Escrevi outubro em um pedaço de papel e a palavra ganhou outra forma quando li, em um texto de Lunna, a palavra Septum. Folheei o livro que trazia a palavra desenhada por ela. Lembrei-me de cada detalhe do dia em que a vi usar a lapiseira e o grafite ganhando forma de palavra, letra por letra, na minha frente.
Acho que chovia como hoje. Uma garoa mais forte e as frestas da janela daquele dia se confundem com as minhas frestas daqui. Yoshi dorme como se a vida dele dependesse disso. Ali, em algum ano que me escapa agora, o Diário das Quatro Estações era o que havia me levado àquele lugar. As quatro estações retratadas em prosa, versos e poesias sob o olhar atento de Lunna.
Amanheceu há pouco e aqui, a alquimia do amanhecer não pede grandes anúncios… Ela se resolve no silêncio de quem recupera a própria história antes mesmo de colocar a água para ferver. Portão adentro, o dia inaugura-se em tons de terra e calmaria. Olho para os livros que busquei na estante e mergulho em memórias de um ontem recente.
A garoa muda seu estado lento para uma chuva mansa que o vento espalha pelo canteiro.
Traduzimos as quatro estações em sentimentos, mapas internos; dias da semana se configuram em palavras que nos tocam em um idioma ditado pelo inverno, outono, primavera e verão. Já contei tantas vezes que meu lugar possui, às vezes, as quatro estações em um dia só…
Sinto o ronco brando de Yoshi no tapete da sala e sirvo o café como iguaria para acordar a pele, consciente de que o passado, o presente e o futuro dividem as mesmas estações. O mundo lá fora pode insistir em suas engrenagens barulhentas e fins improváveis. Mas aqui, a luz que se aconchega de leve no muro do quintal, mesmo com as poças d’água se formando pelo chão, cobra apenas o compromisso de simplesmente pertencer ao agora.
Termino o ciclo desta semana virando mais uma folha avulsa do tempo. Que o nosso norte permaneça assim, imperceptível aos apressados, Mas inteiramente nítido para quem sabe ler o avesso dos dias. Aceito o amanhecer, aceito o mistério e sigo tecendo, linha por linha, a beleza que nos faz suspirar e que nos traz de volta para cada estação que move nossos corações.
Mariana Gouveia
