Acho que foi em uma manhã — quase solar,
onde o vento morno escancarava a janela por detrás da cortina.
Eu vi as asas em sincronia, como se a alquimia do amanhecer
desbotasse as rosas do jardim, que nem começaram a florir,
num tempo vago onde o despertar evoca as lembranças.
O pássaro de outrora, que voava em pleno cerrado
e minha mãe dizia: vão ao encontro do lugar onde confiam
para criar seus ninhos…
Abro os olhos e acordo, devagar,
de volta a este vago e compartilhado ontem.
Fiquei tentando entender a migração dos que vieram antes de mim,
e se buscavam, nas terras desse quadrante, entre os ipês,
um lugar seguro para criar o que hoje chamam de lar.
Desperto sob o voo e herdo a velha sorte:
o rastro antigo de quem também cruzou desertos.
Mas há asas que cansam de desenhar o norte,
e que pousam, serenas, em meus dedos abertos.
Interrompem, por fim, a migração ancestral.
Não há mais o peso do esquecimento ou da busca:
descobriram que em minhas mãos habita o galho ideal,
a árvore certa onde o tempo deságua e repousa.
Mariana Gouveia
