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6 on 6 – Fui por ai (viagens)

Da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé

Isabel Mendes Ferreira

Bambina mia,

Fui por aí, bem logo depois que o vento faz a curva rever meu povo e meu lugar. Ainda é inverno nesse calor que transformou tudo por aqui em uma única palavra: insuportável. Fui intimada a comparecer aos instantes de felicidade de minha sobrinha e confesso que depois que desci do ônibus, pouco antes da porteira, as memórias me levaram tempo adentro. O campo de canola, antes de mostrar a beleza amarela, que me lembra as tardes de agosto no lado direito após a cerca me atrai pelo cheiro. O amarelo me lembrou a baba do cachorro doido atrás da cerca…

Do outro lado, bambina… o manto branco – em rolos embalados para entregas – se impõe. Houve um tempo em que a gente colhia tudo na mão. O balaio que mal conseguíamos carregar ia se enchendo de plumas… parece que ainda ouço a voz do irmão que já não está mais aqui a orientar as fileiras. Para mim, parecia que a terra estava de noiva, tal qual Juliana ficará mais tarde.

À primeira vista, após abrir a porteira o olho alcança o gado sendo aboiado. Sabia que meu pai aboiava o gado entre um pasto e outro com os olhos de quem domava aquele mundo? A falta dele é perceptível em cada canto desse lugar. O engraçado é que ele sempre achava que tudo pararia se ele não estivesse ali, em cima do Azuleiro – seu cavalo de estimação – com seu berrante e o êêê boi – e não parou, bambina. A engenhoca continua igual… tudo roda como se ele estivesse ali, dando ordens e indicando direções.

Ele é quase uma sombra entre os peões e os gestos deles são os mesmos que ele fazia… quase o vi ali, entre a poeira e o gado indo para o curral. Acho que é isso que chamam de saudade, amore… o que sinto agora vendo de tão perto, com os sentidos aguçados nos cheiros da terra pisada e nas lembranças que invadem meus pensamentos dentro da minha história. Ainda em um ontem, eu era a menina na garupa do alazão a aboiar junto ao peito dele.

Sem falar no Chuim – o boder collie que nasceu logo depois da cerca, ao lado do curral – que parece sentir minha chegada e me espera no triiero, como se eu nunca tivesse partido. Como se os dezessete anos dele não fizessem a menor diferença desde quando o peguei no colo pela primeira vez. Sempre perto a me acompanhar nos campos, atento a qualquer barulho. E a cada volta minha age como se eu nuca tivesse ido, como se ele soubesse que eu faço parte do lugar, assim como ele, que já deixa seus filhotes tão iguais a ele.

Não fosse por tudo dito antes, o cheiro da cozinha me carrega ao colo de mãe… dos quitutes feitos ali, pela senhora sorridente de sempre, que me viu crescer naquelas paragens… que acompanhava meus movimentos à beira de um fogão de lenha… A viagem era para o casamento da minha sobrinha e o meu lugar voltou no tempo, nos arranjos debaixo da velha árvore que nos viu crescer. Porém, eu viajei nas lembranças. Na falta dos que não estão mais aqui. Das coisas miúdas que mesmo se colocasse mil fotos não traduziria o sentimento que senti.
Fui ali, bambina, para abraçar os meus, em uma viagem feita dentro da minha saudade.

Volto em breve.
Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

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