O céu amanhece estranho. As nuvens se aglomeram como se fosse chover, mas a moça do tempo me tirou a esperança. O tempo seco predomina em meu lugar. Fiquei pensando em como você entende e veste a poesia. Eu, uma escrevinhadora de linhas – como você mesma disse – não sei dizer como um verso surge. Mesmo porque o verso não nasce de uma fórmula; ele é o próprio desassossego que escorre pela ponta dos dedos quando a realidade lá fora se torna quente e seca demais para ser suportada em silêncio. Tecemos nossas próprias paredes com o que nos sobra dos dias: um fiapo de luz na cozinha, o cochilo do Yoshi, o eco de um trovão que passou sem chover e a teia que a aranha tecelã coseu na grama do quintal.
Como você traça a rota de alguns dos meus poemas já sabe que eles surgem como as borboletas por aqui, rompendo o invólucro de surpresa, sangrando as asas para conseguir voar antes que a tarde caia. Sou essa criatura comum ao dobrar a esquina, é verdade, mas os meus olhos traçam rotas no inverso de mim. Escrevo para desatar os nós que a vida-lida aperta na garganta, transformando o grito represado em fresta de vento. Isso, por si só, já é poesia. E às vezes, o verso cai no colo através de uma frase, de um personagem que atravessa as ruas de cima. Uma frase dita em tom de brincadeira nas mensagens que trocamos.
Se a poesia é para ser lida em pequenos goles, que o meu texto seja igual a xícara de chá que você oferece ao longo da manhã. O instante para mim, é poético e fico aspirando sabores e tocando as ervas daqui para combinar com seus sabores por aí.
Olho para Alejandra, Emily e Cecília e nelas também encontro o mapa imaginário desse nosso andar compartilhado. Não sei se somos divinas ou profanas, mas enquanto você toma o seu chá e busca fôlego no quintal, eu sigo daqui, misturando as linhas e separando as cores, tecendo desenho com agulha – e isso também não deixa de ser poesia – oferecendo a minha voz para que os teus silêncios encontrem abrigo.
Acredito que nem eu, Rozana e Anna Clara poderíamos cravar a certeza de como surge um verso. Cada uma traçaria uma linha diferente da outra. O verso, afinal, é só isso: o outro lado do espelho onde a gente finalmente se reconhece. Mas para entender tudo isso, você já tem o mapa.
Mariana Gouveia

Por isso que eu nem me atrevo a perguntar, preferindo apenas ler o que escrevem e traçando linhas nesse mapa sensorial.
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Em muitos momentos é esse seu mapa que nos orienta.
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