Crônicas · Literatura · Outubro Literário

A Simultaneidade das Coisas Belas

Em um mundo de coisas frágeis, ler e cultivar são atos de sobrevivência. Abrir a página de um livro, migrar para dentro da história, cavar a terra depositando sementes e arrancar as ervas daninhas é esvaziar a mente da realidade, mesmo que por alguns instantes. Espalho na mesa folhas avulsas com a prosa e a poesia de Sontag enquanto o chá esfria.

Sontag se apresentou a mim pelas mãos de uma bambina, e em alguns momentos a lucidez dela se misturou às minhas loucuras. Uma força da mulher que se esparrama entre as palavras na exatidão do tempo-espaço-corpo. Quando a gente lê a primeira frase, já é arrebatado por ela. Acho que me identifiquei com a fotógrafa mais do que com qualquer outra coisa. A escrita reveladora se fez aos poucos — eu acho.

Com as folhas abertas sobre a mesa, observo a janela e percebo que a literatura e a terra compartilham a mesma alquimia da simultaneidade. Quando ela disse sobre as fotografias congelarem o momento, percebo a força dessa fala enquanto espalho as folhas dos textos para a foto. Sontag nos lembra de que a literatura é conhecimento, ainda que imperfeito, e que o ato de escrever é uma tentativa constante de traduzir o silêncio.

Quando fechamos os olhos e nos deixamos guiar pelas páginas, as geografias se confundem e os tempos se cruzam. Não importa se estamos em um café cinzento em outro continente ou sob a sombra mansa do ipê em Cuiabá; a escrita é essa porta que se abre para um diálogo sem fim, onde o autor nunca vai embora de verdade após o último gole. Ele permanece na xícara deixada pela metade, no balanço da folha que cai sozinha e nas anotações avulsas que tomamos nas frestas das manhãs.

Viver e ler são exercícios simultâneos de liberdade. Saboreio o meu chá, olho para o céu que começa a derramar suas sombras sobre o muro do quintal e dou por encerrado mais um quadrante de tempo. A engrenagem do agora pode ser dura e ruidosa, mas enquanto houver um livro que nos chame ao diálogo e a solidez da terra para nos ancorar, haverá espaço para o lúdico. Fecho as páginas e combino com o “outro” um encontro seguinte. Afinal, a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra um lugar inexistente onde o passado e o futuro aceitam dividir a mesma mesa.

Mariana Gouveia

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