Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tem dia que não amanhece e fica no ontem.

Ph: Alif Sanem Karakoç 

Tem dia que é um pássaro estranho que aparece no quintal – sem jeito de voar – e a liberdade é esse sentido esquisito de pouso fora do ninho e o ramo a oferecer amparo… o vento a abraçar o corpo desatento… e o dia a ser esse monte de pena dentro da alma.

Tem dia que é tão vago que não vale a pena desencantar.

Tem dia que a tarde parece noite no vazio das horas e que o quintal é um deserto apenas com um pássaro estranho.

A árvore cheia de frutas verdes que amadureceu a força e a travessa da cozinha vazia, espreitando o retrato na parede e a ave sendo esse objeto fora das coisas que eram para ser ditas e há apenas o canto do pássaro que vagueia por ali.

Tem dia que a madrugada é turva e os olhos não entendem os sinais de palavras sem liberdade não podem voar.

Mariana Gouveia
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