O meu lugar tem um tempo diferenciado. O relógio da sala marca uma hora a menos que o horário de Brasília. Isso causa estranheza em algumas pessoas e gera brincadeiras com outras, principalmente com a Lunna. Sempre estou no passado dela e ela no meu futuro. Na primavera, o sol nasce bem mais cedo e vai embora bem mais tarde. Então, quando é noite no quintal dela, no meu ainda acontece a tarde, com seus raios solares nas paredes da vizinha. Há geografias que brigam com os ponteiros do relógio e se aborrecem com o esticar das tardes. Por aqui, a luz nunca pede licença; ela é a própria dona da casa.
Fiquei imaginando um poeta apaixonado pelo outono nomeando a tarde. Essa imagem fez um riso brotar aqui… Isso me faz pensar nas cores das cápsulas que envolvem as sementes do ipê em sua tonalidade de outono. Não importa a estação. Elas acabam por se revezar em tons ocres em algum canto do quintal, pelo menos em algum momento do dia, enquanto o cambacica dorme em seu rito de ave. Elas sabem que a sobrevivência exige uma paciência rústica, uma capacidade de reter o próprio silêncio enquanto o céu do cerrado decide, no seu próprio tempo, quando derramar as suas sombras.
Quem se apaixona pela meia-luz do outono muitas vezes esquece que é no excesso de sol que as sementes invisíveis encontram o calor necessário para romper a terra, indiferentes aos calendários que os homens inventam para o próprio uso.
Quando a noite finalmente decide chegar — e por aqui ela sempre cobra o seu preço em calmaria —, o ruído das engrenagens urbanas começa a silenciar. Aceito a leveza de que, não importa o tamanho da luz lá fora, a poesia que faz a vida suspirar sempre encontra o seu porto no avesso dos dias.
Mariana Gouveia
