Mergulhar nas águas de uma ficção para habitar outras paisagens é o único refúgio possível para quem traz o peito cheio de ausências e nostalgias. Compreendo perfeitamente essa infância de portas fechadas e cantos silenciosos, onde o objeto livro se apresentava como o único território seguro diante do barulho do mundo lá fora. Quando você relata esse modo visceral de se apoderar das páginas pelo tato, rascunhando impressões nas margens e brigando com as personagens, vejo o espelho exato de um rito que também me fundou como leitora antes de me converter em escritora.
Nossa literatura é feita desse mar literário nada calmo, mas a beleza do nosso percurso está justamente no encontro dessas correntes. Passamos anos devorando os volumes alheios, misturando tudo o que provamos, até que a urgência de colocar a nossa própria carne no papel nos fez lançar os nossos próprios barcos. É bonito perceber que, ao compartilharmos essas travessias diárias aqui, atravessando quintais, criamos um cais compartilhado. Ler os seus abismos e responder a eles com os meus pedaços de terra não é apenas um exercício de estilo; é cultivar uma comunidade de afetos onde as solidões se reconhecem e se acolhem mansas.
Os livros que se acumulam nas nossas prateleiras guardam histórias que vão muito além dos enredos impressos. Alguns são velhos companheiros que trazem as marcas dos nossos ontens; outros, recém-chegados, esperam o instante exato em que os nossos dedos vão decifrar o seu mistério. Quando abrimos esse lugar de diálogo, permitimos que outras pessoas também naveguem conosco, transformando o ato solitário de ler em uma ponte estendida sobre a distância de estados e fusos horários.
O meu passado aterrissa no seu futuro e, enquanto coloco a água para ferver para um chá e acompanho o movimento sutil da paisagem que se recolhe, celebro a caligrafia que nos uniu na mesma margem. Sigo firme no meu quadrante, segurando a minha linha de afeto e grata por partilhar esse oceano de palavras com você.
Mariana Gouveia









