Afetos · Literatura / Crônicas

BEDA #8 – Casulo: O barulho que mora no silêncio

Não acontece muito o silêncio por aqui… Os pássaros ativaram o modo cantoria logo cedo. Vim caminhar no quintal e lembrei de minha mãe. Ela era silenciosa e muitas vezes só fazia o hum… Carregava o silêncio como herança; possuía uma quietude que descobri depois em alguns tios e tias. Isso a gente não escolhe, recebe dos que vieram antes de nós, como um código secreto impresso nos ossos. Tuo nonno, equilibrista de passos lentos no quintal, me lembra de como a vida exige que a gente aprenda a caminhar tateando os riscos do chão para não desabar. Ele era o mestre do silêncio. Você deve ter recebido isso como herança, imagino.

Eu cantarolo volta e meia, converso só ou com as coisas. Yoshi volta busca o ouvinte de minhas falas e abana o rabinho curto como quem não entendeu nada. Minhas coisas também são barulhentas. Ouvi um chiado peculiar de quando a borboleta sai do casulo enquanto eu cavoucava a terra para o plantio de sementes. Achei bonito tamanha suavidade e o milagre mais bonito do recolhimento. Eu também me reconheço nessas sombras que anoitecem pelos cantos do corpo, nesses dias em que a alma dobra de tamanho e a palavra precisa ser tateada no escuro da gaveta, longe dos olhos apressados.

Aqui, neste inverno cuiabano que não refresca a pele, as memórias também se misturam na fumaça seca de agosto. Não reclamo do calor. Não sou do frio, como você sabe. O que incomoda é a secura e a falta de umidade, típica desse tempo. O relógio deste lugar continua seu tique-taque indiferente, e eu guardo os meus apetrechos de jardim para seguir a rotina do dia. A farfalla – como você diz – está quase pronta para voar e viver sua semana de vida. O ciclo do casulo se encerra e a mutação nos aguarda.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #7 – Casulo: O tempo que mora nos livros

Ler seu texto foi como abrir, eu também, um baú de silêncios guardados. Enquanto a moça do tempo prevê o retorno do frio para os seus lados, por aqui o vento de agosto continua a levantar a poeira seca do quintal quando varro as folhas, exigindo essa paciência mansa que só a lentidão das estações nos ensina a ter. Há dias em que os pés se recusam a caminhar pelo mundo lá fora porque o verdadeiro movimento está acontecendo do lado de dentro, no avesso das horas.

Comovi-me com a sua lembrança de Ana Luísa Amaral. Você tem toda razão: poetas não morrem, eles apenas mudam de ilha. Deixam as páginas amarelecidas como portos seguros para os nossos próprios barcos de papel. Esse desencontro cronológico de que você fala — estar sempre adiantada ou atrasada para os compromissos — é, na verdade, a prova de que a sua escrita habita o tempo da delicadeza, e não o tique-taque rígido dos relógios comuns.

O Universo – ah, o universo – sabe o que faz ao cruzar os mapas dos iguais, dos que se acolhem-escolhem. Receber um livro sem dedicatórias, preenchido apenas com a música pura dos versos, é o excesso mais perfeito da generosidade. É o texto bastando a si mesmo. Também tenho os meus “ontens” guardados em páginas que folheio devagar, sentindo o peso do que foi e o eco do que permanece. É preciso recuar, fechar as frestas e silenciar para conseguir segurar um cuore nas mãos sem que ele se quebre. Mas devo confessar que as dedicatórias nos Lua de Papel, com sua caligrafia ainda me emociona.

Que a sua Lua de Papel continue a iluminar as noites deste inverno esquisito. Beba o seu café sem pressa. Eu sigo daqui, no meu canto, tateando minhas próprias sementes e sabendo que, na poesia, nunca estamos realmente sós ou atrasadas. Sempre nos encontramos no meio do caminho ou numa esquina qualquer.

Mariana Gouveia

Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #5 – Casulo: Onde deságuam as palavras

O céu amanhece estranho. As nuvens se aglomeram como se fosse chover, mas a moça do tempo me tirou a esperança. O tempo seco predomina em meu lugar. Fiquei pensando em como você entende e veste a poesia. Eu, uma escrevinhadora de linhas – como você mesma disse – não sei dizer como um verso surge. Mesmo porque o verso não nasce de uma fórmula; ele é o próprio desassossego que escorre pela ponta dos dedos quando a realidade lá fora se torna quente e seca demais para ser suportada em silêncio. Tecemos nossas próprias paredes com o que nos sobra dos dias: um fiapo de luz na cozinha, o cochilo do Yoshi, o eco de um trovão que passou sem chover e a teia que a aranha tecelã coseu na grama do quintal.

Como você traça a rota de alguns dos meus poemas já sabe que eles surgem como as borboletas por aqui, rompendo o invólucro de surpresa, sangrando as asas para conseguir voar antes que a tarde caia. Sou essa criatura comum ao dobrar a esquina, é verdade, mas os meus olhos traçam rotas no inverso de mim. Escrevo para desatar os nós que a vida-lida aperta na garganta, transformando o grito represado em fresta de vento. Isso, por si só, já é poesia. E às vezes, o verso cai no colo através de uma frase, de um personagem que atravessa as ruas de cima. Uma frase dita em tom de brincadeira nas mensagens que trocamos.

Se a poesia é para ser lida em pequenos goles, que o meu texto seja igual a xícara de chá que você oferece ao longo da manhã. O instante para mim, é poético e fico aspirando sabores e tocando as ervas daqui para combinar com seus sabores por aí.

Olho para Alejandra, Emily e Cecília e nelas também encontro o mapa imaginário desse nosso andar compartilhado. Não sei se somos divinas ou profanas, mas enquanto você toma o seu chá e busca fôlego no quintal, eu sigo daqui, misturando as linhas e separando as cores, tecendo desenho com agulha – e isso também não deixa de ser poesia – oferecendo a minha voz para que os teus silêncios encontrem abrigo.

Acredito que nem eu, Rozana e Anna Clara poderíamos cravar a certeza de como surge um verso. Cada uma traçaria uma linha diferente da outra. O verso, afinal, é só isso: o outro lado do espelho onde a gente finalmente se reconhece. Mas para entender tudo isso, você já tem o mapa.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas

BEDA #4 – Casulo: O silêncio que o fio não alcança

Sua implicância com os telefones me fez sorrir diante da tela desse smartphone que, por ironia, nos conecta enquanto enfrento os mais de trinta graus que o inverno de Cuiabá insiste em manter por aqui. Compreendo perfeitamente o nonno: há invenções que parecem rasgar o tempo sagrado das coisas. O som estridente daquela campainha antiga invadindo o casarão soa quase como uma profanação perto do bater solene do carrilhão, o verdadeiro cuore da casa. Uma casa precisa de batimentos, não de sobressaltos.

Eu demorei para ter um telefone e o primeiro, segundo meu filho, era da idade da pedra. O telefone da rádio para mim, na época era o mais legal. O que trazia pedidos de músicas e notícias mundo afora. O fio que trazia a notícia do mundo, era o mesmo que falava sobre as partidas de alguém que a gente amava, era também o que aprisionava a urgência. O tintilar da ficha caindo do outro lado quando o aparelho chegava aos ouvidos tinha o som de alguém que me ouvia pelas ondas do rádio. A vida antiga tinha outra velocidade; as dores e as alegrias viajavam devagar, no lombo dos cavalos, bicicleta ou no balanço dos vagões, carimbadas por selos e envelopes. Havia um tempo justo para digerir a saudade entre a escrita e a resposta. Hoje, a pressa nos rouba o direito ao recolhimento. E há os que se incomodam quando não respondemos na hora em que recebemos a mensagem.

Acho que também fujo dos diálogos longos. Quando a tagarelice alheia ameaça o meu silêncio, eu me recolho para dentro do casulo. Dou três voltas no quintal, ajeito uma planta, observo a lentidão do Yoshi, e seus passos cada vez mais curtos. O silêncio acontecendo e sendo interrompido apenas pelo toque da mensagem e por falar em mensagem, gosto de ouvir o som digitalizado do sapinho que você escolheu para as tuas. É como se eu estivesse perto. No meu, o som é Surrender, de Laura Pausini que amo.

Desativar o som é uma maneira de comandar a vida e esperar a hora certa para a resposta. É escolher a própria órbita. Enquanto o mundo corre lá fora atrás de notificações imediatas, eu sigo aqui, blindando o meu canto e preferindo a calmaria dos papéis que esperam pelo tempo certo de serem lidos. Meu pai já dizia que desligar o mundo é o primeiro passo para conseguir ouvir o próprio coração.

Que assim seja!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #3 – Casulo: Das sombras que nos abrigam

Bambina mia,

Sua missiva me encontrou em silêncio, tentando decifrar o mistério dessa escuridão que você chama de abrigo. Não há estranheza alguma em culpar Patti – olha só minha intimidades! Às vezes, os livros têm esse poder de nos desestabilizar e nos empurrar para dentro de cenários que preferíamos esquecer ou silenciar no fundo do casulo.

Suas trinta e seis exposições em preto e branco me fizeram pensar no que escolhemos registrar e no que deixamos esquecido em rolos de filme nunca revelados. Eu, que carrego os olhos atentos da fotografia, entendo o seu desconforto com os túmulos. São caixas de concreto feitas para reter o corpo, enquanto o casulo — esse sim — é feito para gestar a alma. A morte, essa senhora honesta que você evocou, talvez seja apenas a última metamorfose, o romper definitivo da crisálida. Acho que lido bem com ela também.

Mas são as suas bibliotecas empoeiradas e as livrarias esquecidas que me tocam de perto. Você sabe o quanto gosto delas. Desde as mais simples e isso me leva para minha infância, até as enormes, como a Mário de Andrade. Sabê-la sendo disputada por traças dói como ver um ninho abandonado no inverno. Foi nela que Cadeados Abertos se abriu para as pessoas. Foi o lugar onde pari o meu terceiro livro.

Por aqui, o dia avançou devagar. Olhei para o Yoshi dormindo encolhido no canto mais escuro da sala e entendi a frase: escuridão também é abrigo. Há dias em que a luz do sol é forte demais para quem está mudando por dentro. Precisamos da escuridão do casulo para aprender a enxergar com o olho do coração.

Acho que Patti vai guiar os seus passos por aí. Eu sigo daqui, no meu próprio recolhimento, limpando a poeira das minhas gavetas e esperando o eco das suas próximas linhas.

Bacio,

Mariana Gouveia

das coisas breves

BEDA #2 – Casulo: Antes de amanhã é quase hoje

Eu vi a Divindade com o olho do coração. Eu disse: “Quem é você?”
Ele disse: “Você”.
(Mansur Al-Hallaj )

Ei, Agosto,

Os dias chegam diante do espelho. A vida passa igual aos flashes dos cinemas. Isso era ontem. Outro mês e outro dia. E as coisas aconteciam antes de ontem…

A manhã surge radiante espantando a cor — o cinza oco dos tempos dos corredores frios — e a cidade vista da janela se apresenta dourada. Um suspiro e tudo muda no final do dia. Antes de amanhã é quase hoje, e um novo mês que se inicia rompe as nuvens.

Trovões ao longe. Para os lados do sul. Para lá, cada clarão contrasta com o dourado que invade as cortinas, as frestas, a janela. Como se o céu rugisse para dar boas-vindas ao novo mês. Bem-vindo, mês febril! O calor e a fumaça tomam conta do meu lugar. A moça do tempo mais uma vez avisou que não vai chover.

Mas os dias passam tão rápidos e logo estarei aqui dizendo que ele se foi. É quase um piscar de olhos e essa manhã se tornará tarde-noite-madrugada e novo dia. São as rotinas soprando os calendários que marcam o santo do dia, a fase da lua, a frase de efeito, os dias que faltam para o fim do ano… Ufa!

Tudo isso em um tempo vivido antes de mim… Assim como os casulos rompendo as cascas e a metamorfose acontecendo. Antes de mim, as rotinas eram lentas, rastejantes. O dia podia ser contemplado da janela e as flores anunciavam as estações em ritmo de sementes — hoje, tenho sementes, flores e frutos no mesmo pé — e havia o tempo de plantar e de colher.

Desta janela, a cidade ainda dorme — ou grande parte dela — aos meus pés. As horas já avançam em sintonia com o tique-taque do relógio deste lugar… Os corredores lotados de pessoas que buscam cura e esperança umas nos olhos das outras. Outros desviam o olhar para depois.

Depois!

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #1 | Casulo: O verão que habita no meu inverno.

Bambina mia,

Suas palavras me pegou olhando para o meu quintal, tentando encontrar o calor que você evocou em suas memórias. Por aqui, o inverno também se faz de dias curtos e secos, mas a luz dourada do sol do meio da manhã insiste em rasgar o cinza e rebentar na parede sem rebocos da casa da vizinha da esquerda.

Enquanto você viajava com Eliane pelos verões da sua infância, eu pensava na das listas de C. e no quanto a vida, às vezes, nos exige esses “checks” para cabermos nas horas. Você sabe que sempre fui muito organizada. Lembrei-me de quando dividia as tarefas com meus seis irmãos na fazenda. Cada um com sua função. Mas a sua mesa ao ar livre, colorida e sem lugares marcados, me fez sorrir. No meu caso, tinha que haver lugares marcados e até rodízios porque cada um queria sentar perto da mãe. Havia uma escala. Um dia para cada um dos sete. Há uma liberdade bonita na infância que a gente tenta guardar no bolso para os dias frios. Depois que ela se foi paramos de sentar à mesa.

Hoje, o Yoshi está mais lento, afinal, a idade pesa. Ele ficou comigo, à espreita, enquanto o vento gemia nas folhas do pé de ipê. Olhando o vazio do inverno, que aqui é puro verão, percebo que o casulo não é uma prisão, mas a permanência silenciosa de tudo o que fomos. O seu desassossego delicioso é o milagre da metamorfose acontecendo por dentro, invisível aos olhos apressados. A borboleta laranja do maracujá – segundo dizem – rompeu seu casulo antes que eu me desse conta. Suspirei vendo-a “sangrar” para secar as asas.

Você foi buscar fôlego no quintal e eu fiquei aqui, desejando que o seu chá guarde o calor daquela mesa de frutas e risadas. Se o inverno aperta o corpo, que a nossa sincronia continue aquecendo a alma. Acho que nos dias de agosto será comigo os diálogos.

Beba o seu chá. Eu sigo daqui, cuidando dos ninhos e esperando o próximo casulo eclodir.


Corri lá para o aniversário de Catarina. Julho tem essa mania de trazer datas especiais aos nossos dias. Que venham muito mais!

Bacio,
Mariana Gouveia