Crônicas · Outubro Literário

A Alquimia de Inventar Cidades

Quando pousei os olhos em Lua de Papel pela primeira vez, foi como se uma bússola imaginária me levasse para o lugar onde nasci e cresci, e as minhas memórias me ligaram à Alexandra, a menina-mulher de Teodoro. A cidade “inventada” pela autora parecia a mistura das ruas por onde andei descalça, depois de mudar da fazenda para a pequena cidade de Arenópolis — que era apenas um distrito de Piranhas, Goiás. Há quem precise cruzar oceanos, recortar mapas e costurar fragmentos de vilas distantes para erguer o teto de suas próprias invenções. Mas, para mim, a igreja se desenhava na praça da matriz como se aqueles personagens saíssem de minha memória e buscassem vida na história de Lua de Papel.

É uma alquimia bonita essa de dar nome a cidades que só existem no papel, resgatando o silêncio de mosteiros milenares ou o contorno de castelos medievais para preencher o vazio das páginas em branco. Os escritores são, afinal, arquitetos de labirintos invisíveis. Mas, enquanto alguns retalham o mundo para inventar territórios, a história coube em mim como se a tivesse contado para a autora.

Me desvencilhando de Alexandra, a minha alquimia é mais terrena, feita de sementes que se enterram no escuro e de ramos que escolhem sozinhos para onde crescer. Percebo que aprender a ler as rotas secretas que a natureza traça nos meus canteiros é quase uma fuga da menina que ensaiou a primeira peça da vida no pátio da Igreja Matriz de Piranhas. O filme foi gravado e repassado em praça pública. Depois, não se sabe aonde foi parar a fita e hoje, o que tenho das duas cidades são apenas memórias de rua de terra batida, outras de paralelepípedo, a casa da d. Fulô — minha bá, a poucos metros da nossa — e uma casa de calçada alta onde disputávamos a janela para ver a TV na sala da vizinha, que só abria as cortinas se estivesse de bom humor.

Hoje, as cidades reais, por maiores que sejam, só ganham peso quando encontram eco nas pessoas que caminham por elas. Na memória e nos livros ficam as casas antigas e seus porões contando histórias, e de nada adianta se não houver um olhar disposto a decifrar as frestas do cotidiano e transformar o lúdico em lembranças. Por isso, enquanto as histórias ganham a forma de vilas antigas cheias de janelas curiosas, o meu quadrante de tempo se resolve na calmaria de uma tarde que desce devagar pelo muro. Mas sinto que, em tantos momentos, Alexandra me pega pela mão e me tira da cidade de ruas largas e poeirentas.

Termino mais um dia sabendo que a ficção é um recurso generoso para quem busca abrigo no impossível das cidades inventadas. Vez ou outra os lugares ficam imensos para mim, assim como São Paulo é para Alexandra. Mas a minha escrita teima em ser rastro daquilo que é vivo, lento e orgânico. Desligo o barulho dos horizontes inventados, sirvo o café e me aconchego na certeza de que o melhor porto seguro nunca dependeu de mapas tecidos ao longe. O meu lugar é feito de terra firme, ar limpo e da simplicidade de quem encontrou o mundo inteiro dentro do próprio quintal, mas em tantos momentos retorno com Alexandra para a Teodoro dela e as minhas Arenópolis e Piranhas para alimentar sonhos e desejos guardados.

Mariana Gouveia

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