Literatura · Scenarium Livros Artesanais

Os Versos que Ninguém Cala

Ouço o eco do rugido de Gilka Machado, resgatado entre goles de café e fitas de cetim, e imediatamente sinto um arrepio na pele ao reconhecer a mesma urgência que move as escritoras que recusam o rótulo da passividade. Chamar de “tolos sentimentos” aquilo que incendeia o pensamento de uma mulher é a velha artimanha dos homens que sempre temeram a soberania de uma estrofe que não pede licença para existir. A mulher proibida desde sempre ainda existe escondida em tantas de nós.

A história literária tentou empacotar a liberdade erótica de Gilka sob o manto do esquecimento, mas a escrita territorial nos ensina a resgatar os nossos próprios manifestos. Não nascemos para rabiscar rimas precárias em cadernos para ficarem guardados em baús ou fundos de gavetas; nascemos para rasgar os verbos mais ousados e mostrar as nossas verdades através do tempo. Quando uma mulher decide publicar os seus abismos, ela quebra uma barreira invisível, permitindo que a caligrafia sutil das suas estações rompa o chão com a força de uma correnteza ancestral.

Acho lamentável a mesquinharia de uma sociedade contemporânea que caminha na contramão do progresso, demonstrando horror diante da nudez das palavras que Gilka já versava no século passado. As gavetas da história estão cheias de diários-secretos que sangraram em silêncio. Por isso, costurar cadernos e endereçar cartas às nossas antepassadas é mais do que um ritual afetivo; é um ato de resistência poética, um jeito de garantir que os sussurros de ontem continuem sendo o murmúrio potente que desequilibra o presente.

Com a xícara de café na mão, celebro as atrevidas que nos abriram as portas. Não precisamos da validação de ninguém para saber que a nossa escrita guarda a dignidade da semente. Que a poesia de Gilka continue alimentando as nossas palavras e que o verso inédito, imprevisto, permaneça sendo o nosso esconderijo mais sagrado contra a dureza dos dias.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Independência da Solidão e as Telas de Hopper

A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem, já dizia Ralph Waldo Emerson… Fiquei imaginando aqui que observar quem folheia a vida sem o cuidado de deter o olhar nas entrelinhas é um exercício que exige uma paciência sem tamanho, e a gente sabe que, muitas vezes, isso nos falta. Há uma pressa nos tempos de agora que avança rápido demais pelas páginas dos dias, transformando o silêncio e as sombras em espaços de desconforto. Ouço o relato sobre esse falso leitor que recusa Modigliani e passa por Hopper sem notar o frio, as ruas vazias ou o homem alienado na janela, e imediatamente compreendo que a verdadeira leitura é um ato de permanência, um território sagrado que a maioria das pessoas tem medo de habitar.

Passo por lugares e pessoas que parecem ter saído das telas de Hopper: elas nos devolvem as nossas próprias perguntas, escancarando aquela solidão urbana que nos obriga a olhar para dentro, para o verso da nossa própria pele. Enquanto o mundo lá fora prefere o barulho das conversas inúteis e os diálogos servidos em bandejas imaginárias, a escrita me ensina a buscar a doçura da quietude. Para mim, o zunido das abelhas nas flores do quintal sempre terá mais importância e ritmo do que as opiniões sinceras de bocas nada santas que se espremem nas tardes aquecidas. É preciso manter a independência da própria órbita, mesmo quando estamos emparedadas num canto do ambiente. Já falamos sobre isso algumas vezes.

A xícara vazia só nos cabe na pergunta que você me faz sempre: vai um café? E rimos da pessoa que pergunta se, mesmo com o calor do meu lugar, eu ainda bebo café quente. É quase como comentar que quem mora no frio não pode beber nada gelado. A gente só ri porque sabemos que o tempo de pouso da palavra tem o seu próprio compasso. E algumas perguntas infundadas devem ficar vazias de respostas. No meu quadrante de terra, a solidão acontece no canto da vidraça onde a borboleta pousa esperando a hora certa de voar. Isso sim é o impacto do espetáculo invisível das coisas simples: a luz mansa que muda de tom na parede na hora em que se encerra o dia ou a caligrafia sutil das estações que afetam o corpo.

Ao final da manhã, quando recolho meus cadernos e deixo que o imaginário repouse na margem, celebro os mestres que nos ensinaram a suportar os nossos próprios abismos. Se a vã criatura prefere o horizonte alienado das grandes multidões, eu escolho o silêncio que rompe o papel com a força de uma verdade que não precisa de palco. A escrita, afinal, é a nossa única soma permitida.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

O atravessar das páginas e a solitude.

Aprofundei-me na escrita de Austen pelas tuas mãos e não tem como não ligar ela a você. A sua indignação matinal me fez sorrir entre um gole de chá e outro. Entendo perfeitamente o seu desejo de atravessar as páginas para dar um chacoalhão em Marianne; a juventude tem essa urgência cega que insiste em contar pétalas erradas enquanto a verdadeira promessa do mundo aguarda, paciente, bem ao lado, com a maturidade do Coronel Brandon. Mas confesso que os meus olhos, nesta quinta-feira, pousam com uma ternura diferente sobre a quietude de Elinor. Há uma dignidade imensa nas criaturas que escolhem o silêncio para resguardar o que sentem. Amar sem dizer palavra não é ausência de afeto; é saber criar um território sagrado onde o ruído da vizinhança aborrecida não consegue alcançar.

Sua costura com Maria José Dupré foi cirúrgica. Lembrar de Éramos Seis e do modo como o público moderno exigiu um novo final para a personagem de Glória Pires nos mostra como o tempo aprendeu a ter pressa em consertar as solitudes. Queremos dar um par a quem ficou só, queremos preencher as mesas vazias a qualquer custo, esquecendo-nos, às vezes, de que a solidão também pode ser um manto de escolha e proteção. Mrs. Dashwood, sem nome próprio nas páginas de Austen, representa todas as mulheres que a história insistiu em empacotar no esquecimento após a partida dos seus maridos. O destino delas era o avesso do espetáculo: a renúncia mansa em uma pequena porção de terra. Falamos sobre isso dias desses.

Se Barton Cottage guardava o perfume das flores para abrigar essas mulheres em separado, o meu canto aqui também se pacifica quando as páginas de um clássico se abrem. Não há leitura ruim quando escolhemos bons interlocutores para as nossas manhãs. Enquanto você mergulha na Inglaterra do século dezenove, daqui eu sigo acompanhando a caligrafia sutil das minhas próprias estações, entendendo que cada mulher carrega o seu próprio modo de atravessar os seus abismos — seja transbordando em paixões dramáticas ou guardando o fogo nas frestas do peito.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

O Berço Invisível das Nossas Palavras

Caro Manoel e bambina mia,

Ao cair da tarde nesta segunda-feira, quando o vento frio toma o quadrante do muro, o sol não aparece há dois dias. O inverno resolveu dar o ar de sua graça já nos dias finais da estação. Os pássaros que dormiram aqui começam a acordar o dia com seus chilreios. É nessa hora máxima do dia que reacende em mim a sua poesia. Os grilos calaram seus cricris e, só ouço o vento batendo na janela. Isso me leva para os paletós de flanela que minha mãe fazia. Pelo jeito, hoje é dia de olhar os passarinhos ciscando e ler seus livros.

É engraçado pensar que você nasceu aqui. Dias desses passei na rua onde dizem que você nasceu. Foi um suspiro imenso saber que ali, naquela ruazinha quase morta, foi o palco de um mestre que mudou minha maneira de ver a escrita. Nossos livros favoritos são, no fundo, espelhos dessas tramas que escolhemos desbravar. Ao mesmo tempo, é lindo saber que a mesma natureza que me revela também faz parte do que você tanto escreveu.

Há também uma autora que arranca arrepios na minha pele. Mas dessa vez, ao invés do manejo com o olho da lagartixa, com o canto dos passarinhos e as ignoranças do desassossego, ela me traz o sensorial. Então, ao te escrever, meu caro Manoel, trago pelas mãos a Lunna — como parte inclusa dessa missiva —, palavra que ela adora e na qual se acha intrusa, às vezes, quando lê missivas destinadas a outras pessoas. Talvez, meu caro, você gostasse também de Vermelho por Dentro. Confesso que a escrita dela me rasga.

Se eu contar sobre os autores que mudaram a minha forma de ver o mundo e me deram a dignidade da palavra, devo afirmar categoricamente que eles não habitavam os salões acadêmicos. Alguns dos seus livros estavam guardados na estante de madeira da fazenda em Goiás, esperando o momento em que a menina de pés descalços subiria no telhado ou na colina da cruz para conversar com o invisível. Ler os clássicos sob a cobertura de palha de babaçu foi o meu primeiro Café de Flore — onde a Lunna, anos mais tarde, captou a personagem ideal para o seu romance, que é um dos meus favoritos também. Foi ali que compreendi que a literatura é esse território frágil e perigoso onde saltamos sem paraquedas, aceitando os nossos próprios abismos. Ou onde o olho desvia para o sapo que coaxa a palavra descabida de rimas.

Acho bonita essa demora de anos para que o rascunho-promessa finalmente encontre o seu rumo e rompa o chão do papel. A escrita exige essa maturação lenta, esse tempo de pouso onde as migalhas de pão deixadas pelo caminho vão se transformando em alimento para a alma. Não importa se a inspiração vem de uma artista de cabelos revoltados em Paris ou do canto do sabiá laranjeira que desafia o frio do meu lugar e mergulha na bacia cheia de água como se fosse um rio: o que nos funda é a capacidade de reter o impacto do outro em nós, transformando o movimento do universo em narrativa viva. Foi assim com você e assim o é com Lunna. Autores distintos, apaixonados pela arte da escrita, com a palavra rompante saindo da lapiseira.

Com meu carinho,
Mariana Gouveia

Delírios Comunistas · Literatura · Lunna Guedes

O Delírio dos Homens e a Poesia que nos Salva

Eu sempre tive preferência pela geografia dos cantos. Talvez por ter sido criada em uma casa cheia de gente, sem um lugar próprio para estar — com exceção do telhado ou do morro da cruz —, tudo ao redor era povoado demais. Confesso que, lá na infância, eu ainda não sabia o quanto o silêncio era bom. Depois de ver minha própria família formada com apenas três pessoas, e quando meu filho cresceu e mudou-se, passei a gostar da solitude. A casa vazia, a mesa com lugares vagos e o silêncio que se instala nas horas ímpares são o meu território sagrado de permanência. É na quietude desse isolamento escolhido que os livros deixam de ser meros objetos nas prateleiras e se convertem em interlocutores reais, capazes de traçar diálogos mudos com as nossas próprias frestas.

Compreendo o peso de carregar heróis literários que, muitas vezes, tropeçam na bruteza da realidade dos homens. Separar a herança da escrita territorial dos desacertos políticos e conservadores de quem a pariu é uma tarefa árdua, quase um exercício de paciência. Nem sempre é fácil lidar com os limites e as cegueiras daqueles que admiramos no papel. Eu também já “abandonei” autores e pessoas que admirava; por suas posturas conservadoras, tornaram-se personas non grata em minha vida. No entanto, entendo que descartar a beleza de uma narrativa que nos toca e nos localiza no mundo, apenas pelas falhas do ser humano, seria uma desonestidade com a escritora que me tornei. Faz-se as pazes com a obra, não com o homem; deixa-se que a contradição repouse na margem enquanto colhemos a poesia que nos salva.

Esses encontros e reencontros com os clássicos — que outrora preencheram as páginas dos meus cadernos com caligrafias antigas — são como banquetes que revisitamos quando a juventude ganha outras dobras. Eles guardam os mistérios do infinito e da finitude, exatamente como um labirinto onde nos perdemos para, no fim, nos encontrarmos mais inteiras. Não precisamos concordar com os passos de quem escreveu para nos movermos com o ritmo das suas frases-rastro.

Ao cair da tarde, quando mudo a xícara de lugar e observo a luz mansa diminuir no quadrante do muro, percebo que a minha solidão é generosa. Ela acolhe as vozes de todas as eras, os poetas de ontem e as histórias inventadas que se colam à madeira do meu lugar. No meu canto do sofá, com as frestas abertas para o vento que limpa a poeira, celebro os livros que continuam a me decifrar. O homem passa e falha; a escrita permanece, rompendo o chão do tempo.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes

O Chão que Reivindica o Pouso.

Ao longo deste mês, a convite da Scenarium Livros Artesanais, participo do projeto Primavera Literária Os textos publicados aqui serão travessias diárias; respostas sensíveis e diálogos de quintal com a escrita de Lunna Guedes.

O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.
O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.

Você pergunta onde pousa Setembro, enquanto eu ainda tento decifrar o mistério de como a terra sabe a hora exata de acordar. Olho para o calendário que você mencionou — esse arranjo gregoriano que empurrou o Septem para o nono lugar — e percebo que, embora os homens tenham bagunçado as gavetas do tempo, a natureza ignora a contagem dos Césares. Para o chão que pisamos, Setembro nunca deixou de ser o começo. De repente, me vem à memória você desenhando as letras a grafite no papel, rabiscando os contornos de ontem, enquanto tocava Pink no repeat. Parece que foi ontem, mas já se vão vários ontens dentro de hoje.

Septem: as linhas do tempo rabiscadas a grafite no papel.

Você fala da ventania que arrancou as flores dos ipês em Agosto, como se o inverno estivesse com pressa de recolher suas malas. Aqui no meu quintal, eu brinco de amarelinha com essas mesmas flores amarelas que caem; uma leveza tão bonita, que parece que elas têm medo de tocar o chão. A paisagem não muda num estalo de dedos; ela ensaia. Há um silêncio grávido nos galhos secos, uma teimosia secreta sob a terra que, mesmo quando a gente dá água para elas, parece fingir que nada foi feito. Ela guarda o segredo para si.

Se você ainda não abandonou Agosto e se agarra aos ponteiros da realidade, eu me pego observando as frestas. Há várias delas por todo canto. Uma telha fora do lugar abre um pequeno clarão de sol na cozinha, bem rente aonde a Lolla costumava se deitar. Parece-me, às vezes, que ela ainda está ali. Para não pisar na ausência, dou um salto no espaço e me lembro, de novo, da amarelinha que desenhei no chão em uma tarde morna, sem nada para fazer. Pisando descalça de casa em casa, do um ao oito. O giz acabou na oitava casa e não cheguei ao céu.

Escrever é um modo de cavar o tempo. Enquanto você finalizava seu romance no pulsar do cuore, eu espiava a linha certa do meu bordado. Todos os dias olho para o céu, procurando por nuvens que finalmente trarão as chuvas. A expectativa de ver a paisagem mudar é, no fundo, a expectativa de mudarmos nós mesmos. Queremos que a primavera nos justifique. Mas, muitas vezes, aqui no meu lugar é primavera todo dia; a terra desperta as flores que plantei alheia a qualquer estação.

Não sei se pulamos a amarelinha do tempo ou se caminhamos arrastando os pés na poeira dos meses passados. Mas sei que Setembro não espera estarmos prontas para pousar. Ele simplesmente brota. O despertar da terra é um chamado bruto e delicado: a vida exige passagem.

Vamos virar a página. O chão do quintal já está pronto para o seu pouso.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #31 – O voo: Certas Melancolias da Correspondência.

Composição artística em vista superior sobre uma toalha de renda branca, exibindo dois cartões postais — um com estampa de azulejos portugueses e outro com uma pintura vintage de paisagem —, uma ilustração em aquarela de flores azuis, uma borboleta artificial de asas vermelhas e pretas, um dado vermelho, uma pequena concha e duas moedas antigas de dois cruzeiros de 1945.

Bambina mia,

se você jogar a moeda para o alto, eu escolho coroa — porque a realeza deste agosto insano e quente esteve impressa em cada palavra artesanal que a gente teve a coragem de entregar ao papel. Ana C. tinha total razão: há nostalgias e certezas que só a correspondência é capaz de recuperar. Enquanto você equilibrava os seus dias nesse calendário imaginário em São Paulo, eu acompanhava os seus passos daqui do meu lugar, dividindo o som rouco da cafeteira, o canto do sabiá e a beleza de ver mais um ciclo se fechar. Trinta e um dias se passaram num sopro de vento, e se para alguns agosto teve a lentidão de noventa dias, para nós ele teve a intensidade exata de um voo que soube onde pousar.

Que alegria imensa ler que Lua de Papel (livro dois) finalmente encontrou a sua versão definitiva! Sei bem o peso e o afeto de reescrever uma centena de rascunhos, de diminuir capítulos e de brigar com as próprias linhas até que a obra ganhe a sua pele mais bonita. O fazer literário é esse café forte, expresso, que renova o colorido dos nossos lábios e nos obriga a encarar a realidade com um sorriso no rosto. Passamos o mês inteiro viajando de uma esquina a outra, sabendo que cada linha escrita cruzava os nossos 1.540 km de distância para inventar um porto seguro no lado de dentro das nossas páginas.

Agosto foi feito de ciclos aqui. Vento, calor, calor e fumaça, calor e aves, calor e crisálida, casulo, metamorfoses, ruptura e voos — dos mais intensos aos mais leves. A joaninha produziu uma ninhada de ovos e voou. O sanhaço-laranja veio em uma manhã mais fria e voou. O Chiquinho arranjou brigas no quintal e voou, e o bem-te-vi veio beber água e tomar seu banho rotineiro e voou. Mas sabe, bambina, acredito que o ciclo rompante e maior aconteceu do lado de dentro. Eu ouvi sua canção e a acrescentei na playlist que tem seu nome. Será mais uma que ouvirei e repetirei seu nome baixinho.

Amanhã será setembro, o dia seguinte a tudo o que fomos e tecemos juntas. A música já ressoa pelos cantos da casa nova e a gente devolve os livros para a prateleira com a certeza bonita de que as nossas asas continuam fortes. Ganhamos o céu, cara mia.

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Lunna Guedes

BEDA #29 – O voo: A Anatomia dos Sábados.

Fotografia em plano médio de um pássaro sanhaço-cinzento pousado sobre a corda de um varal de roupas, cercado por prendedores de madeira, tendo ao fundo um lençol com estampas florais azuis e verdes estendido sob a luz do sol.

Ler a anatomia dos seus sábados me fez olhar para o meu próprio quintal e perceber que a minha também tem os pássaros, o cheiro de roupa lavando na máquina, a música tocando no aplicativo, o banho no Yoshi, o quintal vivo entre as mais variadas asas e os prendedores segurando os lençóis e as roupas no varal. Sempre ligo a palavra sábado a você — talvez por causa de Aos sábados… — e passamos quase a manhã toda conversando entre uma mensagem e outra. Acontece a mesma coisa aqui também com o cão e o gato. Por aqui, os aromas se igualam no alho, e sábado — conforme a escolha do moço daqui — é sempre dia de comida “italiana”, na visão dele. A almôndega sendo preparada, tomates e pimentões para o molho, o manjericão colhido junto com a cebolinha e o arroz branco com purê de batatas… Não questione nunca esse rompante — mamma mia! — dele em querer estar perto ou junto das nossas conversas. Ai de mim! A cozinha, aos sábados — sábado sim, sábado não — é dele.

Acho lindo como você descreve o processo de escolher as palavras como quem escolhe frutas maduras no pé. Ver os pássaros festejando a próxima estação e sentir que estamos finalizando mais um ciclo dá uma sensação gostosa de dever cumprido. O BEDA está chegando ao fim, e perceber que a sua escrita — que começou na poesia e estacionou na prosa — continua tecendo pequenas histórias curtas é a certeza de que o voo valeu a pena. A realidade se refaz a cada amanhecer manso, e a gente se contenta com a beleza dessas paisagens que só a literatura nos permite revisitar. O quintal se transforma nesse portal onde atravessamos todos os dias. Aqui, a estação muda várias vezes por dia. É como se o calendário tivesse vontade própria. E assim, sábado caminha em seu curso e afazeres rotineiros.

As histórias curtas parecem até algumas que vivi aqui, no atravessar de nossas esquinas, em outros ontens que ficaram registrados na memória. É como se nossos passos passassem pelos mesmos caminhos em diferentes eras. Agosto já deixa apenas duas folhinhas no calendário da cozinha. Setembro logo acontecerá e agosto ficará em espera para o próximo ano. No final das contas, dar aos pés o colorido dos passos é aceitar que todo fim é também um recomeço. Se o horizonte agora é visto de outra perspectiva, a gente agradece a jornada, amarra as fitas de cetim nos nossos retalhos e segue voando alto, linha por linha, rumo à primavera.

Mariana Gouveia

Afetos · Colheita · Das rotinas · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #28 – O voo: Pequenos Goles de Permanência.

Perguntar-me o que ando lendo por aqui é abrir as portas do meu próprio refúgio de papel. Neste mês, entre um rascunho e outro, minhas manhãs também foram povoadas por versos e prosas que chegaram sem pedir licença, acomodando-se na mesa do quintal ao lado das folhas que caem. Agosto está quente e seco e entre um bordado e a rotina, pausei aqui para saborear o vento debaixo do pé de ipê. Esse mês eu estive muito Scenarium. Aliás, acho que nos últimos meses eu só li os livros da Scenarium. Alguns, foram relidos e absorvidos. A Colheita é meu favorito. Casa Cheia me trouxe uma avalanche de saudades e Roteiros Imaginários – delicioso – acompanhou uma parte das minhas tardes. Mulher Proibida, Casa de Marimbondo eu já tinha lido, mas vieram parar em minhas mãos em uma dessas limpezas e fiquei por um tempo relendo. Nem Sempre à Lápis e uma ressalva para Delírios Comunista que continua atuante diante dos delírios dos últimos tempos (?) ou nada mudou mesmo?

Antes me incomodava deixar um livro à minha espera, como se me cobrasse para finalizar o que comecei. Talvez pela fome intensa de ler. Mas, me rebelei com eles. O tempo-vida é curto demais para insistirmos em páginas que não conversam com o nosso silêncio. Deixar a mão percorrer as lombadas na prateleira e escolher pelo tato, enquanto a água do chá esquenta, transforma o ato de ler em um verdadeiro pacto de presença. Fiquei acompanhando os seus passos curtos em direção à cozinha, virando as páginas de Peixoto ou Pizarnik, e pensando no quanto a literatura nos dá esse poder de desacelerar as horas para degustar o mundo em pequenos goles.

Você sabe que amo Reticências. Tenho os dois exemplares que já separei para quando setembro chegar. Achei lindo o anúncio da volta de Reticências. Adoro essas repaginadas que você faz. Ver os livros que amamos ganhando novos voos e circulando pelos olhos de outros leitores dá um sentido imenso a esse nosso agosto.

No final das contas, ler na contramão das listas de mais vendidos é a nossa forma de dar as cartas no tabuleiro do tempo. Se as prateleiras do mundo estão cheias de urgências frias, a gente escolhe a nossa xícara, abre as asas e mergulha no infinito de uma página que teima em nos salvar.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia