Afetos · Das palavras das cartas

Carta para minha mãe aos cuidados do quintal.

Mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
Eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.

José Luís Peixoto

Mãe,

mais uma vez o calendário me leva para o dia de sua partida e o vento que atravessa meu quintal limpou todas as nuvens de chuva. Lembro-me de que chovia no dia em que você voou… e lembro da chuva molhar os flamboyants que circundava o cemitério e que fiquei brincando com as gotas nas folhas.

Hoje, o quintal nem ficou molhado… vai ter estrelas no céu noturno que se aproxima e mais uma vez vou cantar baixinho para você dormir. Revendo as poucas fotos que tenho é como se o coração não percebesse essa ausência… como se você tivesse logo ali, ao alcance das mãos, de um aceno, um abraço.

O tempo passa ligeiro, mãe, e mesmo sentindo como se fosse ontem, já se vão 43 anos… Uma vida inteira de saudade. Sinto tanta falta de tudo que não vivi ao seu lado e de tudo que você não pode saber de mim – embora, eu acredite piamente que de alguma forma, você esteve e está presente em tudo que fiz.

Os pássaros cantam finalizando o dia e o céu escurece rapidamente… Dessa forma, te ofereço meu amor sempre vou te dar notícias através das estrelas como você me ensinou.

Te amo sempre!
Sua filha,
Mariana

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