Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Havia qualquer coisa de santa,

*imagem: Vanessa Ho

mas havia, também, qualquer coisa de louca
não sei se o jeito de olhar.
O atrever-se com as mãos
ou o recato do decote, tão íntimo.
Havia qualquer coisa de tímida,
mas, também havia qualquer coisa de exibicionista.
Não sei se o riso solto
ou a voz quase rindo, quase suspiro.
Havia qualquer coisa de pecado,
de sagrado também…
e profanava em mim
nas mãos que me descobria a alma

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Livros artesanais

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Testamento

Deixo-te de herança o sol das manhãs
que incendeiam
as cortinas
da minha janela.

Deixo também
o pássaro que voa
solitário e rotineiro
… que vem todos os dias.

Deixo-te a esperança
nas manhãs ensolaradas
e a saudade do sol
nas manhãs cinzentas.

Os poemas feitos em melodias
que dedico em tua sintonia são seus.
pegue-os.

Espalhe via vento
para que eles dancem
com a música que dediquei a você.

Aqui, o céu é mil vezes dourado
e colhe rotinas quando a manhã surge
– esse mesmo céu que te deixo como herança.

Deixo-te as minhas risadas
e o pensamento amoroso
com que amanheço…
porque minha maior riqueza
é o meu amor, que é seu.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro/Borda-se a pele com fios e letras soltas
Scenarium Livros Artesanais

Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Espelho, espelho meu

Depois que o meu espelho quebrou
desmistificou-se o mito
nem se pergunta mais o que é bonito,
por que tudo lindo ficou
e a sorte que ia e vinha de vez em quando
entrou e ficou pendurada no canto
e pela casa toda se espalhou.

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Um livro mudou sua vida?

No início de 2015 fui convidada pela Scenarium para a publicação de um livro de poesias. Até então, meus textos/poemas e prosas eram escritos apenas em cadernos, e aqui no blog.

O convite de Lunna Guedes mudou minha vida – a partir daquele momento eu era uma escritora. Me atrevia a me ver dentro da palavra escritora. E vi meu sonho realizado.

O lado de dentro costurado em fitas de cetim, trazia minhas poesias e minha alma. Quando recebi o primeiro exemplar chorei. É o último livro na foto. Tem a capa borrada pelas minhas lágrimas de alegria por poder expressar minha poesia em um livro com cheiro de amor.

Depois da primeira edição, o livro ganhou mais duas capas nos anos seguintes. Além dele tenho mais 5 livros publicados, mas O lado de dentro foi a mudança dessa história.

Para saber mais sobre meus livros e a forma de ter um para chamar de seu clica aqui.

Mariana Gouveia
O lado de dentro,
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Pode chover a qualquer hora

e o sol surgir forte em minha manhã laranja

Luci,

vi que você foi no último show de Milton. Quase segurei sua mão num aceno onde seus olhos brilhavam. Nesse dia choveu aqui, Luci e enquanto a tv transmitia o evento eu via as gotas dançando na janela, como se estivessem acompanhando a música, como se já soubessem da despedida. Esses dias de novembro têm sido estranhos. Já tive todas as estações nesses 15 dias, Luci. Teve frio, calor, vento, temporal, chuva e sol…. muito sol.

A moça do tempo aqui, de vez em quando, erra a previsão… por isso, acho que virou rotina a velha frase: pode chover a qualquer hora… e até inventei um poema no meu livro O lado de dentro, dizendo que eu entendia de meteorologia. Isso de chover a qualquer hora me causa confusão, Luci, pois preciso ficar atenta ao guarda-chuvas. Confesso que sou apaixonada por guarda-chuvas, mas também sou atrapalhada com eles.

Já esqueci tantos em vários lugares que o Seiko – um dia te falo sobre ele – me disse que eu poderia montar uma loja bem grande com os que perdi e quando dizem que pode chover a qualquer hora penso no bendito guarda-chuvas. Embora, mesmo quando não chove tenho de usá-lo por causa do sol, por isso, implico com a moça do tempo por aqui.

Acho que prefiro o método que meu pai me ensinou sobre o tempo. Já te contei, Luci, que meu pai sabe quando vai chover um dia antes de acontecer sem sequer conhecer a ciência da meteorologia? Um dia, vendo as formigas indo em carreirinha para o formigueiro, ele disse: amanhã chove! E pronto, não deu outra, Luci. Na manhã seguinte amanheceu chovendo.

Meu pai tem a ciência das águas, Luci. Desde menina, eu o via com uns gravetos a procura de lugar para furar o poço. Vinha gente de tudo quanto é lugar para ele descobrir por onde a água fluía e lá ia ele, campo adentro com os gravetos na mão e em determinado ponto parava e dizia: aqui! E bastavam cavar ali que a água jorrava. Eu achava isso um poder tão grande, que chegava a pensar que meu pai tinha o poder da água benta da igreja. Vê se pode isso, Luci?!

Mas, eu entendo a moça do tempo, Luci… nem sempre a previsão acontece como ela anuncia. Há fatores fora do controle de quem olha o céu através de instrumentos. Eu mesma, daqui de onde estou posso dizer que hoje pode chover a qualquer hora, Luci e o sol surgir forte na minha manhã laranja. Isso, até eu posso prever. Agora, outro Milton, Luci, não acontecerá mais. Restará apenas as canções feitas de pura poesia para a gente desfrutar.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins
Ph: Pinterest

Das palavras das cartas · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Guardo-te na caixa de segredos como se joia fosse…

e espio-te com lupas microscópicas.

Bambina mia,

houve lua de sangue no meu céu nessa madrugada e eclipsou no meu quintal. E, claro que escrevi essa carta mentalmente madrugada adentro enquanto pensava nesse poema de O lado de dentro, que é o tema desse dia 8 de novembro.

Nossa! E de repente a gente se assusta! Já aconteceu novembro e os dias correm como se tivessem pressa. Esse novembro já teve de tudo aqui, bambina… já choveu, já esfriou, e o calor voltou novamente nessa terra do sol onde moro. E enquanto te escrevo o céu se veste de nuvens em tons dourados, anunciando mais um fim de tarde quente e seca por aqui.

Vasculho o quintal enquanto converso com você. Lembrei-me de como escrevi o poema O encontro entre o sol e escorpião. Havia chovido naquela noite e quando amanheceu a gota guardava a flor como se fosse joia. Era um outubro qualquer e o sol entrava em escorpião. Eu quis justificar o decanato, a astrologia e o eu lírico e ainda assim falar de amor. Foi tudo que senti quando vi a gota, querendo guardar dentro de si, a flor.

Depois que o sol nasceu naquele dia, bambina, a flor sorveu a gota como se quisesse guardar ela em uma caixa de segredos e só ela sabia o sentido pleno disso. O poema nasceu ali, depois… ganhou vida em livros que você costurou…

E hoje, renasce em uma frase que te absorveu. É assim que um poema se espalha. Entre generosidade de pessoas e acolhida de quem lê. E quando alguém lê, em qualquer momento do dia o poema ganha a forma de amor e vivifica o instante em que ele foi criado.

Grazie mille por isso!
Amo tu imenso ❤
Mariana Gouveia
Projeto Blogvember – Scenarium Livros Artesanais
Participam juntos comigo: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Divã · Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Maria sem vergonha

Beijava todas
como se fosse…
única!

Beijava a mão
como se fosse..
à boca!

Beijava a flor
como se fosse…
ela!

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Agosto é o mês do poemas e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Lunna Guedes · Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Beda – O cenário da minha Scenarium.

– a arte de fazer livro de artistas –

Olhando a foto parece que foi ontem, e contando os dias no calendário já são 10 anos… e se eu te contar que as histórias que eu escrevi – e até as poesias – viraram livros costurados com fitas de cetim, você acredita?

Eu escrevi cartas, romances e até diários. Fui Coletivo de gente tantas vezes e fui Plural. Nesse universo de papel couchê e costura oriental. A arte exposta de forma artística. Sabe aquele lugar que você quer estar e gosta de estar? É esse sentimento de pertencimento que me toca.

É a paisagem que a Scenarium me coloca, como parte da história criada, sentida e vivida. Através do olhar atento de Lunna Guedes e dos cuidados de Marco Antônio Guedes. Eu presenciei a criação dos livros e fiquei comovida vendo a agulha fluir entre a fita de cetim e a folha de papel costurando meu sonho.

A primeira vez que vi o livro sendo costurado tocava Try … fiquei calada, encantada com a rapidez com que o livro se formava diante de meus olhos. Cada poema ganhando ritmo na arte da costura.

O lado de dentro foi costurado com a trilha musical que tocava ao fundo, em um apartamento, no 13º andar de um edifício do bairro Liberdade em São Paulo. Meu olho alcançou a cidade do alto e vi ali, o sonho realizado. A foto acima mostra as capas da edições revisitadas do meu primeiro livro. Depois dele, vieram mais cinco.

Ali, era a menina que sonhou um dia ter um livro publicado, no cenário da minha Scenarium. Podia dizer que minha editora era tão singular dentro de uma pluralidade de pessoas que junto comigo realizavam sonhos. Talvez bem mais do que realizar sonhos, a Scenarium acreditou que eu podia falar com o mundo através dela.

E de repente a gente se assusta quando vê que já se passaram 10 anos. E de repente, livros costurados pela Scenarium ganham o mundo. E me arrisco a dizer que esses 10 primeiros anos foram apenas o ensaio. A gente ainda tem muita coisa para fazer para encantar vocês.

Viva a Scenarium Livros Artesanais e Viva Lunna e Marco!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da Scenarium e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Cadeados Abertos · Das palavras das cartas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta a você que me lê…

Querido leitor,

Talvez, a melhor forma de agradecer a você que me lê nesse dia mundial do livro é te escrevendo uma carta. Escrever para mim é desnudar a alma e fazer com que a minha emoção toque a sua.

Claro que desde menina eu sempre quis que minhas palavras atravessassem os campos da fazenda onde nasci e encontrassem amparo em algum olhar, em alguma mão. Uma das maneiras que criei para escrever foram as cartas. Menina ainda, através do rádio, minhas palavras ganhavam cidades, estados e diferentes lugares dentro de envelopes e muitas dessas cartas me trouxeram como respostas amigos do coração.

Nesse meio tempo me tornei artesã, mãe, esposa, radialista e a escritora esperava uma oportunidade que surgiu quando conheci Lunna Guedes. O destino me ligou a ela através de blogs e do selo artesanal criado por Lunna e Marco Antônio: Scenarium Livros Artesanais… o encanto pelo trabalho artesanato que Lunna tão lindamente faz falou mais forte e em 2015 meu primeiro livro de poesias foi costurado em fitas de cetim com o selo artesanal da Scenarium e O Lado de Dentro ganhou forma no papel… já na terceira edição.

O lado de dentro — a poesia de Mariana Gouveia viaja no tempo e espaço, e nos põe sentados a mesa do café,  para divagarmos sobre lugares imaginários onde o vento leva arrepio a pele onde os sentimentos todos se amontoam e são como pétalas na primavera, e são como folhas no outono, e são também verão e inverno.

No ano seguinte, veio o convite para que participasse do Projeto Diário das Quatro Estações. Um projeto inspirado em diário e escrevi Cadeados Abertos e não paramos mais.

Cadeados Abertos — é uma espécie de caixa de costuras que toda casa antiga tinha, com carretéis de linhas, agulhas, dedais e retalhos de tecidos… caixas com botões coloridos e uma tesourinha para cortar o fio. Cada item impulsiona uma lembrança — vivências singulares que nos toma pela mão e conduz aos caminhos do coração da autora.

Participei de alguns projetos coletivos da editora como Sete Pecados, Coletivo, Feliz Ano Velho, Sete Luas e outros, além das edições da Revista Plural com textos e em sua maioria, cartas.

Meu primeiro romance Corredores, codinome: Loucura foi lançado em 2018 e decidimos que ele não caberia em um livro só…Dividimos em dois livros e Portas Abertas, codinome: Lucidez foi lançado em 2019.

Corredores, codinome: loucura — é um romance que nos coloca diante da pergunta: é possível duvidar da própria lucidez? Maria é trancada num hospício pela própria mãe, que promete voltar para buscá-la depois que estiver curada. Entregue aos cuidados de Mathilda — uma mulher que não enxerga pessoas, apenas números numa folha mapeados pela condição determinada por ela e, assegurada pelo Estado que só quer se livrar de seus “doentes”.
A jovem Maria percorre os corredores de sua nova-casa em meio a abusos e punições severas, tentando preservar qualquer coisa de lucidez.

Portas Abertas: codinome lucidez — Maria deixou o hospício com a ajuda do Doutor Arthur… mas, quando se deixa a escuridão, é necessário se acostumar a luz. Leva tempo e não é nada fácil identificar o que sobreviveu após tanto tempo vivendo entre loucos e, de repente, ter sua lucidez reconhecida…

E novamente, o projeto Diário das Quatro Estações me envolveu e surge Desvios para atravessar quintais. Lançado em 2020, em plena pandemia, e talvez, por isso, um sopro na alma dentro dos dias ruins.

Desvios para atravessar quintais… O Diário das Quatro Estações é sobre os dias aleatórios que avançam dentro do tempo e é feito da palavra que cabe no papel antes que sufoque o peito; é o retrato dos meses que ficam na memória das horas e no mapa feito dentro dos muros e para atravessar os quintais usei os desvios traçados no mapa que o coração costurava e mesmo quando desenhava asas na areia sentia que o pássaro voava e que possuía o céu inteiro .

Meus livros são artesanais. Costurados um a um, em costura japonesa pelas mãos da Lunna. O livro artesanal só é costurado quando você o encomenda. Portanto, cada exemplar é único em seu preparo. As histórias, as poesias, os poemas e até mesmo as cartas quando te alcançam já nos emocionaram bastante. Desde a escolha do papel, da capa e da maneira que fazemos chegar até você, mesmo que você não tenha o livro – ainda – mas lê em alguma das minhas redes sociais ou da editora algum pedaço de texto, poema, ou citações.

Há mais coisas na caixinha vindo aí… projetos feitos para te tocar e te emocionar. Espero que até lá esse laço se fortaleça ainda mais.

Por isso, te agradeço e te envolvo no meu carinho.

Abraço carinhoso

Mariana Gouveia

Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Mariana Gouveia – Obdulio Ortega Roseli Pedroso

O lado de dentro

Ave, amor!

haverá os dias em que as manhãs semeadas a pássaros voarão em mim.

 

Quando falava… da sua boca
voavam pássaros!
Aves banhadas na saliva do beijo
No contorno dos lábios… o pouso seguro.

Quando falava… exalava poesia
Hálito fresco de carinho doce
De eterno desejo… de vontade própria. 
De sublime amor.

Quando falava… era como se o céu
se abrisse…  e alada, eu me perdia no voar.

Não sei como lidar com o silêncio 
Por que quando falava…
soava como uma prece {minha}

Ave, Amor!

Mariana Gouveia
Ph:  Miss Aniela
In: O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais