Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Quote literário

Um dia li num livro:
 «viajar cura a melancolia». 
Al Berto

Bambina mia,

Quando recebi o tema do último 6 on 6 do ano percebi que descobri os quotes com você. Claro que sempre teve uma frase ou outra mais marcante de um livro. Tenho inúmeras na memória… mas nunca fui de marcar com canetas os livros. Para mim, talvez movida por minha mãe, o livro era um objeto sagrado.

Talvez, por isso, doeu em mim rabiscar de lápis uma das frases que gostei em um livro que participei. Às vezes, uso um marca página ou uma folha para secar. De resto, sou alheia e até admiro quem consegue marcar com as canetas marca texto.

Acho que absorvo mais o momento, ou uma linha ou outra. Já bordei até, uma frase de um livro em uma camiseta, sob encomenda. Pena que foi em uma época que as fotografias não eram tão instagramáveis como hoje.

Já Ana – de Marte – adorava circular com corações e brilhos, com cores que eu nem sabia existir em cartas, livros, brochuras e eu brincava com ela dizendo que ela marcava até bula de remédio. Às vezes, nas marcações dela haviam até pontos de interrogações aos montes, para depois me perguntar quais eram minhas impressões sobre isso ou aquilo.

O fato é que o quote ou citação de uma frase tem a sabedoria de usar um mote para chamar a atenção sobre o que gostamos em um livro. Meu pai sempre me pedia para escolher uma parte de um verso que eu gostava. Mas, sabe, bambina, acho que ali, era mais pedagógico para eu memorizá-lo do que precisamente um ponto marcante do poema ou livro. Ele, em sua sabedoria, me incentivava dentro de sua simplicidade.

Para meu pai, a frase do Neil Arsmstrog sobre o homem pisar na lua ecoava em tantas histórias que ele repetia sempre que podia. Daria um bom quote, né? Mas, daí seria um quote lunático?

Havia um único livro de minha mãe que trazia infinitas marcações com a caneta vermelha. A Bíblia. Ela marcava os versículos e repetia-os entre as outras orações nas festas de santo. Eu já sabia de cor alguns que faziam parte dos Salmos… repetia-os em sintonia com a fala dela. E estranhava como ela “rabiscava” a Bíblia – que era sagrada aos olhos dela – e os livros que líamos não podia ter nenhuma rasura ou riscos. Não consegui resposta para isso dela. Pra mim, o quote é como um bilhete deixando recado mais bonito do que deve ser lido e aceito com o coração. Como esse é o último projeto do ano, deixo aqui, talvez, o quote do momento, sem risco ou marcação: Feliz Natal e um ano novo de frases para te encantar.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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6 on 6 – Inventário

…
Para o caso de o silêncio te acometer 
e recordares a língua estranha 
que aprendeste a meu lado
 Para o caso de regressares
humedecendo as lembranças de luas 
Para o caso de o trópico te reclamar
 impaciente entre seus verdes
 Ou para o caso de ser noite na tua morada 
deixarei aberta a porta.

 Josefa Parra

Bambina mia,

achei essa coisa de inventário muito bonita… fiquei vagando por horas em coisas que eu te deixaria, caso pudesse fazer um. Pensei na xícara de chá – ou café, quem sabe – com as folhas de hortênsias enfeitar a mesa – por certo, eu te deixaria um canteiro inteiro de hortênsias azuis, mas não é tempo delas por aqui.

Um disco da Gal – vinil mesmo – com a música que você gosta e cantarolou enquanto eu estava ao seu lado em um ontem que vivi alguns dias por aí. Ainda ouço sua voz enquanto a voz de Gal ecoa no repeat.

Uma lua – ou todas as luas em suas fases – querendo beijar a flor do meu ipê, como se pedisse colo ou pouso. Acrescento aqui os eclipses e as variadas luas de cores que se misturam nas manchetes, como lua de sangue, de morango e por aí vai…

Uma declaração de amor cheia de doce, ou melhor, de chocolate – que você ama. Mas, por via das dúvidas, deixarei escrito em cartas, poemas, paredes e em áudio, para não restar dúvidas do meu carinho por você. Amo tu imenso!

A brincadeira de um pássaro antes do voo e já imagino um riso seu, daqueles risos serenos, em tardes mansas quando uma imagem te abraça. Poderia te dar também um dos azulzinhos – mas eles, já são seus. Ou nossos – ou todos os pássaros juntos em voos e pousos, em ninhos ou cantando. Um bem-te-vi, um sabiá laranjeira, um alma-de-gato ou uma espécie que ainda não sabe o nome. São seus.

Por último, bambina, para as noites frias deixo-te uma xícara de chocolate quente… daqueles em que o cheiro invade a vizinhança e aguça memórias. Poderia ser uma infinitude de coisas ou apenas poesias em um caderno de capa dura… ou um latte caramelizado que nem aprendi a fazer, mas que vou treinar até chegar na medida certa para seu sabor. Seis coisas são bem aquém do que eu poderia deixar… Mas, caso nada disso dê certo, deixo-te as lembranças das conversas e do meu amor por você. Ti voglio bene.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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6 on 6 – Nossa casa.

Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:
uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.
Disse-to, confesso, sem esperança
– apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.

Filipa Leal

Bambina mia,

Já é dia 6 de novo e agora, de outubro. A primavera que plantei na parte lateral da casa floriu. Não sei se ela resisti os 40º que acontece aqui. Nesse mês, tenho que te falar sobre nossa casa. Minha-sua-nossa porque é assim que sinto meu lugar para além dos muros, da rua de cima e o seu quintal aí, parte nosso…

Lembra-se do “nosso” azulzinho? Pois bem! Ele veio fazer do meu vaso de trevos a casa dele. Aí, com você aconteceu isso também – lembro-me bem. Mudei até a rota de meu caminhar pela varanda, até que ele esteja pronto e suas crias também para mudarem de lugar, já que o quintal tem espaço mais do que suficiente para eles.

E não é que ele serviu de exemplo para o sabiá laranjeira – que tem até uma “piscina” no meu quintal, agora tem também um ninho no telhado da varanda. Quase não percebi, a não ser pelo vai e vem dele aqui dentro. Não é que minha casa se transformou em nossa casa mesmo?

Acho que esse é um dos meus lugares daqui de casa. No fim do dia, minha casa mesmo é o quintal e a varanda é a porta para ele.

É nesse canto que posso ver o céu e suas nuances de fim do dia. E parece que o céu pegou fogo mesmo, tamanho o calor que faz aqui. Tive poucas casas na vida. Uma de pau a pique, quando eu ainda era criança e o quintal era uma fazenda inteira. Depois, quando mudamos para a cidade, uma casa de calçada alta, de onde eu via a TV pela janela da vizinha. Outras, foram apenas morada. Um lugar de paragem, porque havia outro lugar para ir.

Nessa casa – que te ofereço como sua também me possui há mais de três décadas. Cada canto desse lugar conhece minhas alegrias, meus pensamentos, minhas dores e meus tormentos. Em tantos momentos, o quintal me abraça. Em outros, o quarto me acalanta… A varanda me liberta nas tardes de café feito na hora e o pão de queijo assado. É um lugar de ninho, de nascimentos, de jardins, voos e pousos. E de portas abertas sempre. Vem?

Bacio,
Mariana Gouveia
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6 on 6 – Fui por ai (viagens)

Da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé

Isabel Mendes Ferreira

Bambina mia,

Fui por aí, bem logo depois que o vento faz a curva rever meu povo e meu lugar. Ainda é inverno nesse calor que transformou tudo por aqui em uma única palavra: insuportável. Fui intimada a comparecer aos instantes de felicidade de minha sobrinha e confesso que depois que desci do ônibus, pouco antes da porteira, as memórias me levaram tempo adentro. O campo de canola, antes de mostrar a beleza amarela, que me lembra as tardes de agosto no lado direito após a cerca me atrai pelo cheiro. O amarelo me lembrou a baba do cachorro doido atrás da cerca…

Do outro lado, bambina… o manto branco – em rolos embalados para entregas – se impõe. Houve um tempo em que a gente colhia tudo na mão. O balaio que mal conseguíamos carregar ia se enchendo de plumas… parece que ainda ouço a voz do irmão que já não está mais aqui a orientar as fileiras. Para mim, parecia que a terra estava de noiva, tal qual Juliana ficará mais tarde.

À primeira vista, após abrir a porteira o olho alcança o gado sendo aboiado. Sabia que meu pai aboiava o gado entre um pasto e outro com os olhos de quem domava aquele mundo? A falta dele é perceptível em cada canto desse lugar. O engraçado é que ele sempre achava que tudo pararia se ele não estivesse ali, em cima do Azuleiro – seu cavalo de estimação – com seu berrante e o êêê boi – e não parou, bambina. A engenhoca continua igual… tudo roda como se ele estivesse ali, dando ordens e indicando direções.

Ele é quase uma sombra entre os peões e os gestos deles são os mesmos que ele fazia… quase o vi ali, entre a poeira e o gado indo para o curral. Acho que é isso que chamam de saudade, amore… o que sinto agora vendo de tão perto, com os sentidos aguçados nos cheiros da terra pisada e nas lembranças que invadem meus pensamentos dentro da minha história. Ainda em um ontem, eu era a menina na garupa do alazão a aboiar junto ao peito dele.

Sem falar no Chuim – o boder collie que nasceu logo depois da cerca, ao lado do curral – que parece sentir minha chegada e me espera no triiero, como se eu nunca tivesse partido. Como se os dezessete anos dele não fizessem a menor diferença desde quando o peguei no colo pela primeira vez. Sempre perto a me acompanhar nos campos, atento a qualquer barulho. E a cada volta minha age como se eu nuca tivesse ido, como se ele soubesse que eu faço parte do lugar, assim como ele, que já deixa seus filhotes tão iguais a ele.

Não fosse por tudo dito antes, o cheiro da cozinha me carrega ao colo de mãe… dos quitutes feitos ali, pela senhora sorridente de sempre, que me viu crescer naquelas paragens… que acompanhava meus movimentos à beira de um fogão de lenha… A viagem era para o casamento da minha sobrinha e o meu lugar voltou no tempo, nos arranjos debaixo da velha árvore que nos viu crescer. Porém, eu viajei nas lembranças. Na falta dos que não estão mais aqui. Das coisas miúdas que mesmo se colocasse mil fotos não traduziria o sentimento que senti.
Fui ali, bambina, para abraçar os meus, em uma viagem feita dentro da minha saudade.

Volto em breve.
Bacio,

Mariana Gouveia
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6 on 6 – Seis meses, seis fotos.

,,,
Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
…
Helberto Helder

Bambina mia,

confesso que assustei-me com os seis meses – a pergunta foi: mas, já!! – para logo depois repassar na memória todos os oito meses que já vivemos e morremos. Lembrei-me de que alguns meses foram arrancados de nós, como quem arranca a folhinha diária do calendário. Lembra-se de que em janeiro, dentro dos melhores momentos a gente os seis meses do ano anterior.

Já fevereiro, bambina, em nossas manhãs, o café e o livro de sempre, fazendo com que a rotina fosse marcada pelas conversas, risadas e choros. Os planos e a incerteza de que eles fossem interrompidos e o mês seguinte sendo companheiro da dor .

Sabe aquela frase que alguém sempre diz sobre o tempo? Acho que a gente apenas quis continuar e mesmo abril sendo o mais cruel dos meses – um poeta escreveu sobre isso – a gente riu entre lágrimas e suspiramos no cair da tarde. Acho que viver é isso… um dia e uma tarde de cada vez.

Te contei sobre maio e suas trovoadas por aqui, lembra? E também falei sobre como os caminhos literários me levou até as ruas de França, nas mãos de quem gosta de mim… e a gente aprendendo a aceitar esse vazio, mas também seguindo em frente, porque é o que nos resta fazer.

Junho nos acolheu tanto em saudades como em afagos. Outono passou ligeiro dentro das leituras de outono e quando demos por nós, os meses foram recompostos em escritas e superação. Ou seria apenas o viver um dia de cada vez?

E assim, seguindo um dia de cada vez, degrau por degrau vamos enfrentando essa ausência que nos afeta e nos enche de saudade cada vez que penso no tuo bambino. Confesso que, às vezes, parece que ele está aí e vai entrar de repente na nossa conversa com seu bom dia radiante e sua gargalhada majestosa. Sou muito grata ao universo por ter tido a honra de tê-lo em minha vida. Eu só queria te dizer isto e aproveitei essa carta para tal.
Quero dizer também que estou aqui, sempre… para o colo, mão estendida e todo meu amor.

Amo tu imenso!
Bacio
Mariana Gouveia
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6 on 6 – Degraus

Foi descendo a escada, evitando despertar os degraus.

Lígia Fagundes Telles
Ciranda de Pedra

Bambina mia,

na rua de cima, quando me deparei com essa casa e seus degraus, lembrei-me de você. Não fosse só pelo projeto fotográfico, mas pelas casas que somem diariamente nas ruas de cima… essa casa, está abandonada há mais de 30 anos. Dizem que há uma briga por partilha de bens – essas coisas que os humanos adoram fazer – enquanto a casa que conheci logo que mudei para esse bairro, se desmancha aos meus olhos diariamente.

É até engraçado, bambina, enquanto alguns degraus vão se perdendo, outros são construídos. Esse, da foto acima, foi feito recentemente em uma ação de políticos. Liga a rua de cima com a avenida principal do meu bairro. Antes, ali, havia uma cerca de flores – o que eu preferia mil vezes – do que os degraus feitos de azulejos combinando e já causou várias quedas em dias de chuva. Não ganhou o efeito de ponto turístico que o tal político queria. É bonito, visto do outro lado da rua com as figuras dos cajus e viola de cocho, e só.

Por falar em ponto turístico, os degraus da igreja do Rosário ou São Benedito é o elo da fé dos cuiabanos e o santo. Hoje mesmo, tem a festa de encerramento da festa feita para o santo, mas não pude ir lá fotografar. A igreja é belíssima por dentro. Mas, como tem coisas que só acontecem aqui, a festa está acontecendo do lado de fora, por risco de desabamento. Ela faz parte do patrimônio histórico daqui, mas ninguém faz nada para mudar a situação.

Mas, sabe, bambina, consegui registrar a lavagem dos degraus dias atrás. É um culto à parte da festa de São Benedito, como preparação para os dias seguintes. Tem todo um simbolismo com a religiosidade e a limpeza não só da escadaria, mas também da cidade como um todo. Havia mais de mil pessoas entre cânticos, danças e ritos.

Eu ri tanto quando vi esses degraus, bambina, porque volta e meia a gente troca algumas canções francesas e eis que em cada degrau uma frase da canção de Piaf. Quase a ouvi cantando ali, num espaço “francês” para noivas. Não me deixaram chegar tão perto para fotografar melhor, mas lembrei de você e sorri.

E finalizo meus degraus com a flor quase a desabrochar… ela me leva à frase que iniciei essa missiva: Foi descendo a escada, evitando despertar os degraus. Parece que a flor sabe sobre o que a Lígia Fagundes Telles quis dizer. E é isso que também faço em um abraço silencioso no tuo cuore, para não despertar os degraus por aí.

Bacio
Mariana Gouveia
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Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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6 on 6 – leituras de outono…

Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado, 
como se fosse pelo lado de dentro? 

Manuel António Pina

Bambina mia,

nunca um poema cantou tanto em minha pele como esse acima… acho que me perdi dentro das estações nos últimos tempos e quando dei por mim, respirava a estação preferida no lado de dentro – no cuore – e suspirei… e confesso que o que me salva são as leituras – e aleluia, já posso pausar meus olhos nas linhas dos livros ainda por ler.

Nas manhãs amenas, logo depois de varrer s folhas secas do pé de jurubeba e do ipê me atrevo a ficar em silêncio folheando as páginas dos livros meus e dos autores que amo. Gosto do cheiro que as folhas secas deixam depois de serem empurradas pela vassoura quintal afora, até encontrarem a pá… o chiado delas parecem confidências que só uma poesia poderia descrever e contrastam com o cheiro das páginas do livros.

E quando encontro uma folha bonita, pauso o tempo e o livro e te envio, para logo, ouvir seu riso ao receber meu áudio e foto… tem dia que te mando um quintal inteiro de folhas só para te “ver” em risos do outro lado da tela.

Sabe, bambina, a estação está diferente por aqui… e como você sabe, minhas manhãs parecem tudo dentro de outras estações – menos outono – e a pele já antecede o sentimento de um inverno seco que se aproxima. Claro que aqui eu poderia comentar sobre as mudanças climáticas e de como o tempo faz a moça do tempo daqui errar sempre a previsão, mas prefiro suspirar e esperar pela tarde que brinca com as folhas – que nuca consigo catar todas – com o vento.

Eu repito livros e fotos e palavras – você sabe – e leio poemas inúmeras vezes e cato as emoções das autoras para juntar com as minhas. Isso tem se tornado rotineiro… abro o livro, pego a xícara de café e vou sorvendo as palavras como se elas se tornassem minhas. Busquei suas palavras no verso do livro Caderno de alegrias e tristezas:


O telefone vibrou – anunciando notícias que não me interessam. Queria me afogar num verso. Morrer numa página qualquer… Soluçar um parágrafo bem escrito. Lembro-me de pensar ao ler:

“deveria enviar à Isabel : um texto sobre o medo de ler o que escrevo“

Gargalho aqui e murmuro sozinha coisas que vêm de repente à cabeça…

Bambina do céu! Nem reparei que a noite chegou e com ela uma lua linda dentro do quadrante do meu quintal e os grilos que irritam o Buu por aqui fazem a farra. Acho que eles devem ter uma banda musical. Só pode! O cri cri cri é uma sinfonia só!

Sei que ultrapasso o limite do projeto ao enviar uma missiva, mas é uma maneira que encontrei de falar com você para além do aplicativo de mensagens, em cada dia 6 dos meses. As mãos já estão quase boas e logo os textos e poemas serão mais frequentes – eu espero – dentro dessa estação que nos abraça e de outras que estão por vir.

Abraço carinhoso
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
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Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Caminhos literários.

Bambina mia,

Dizem que os livros são janelas para novas dimensões… e acho que essas novas dimensões nos levam para caminhos desconhecidos e pessoas que se aconchegam em nossas palavras… os meus livros seguiram caminhos feitos por tanta gente que resolvi te contar. Uns, voaram além mar e foram pousar em Portugal.

Ana Christelo, em Povoa de Varzim, Portugal.

Eu sempre desejei que minhas palavras ganhassem o mundo e que de alguma forma elas pudessem tocar os corações das pessoas. Daí, surgiu você e tuo menino em meus caminhos e deram vazão ao meu sonho. A cada mensagem que eu recebia de alguém que havia lido algo que eu escrevi era como se aquela menina que sempre quis ser contadora de histórias renascesse de novo dentro do mesmo sonho.

Foto feita pela Sandra Silva, em Porto, Portugal

Sabe, atravessar o oceano e caber nas mãos de alguém que a gente gosta e fazer com nossas palavras sintetizem o sentimento para além da poesia é algo magnífico. Devo colocar a culpa em você, que transformou as minhas palavras em livros? Que fez com que meus caminhos literários cruzassem o mundo?

Fotografia envida por Sandra Silva, de Paris

Estar ali, ao alcance das mãos, em uma estante mundo afora, junto com os outros livros preferidos de um leitor é tudo que alguém que escreve sonha. E a gente sabe, e já falamos muito sobre como é difícil enviar livros para fora do Brasil. Uma editora independente, então, fica inviável. Mas, quando de alguma forma isso se torna possível é lindo!

Fotografia enviada por Eduardo Moreira, Meda, Portugal.

Pena, bambina mia que sejam apenas seis fotos… e além de voarem para além dos oceanos, eles também couberam nas mãos e no coração de tanta gente aqui que nem cabem nas fotos. E claro que meus diversos caminhos e desvios atravessaram sentimentos dentro da poesia vivida e sentida.

Cinara Thaís, Cuiabá, MT

Falar sobre quem caminha com a gente através de um livro é como se a gente atravessasse a janela para a nova dimensão que citei lá no início dessa missiva. Algumas pessoas nos sabem tão bem que é como se já tivéssemos nos encontrado em algum canto de esquina, uma rua em um país distante, numa livraria… outras, passam a nos saber pela poesia, pelas cartas, pela história que contamos.

Suzana Martins, São Bernardo do Campo, SP.

Eu ficaria horas aqui, bambina, falando sobre livros, sobre pessoas que nos levam além de palavras e no cuore… Mas, ainda estou limitada às dores e o que me cabe aqui é agradecer… À você e ao tuo menino que voou para a imensidão, mas que deixou em mim um carinho do tamanho da saudade que sinto dele. Se meus livros ganharam vida além das folhas em papel e chegaram em tantas mãos mundo afora, as mãos dele e as tuas fizeram com arte o sonho se tornar realidade.

Grazie! Amo tu imenso!
Bacio

Mariana Gouveia
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6 on 6 – Ao cair da tarde.

Bambina mia,

te escrevo nesse cair de tarde no exato momento em que as aves retornam ao bosque para além da rua de baixo… é um ritual que elas seguem diariamente, faça chuva ou faça sol. Parecem que elas seguem um horário predeterminado entre minhas 17: 35 até às 18:15.

Não são aves migratórias… são em sua maioria garças que dormem nas árvores do bosque que circunda a universidade federal. Nunca consegui acompanhar a ida delas, só a volta. Ou elas usam outro desvio para além do meu quintal.

O cair da tarde no meu lugar é variado em suas cores. E claro, que estou entre a parte do fuso que a gente sempre brinca. Quando minha tarde começa aqui, aí já é noite. Então, estou no seu passado ou futuro – nunca lembro. Mas, quando vejo o crepúsculo anunciando o cair da tarde, lembro-me de você.

Mas em algumas tardes, bambina, a lua surge trazendo Marte como companhia e meu encanto me faz te enviar a foto por mensagem no exato instante. Já aconteceu várias vezes, e a tarde se torna mágica enquanto se transforma em noite.

Só que você sabe que moro em um lugar onde sol domina o céu por inteiro e em algumas – quase todas… quase mesmo – tardes ele se arrasta abrasador até a noite chegar de uma vez. Nessas tardes, a despedida do astro rei ressoa no canto dos pássaros, como se com isso, a tarde demorasse um pouco mais para ir.

É quando minha rua se mistura com o horizonte casas acima. Quase suspiro, de tão lindo que acho. Alguns momentos do dia aqui são peculiares – repetitivo, às vezes – mas o cair da tarde muda toda a rotina do céu. As nuvens parecem carregadas de fogo… formam figuras que tento decifrar…

Mas para mim, bambina, o alaranjado que forma quando a tarde cai por trás da casa da vizinha é quase um convite para dançar como se eu estivesse me despedindo da tarde que cai mansamente… Acho que era isso que eu queria te dizer sobre o cair da tarde do meu lugar.

Bacio,

Mariana Gouveia
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Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Alice - Uma Voz nas Pedras · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – cult coffee and books

Quando surgiu o tema do projeto fotográfico 6 on 6 lembrei-me dos rituais de sempre… aqui, para acompanhar a leitura de um livro a companhia da xícara de café é sagrada.

Confesso que devido à cirurgia nos olhos – quase recuperada – e a alguns problemas de saúde o prazer de pegar um livro e ler tem sido bem pouco, ou quase nada. Minha lista de livros só aumenta e retomo essa atividade nos fins de tarde, sempre com minha xícara de café e um lanchinho.

O meu café é mais forte, e claro que aproveito para saborear alguns textos que amo…

Ou para relembrar momentos que me emocionaram…

esses momentos servem para reviver histórias que tocaram meu coração e por consequência…

dão sabor inigualável em uma tarde chuvosa… aceita uma xícara aí?

Mariana Gouveia
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Roseli Pedroso – Silvana Lopes