Afetos · Literatura · Lunna Guedes

As Margens Compartilhadas e as Marés da Escrita

Mergulhar nas águas de uma ficção para habitar outras paisagens é o único refúgio possível para quem traz o peito cheio de ausências e nostalgias. Compreendo perfeitamente essa infância de portas fechadas e cantos silenciosos, onde o objeto livro se apresentava como o único território seguro diante do barulho do mundo lá fora. Quando você relata esse modo visceral de se apoderar das páginas pelo tato, rascunhando impressões nas margens e brigando com as personagens, vejo o espelho exato de um rito que também me fundou como leitora antes de me converter em escritora.

Nossa literatura é feita desse mar literário nada calmo, mas a beleza do nosso percurso está justamente no encontro dessas correntes. Passamos anos devorando os volumes alheios, misturando tudo o que provamos, até que a urgência de colocar a nossa própria carne no papel nos fez lançar os nossos próprios barcos. É bonito perceber que, ao compartilharmos essas travessias diárias aqui, atravessando quintais, criamos um cais compartilhado. Ler os seus abismos e responder a eles com os meus pedaços de terra não é apenas um exercício de estilo; é cultivar uma comunidade de afetos onde as solidões se reconhecem e se acolhem mansas.

Os livros que se acumulam nas nossas prateleiras guardam histórias que vão muito além dos enredos impressos. Alguns são velhos companheiros que trazem as marcas dos nossos ontens; outros, recém-chegados, esperam o instante exato em que os nossos dedos vão decifrar o seu mistério. Quando abrimos esse lugar de diálogo, permitimos que outras pessoas também naveguem conosco, transformando o ato solitário de ler em uma ponte estendida sobre a distância de estados e fusos horários.

O meu passado aterrissa no seu futuro e, enquanto coloco a água para ferver para um chá e acompanho o movimento sutil da paisagem que se recolhe, celebro a caligrafia que nos uniu na mesma margem. Sigo firme no meu quadrante, segurando a minha linha de afeto e grata por partilhar esse oceano de palavras com você.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Arte de Conjugar o Verbo Envelhecer

De repente, percebi que os dias passaram a correr mais rapidamente e, ao olhar no espelho, vi tantas de mim por trás dos cabelos brancos. Sempre quis envelhecer e caber na sabedoria que fui aprendendo com pessoas que me ensinavam o caminho. Na minha infância e em grande parte da adolescência, eu me encantava com os fios brancos dos mais velhos. A minha Bá tinha os cabelos que pareciam flocos de algodão ou a paina com que enchíamos os travesseiros. Conjugar o verbo envelhecer com a altivez de quem coleciona primaveras e não lamentos é uma arte que os tempos de agora parecem ter esquecido. Há uma corrida ruidosa para frear a idade do corpo, um esmero vão para riscar as linhas da pele, como se a maturidade fosse um espaço de desconforto e não o território sagrado onde a nossa história finalmente ganha nitidez. Sorrio ao perceber que o compasso lento da natureza sempre foi o meu melhor mestre sobre a passagem das estações.

A vida me ensina que o tempo não destrói; ele assenta. O ipê que perde as suas flores amarelas e adormece até o próximo ciclo não está morrendo; está ganhando idade com a dignidade de quem sabe que cada ruga na madeira é o registro de um vento que foi suportado. Não nascemos para manter o viço estático das plantas artificiais; nascemos para ver a semente virar fruto, aceitando que a gravidade que puxa as folhas para o chão é a mesma que nos finca as raízes com firmeza na terra. Acho bonita a altivez das mulheres que, feito a faceira senhora dos cabelos brancos, decidem viver com as horas inteiras, sem pedir licença aos julgamentos alheios. Acho que me pareço com ela nessa questão.

Logo que deixei de pintar os cabelos, recebi muitas críticas, e o que me chocou é que grande parte delas veio de mulheres que ligavam meus cabelos brancos a um desleixo. Segui em frente e hoje meus cabelos estão quase totalmente brancos. Penso neles como um texto sendo maturado para caber num papel. A nossa literatura também exige essa maturação mansa. O desabrochar de um novo texto não acontece na pressa das frases prontas; ele depende dos nossos ontens acumulados, do silêncio que digere as leituras antigas e da coragem de colocar a nossa própria carne nas consoantes e vogais. O tempo que cabe nas minhas palavras sabe que envelhecer no papel é purificar a caligrafia, cortando os excessos para que permaneça apenas a essência daquilo que rasga e permanece.

Celebro os anos que se acumulam na minha própria árvore. Não tenho medo do tempo dos homens e de suas medidas exatas. Prefiro a certeza mansa de quem sabe que ganhar idade, afinal, é o nosso jeito mais bonito de espalhar pólen pelo mundo, garantindo que a nossa voz continue viva na memória do chão que nos acolhe.

Mariana Gouveia

Literatura · Scenarium Livros Artesanais

Os Versos que Ninguém Cala

Ouço o eco do rugido de Gilka Machado, resgatado entre goles de café e fitas de cetim, e imediatamente sinto um arrepio na pele ao reconhecer a mesma urgência que move as escritoras que recusam o rótulo da passividade. Chamar de “tolos sentimentos” aquilo que incendeia o pensamento de uma mulher é a velha artimanha dos homens que sempre temeram a soberania de uma estrofe que não pede licença para existir. A mulher proibida desde sempre ainda existe escondida em tantas de nós.

A história literária tentou empacotar a liberdade erótica de Gilka sob o manto do esquecimento, mas a escrita territorial nos ensina a resgatar os nossos próprios manifestos. Não nascemos para rabiscar rimas precárias em cadernos para ficarem guardados em baús ou fundos de gavetas; nascemos para rasgar os verbos mais ousados e mostrar as nossas verdades através do tempo. Quando uma mulher decide publicar os seus abismos, ela quebra uma barreira invisível, permitindo que a caligrafia sutil das suas estações rompa o chão com a força de uma correnteza ancestral.

Acho lamentável a mesquinharia de uma sociedade contemporânea que caminha na contramão do progresso, demonstrando horror diante da nudez das palavras que Gilka já versava no século passado. As gavetas da história estão cheias de diários-secretos que sangraram em silêncio. Por isso, costurar cadernos e endereçar cartas às nossas antepassadas é mais do que um ritual afetivo; é um ato de resistência poética, um jeito de garantir que os sussurros de ontem continuem sendo o murmúrio potente que desequilibra o presente.

Com a xícara de café na mão, celebro as atrevidas que nos abriram as portas. Não precisamos da validação de ninguém para saber que a nossa escrita guarda a dignidade da semente. Que a poesia de Gilka continue alimentando as nossas palavras e que o verso inédito, imprevisto, permaneça sendo o nosso esconderijo mais sagrado contra a dureza dos dias.

Mariana Gouveia

Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Literatura · Lunna Guedes

É preciso respirar fundo para ser flor dentro do dia seguinte.

A caligrafia do encerramento: quando a última linha encontra repouso entre as sementes do chão.

Quando fecho o livro depois da última página, a palavra fim ecoa em mim por um tempo. Em alguns, eu quero continuar a história e a pergunta insiste: e agora, serão felizes para sempre? O que será que acontece depois que a página é fechada? Enfrentar a última linha de uma narrativa exige uma coragem que nem sempre os dicionários sabem explicar. Há quem feche o volume e o leva imediatamente à prateleira, buscando o próximo enredo como quem muda de calçada sem olhar para trás. Mas a escrita, quando nos habita de verdade, recusa a pressa contemporânea; ela exige esse tempo de pouso, esse exercício de saborear e digerir as alegrias e decepções das personagens que acabaram de partilhar a nossa mesa. O fim nunca é um vazio completo; é o território exato onde o rascunho-promessa desabrocha e começa a existir por conta própria.

Aqui no meu lugar, acontece também quando as flores se fecham depois de cumprirem o rito de desabrocharem. Assim como compreendo o peso dos silêncios que ficam guardados no lado de dentro das portas que escolhemos fechar, no jardim, recolher as flores murchas também incomoda. É um adeus para além do que se vê. Cada ciclo que se encerra nos dias funciona como uma semente que se rompe na terra, tão logo uma morre. É nesse espaço suspenso, logo após o ponto final, que uma nova voz desperta dentro de nós — mais inteira, lavada de céu e ciente de que a literatura é esse salto sem paraquedas onde aceitamos os nossos próprios abismos. E a terra espera o novo broto, a nova flor.

É profundo o eco de um livro que permanece vibrando na derme muito depois de sua leitura concluída. Nossos volumes prediletos são espelhos das tramas que escolhemos desbravar e, quando eles se colam às paredes da nossa memória, a nossa caligrafia também ganha novas dobras. Não precisamos fugir do caminho ou recomeçar o texto para evitar o desfecho; o compasso lento do mato nos ensina que a queda das pétalas é o que permite ao fruto nascer no tempo certo de cada ciclo.

Quando a claridade mansa doura os cantos do quintal e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, acolho o silêncio que se instala após a última palavra escrita. O homem passa e falha, as plantas nascem e morrem, mas a escrita territorial permanece, rompendo o chão do tempo. Vamos até o fim, aceitando os abalos do peito, os arrepios na pele, porque sabemos que depois da última linha há sempre um quintal inteiro esperando para florescer.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Sopro do Equinócio e as Duas Faces do Chão

Há um instante secreto no coração de setembro em que o universo decide suspender os pratos da balança. O dia e a noite se olham de frente, com o mesmo peso e a mesma exatidão de minutos, lembrando-nos de que a vida é feita dessa eterna vizinhança entre a luz e o recolhimento. Ouço o ensaio sobre os ventos ancestrais que separam o céu e a terra para que o mundo possa respirar, e imediatamente percebo que a nossa escrita também é filha desse movimento — um rodopio manso entre a memória do que já foi semente e a urgência do que precisa virar fruto. Nesse momento, só consigo me lembrar da canção que se chama Sol de Primavera.

Aqui no meu lugar, o equinócio se anuncia na própria textura do ar. O calorão do dia, que estica o tempo dos homens além do suportável, cede espaço para a brisa que chega sem pedir licença quando o sol mergulha atrás do telhado vizinho. As duas faces da existência se ajeitam na madeira da mesa. Se para alguns setembro traz a melancolia das chuvas antigas, a escritora que sou prefere a mística do recomeço que os cadernos novos da infância prometiam. Abrir uma página branca nesta nova estação é resgatar aquele ritual sagrado das papelarias, onde a caixa de lápis de cor continha todas as respostas para os nossos inventos. Devo pintar um jardim nessa estação?

Acho bonita a fidelidade da terra, que nunca se esquece do compromisso de acertar os seus próprios ponteiros, à revelia das nossas eufóricas correrias urbanas. Estico os braços no quintal e percebo como o corpo acompanha a mudança das horas-cheias. A literatura, afinal, é o nosso próprio sopro de vento: aquilo que nos ergue para que possamos enxergar o horizonte e, ao mesmo tempo, nos finca as raízes no chão que nos acolhe.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros saboreiam o néctar das flores e o silêncio ganha o mesmo tamanho da claridade, preparo o meu chá e deixo que os versos ganhem vida. Uma nova estação pede passagem na caligrafia sutil dos dias. Que a dança do pólen cumpra o seu destino enquanto, no meu canto, sigo costurando as metades da vida com o fio do afeto.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

A Independência da Solidão e as Telas de Hopper

A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem, já dizia Ralph Waldo Emerson… Fiquei imaginando aqui que observar quem folheia a vida sem o cuidado de deter o olhar nas entrelinhas é um exercício que exige uma paciência sem tamanho, e a gente sabe que, muitas vezes, isso nos falta. Há uma pressa nos tempos de agora que avança rápido demais pelas páginas dos dias, transformando o silêncio e as sombras em espaços de desconforto. Ouço o relato sobre esse falso leitor que recusa Modigliani e passa por Hopper sem notar o frio, as ruas vazias ou o homem alienado na janela, e imediatamente compreendo que a verdadeira leitura é um ato de permanência, um território sagrado que a maioria das pessoas tem medo de habitar.

Passo por lugares e pessoas que parecem ter saído das telas de Hopper: elas nos devolvem as nossas próprias perguntas, escancarando aquela solidão urbana que nos obriga a olhar para dentro, para o verso da nossa própria pele. Enquanto o mundo lá fora prefere o barulho das conversas inúteis e os diálogos servidos em bandejas imaginárias, a escrita me ensina a buscar a doçura da quietude. Para mim, o zunido das abelhas nas flores do quintal sempre terá mais importância e ritmo do que as opiniões sinceras de bocas nada santas que se espremem nas tardes aquecidas. É preciso manter a independência da própria órbita, mesmo quando estamos emparedadas num canto do ambiente. Já falamos sobre isso algumas vezes.

A xícara vazia só nos cabe na pergunta que você me faz sempre: vai um café? E rimos da pessoa que pergunta se, mesmo com o calor do meu lugar, eu ainda bebo café quente. É quase como comentar que quem mora no frio não pode beber nada gelado. A gente só ri porque sabemos que o tempo de pouso da palavra tem o seu próprio compasso. E algumas perguntas infundadas devem ficar vazias de respostas. No meu quadrante de terra, a solidão acontece no canto da vidraça onde a borboleta pousa esperando a hora certa de voar. Isso sim é o impacto do espetáculo invisível das coisas simples: a luz mansa que muda de tom na parede na hora em que se encerra o dia ou a caligrafia sutil das estações que afetam o corpo.

Ao final da manhã, quando recolho meus cadernos e deixo que o imaginário repouse na margem, celebro os mestres que nos ensinaram a suportar os nossos próprios abismos. Se a vã criatura prefere o horizonte alienado das grandes multidões, eu escolho o silêncio que rompe o papel com a força de uma verdade que não precisa de palco. A escrita, afinal, é a nossa única soma permitida.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

O atravessar das páginas e a solitude.

Aprofundei-me na escrita de Austen pelas tuas mãos e não tem como não ligar ela a você. A sua indignação matinal me fez sorrir entre um gole de chá e outro. Entendo perfeitamente o seu desejo de atravessar as páginas para dar um chacoalhão em Marianne; a juventude tem essa urgência cega que insiste em contar pétalas erradas enquanto a verdadeira promessa do mundo aguarda, paciente, bem ao lado, com a maturidade do Coronel Brandon. Mas confesso que os meus olhos, nesta quinta-feira, pousam com uma ternura diferente sobre a quietude de Elinor. Há uma dignidade imensa nas criaturas que escolhem o silêncio para resguardar o que sentem. Amar sem dizer palavra não é ausência de afeto; é saber criar um território sagrado onde o ruído da vizinhança aborrecida não consegue alcançar.

Sua costura com Maria José Dupré foi cirúrgica. Lembrar de Éramos Seis e do modo como o público moderno exigiu um novo final para a personagem de Glória Pires nos mostra como o tempo aprendeu a ter pressa em consertar as solitudes. Queremos dar um par a quem ficou só, queremos preencher as mesas vazias a qualquer custo, esquecendo-nos, às vezes, de que a solidão também pode ser um manto de escolha e proteção. Mrs. Dashwood, sem nome próprio nas páginas de Austen, representa todas as mulheres que a história insistiu em empacotar no esquecimento após a partida dos seus maridos. O destino delas era o avesso do espetáculo: a renúncia mansa em uma pequena porção de terra. Falamos sobre isso dias desses.

Se Barton Cottage guardava o perfume das flores para abrigar essas mulheres em separado, o meu canto aqui também se pacifica quando as páginas de um clássico se abrem. Não há leitura ruim quando escolhemos bons interlocutores para as nossas manhãs. Enquanto você mergulha na Inglaterra do século dezenove, daqui eu sigo acompanhando a caligrafia sutil das minhas próprias estações, entendendo que cada mulher carrega o seu próprio modo de atravessar os seus abismos — seja transbordando em paixões dramáticas ou guardando o fogo nas frestas do peito.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

Casas-Personagens e os Alicerces do Afeto

As paredes que agasalham uma vida inteira costumam aprender os sussurros de quem as habita. Quando ouço relatos sobre as acrópoles urbanas de casas-túmulos, onde fachadas imponentes viram museus vazios e pequenas construções charmosas desaparecem do mapa em uma manhã de demolição, volto os olhos para os alicerces do meu próprio território. Para mim, uma casa nunca é feita apenas de alvenaria, venezianas de madeira ou degraus de cimento; ela é um organismo vivo que acumula as tramas mambembes dos dias e guarda o eco das existências que ali fincaram pé. A minha rua tem a alma das pessoas que nela vivem. A maioria das casas não conheço por dentro, mas conheço os personagens que moram ali.

As casinhas coloridas da rua de cima trazem a sensação de interior e lembram a cidade pequena que ficava perto da fazenda onde nasci. Ali, a cumplicidade dos espaços povoados de presença tinha os nomes dos pais. Mesmo com o sobrenome sendo conhecido por todos, eu era a filha do Louro Eugênio — apelido do meu pai, que se chamava Laurindo Eugênio — e assim acontecia com cada um dos meus irmãos. Os primos, cada um era chamado como filho do João Eugênio, do Luís, do Francisco ou do Antônio Eugênio. Aqui, para além das esquinas, morou dona Iolanda. Era a cuidadora da rua; com sua vassoura feita de vassourinha, levava horas limpando de uma esquina a outra, enquanto contava as fofocas para quem demorasse um pouco mais no banquinho de cimento feito por ela mesma.

Hoje, quando observo as residências antigas que resistem ao ruído do progresso nas esquinas da cidade, sinto uma pressa mansa de decifrar os moradores invisíveis que lavaram suas roupas sob o sol e plantaram os pés de fruta que dão sombra nos fundos do quintal. A história que fica gravada na madeira e na cal é o que nos protege do esquecimento.

É um aborrecimento ver as paredes do afeto irem ao chão para virar tapume verde e placa de empreendimento moderno. O mercado imobiliário tem pressa, mas a literatura exige uma maturação lenta, um tempo de pouso onde as ruínas ganham dignidade através das palavras. Se as calçadas do concreto paulistano perdem os seus cenários para as máquinas, daqui eu sigo tecendo o meu microcosmo como uma resistência poética. Minha escrita recolhe os rascunhos dessas estruturas esquecidas e os acomoda nas páginas dos meus cadernos, onde nenhuma demolição é capaz de alcançar a alma do que foi inventado ou vivido.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

O Aroma da Terra e o Voo das Consoantes

Interpretar o mundo através do olfato é o modo mais antigo que a alma encontrou de fazer alquimia. Antes mesmo que os olhos decifrem a luz que muda de tom além do muro, as narinas já sabem exatamente qual história a tarde pretende nos contar. Os aromas que chegam das casas vizinhas me fazem adivinhar o que terão para o jantar. Alguém come pipoca na vizinhança. Dá para sentir o cheiro atravessando o muro. Ontem, senti o cheiro de leite fervido, e isso me trouxe memórias lá da infância: minha mãe fervia o leite até ele se transformar em doce no tacho de cobre. O cheiro da flor do girassol lembra o mel, e as fragrâncias que as flores de ora-pro-nóbis exalam fazem parecer que o meu quintal é uma perfumaria.

Aqui no meu lugar, a literatura se escreve com aromas de chão e de tempo. Há dias que cheiram ao café fresco que ferve, anunciando a pulsação do cursor na tela branca; outros trazem a urgência do vento morno que carrega a poeira fina das prateleiras, lembrando-nos de que o inverno finalmente vai recolher suas malas. Mas o meu aroma favorito — aquele que rasga a pele e me devolve à dignidade da infância descalça na fazenda — é o petricor. O perfume da terra sendo tocada pela primeira chuva como se fosse uma carícia é um abalo sensorial que nenhuma enciclopédia consegue traduzir. É o cheiro do próprio recomeço.

Acho bonita a sabedoria de quem folheia um livro antigo apenas para aspirar o cheiro da cola e do papel guardado, resgatando receitas de bolo e tardes de sábado que adormeceram nas páginas. Quando cato ervas frescas no quintal para o chá das horas ímpares, o perfume que fica impregnado nos meus dedos é o mesmo que me conectava à floresta da Bá. A natureza opera nesse sutil banquete: entrega-nos a fragrância exata de que precisamos para que a palavra rompa o papel com a força de uma semente que acordou.

Ao cair da tarde, enquanto os pássaros organizam seus chilreios no telhado vizinho e os grilos começam o seu compasso, deixo que os perfumes do dia se acomodem na madeira da mesa. Escrever, afinal, é o nosso jeito de colocar frascos invisíveis de memória nas missivas que enviamos ao tempo. Não precisamos decifrar a química dos encontros; o aroma do perfume Rhea — que infelizmente não é mais fabricado — atiça minhas memórias afetivas. Explicar os cheiros que invadem o meu microcosmo é uma viagem que a lembrança trata de acompanhar. O cheiro do seu pão e do bolo de fubá me leva para o bairro da Liberdade e o aconchego de sua cozinha. Se eu fechar os olhos, me vejo ali, ouvindo Carly Simon enquanto você lida com as letras da página impressa e as fitas de cetim. Acho que é nesse momento que meu quintal atravessa o seu na essência do afeto.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

A Caligrafia das Coisas e as Palavras de Chão

As palavras possuem uma espécie de anatomia secreta; algumas pesam como pedras na memória, enquanto outras possuem asas e sabem exatamente onde pousar para acalmar a nossa falta de paz. Certos termos estrangeiros chegam como ruídos, enquanto vocábulos antigos desaceleram o corpo, provocando arrepios por dentro da pele. Imediatamente me pego listando as expressões que governam o meu próprio microcosmo. Há palavras que herdamos dos nossos antigos que não estão nos dicionários elegantes, mas que carregam o cheiro exato da terra molhada. Você, por exemplo, não gosta de petricor… já eu, adoro! Acho que nela já vem o aroma da terra sendo beijada pela chuva.

Crescer conversando com as coisas do mato me ensinou que nomear o mundo é um ato de pura feitiçaria afetiva. No meu dicionário de infância, aprendido nos tempos da fazenda e cultivado hoje aqui no meu lugar, as palavras mais bonitas são aquelas que guardam a doçura e a beleza dos ciclos naturais. Gosto do compasso de “espera”, da firmeza de “raiz” e do sotaque manso que transforma caju em “cadju“, aproximando a pronúncia da própria textura do fruto colhido no pé. São palavras de chão, sem o verniz ou os aborrecimentos da comunicação moderna, escritas com a caligrafia simples de quem sabe ler os desenhos das nuvens e o tempo da semente.

Acho bonita a rejeição ou o apego que desenvolvemos por certos nomes, heranças de portões de cemitério ou do modo delicioso como as nossas mães pronunciavam as letras na cozinha. Nossas escolhas linguísticas revelam os nossos esconderijos mais secretos. Para mim, a palavra que muda o rumo de um dia inteiro e me devolve a dignidade do silêncio é “quintal”. Quando a pronuncio, as paredes da casa parecem se afastar, o cursor na tela branca ganha a pulsação de um carrilhão antigo e o mundo lá fora perde a sua poluição barulhenta. É um termo-abrigo, que cabe dentro de qualquer tarde morna.

Ao final do dia, quando fecho os cadernos e observo o Yoshi encolhido no travesseiro da sua cadeira, percebo que escrever é apenas o nosso jeito de colocar envelopes reais ou imaginários nas esquinas do tempo. Não precisamos das fórmulas prontas do mundo para nos fazermos entender; basta que a nossa escrita guarde o eco daquilo que fomos e a certeza do chão que pisamos. O seu idioma, por exemplo, me veste na palavra encantamento. O bambina mia — como eu te chamo — evoca em mim uma imensa ternura, tal qual o seu mi manchi… e é com esse sentimento que meu quintal atravessa o seu. Que aí você cultive sons e silêncios e eu, cá no meu canto, cultive as palavras que têm raízes ou asas.

Mariana Gouveia