As horas avançam e a noite finalmente derrama seu manto por cima do muro. Enquanto nas grandes cidades as janelas acesas funcionam como telas de Hopper, emoldurando o isolamento e a solidão, no meu quintal o roteiro se desenha de outra forma. Minha janela não dá para fachadas vizinhas ou quartos iluminados onde vidas dependem do tic-tac rigoroso dos remédios. A minha moldura dá para a calmaria do pé de ipê, que vez ou outra se enfurece com um vento vindo do sul, ou para um céu de lua que adentra o quadrante do meu muro, ultrapassando o beiral da casa vizinha, onde a existência cumpre um rito muito mais manso e silencioso.
Gosto de observar o escuro do quintal quando o barulho da rua de cima começa a silenciar. Não há cortinas que se fecham de maneira grosseira para me expulsar do cenário; há apenas o balé discreto das folhas do pé de jurubeba e o chilreio das aves noturnas, que embalam seus voos mesmo na ausência da luz e continuam a vigiar o tempo.
Não corremos contra o relógio para reter uma juventude inventada; aceitamos cada uma das nossas fases com a sabedoria de quem sabe que o outono e o inverno também trazem suas próprias belezas e recolhimentos. O passar dos anos nem sempre traz sabedoria; por muitas vezes, são apenas reflexos do que vivemos. E quando um passeio pelo bairro nos mostra personagens que lembram filmes ou histórias de livros, isso indica apenas que a poesia e o lúdico vivem dentro de nós.
Sirvo o último gole de chá, sinto o aconchego de Yoshi deitado no tapete e dou por encerrado mais um quadrante do dia. Que as letras que sobem na calada da noite continuem a tecer pontes poéticas entre os nossos fusos e as nossas tantas geografias. Se o mundo lá fora se fecha em roteiros cinzentos e janelas que se apagam com pressa, aqui dentro o avesso dos dias permanece nítido, aquecido pelo café e pela simplicidade de quem aprendeu a encontrar o infinito no silêncio do próprio quintal.
Mariana Gouveia

Que texto! “Gosto de observar…” é simplesmente do outro mundo. Abraço.
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