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O Calendário Secreto das Nossas Fases

Caminhar sem pressa é também uma forma de ler o mundo. Tirar o peso de dias ruins com o folhear de livros em um sebo, atravessar esquinas sem rumo certo. Há dias em que os nossos passos não buscam um destino nas papelarias ou nas esquinas movimentadas; buscam apenas sintonizar o ritmo interno com o calendário secreto das nossas próprias fases. Como bem cantou Cecília Meireles, temos ciclos que vão e vêm, marés que sobem e descem portão adentro, desenhadas pelo universo que nos deu o direito de mudar de humor conforme a lua muda de face. A maturidade nos ensina a respeitar esses contornos sem a urgência de explicar o que se passa do lado de dentro.

Olho de longe para as cenas que a vida urbana encena nos pontos de ônibus e nas calçadas barulhentas. O amor, quando envelhece no concreto das cidades grandes, às vezes ainda guarda os mesmos sobressaltos da juventude — os olhares que se desviam, o ciúme que se traduz em uma cotovelada certeira na costela e o posterior festival de desculpas de quem teme o castigo ao chegar em casa. A comédia se apresenta aos nossos olhos em cenas corriqueiras e diárias.

Aqui no meu lugar, as lições de permanência são mais silenciosas. Quando as frestas do tempo ameaçam trazer o aborrecimento das coisas vãs, eu me volto para a paciência dos meus cactos que recebem delicadamente o pouso da borboleta que vagueia procurando um lugar certo para postar seus ovos. Eles parecem criar pontas de veludo para não ferir as asas do inseto que ousa tocá-lo, sem saber por certo dos espinhos que eles carregam.

Vigiar o chão em busca de folhas ou cuidar do balanço das ramagens no muro é o meu experimento de paz. A engrenagem dos anos pode nos envelhecer a pele e nos dar passos mais lentos, mas também nos liberta da necessidade de agradar as certezas alheias. Desligo o barulho dos interrogatórios cotidianos, sirvo o chá que começa a esfriar na mesa e aceito cada uma das minhas fases. O verdadeiro lúdico não está no susto do que passa depressa, mas na solidez orgânica de quem aprendeu a rir das pequenas comédias humanas e a preferir, portão adentro, o aconchego do próprio silêncio.

Mariana Gouveia

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