Crônicas · Lunna Guedes · Outubro Literário

O passado e o futuro no rito dos fusos

O meu lugar tem um tempo diferenciado. O relógio da sala marca uma hora a menos que o horário de Brasília. Isso causa estranheza em algumas pessoas e gera brincadeiras com outras, principalmente com a Lunna. Sempre estou no passado dela e ela no meu futuro. Na primavera, o sol nasce bem mais cedo e vai embora bem mais tarde. Então, quando é noite no quintal dela, no meu ainda acontece a tarde, com seus raios solares nas paredes da vizinha. Há geografias que brigam com os ponteiros do relógio e se aborrecem com o esticar das tardes. Por aqui, a luz nunca pede licença; ela é a própria dona da casa.

Fiquei imaginando um poeta apaixonado pelo outono nomeando a tarde. Essa imagem fez um riso brotar aqui… Isso me faz pensar nas cores das cápsulas que envolvem as sementes do ipê em sua tonalidade de outono. Não importa a estação. Elas acabam por se revezar em tons ocres em algum canto do quintal, pelo menos em algum momento do dia, enquanto o cambacica dorme em seu rito de ave. Elas sabem que a sobrevivência exige uma paciência rústica, uma capacidade de reter o próprio silêncio enquanto o céu do cerrado decide, no seu próprio tempo, quando derramar as suas sombras.

Quem se apaixona pela meia-luz do outono muitas vezes esquece que é no excesso de sol que as sementes invisíveis encontram o calor necessário para romper a terra, indiferentes aos calendários que os homens inventam para o próprio uso.

Quando a noite finalmente decide chegar — e por aqui ela sempre cobra o seu preço em calmaria —, o ruído das engrenagens urbanas começa a silenciar. Aceito a leveza de que, não importa o tamanho da luz lá fora, a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra o seu porto no avesso dos dias.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Outubro Literário

O Gesto de Erguer a Tampa

Cuiabá, na hora em que o calor cede espaço à noite…
Bambina mia,

A sua missiva atravessou o breu morno de outubro e me fez tatear, no escuro, as minhas próprias paredes. Ler sobre o abalo sísmico que aquela pergunta provocou em você me fez olhar para os canteiros do quintal em silêncio. Há um conforto imenso na neblina que cobre o que fomos; afinal, fingir que certas dores pertenceram à biografia de um estranho é a nossa forma mais antiga e humana de sobrevivência. O vazio sensorial é um barco macio, mas a escrita teima em nos cobrar o chão. Aqui quase não tem neblina — ou smog — como em Londres. Poucas vezes vi um vasto nevoeiro tomar conta do meu lugar. Eu fiquei fascinada, mas tremia de frio. Não vi além do piso amadeirado da varanda.

Você fala de perder-se de si mesma pelas calçadas urbanas, guardando apenas o cheiro da flor de laranjeira ou o tato do papel para guiar o retorno. Por aqui, a pele também guarda caminhos que a mente às vezes hesita em acessar. O corpo sabe do chão de terra batida muito antes de a memória conseguir organizar as datas. O que chamamos de esquecimento é apenas o tempo descansando debaixo de uma fina camada de poeira. Às vezes, não é não lembrar… É não esquecer… É confuso, eu sei… Lembrei-me de Caetano agora.

Abrir a Caixa de Pandora ou erguer a tampa de um baú antigo exige um fôlego que nem sempre temos ao amanhecer. Mas você tem toda razão, bambina: se o baú está ali, portão adentro, é porque em algum quadrante do tempo o gesto precisa acontecer. A literatura não se faz com linhas retas e intocadas; ela nasce justamente do rastro que deixamos quando decidimos enfiar as mãos na terra úmida para arrancar o que sufoca ou para replantar o que restou.

Se a sua alma derrapa diante da consciência de lembrar, a minha escrita se senta ao seu lado no banco desse “não-lugar”. Não tenha pressa em dissipar a neblina que é persistente aí. Algumas coisas escapam para que a gente tenha o prazer de reinventá-las em prosa, versos ou poesias. As minhas mãos continuam firmes, exalando o aroma das ervas simples e oferecendo pouso para quando precisar.

Bacio,

Mariana Gouveia