Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das fragilidades secretas

Quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembraram as goteiras
da infância. O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô. Tudo antecede
a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é logo ali, quando escurece, no canto do muro. O café frio na xícara e as cartas
que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha — o vento atravessa as cortinas lilases — e traz de
novo as lembranças da infância.
O riso das histórias contadas. As frases dos livros lidos e o pai dizendo que tudo é poema
em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Enchia a boca para falar a verdade.

A idade, os defeitos.
Tinha a palavra na ponta da língua. Era comum em seu alfabeto.
– Eu não minto – dizia, conservadora entre seu ritual de acreditar na verdade, quando tocou a pele dela, entre os olhos fechados e a boca.
Calou-se diante da verdade. Nunca havia sentido esse toque.
Mas mentiu quando disse que não tinha medo de se perder dentro dessa textura.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações
Cadeados Abertos – Scenarium Plural Editora
*imagem: Pinterest

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Beda – Abro a porta para um mundo imaginário.

A vida, é esse portal que se abre para a floresta. O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas. A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos. Era silêncio na sintonia da noite. Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul. As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudam os verbos na estação — a garoa cai onde o outono bate ao pôr do sol. A palavra definida dentro da sede — o frio invadia a brisa mansa da primavera — e o sentimento ardendo na febre do corpo… era verão em algum canto do mundo e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas. O inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço e o dialeto do rito é o silêncio.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Scenarium Livros Artesanais

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Beda – quase fado

Ph: Pinterest

Havia um riso estranho no homem da esquina.
…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

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Beda – No silêncio da noite as aves não voam.

Ilustração: Ofra Amit

Ria na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar, falta. A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte. No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques. Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque… [então, não vivo] às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas. Às vezes, o destino certo é o pouso…, mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
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Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

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Tem dia que não amanhece e fica no ontem.

Ph: Alif Sanem Karakoç 

Tem dia que é um pássaro estranho que aparece no quintal – sem jeito de voar – e a liberdade é esse sentido esquisito de pouso fora do ninho e o ramo a oferecer amparo… o vento a abraçar o corpo desatento… e o dia a ser esse monte de pena dentro da alma.

Tem dia que é tão vago que não vale a pena desencantar.

Tem dia que a tarde parece noite no vazio das horas e que o quintal é um deserto apenas com um pássaro estranho.

A árvore cheia de frutas verdes que amadureceu a força e a travessa da cozinha vazia, espreitando o retrato na parede e a ave sendo esse objeto fora das coisas que eram para ser ditas e há apenas o canto do pássaro que vagueia por ali.

Tem dia que a madrugada é turva e os olhos não entendem os sinais de palavras sem liberdade não podem voar.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
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Divago sobre o tempo e suas previsões malucas…

A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar e descobri novos horizontes. Acabei por concluir que o céu era o limite. O muro era um pequeno detalhe para compreender as barreiras e superá-las. Divago sobre o tempo e suas previsões malucas… o guarda-sorte na rotina dos dias. Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar. O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui. O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava. A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida. Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
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Dos dias aleatórios de abril.

Costuro a palavra habitar no corpo, como moradia leve… um toque. O coração sendo trocado, de leve, por outro — uma válvula — que afinará as melodias em manhãs de pássaros nas árvores secas do quintal do vizinho. Que além das batidas insanas causará ruídos nas janelas abertas pelo vento. Que fará com que eu esqueça o amor que não deu certo, as perguntas inconvenientes, a mesmice plantada no olhar do homem da esquina. Um coração que viverá de noite, como se dia fosse e que tocará a alma do outro como única, no verbo amar. Costuro a palavra habitar e bordarei poesias soltas nos murais dos pontos de ônibus… sairei cantando o amor como rotina e esvaziarei o peito e dentro da mão, o voar virando pouso, mesmo que imaginário na solidão dos corredores de quem espera viver.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
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Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar.

Ph: Hanne Feldt

Rasgava a camisa branca a unha… o sangue marcava o passo, o caminho, a trilha por onde andou. O linho desenhado em motivos geométricos. O sistema solar fora de órbita. Continha a palavra sorte na mão.

Jogava as cartas para quem quisesse saber a previsão — do tempo — por que ela própria andava instável dentro das possibilidades de chuva.

Ainda ontem era outro dia e chovia. Hoje não!

Guardara a sete chaves a sombrinha. Pularia todas as poças no mundo da Lua.

Arriscava-se a nomear de novo esse dia… da dor. Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar. E muito embora nem fosse cheia, marcava o céu em seu dilema de satélite.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
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Temporada de fumaça

O fogo ardeu dentro do sol e as labaredas alcançaram o cerrado. Temporada de fumaças. O paraíso está tem chamas. O coração gera a expectativa de canção e no boletim do tempo… A chuva promete coisas desavisadas que não acontecem. Fala de flores que nascerão no cerrado cinzento e de frutas temporãs de agosto em uma invasão antecipada de outra estação. Antes, a chuva da estação era presságio de colheita.

A direção errada do homem muda o sentido das coisas. Arde o cerrado e ardemos todos nós. Alguns optam por fechar os olhos e dizer que amanhã será dia. De olhos fechados, a manhã chega mais depressa mas, não chega para todos nós. Quantos animais viraram fumaça nesses dias de chamas altas…

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
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