das coisas breves

Décimo quinto na verdade das coisas.

O dia passou na intensidade das horas.
Não houve tempo para administrar sorrisos.
Conto os dias e repito.
Décimo quinto na verdade das coisas.
Revivo o que foi dito.
Surreal as palavras que dançam
e mesmo que eu apague elas estão ali.
Confiro mil vezes a sua presença.
Não há.
Repito na constante loucura: não é para ser, não é para ser.
A umidade me faz lembrar histórias
e a flor não conhece a rotina do dia em que só fiz pensar em você.

Mariana Gouveia 
Ph: Lukrecja Czerwonajcio

das coisas breves

Dançava com o vento,

na maioria das vezes, continha o riso para não escandalizar os ausentes.

Diziam que tinha a loucura no olhar.

De vez em quando, por reflexos, através de um espelho, via a vida como se fosse um autógrafo para que ninguém apagasse dela o costume de viver. Ainda assim, todo dia escrevia uma carta sem destinatário contando seus segredos internos… Ou seu diário de amor.

 Mariana Gouveia
Das coisas breves

das coisas breves

Se apaixonou por heras,

Por folhas secas que caiam como brindes do quintal da vizinha.
Desenhava nos muros coisas aleatórias de quem acreditava que só se vive uma vez.
Essas coisas de quem se acostuma com uma única estação – o outono era sua preferida –
O ocre das paredes sem estuque, também.
Conhecia os odores da terra e o cheiro de chuva quando cai.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

das coisas breves

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo.

Anoto em uma carta as frases que diria… as sombras na parede espantam a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios. O jardim envernizado com flores de plástico esconde a parede oca para o futuro do nada. Descobri casas abandonadas na minha rua. Cada uma grita um nome quando a noite cai. 

Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor. Alguém canta na redondeza. Contam histórias de horóscopos e tarôs. vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta.  As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. o mar afasta a possibilidade de escolha. Em algum lugar, a estrela fica fora do céu. O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.

Mariana Gouveia
Ser de flor

das coisas breves

O cheiro do tempo suave

o cheiro do tempo suave

Habito nas imensidões do campo
decoro o decote insano
onde tuas mãos e teus olhos pousaram
o cheiro do tempo suave será tão tênue
trará sentidos de perfumes teus
e os avisos da saudade, constante
Te olho, me molho
para ti

o néctar que gostas de devorar
e a pele em arrepios.
A vastidão das madrugadas insones e do dia leve que me traz você.

Mariana Gouveia

das coisas breves

teus olhos/meus olhos

 

encantados
luz multiplicada
nos olhares-candelabros
e nos lábios
o sopro úmido
e o silêncio ruidoso
do que sentimos
e na pele o sentido pleno do toque e do prazer.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laurie Kaplowitz

 

O lado de dentro

Ave, amor!

haverá os dias em que as manhãs semeadas a pássaros voarão em mim.

 

Quando falava… da sua boca
voavam pássaros!
Aves banhadas na saliva do beijo
No contorno dos lábios… o pouso seguro.

Quando falava… exalava poesia
Hálito fresco de carinho doce
De eterno desejo… de vontade própria. 
De sublime amor.

Quando falava… era como se o céu
se abrisse…  e alada, eu me perdia no voar.

Não sei como lidar com o silêncio 
Por que quando falava…
soava como uma prece {minha}

Ave, Amor!

Mariana Gouveia
Ph:  Miss Aniela
In: O Lado de Dentro
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves

Enquanto eu inquilina

enquanto eu inquilina

Enquanto eu desatino,
você, menina;
eu, pé no chão,
você rumo.
Enquanto eu pluma,
você, asa;
enquanto eu inquilina
você podia
ser moradia,
ser casa.

Enquanto eu descalça,
na rua
você insinua
indecisão
enquanto eu paixão,
você razão.
Enquanto eu cama,
você…chão.

e assim eu me entrego,
não nego
mexe comigo,
com minha emoção
enquanto eu demonstro ternura
você, aventura
loucura.
Paixão.

Mariana Gouveia

das coisas breves

extratos I

# extratos I

Afinal, há coincidências.
falo isso por causa dos girassóis…

E aprendi palavras novas e sabores intensos
ementa…

bebida servida aos goles de sol
e minha voz te procura
e tua risada me sacia

um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer coisa extraordinária.
Qualquer palavra vira mimo.
Qualquer segredo vira poema
qualquer rosto vira o seu.

Sobressalto a cada toque da alma
e aprendi a desenhar teu nome nos vidros das janelas dos ônibus
(hoje, desenho corações que é uma beleza!)
a conversar sozinha chamando teu nome.

Afinal, há coincidências.
Dessas de ver coração em tudo que é flor.

Mariana Gouveia