sono para o mundo partilhado, e hoje eu acordei querendo ver o dia sem o artifício das cores. No projeto deste mês, o espelho do tempo resolveu se revelar monocromático. Retirar a cor do meu quintal foi como despi-lo do presente e entregá-lo, de uma vez por todas, à memória. Deixo aqui, nesta fresta do nosso labirinto, seis fragmentos de asas e esperas. Seis mensageiros que decidiram pousar no avesso do meu dia enquanto a minha xícara de café ainda fumegava.

Olho para este pássaro aninhado no galho seco, e penso no Borges velho. Há uma sobriedade escura e atenta no seu pouso, como quem já conhece todos os cantos e prefere observar a engrenagem do tempo em silêncio. O nome dele – Encontro – me faz pensar no encontro do homem com o jovem.

Logo depois, o oposto se faz presente. Chiquinho equilibra-se no fio do varal, bem ao lado de um prendedor de roupas comum. É o kairós de que falávamos ontem: o instante mais frágil e veloz da natureza ancorado na mais pura leveza do cotidiano. A delicadeza exige uma suspensão. O novo se inventa, não é mesmo?

Mais adiante, o sabiá caminha entre os galhos e a folhagem enevoada pelo fundo sem foco. Ele parece procurar aquela menina de tranças de quem te falei, ciscando no chão de terra batida da minha infância à procura de histórias esquecidas. Você ouviu o canto dele a pouco. Acho até que ele está presente quase o tempo todo em nossas conversas aleatórias. É como se já fizesse parte de nós.

Há também a imobilidade. O bem-te-vi solitário no fio, cortando o céu cinzento como uma nota musical suspensa na partitura do horizonte, me lembrou o silêncio dos quintais e os olhares atentos para o nada. . O verdadeiro experimento acontece quando tudo silencia e a linha reta nos obriga a encarar o vazio.

E assim, a mudança do cromo justifica as cores – ou a falta delas – no quintal. Alguns dias são assim, monocromáticos. É como o outro que habita em nós: discreto, escondido nas dobras do tempo, esperando um sopro de vento para se mostrar.

Tirar as cores do quintal, bambina, me fez perceber que os pássaros e os dias mudam de poleiro, mas o fio que sustenta o pouso continua sendo o mesmo. Que esses seis fragmentos monocromáticos cheguem até o seu quintal colorido como um abraço manso.

Até a próxima esquina do tempo,
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais

Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega — Silvana Lopes



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Projeto 6 on 6 – A hora de ouro

Bambina mia,

enquanto você busca os contornos do crepúsculo entre as silhuetas verticais, eu me sento aqui no meu lugar para assistir ao ensaio diário que o céu faz antes de recolher suas malas. Olho para o alto e percebo que, embora a distância nos separe, partilhamos do mesmo relógio de frestas. Há uma urgência mansa no modo como o dia se despede. Mas, antes disso, eis que a imagem que sempre quis fotografar antecede aos meus olhos. A lua ((você) toda cheia de pompa tendo por companhia um avião. Lembrei de Calcanhoto e cantarolei baixinho aqui. Para mim, foi minha hora de ouro.

Seus olhos buscam a poesia nas esquinas paulistanas; os meus campeiam a luz que muda de tom além da rua de cima. A hora de ouro aqui não pede licença. Ela invade o quadrante do meu muro, espalhando pinceladas vivas de um calor que começa a ceder, transformando a poeira dourada do chão em uma moldura de começos e fins. Minha rua fica dourada quando o dia se finda.

Sabe, bambina, olhar para esse sol que desce lento, tocando as copas secas e as curvas dos morros distantes, me devolve imediatamente àquela menina que conversava com as coisas do mato na colina da cruz. A natureza opera sem pressa. Ela sabe a hora exata de adormecer, e deitar os olhos sobre esse horizonte limpo é um jeito bonito de encontrar abrigo.

De repente, o céu incendeia sobre as nossas cabeças. As telhas absorvem o último suspiro do dia, e o vermelho-fogo toma conta do espaço, lembrando as velhas calhas e os telhados que desbravávamos na infância. Facilitar o acesso ao desejo é também permitir que os olhos alcancem esse incêndio manso que limpa os contornos do mundo. A parabólica me entende quando o gesto é pura quietude.

Depois do fogo, vem a calmaria das cores que parecem inventadas. O horizonte se veste de lilás e rosa, uma delicadeza que contrasta com o calor bruteza da tarde. Um único galho se curva diante dessa pintura invisível, como quem agradece pela passagem do tempo. A vida ensaia o seu repouso no sutil. A solidão da tarde, às vezes, tem uma beleza sem tamanho.

A noite finalmente reivindica o seu pouso aqui no meu quintal. Os seres alados se enfileiram nos fios condutores, guardando o silêncio que precede as estrelas, enquanto a lua espia as pombas no fio. Outra hora do ouro minha que esperei acontecer. A poesia, acontece antes mesmo que eu perceba a cena. Descobri que a hora de ouro pode ser qualquer momento que a leveza nos abrace.

Mariana Gouveia
Lunna Guedes – Claudia Leonardi – Heloísa Helena Garcia – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

BEDA #6 | Projeto Fotográfico 6 on 6: Ponto de Vista – Pequenos nós impossíveis de desatar.

Bambina mia,

Olhar para o tema que você propôs para este Agosto me fez desacelerar o passo no meio do jardim. Há pequenos nós impossíveis de desatar que não nascem para ser amarras ou prisões, mas casulos onde a vida se enrola antes de ganhar asas. Olhar para essa curva perfeita do caule é ver o tempo se concentrando em si mesmo, esperando o momento exato em que até a delicadeza de uma borboleta decide pousar e testemunhar o que parece não ter fim. Há pontos de vista que já nasce poesia.

Sabe, bambina, sei que existem dias em que os nós não apenas barram o nosso caminho; eles nos envolvem e nos moldam por inteiro. Há qualquer coisa de muito visceral em perceber como ficamos, às vezes, encurraladas nas dobras que o tempo dá. Olhar para essa pequena joaninha guardada dentro da curva exata da gavinha é tatear o ponto de vista de quem aprendeu a habitar os próprios apertos, tentando decifrar se o laço nos protege ou nos aprisiona.

Nesses momentos de impasse, a engenharia da natureza nos desafia com sua gravidade e vertigem. Viver e escrever também é isso: ver a vida se enroscar de forma tão compacta quanto uma mola verde, nos deixando de ponta-cabeça diante do mundo. Resta-nos segurar firme na última curva e, feito esse pequeno besouro, encarar o abismo refletindo a luz com o nosso melhor brilho dourado.

Felizmente, há nós que, em vez de nos prender ao chão, nos suspendem contra o azul infinito. Quando tiramos os nossos impasses da sombra dos pensamentos e os deixamos dourar ao sol, a atmosfera muda de figura. O horizonte ao fundo se revela limpo, amplo e sem barreiras, mostrando que estar atada a uma linha não nos impede de encarar a imensidão do dia com as asas prontas para o voo.

No fim das contas, descobrimos que os nós mais difíceis de desatar são aqueles que escolhem o formato exato de um coração para habitar. São os nós que nascem do afeto, do cuidado e das nossas memórias. Eles seguram o peso do mundo em forma de uma gota transparente — uma lágrima suspensa no meio do jardim —, mas não paralisam; eles apenas abraçam e protegem o que está prestes a florescer.

Por isso, bambina, acho que os nós impossíveis são os ganchos exatos onde a nossa escrita e a nossa amizade se ancoram. Veja como esse aperto verde encontrou o seu espelho perfeito em duas asas que se abrem juntas, em uma simetria linda de cumplicidade. Que a gente continue assim, dividindo o mesmo pouso e os mesmos temas complexos, ocupando os espaços fechados sem pressa de desatar, transformando cada laço no nosso horizonte mais bonito.

Bacio,
Mariana.

Participam comigo nesse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Olhares invisíveis.

Quando olhou não viu nada
o instante é tão rápido e invisível com os olhos famintos de ver apenas o que é visível
Mas, o coração enxergou o vento, a asa, o gesto
coisas que são invisíveis apenas para o olho da alma.
Mariana Gouveia

Bambina mia,

Era quase manhã quando vi a névoa no meu quintal. O vento gemia nas folhas do pé de ipê e de tão acostumada com os pássaros no bebedouro de Chiquinho que nem percebi que as asas que ali batiam, e tentavam pousar no néctar açucarado era de uma farfalla – como você diz. O instante invisível durou apenas um segundo entre o voo, o pouso e outro voo telhado acima.

E foi no telhado que as misturas do ocre das telhas e da madeiras que um pequeno piado me chama a atenção. Logo eu que vasculho as coisas do lugar à espreita de instantes não havia percebido o pequeno ninho quase entre a porta da cozinha e a varanda. O lugar quase imperfeito para o nascimento de aves, mas que a mamãe sabiá laranjeira sabe melhor onde se sente segura. Logo teremos bebês sabiazinhos por aqui.

E por falar em pássaros, as coisas invisíveis acontecem a todo instante quando olho foge do que é natural. O trinca-ferro é um pássaro novo aqui no meu lugar. Já havia visto ele de relance, comendo as sementes do ipê. Mas, arisco, não me deixou fotografar… e eis que o pego “roubando” as jurubebas. O riso veio em seguida ao flash. Agora, já posso dizer que ele é mais um dos que moram aqui.

E de repente, a sensação inquietante de assistir o que é belo quando a poesia faz visitas no meu quintal, o olho não vê o casulo ser quebrado… ele apenas enxerga o instante mágico onde a vida é celebrada com o voo. A metamorfose aconteceu ali, mas o olho invisível conseguiu apenas presenciar depois do acontecido. A rotina silenciosa da manhã e a presença invisível (mas profundamente sentida) do milagre que é viver.

Sabe, bambina, às vezes, o olho tão acostumado ao comum não consegue captar o extraordinário, ou até consegue, mas encontrar o extraordinário não é comum e passa basicamente igual ao que vemos todos os dias. O voo de uma borboleta em busca de vento logo depois de nascer me faz ficar em silêncio. Ela segue seu rumo de casa e eu apenas murmuro um agradecimento ao universo. A iminência do desabrochar já aconteceu invisível aos olhos apressados, esperando o momento exato para se oferecer em luz.

Sempre registrei o cotidiano e também me encanto diariamente com instantes fugazes que acontecem neste quadrante do meu muro. Também escrevo cartas que muitas vezes embolo, não envio ou seguem seu destino em envelopes coloridos. Quando recebi o tema do mês pensei em infinitas possibilidades. O invisível aqui acontece a todo momento. Seja em uma fresta de luz dourada rasgando o cinza, num dia frio, seja na a luz do sol batendo na parede da cozinha, refletindo no chão da varanda ou iluminando a silhueta das plantas do quintal. Ou em uma missiva escrita pelo universo pleno de saberes.

Consegue traduzir o cabeçalho? Talvez fale apenas o que só é visível por dentro do tuo cuore.
Grazie por tanto e tudo!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfcio 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto:
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes



Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – a rotina do meu dia

Bambina mia,

Os dias atravessaram os meses e já é dia 6 de junho. Confesso que nem vi o tempo passar ou vi e nem me dei conta da sonoridade dos dias ou até me dei, mas não liguei tanto como em outros tempos. A vida da gente nos servem as horas como rotinas e cá estou eu a falar das minhas ou seriam nossas, porque a maior parte da minha – pelo menos nas manhãs – tem você e nossos diálogos aleatórios.

Logo pela manhã, antes de mais nada, a xícara de café e uma leitura de um livro – o que estiver ao alcance de minhas mãos. Acho que é quando acordo completamente e sorvo o líquido que salva meu dia. E isso, a gente repete ao longo da manhã ou revezamos por uma xícara de chá ou um chocolate quente. Depende de como o tempo nos abraça, né?

Depois, é tempo de dar pouso para as borboletas que nascem pela manhã até que elas estejam aptas para o voo… e claro que você sabe que entre um dia e outro a rotina só muda o tipo de inseto ou bicho… ou ave…

Energia abastecida, pés no chão e andanças no quintal, é hora de buscar a caixa de trabalho, para a preparação do material. É linha? Tecido? Agulhas? Tudo isso junto da companhia – ou seria soneca? – mais do que rotineira do Yoshi, que só muda o lugar de deitar, dependendo do lugar da casa que estou ou vou ficar.

No meio da manhã, entre nossos diálogos e café, trabalho feito, faltando apenas os arremates ou a conclusão de onde costurar, pausa para os afazeres da casa e do almoço.

À tarde, a rotina continua… ligo o notbook e me preparo para os textos, edições de fotografias e cuidados com outros trabalhos. Cada dia diferente, mas rotineiro e vivido no mesmo espaço: meu lugar, meu quintal e o seu, em falas onde nossos diálogos se misturam entre risos e canções…

Para finalizar, vou ali olhar o céu e independente da fase da lua grito seu nome, mas já foram as seis fotos e a lua – que está espetacular – vai via mensagem mesmo.

Amo tu!
Bacio,

Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – um cantinho e um livro

Bambina mia,

Dia desses eu vi em um recorte do Instagram onde aonde o moço influencer reclamava dos filhos que largava os livros soltos, segundo ele, por aí e lá ia ele pegando um livro no sofá, outro na mesa da cozinha e em poucos segundos seis livros estavam em suas mãos. Não cheguei até o fim do vídeo porque me incomodou um pai reclamando do filho, aparentemente, por deixar “largado” os livros nos diversos cantos da casa. Ela não iria gostar do meu lugar.

Costumo carregá-los por onde ando e se algo de maior interesse interrompe minha leitura, deixo-o ali, entre as sementes a panelas.. à minha espera.

E quando folgo retomo a leitura ali mesmo, naquele cantinho onde ele ficou me esperando. Em cada cantinho há um livro, ou em cada livro, um cantinho o acolhendo como se também quisesse fazer parte da leitura.

Claro que a maioria se deita na mesa da cozinha e entre os afazeres e outros, um recomeço ao folhear o livro a fome atravessa a vontade de guloseimas…

e me atrevo a saborear os textos e as doçuras.

Mas, no dia da faxina, recolho todos para o cantinho principal deles. Porém, isso não dura muito, porque no mesmo dia, ao alcance das mãos, um livro ganha contornos de leitura pela casa.

Sei que você também esparrama os seus livros pelos cantos de seu lugar… me diz: há algum preferido?


Bacio,

Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nunes Ortega – Silvana Lopes

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Templos

…
Em Cuiabá tem mil museus
E tanta igreja
Que por mais que a gente veja
Sobra uma pra espiar
…
Henrique e Claudinho

Bambina mia,

Daqui a dois dias minha cidade completa seus 307 anos… acho até que já te apresentei ela em fotos e textos várias vezes e também já te contei sobre os templos que temos aqui e os da região. Confesso que tive dificuldade em escolher qual foto usar para esse projeto. Há tantos templos que juro que pensei em mudar o rumo dessa carta. Poderia usar meu templo maior que é o meu quintal, o Pantanal, Chapada dos Guimarães e sua magia dos paredões que lembram de fato, grandes templos… mas as igrejas ganharam destaque em meu coração. Cuiabá tem tantas igrejas que sempre falta alguma para se ver. A impressão que tenho é que, mesmo morando aqui há 44 anos ainda não vi todas.


A Igreja de N.S. do Bom Despacho fica no alto de um morro no centro da cidade e já de longe é possível admirar sua bela arquitetura inspirada na Catedral de Notre Dame francesa, faz parte do lindo conjunto de igrejas históricas de Cuiabá. A lenda é que debaixo do morro que a acolhe fica uma jazida enorme de ouro. Fato nunca confirmado.

Não longe dali, no centro histórico a minha queridinha… A Igreja de São Benedito e do Rosário. Sua construção teve início em meados do século XVIII, por volta de 1730, sendo erguida por mãos negras escravizadas que, mesmo diante da opressão, encontraram no templo um espaço de esperança, devoção e preservação de suas tradições religiosas. A igreja foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, e a São Benedito, o santo negro símbolo de humildade e serviço. No dia do santo as ruas laterais se transformam em um salão de festa e devoção. Seu altar todo talhado em ouro encanta ainda mais os turistas e fiéis.

A igreja de Nossa Senhora Auxiliadora sempre me chamou a atenção por sua escadaria e sua cores noturnas. Durante muito tempo minha sala de trabalho ficava em um andar de um edifício voltado para ela e eu adorava quando o dia se encerrava e as luzes iam sendo ligadas e o sino me avisava a hora de ir embora. Era encantador ver as noivas se ajeitarem para entrar na igreja. Criada pelos salesianos tem ligação com um colégio que funciona ao lado.

Para além das ruas e igrejas de Cuiabá, precisamente na estrada para Chapada dos Guimarães, em uma das minhas viagens ao Parque Nacional da Chapada, me deparei com esse templo protestante erguido em 1958, dentro de uma fazenda, hoje patrimônio histórico tombado, se tornou uma Fundação Educacional que é jurisdicionada pelas Igrejas Presbiterianas de Cuiabá-MT, e pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Localizada dentro de uma fazenda – que pela Fundação se transformou em internato – fica majestosa ao lado dos paredões.

No coração do Pantanal mato-grossense, a Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário em Poconé é um oásis de história e fé. Construída em 1781 com técnicas tradicionais usando óleo de babaçu na argamassa, esta joia do barroco brasileiro resistiu ao tempo e às cheias do rio Cuiabá. O interior é um espetáculo de cores: o altar-mor em estilo rococó contrasta com as paredes em azul colonial e os santos vestidos com roupas típicas pantaneiras. Durante a Festa do Rosário em outubro, a igreja vira palco da dança dos mascarados, tradição única que mistura fé e folclore. A visita combina perfeitamente com um passeio pelo centro histórico de Poconé, porta de entrada do Pantanal. Ao entardecer, quando os ipês ao redor florescem, o cenário fica ainda mais mágico. Nesse dia em que fotografei a igreja, só havia essa árvore que se chama Pingo de Ouro e seus cachos amarelos dourando a paisagem.

E as margens do Rio Cuiabá, no Distrito de Passagem da Conceição – em Várzea Grande, em um lugar bucólico que parece cena de novela está a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Confesso que só descobri esse lugar recentemente. Construída com adobe, a Capela apresenta características do final do século 19 com um estilo Colonial e molduras simples. Em 2001 foi considerada Patrimônio Histórico de Várzea Grande.

Sabe, bambina, vários templos ficaram de fora e penso que além da parte turística que envolve a natureza como Chapada dos Guimarães e o Pantanal Mato-grossense, também as igrejas em suas formas variadas e históricas também fazem parte de todo conjunto turístico de Mato Grosso. Estou te esperando aqui para te mostrar. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
Claudia Leonardi – Lunna Guedes – Obdulio Nuñes Ortega – Silvana Lopes

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Lombada de livros

Há coisas bonitas nesta vida; como café e livro, ou como a chuva, por exemplo…
(Páginas Vivas)

Bambina mia,

Quando vejo na TV, alguém sendo entrevistado, e ao fundo prateleiras com livros, fico curiosa e meus olhos se voltam para as lombadas dos livros para saber o nome dos livros. Acho até que já falamos sobre isso e sei que você também faz o mesmo.

O tema lombada de livros me pegou de jeito. Tenho cerca de 300 livros, mas os quais em sua maioria são os livros artesanais da Scenarium, que não possuem a famosa lombada, por ser um projeto artesanal.

Por isso, recorri-me aos poucos livros com suas lombadas e claro, atrevi-me também a ignorar as lombadas em algumas fotos. Já peço desculpas antecipadamente, porque ainda são 17:03 aqui.

Chove nessa tarde ligeira e ouço trovões logo ali, para além da rua de cima e os relâmpagos rasgam o céu. Fiz um chá azul e sei que você também gosta. Há um certo clima vintage aqui, não sei bem porque.

tenho uma estante preparada para os livros da Scenarium e os outros livros, deixo-os ao longo dos caixotes onde espalho minhas quinquilharias. Acho que já te mostrei isso também em alguma chamada de vídeo.

Assustei-me logo cedo quando falamos sobre o 6 on 6… já é março, bambina e os dias rompem ligeiros como se corressem para chegar a algum lugar. Logo será o outono – sua estação preferida – e eu confundi que era agora. Acho que até meu quintal se confundiu. As folhas do ipê estão caindo e as da fadinha azul também.

Foi aqui, bambina, que abusei da tal lombada… espalhei alguns dos livros no chão da varanda, porque na estante deles os nomes não apareceriam. Às vezes, eu faço isso para separá-los por ordem… mas, você sabe que a gente sempre deixa um aqui e ali…

A noite chegou mais cedo e os trovões parecem concerto de rock… o céu está bravio e a notificação da defesa civil me assusta mais uma vez. Yoshi se afunda na almofada dele enquanto tomo mais um gole do chá. Aceita?

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – road trip urbano

Bambina mia,

E estamos cá para mais um 6 on 6 e ao pensar no tema, cruzando algumas avenidas do meu lugar, para além da rua de cima percebi que há várias nuances dentro desse road trip urbano. Poderia te mostrar os casarões da rua do meio, se decompondo aos poucos diante da passividade dos donos/justiça/poder público, etc… Poderia também mostrar as igrejas antigas – e igrejas não faltam aqui.

Mas, como Cuiabá tem essa fama de mato mesmo e grande parte do povo de fora pensa que aqui se encontra onça andando na rua e logo na avenida principal do meu bairro, me deparo com essa cena… resolvi te mostrar o lado animal das minhas ruas.

Não temos onça, mas temos jacaré e ele tem nome. Se chama Celso e atravessa na faixa. Pena que não consegui pegar essa parte. Ele mora em um parque dentro da cidade, que era só dele, mas resolveram criar no lugar um parque que se chama Parque das Águas, que era só dele e os humanos agora querem tirar ele de lá.

E sabe aquelas capivarinhas simpáticas de pelúcia? Tenho aqui, ao vivo, em pelo real, uma família todinha… uma não! Várias famílias, que também atravessam na faixa de pedestres, mas não consegui fotografar isso. Atravessam avenidas, param o trânsito e isso em uma área central e bairros luxuosos.

Bambina, bambina… eu me encantei com esse mocinho aí… foi se transformando aos meus olhos e até desci do carro para vê-lo de mais perto… e correu para dentro do bosque.

e dentro da normalidade para minha cidade, eis que os periquitos invadiram a cidade. Não vou falar aqui sobre como o homem invadiu o espaço deles tirando o meio de sobrevivência e os trouxeram para o espaço urbano.

E o que antes era só visto nas florestas, fazendas e meio do mato, agora se tornou comum nas cidades. Animais das mais variadas espécies fazem parte da rotina diária. O que aos meus olhos era comum no lugar onde nasci vejo aves e seus ninhos, famílias inteiras de animais silvestres. A gente já sabe de quem é a culpa e nem vou me ater ao convencional para esse passeio que te apresento. Espero que goste.

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

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6 on 6 – Seis livros e uma xícara de chá.

Bambina mia,

Ainda ontem te convidei para uma xícara de chá e relatei meu ritual com as xícaras. Não me lembro se te contei sobre a importância do chá na minha vida. Aprendi desde cedo a providenciar o rito do chá, claro que sob os cuidados de bá e da minha mãe, por isso, quando chegou até mim o tema eu me animei para a preparação. O livro sempre é companhia para a xícara de chá de fumega ao lado, enquanto lá fora chove ou venta.

Atrevi-me a fazer os chás terapêuticos devido a uma gripe forte que me deixou de cama nesse início de ano. Coloquei em infusão as rosas amarelas – ricas em vitamina C e um antioxidante natural – e adocei com mel. A rosa amarela tem outras propriedades medicinais, mas eu me alongaria muito aqui para nomear todas.

Enquanto a manhã acontecia recorri ao chá de gengibre, cravo e canela. É anti-inflamatório e o combinado dos itens também ajuda no controle da glicemia. Optei pelo gengibre fresco e o aroma invadiu minha cozinha. Sabe, bambina, me trouxe lembranças da infância e do bolo de puba servido com esse chá.

A minha mãe tinha todo um aparato para os chás. As xícaras de porcelanas e os bules acompanhando as xícaras. Eram presentes de casamento. O caldeirão de água ficava o tempo todo em cima do fogão de lenha, já fervente. Mas eu, só tenho xícaras avulsas de minha coleção, e algumas possui o pires combinando. Nessa foto, o chá foi feita de erva cidreira, fresquinha, colhida do pé no quintal. É a melissa – outro nome chic dela – e suas propriedades vai desde calmante, analgésicas e anti-inflamatórias.

E para combinar com o livro Linhas, rabiscos e borrões em azul o meu preferido chá azul. Feito com as flores da Clitória Tematea… além de lindo, é muito gostoso. Com propriedades que melhoram desde a circulação, controle de glicemia, colesterol e o que torna ele mais legal, além do colorido, é que pode ser tomado gelado.

E claro que combinado com flores de alfavaca o chá fica mais gostoso ainda. Alfavaca que muitos chamam de manjericão de folhas largas e deixa a cozinha com seu aroma delicioso. Um dos pontos chaves dessa mistura é a ação antimicrobiana. De resto, é aproveitar a leitura e o chá.

Gosto de acrescentar ao chá de canela e cravo cascas de maçã. Alivia a tensão e ajuda na circulação e controle de glicemia. Porém, deixo claro que faço uso desses chás aqui desde pequena. Mas do que servir como medicamento, é necessário ter conhecimento de que você tomar alguns deles. A minha variedade de chás é grande e faço uso deles ao ler um livro, antes de deitar e sempre que sinto vontade. A preparação para mim se transforma em poesia.

Sei que te convidei para um chá, bambina e trouxe aqui um apanhado de minhas experiências e sobre a preparação, assim como algumas dicas para quem vier ler essa missiva… Além de saborear esse líquido com livros em mãos, o melhor mesmo foi sua companhia.

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes
Ps: para quem tiver interesse há muito mais sobre chás aqui