Afetos · Das palavras das cartas

A delicadeza do primeiro broto verde no galho seco.

Janeeeeeeee,

Há dias em que o ruído do mundo parece teimar em se vestir com a aridez dos galhos secos. O inverno se despede deixando poeira, os homens se espremem em suas certezas duras e a polaridade lá fora tenta sufocar a nuance das coisas simples. É nesses momentos de compasso de espera, quando a falta de paz que a realidade promove aperta o peito, que meu pensamento voa longe e vai buscar abrigo no território de nós duas.

Olho hoje para o meu quintal e flagro um milagre manso que imediatamente me fez lembrar de você e da sua casa. Um periquito rei, com o verde mais vivo que a natureza consegue pintar, pousou exatamente no meio das vagens retorcidas e secas do ipê. Fiquei olhando aquela criatura de olhos alaranjados, tão parecida com o seu papagaio, e compreendi, Janes, que a delicadeza do primeiro broto verde nem sempre é uma folha tenra que cresce devagar. Às vezes, o broto que nos salva da aridez tem asas, chega sem pedir licença e faz barulho no galho que parecia morto. Ele é o anúncio de que a vida continua pulsando, à revelia dos desertos humanos. Eu sei que o seu bica, arranha, mas também sei que ele te dá a melhor manifestação de afeto.

Escrevo-te para te dar coragem diante do cinza que tentam nos impor. Em outros tempos, eu estava aí com a xícara de chá, sendo sua consciência — igual ao Grilo Falante — impedindo confrontos que te fariam infeliz. Sei que o cenário atual exige muito dos nossos dias, mas lembre-se da menina que fomos e dos caminhos que trilhamos. É preciso ter a audácia de continuar conversando com as coisas do mato, limpando as gramas do nosso próprio chão e abrindo espaço para que o inédito aconteça. Que o verde do seu companheiro de penas aí na sua casa seja o seu lembrete diário de resistência. Não se entregue à bruteza do tempo; mude o foco do olhar, equilibre o passo no meio-fio do cotidiano e colha a poesia que nos salva dos desacertos.

Quando o dia findar e a noite reivindicar o seu pouso, saiba que a nossa órbita continua alinhada pela gravidade do afeto. Que você cultive sons bonitos no meio do barulho e encontre no silêncio do seu canto a força necessária para romper o chão de amanhã. Minha escrita atravessa a distância para te lembrar que nunca estamos sós enquanto houver asas para vigiar o horizonte.

Com todo o meu carinho,
Sua Tarzan

Mariana Gouveia

Delírios Comunistas · Literatura · Lunna Guedes

O Delírio dos Homens e a Poesia que nos Salva

Eu sempre tive preferência pela geografia dos cantos. Talvez por ter sido criada em uma casa cheia de gente, sem um lugar próprio para estar — com exceção do telhado ou do morro da cruz —, tudo ao redor era povoado demais. Confesso que, lá na infância, eu ainda não sabia o quanto o silêncio era bom. Depois de ver minha própria família formada com apenas três pessoas, e quando meu filho cresceu e mudou-se, passei a gostar da solitude. A casa vazia, a mesa com lugares vagos e o silêncio que se instala nas horas ímpares são o meu território sagrado de permanência. É na quietude desse isolamento escolhido que os livros deixam de ser meros objetos nas prateleiras e se convertem em interlocutores reais, capazes de traçar diálogos mudos com as nossas próprias frestas.

Compreendo o peso de carregar heróis literários que, muitas vezes, tropeçam na bruteza da realidade dos homens. Separar a herança da escrita territorial dos desacertos políticos e conservadores de quem a pariu é uma tarefa árdua, quase um exercício de paciência. Nem sempre é fácil lidar com os limites e as cegueiras daqueles que admiramos no papel. Eu também já “abandonei” autores e pessoas que admirava; por suas posturas conservadoras, tornaram-se personas non grata em minha vida. No entanto, entendo que descartar a beleza de uma narrativa que nos toca e nos localiza no mundo, apenas pelas falhas do ser humano, seria uma desonestidade com a escritora que me tornei. Faz-se as pazes com a obra, não com o homem; deixa-se que a contradição repouse na margem enquanto colhemos a poesia que nos salva.

Esses encontros e reencontros com os clássicos — que outrora preencheram as páginas dos meus cadernos com caligrafias antigas — são como banquetes que revisitamos quando a juventude ganha outras dobras. Eles guardam os mistérios do infinito e da finitude, exatamente como um labirinto onde nos perdemos para, no fim, nos encontrarmos mais inteiras. Não precisamos concordar com os passos de quem escreveu para nos movermos com o ritmo das suas frases-rastro.

Ao cair da tarde, quando mudo a xícara de lugar e observo a luz mansa diminuir no quadrante do muro, percebo que a minha solidão é generosa. Ela acolhe as vozes de todas as eras, os poetas de ontem e as histórias inventadas que se colam à madeira do meu lugar. No meu canto do sofá, com as frestas abertas para o vento que limpa a poeira, celebro os livros que continuam a me decifrar. O homem passa e falha; a escrita permanece, rompendo o chão do tempo.

Mariana Gouveia

Afetos · Das rotinas · Lunna Guedes

BEDA #29 – O voo: A Anatomia dos Sábados.

Fotografia em plano médio de um pássaro sanhaço-cinzento pousado sobre a corda de um varal de roupas, cercado por prendedores de madeira, tendo ao fundo um lençol com estampas florais azuis e verdes estendido sob a luz do sol.

Ler a anatomia dos seus sábados me fez olhar para o meu próprio quintal e perceber que a minha também tem os pássaros, o cheiro de roupa lavando na máquina, a música tocando no aplicativo, o banho no Yoshi, o quintal vivo entre as mais variadas asas e os prendedores segurando os lençóis e as roupas no varal. Sempre ligo a palavra sábado a você — talvez por causa de Aos sábados… — e passamos quase a manhã toda conversando entre uma mensagem e outra. Acontece a mesma coisa aqui também com o cão e o gato. Por aqui, os aromas se igualam no alho, e sábado — conforme a escolha do moço daqui — é sempre dia de comida “italiana”, na visão dele. A almôndega sendo preparada, tomates e pimentões para o molho, o manjericão colhido junto com a cebolinha e o arroz branco com purê de batatas… Não questione nunca esse rompante — mamma mia! — dele em querer estar perto ou junto das nossas conversas. Ai de mim! A cozinha, aos sábados — sábado sim, sábado não — é dele.

Acho lindo como você descreve o processo de escolher as palavras como quem escolhe frutas maduras no pé. Ver os pássaros festejando a próxima estação e sentir que estamos finalizando mais um ciclo dá uma sensação gostosa de dever cumprido. O BEDA está chegando ao fim, e perceber que a sua escrita — que começou na poesia e estacionou na prosa — continua tecendo pequenas histórias curtas é a certeza de que o voo valeu a pena. A realidade se refaz a cada amanhecer manso, e a gente se contenta com a beleza dessas paisagens que só a literatura nos permite revisitar. O quintal se transforma nesse portal onde atravessamos todos os dias. Aqui, a estação muda várias vezes por dia. É como se o calendário tivesse vontade própria. E assim, sábado caminha em seu curso e afazeres rotineiros.

As histórias curtas parecem até algumas que vivi aqui, no atravessar de nossas esquinas, em outros ontens que ficaram registrados na memória. É como se nossos passos passassem pelos mesmos caminhos em diferentes eras. Agosto já deixa apenas duas folhinhas no calendário da cozinha. Setembro logo acontecerá e agosto ficará em espera para o próximo ano. No final das contas, dar aos pés o colorido dos passos é aceitar que todo fim é também um recomeço. Se o horizonte agora é visto de outra perspectiva, a gente agradece a jornada, amarra as fitas de cetim nos nossos retalhos e segue voando alto, linha por linha, rumo à primavera.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura · Lunna Guedes

BEDA #19 – A ruptura: A coragem que mora na vulnerabilidade.

Lendo seu texto me veio à cabeça a frase de Virginia Woolf: “Durante muito tempo na história, ‘anônimo’ era uma mulher”. É inegável que a história literária foi sempre feita de exclusões, e a gente já falou sobre isso tantas vezes. Se hoje ainda enfrentamos tantas barreiras, imagina quando tudo começou. Grande parte das escritoras sofria limitações e restrições por causa da família e, em muitos casos, os nomes dos maridos eram usados nas primeiras publicações. Passamos a vida inteira sendo alimentadas com a jornada de heróis masculinos que precisam abandonar tudo para provar sua força, enquanto o verdadeiro heroísmo feminino quase sempre acontece em silêncio, dentro de quartos fechados e em folhas guardadas no fundo de uma gaveta. Apresentar Emily Dickinson como resposta foi um ato de justiça poética. Ela foi a maior das rebeldes justamente por se recusar a caber nas regras rígidas de uma sociedade que só aceitava a escrita das mulheres se ela ficasse restrita ao segredo dos diários e das correspondências.

Fiquei pensando no pedido final de Emily para que Lavinia queimasse tudo. Há uma linha muito tênue entre o desejo de proteger a própria intimidade e o milagre da nossa história ser salva por outra mulher. Se hoje os quase 1.800 poemas dela nos alcançam e enfeitam a nossa meninice, é porque houve uma irmã que compreendeu que o fogo não tinha o direito de apagar aquela voz. Olhar para a vulnerabilidade de Emily e enxergar ali uma força capaz de atravessar séculos é o que dá sentido a essa nossa busca. Nem toda heroína usa capa; algumas apenas seguram a caneta com uma coragem mansa.

Conheci Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, através de você, nossa intimidade foi adiante por causa das cartas que escrevi para ela. Confesso que, embora meu pai fosse de um outro tempo, eu tive muita liberdade e incentivo na escrita. Ele queria que eu escrevesse e que todos conhecessem o que eu produzia. Claro que, com toda coisa de pai, o orgulho surgia até nas situações mais simples.

A poesia escrita no avesso do mundo é o que realmente nos mantém vivas. Imagino que nenhuma das pioneiras da escrita se via ou queria ser taxada como heroína, mesmo porque a luta viva e diária para serem aceitas reverberava e se constituía em uma espécie de ensaio e identidade. Sentiam na pele a dor de se afirmar em um mundo, até então, inacessível. Até hoje, seguimos criando nossos casulos, com as metamorfoses necessárias para a ruptura de nossos caminhos, abrindo nossas próprias gavetas e compartilhando nossos segredos, página por página, de poesia em poesia.

Mariana Gouveia

Literatura · Lunna Guedes

BEDA #13 – A mutação: O Avesso da Intimidade

Às vezes, dizemos tanto sobre nós e, ainda assim, o essencial permanece submerso. Andei pelo quintal pensando no tempo que levou para nos acolhermos. No primeiro abraço eu já entendi que havia um traço de confiança e respeito. Depois, a gente se reconheceu uma na outra e as conversas no meio das manhãs surgiram como um oásis.

A frase que surgiu aí — esse “quando eu tiver intimidade” dito num sopro — ecoou em mim como um sapato que já não serve mais. O corpo, às vezes, cansa das roupas velhas e das molduras rígidas que nos impõem. Ele pede um novo formato. Um formato que não precise se escancarar para ser visto.

Há quem confunda intimidade com desabamento, como se para tocar o outro fosse preciso demolir todas as paredes. Eu prefiro a arquitetura dos segredos bem guardados. O corpo que pede um novo formato é aquele que aprendeu a dizer “não” às invasões consentidas. É o corpo que escolhe a nudez do silêncio em vez do ruído das confissões desnecessárias.

Vestir-se de mistério não é esconder-se por medo; é proteger o que temos de mais sagrado. Quando as pessoas julgam que a proximidade lhes dá o direito de disparar palavras sem peso, meu corpo recua — sei que com você é igual — e muda de forma, contrai-se, vira bicho que busca a toca. Prefiro a comunhão das entrelinhas, porque tem coisas que não precisam ser ditas e nem compartilhadas. Ultrapassam o senso comum, ou pelo menos o meu senso.

A verdadeira intimidade, talvez, seja a liberdade de permanecermos um mistério um para o outro, sem que isso nos afaste. A ideia de alguém andando nu pelas ruas me arrancou um riso interno no meio do quintal, mas a verdade é que as pessoas fazem isso o tempo todo com as palavras. Desnudam-se de filtros, de delicadeza, achando que o crachá da “intimidade” zera a necessidade do respeitar o que o outro quer e pode ouvir. Saber tudo do outro não nos torna mais próximos; muitas vezes, só nos deixam entediados diante do que é previsível.

A ética do mistério é, no fundo, uma ética de preservação. Em alguns momentos a gente cansa de ser receptor do excesso alheio. Já nos bastam os nossos excessos, esses, guardados em respeito ao outro, porque há histórias que não precisam ser gritadas. Gosto do direito ao inacessível. Que o outro permaneça um território a ser descoberto aos poucos, com o respeito de quem tira os sapatos antes de entrar. Ou de quem espera que a porta se abra para que você seja convidada a entrar.

Mariana Gouveia