Não acontece muito o silêncio por aqui… Os pássaros ativaram o modo cantoria logo cedo. Vim caminhar no quintal e lembrei de minha mãe. Ela era silenciosa e muitas vezes só fazia o hum… Carregava o silêncio como herança; possuía uma quietude que descobri depois em alguns tios e tias. Isso a gente não escolhe, recebe dos que vieram antes de nós, como um código secreto impresso nos ossos. Tuo nonno, equilibrista de passos lentos no quintal, me lembra de como a vida exige que a gente aprenda a caminhar tateando os riscos do chão para não desabar. Ele era o mestre do silêncio. Você deve ter recebido isso como herança, imagino.
Eu cantarolo volta e meia, converso só ou com as coisas. Yoshi volta busca o ouvinte de minhas falas e abana o rabinho curto como quem não entendeu nada. Minhas coisas também são barulhentas. Ouvi um chiado peculiar de quando a borboleta sai do casulo enquanto eu cavoucava a terra para o plantio de sementes. Achei bonito tamanha suavidade e o milagre mais bonito do recolhimento. Eu também me reconheço nessas sombras que anoitecem pelos cantos do corpo, nesses dias em que a alma dobra de tamanho e a palavra precisa ser tateada no escuro da gaveta, longe dos olhos apressados.
Aqui, neste inverno cuiabano que não refresca a pele, as memórias também se misturam na fumaça seca de agosto. Não reclamo do calor. Não sou do frio, como você sabe. O que incomoda é a secura e a falta de umidade, típica desse tempo. O relógio deste lugar continua seu tique-taque indiferente, e eu guardo os meus apetrechos de jardim para seguir a rotina do dia. A farfalla – como você diz – está quase pronta para voar e viver sua semana de vida. O ciclo do casulo se encerra e a mutação nos aguarda.
Mariana Gouveia














