Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #25 – O voo: Quando as Páginas Ganham Asas

Fotografia artística em plano fechado mostrando uma borboleta amarela com asas detalhadas pousada sobre a fita de cetim vermelha e a costura artesanal exposta do livro "O que de reflexos" de Mariana Gouveia..

Dias atrás um moço que tem um sebo veio ao meu lugar buscar os livros do curso de Comércio Exterior que meu filho deixou aqui quando foi embora. Falamos sobre livros, estudos e livrarias. Ainda jovem, ele me disse que criou o sebo depois da pandemia, pois ficou com muitos volumes que leu durante o período pandêmico. Se encantou com as borboletas do meu quintal e com os pássaros. Falei sobre o trabalho artesanal da minha editora e acho que ganhei um amigo. Lembrei-me de você e de sua maneira linda de achar esses lugares entre as livrariazinhas, sebos e livrarias grandes.

Cruzar os portões de um sebo e dar de cara com o cheiro de papel antigo é uma das formas mais bonitas de iniciar um voo. Percebi no olho daquele moço uma magia ao falar de seu sonho, que seria unir o sebo a um café. Os planos ainda estão sendo gestados — disse ele. Percebi afeto nas palavras, não só de quem ama os livros, mas de quem os lê. Afeto de leitor é mesmo feito de mapas invisíveis que nos guiam até as páginas que estavam ali nos esperando. A sua lembrança de menina querendo substituir as paredes do quarto por prateleiras me fez sorrir, porque quem traz a escrita na pele-alma sempre enxerga o mundo como uma imensa biblioteca a ser desbravada. Foi exatamente o que percebi no moço na minha frente.

Achei lindo um sonho ser gestado, principalmente neste tempo de era digital. Fico toda encantada quando vejo nos ônibus os jovens com livros em mãos; meu coração se alegra e já quero ser amiga dessa pessoa. Alguém me disse que era “vintage” existir sebos hoje em dia e que essas coisas antigas estavam na moda. Preferi não comentar e imaginei, por dias, o moço ajeitando os livros em suas prateleiras, com os títulos certos para conquistar leitores. Qualquer dia desses irei conhecer o lugar.

Fiquei pensando no sumiço daquela livraria elegante para dar lugar a um edifício de muitos andares e lembrei das demolições e das poeiras de ontem que conversamos há poucos dias. Ver as referências da cidade virarem pó machuca, mas a sua forma de salvar o velho livreiro — imaginando o seu descanso final na poltrona vermelha, após ler a última página de Dostoiévski — é a prova de que a literatura nos dá o poder de reescrever os finais frios que a realidade impõe. A gente desmorona com o concreto que cai, mas voa alto com as palavras que teimam em ficar.

Adormecer com um livro nas mãos é selar um pacto com o infinito. Se as máquinas da cidade teimam em derrubar os nossos cenários, a gente abre as asas e reconstrói cada prateleira perdida no lado de dentro das nossas páginas. Vamos voar?

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #19 – A ruptura: A coragem que mora na vulnerabilidade.

Lendo seu texto me veio à cabeça a frase de Virginia Woolf: “Durante muito tempo na história, ‘anônimo’ era uma mulher”. É inegável que a história literária foi sempre feita de exclusões, e a gente já falou sobre isso tantas vezes. Se hoje ainda enfrentamos tantas barreiras, imagina quando tudo começou. Grande parte das escritoras sofria limitações e restrições por causa da família e, em muitos casos, os nomes dos maridos eram usados nas primeiras publicações. Passamos a vida inteira sendo alimentadas com a jornada de heróis masculinos que precisam abandonar tudo para provar sua força, enquanto o verdadeiro heroísmo feminino quase sempre acontece em silêncio, dentro de quartos fechados e em folhas guardadas no fundo de uma gaveta. Apresentar Emily Dickinson como resposta foi um ato de justiça poética. Ela foi a maior das rebeldes justamente por se recusar a caber nas regras rígidas de uma sociedade que só aceitava a escrita das mulheres se ela ficasse restrita ao segredo dos diários e das correspondências.

Fiquei pensando no pedido final de Emily para que Lavinia queimasse tudo. Há uma linha muito tênue entre o desejo de proteger a própria intimidade e o milagre da nossa história ser salva por outra mulher. Se hoje os quase 1.800 poemas dela nos alcançam e enfeitam a nossa meninice, é porque houve uma irmã que compreendeu que o fogo não tinha o direito de apagar aquela voz. Olhar para a vulnerabilidade de Emily e enxergar ali uma força capaz de atravessar séculos é o que dá sentido a essa nossa busca. Nem toda heroína usa capa; algumas apenas seguram a caneta com uma coragem mansa.

Conheci Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, através de você, nossa intimidade foi adiante por causa das cartas que escrevi para ela. Confesso que, embora meu pai fosse de um outro tempo, eu tive muita liberdade e incentivo na escrita. Ele queria que eu escrevesse e que todos conhecessem o que eu produzia. Claro que, com toda coisa de pai, o orgulho surgia até nas situações mais simples.

A poesia escrita no avesso do mundo é o que realmente nos mantém vivas. Imagino que nenhuma das pioneiras da escrita se via ou queria ser taxada como heroína, mesmo porque a luta viva e diária para serem aceitas reverberava e se constituía em uma espécie de ensaio e identidade. Sentiam na pele a dor de se afirmar em um mundo, até então, inacessível. Até hoje, seguimos criando nossos casulos, com as metamorfoses necessárias para a ruptura de nossos caminhos, abrindo nossas próprias gavetas e compartilhando nossos segredos, página por página, de poesia em poesia.

Mariana Gouveia

Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #13 – A mutação: O Avesso da Intimidade

Às vezes, dizemos tanto sobre nós e, ainda assim, o essencial permanece submerso. Andei pelo quintal pensando no tempo que levou para nos acolhermos. No primeiro abraço eu já entendi que havia um traço de confiança e respeito. Depois, a gente se reconheceu uma na outra e as conversas no meio das manhãs surgiram como um oásis.

A frase que surgiu aí — esse “quando eu tiver intimidade” dito num sopro — ecoou em mim como um sapato que já não serve mais. O corpo, às vezes, cansa das roupas velhas e das molduras rígidas que nos impõem. Ele pede um novo formato. Um formato que não precise se escancarar para ser visto.

Há quem confunda intimidade com desabamento, como se para tocar o outro fosse preciso demolir todas as paredes. Eu prefiro a arquitetura dos segredos bem guardados. O corpo que pede um novo formato é aquele que aprendeu a dizer “não” às invasões consentidas. É o corpo que escolhe a nudez do silêncio em vez do ruído das confissões desnecessárias.

Vestir-se de mistério não é esconder-se por medo; é proteger o que temos de mais sagrado. Quando as pessoas julgam que a proximidade lhes dá o direito de disparar palavras sem peso, meu corpo recua — sei que com você é igual — e muda de forma, contrai-se, vira bicho que busca a toca. Prefiro a comunhão das entrelinhas, porque tem coisas que não precisam ser ditas e nem compartilhadas. Ultrapassam o senso comum, ou pelo menos o meu senso.

A verdadeira intimidade, talvez, seja a liberdade de permanecermos um mistério um para o outro, sem que isso nos afaste. A ideia de alguém andando nu pelas ruas me arrancou um riso interno no meio do quintal, mas a verdade é que as pessoas fazem isso o tempo todo com as palavras. Desnudam-se de filtros, de delicadeza, achando que o crachá da “intimidade” zera a necessidade do respeitar o que o outro quer e pode ouvir. Saber tudo do outro não nos torna mais próximos; muitas vezes, só nos deixam entediados diante do que é previsível.

A ética do mistério é, no fundo, uma ética de preservação. Em alguns momentos a gente cansa de ser receptor do excesso alheio. Já nos bastam os nossos excessos, esses, guardados em respeito ao outro, porque há histórias que não precisam ser gritadas. Gosto do direito ao inacessível. Que o outro permaneça um território a ser descoberto aos poucos, com o respeito de quem tira os sapatos antes de entrar. Ou de quem espera que a porta se abra para que você seja convidada a entrar.

Mariana Gouveia