Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #16 – A mutação: Esquinas Pavimentadas com Bolo

Bia,

Fiquei sabendo do seu último voo ontem e nem era outono… senti pena de não ser outono e imaginei você pisando as folhas rua afora. Você adorava o castanho das coisas e de sorrir. Lembrei-me de quando a gente se conheceu há mais de 30 anos no ponto de ônibus. Falamos sobre o tempo e você falou sobre bolos, principalmente o de abacaxi que você tanto gostava.

Eu confesso que nunca conheci alguém com o riso tão fácil e tão cativante. E era entre risos que você dizia que regava a vida com chás e pavimentava as esquinas com bolo. As pessoas te conheciam pela delicadeza das mãos em fazer os bolos para festas. E das várias vezes que nos encontramos lá ia você com sua caixa de bolo pronto para entrega.

Eu também sabia fazer o bolo de abacaxi que você gostava e, na última vez que nos demoramos em abraços, você pediu a receita. E lá fomos fazer o bolo — eu, uma simples dona de casa, fazendo bolo para uma profissional dele — entre risos e chá. Você descobriu o segredo da fofura e se espantou com uma receita sem medidas. Era o segredo que te contei dias antes de você ir.

Queria te contar que a leveza com que você me ofertou a amizade ficará em mim como a forma do amor mais simples. Embora seu quintal tivesse as mesmas flores que o meu, as borboletas voavam diferentes por lá quando passei em frente. Um cheiro de saudade já se esparramava na rua inteira e eu apenas te agradeci por ter enfeitado a vida de tanta gente com a docilidade que só seu abraço tinha.

Com carinho,

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #14 – A mutação: O tecido das nossas armaduras.

Fotografia de minha autoria modificada por IA.

Ler sobre o baú do tuo nonno e a sua coleção de quadrinhos me fez sorrir com a imagem daquela menina fascinada pela Tempestade e pela Jean Grey. Claro que seria a Tempestade a sua heroína, com toda a misticidade que a envolve. Isso me faz lembrar da tempestade que assisti ao seu lado e o brilho nos seus olhos quando os relâmpagos cortavam o céu. Ficamos na sacada a respirar a fúria do céu. Essa é uma das cenas que nunca vou esquecer. Você parecia a própria Tempestade, com os olhos fixos e a voz ecoando a cada trovão.

Os meus quadrinhos eram outros, porque era o que a gente ganhava entre alguns livros. Os meus irmãos usavam as capas montados em cavalos de verdade no pastoreio do gado. A Mulher-Maravilha chegou na minha vida já quase na adolescência, e não como uma figura emblemática de poder feminino. A beleza de Lynda Carter — e mais recentemente Gal Gadot — exibia na tela uma Mulher-Maravilha cujas cenas eu via através de frestas da janela, isso quando a vizinha que tinha televisão não fechava de vez a cortina.

Para mim, a Mulher-Maravilha nessa época era Kaori, que com seu um metro e meio me acolheu em momentos dolorosos na perda de minha mãe. Ela estava sempre atenta a qualquer chamado meu, seja com uma xícara de chá, um colo, mãos estendidas ou um rolinho primavera — sem o biscoito da sorte, porque ela era a própria sorte.

Essas mulheres reais que me cercaram nunca precisaram de capas para comandar seus próprios raios e trovões. Nossas mães, nossas nonnas, e nós mesmas, tantas vezes precisamos endurecer a casca para proteger a sensibilidade que trazíamos por dentro. Olhando para trás, vejo que a vida nos exigiu mutações constantes: deixamos de ser frágeis ou invisíveis para nos tornarmos as anti-heroínas da nossa própria história, com desejos reais e caminhos conquistados a duras penas.

O universo das histórias nos moldou, é verdade, mas foi a coragem de assumir as nossas próprias metamorfoses que nos trouxe até aqui. Toda casca rígida esconde uma força imensa, e escrever com você neste agosto é a prova de que nenhuma de nós tem medo de abrir o baú e libertar os próprios fantasmas.

Bacio,

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

BEDA #9 – A Mutação: O avesso que herdei de você.

pai,

Hoje o calendário diz que é o teu dia, mas aqui dentro a vida exige o avesso. Dizem que há muitas fases para o luto, pai; a falta de uma pessoa que se foi provoca muitas mudanças nos anos que se seguem e descobri que mudar é um processo invisível e doloroso. Para que o voo aconteça amanhã, é preciso desmanchar-se por dentro hoje, recompor as certezas e aceitar a perda da antiga forma.

Dói deixar de ser o que eu era. Antes, eu era a filha; hoje, sou órfã. Mas, enquanto me desmonto no escuro desse processo, é a tua força que me sustenta. Olho para as minhas mãos e reconheço nelas os teus traços, a tua teimosia bonita e a herança da tua firmeza. As coisas de que você gostava passam a fazer parte das lembranças e, em diálogos com meus irmãos, é comum repetir: meu pai gostava disso. Cada um reage diferente à tua falta, cada um repete em gestos os teus gostos.

Neste domingo de sol forte, recolho os meus pedaços sabendo que herdei de você a coragem de enfrentar os próprios desertos. Bebo meu café pensando no teu abraço. Sigo daqui, sangrando as asas no silêncio, mas pronta para o tamanho do mundo que me espera.

Feliz dia, onde quer que a tua ilha esteja!

Com todo o meu amor,

Mariana Gouveia

das coisas breves

BEDA #2 – Casulo: Antes de amanhã é quase hoje

Eu vi a Divindade com o olho do coração. Eu disse: “Quem é você?”
Ele disse: “Você”.
(Mansur Al-Hallaj )

Ei, Agosto,

Os dias chegam diante do espelho. A vida passa igual aos flashes dos cinemas. Isso era ontem. Outro mês e outro dia. E as coisas aconteciam antes de ontem…

A manhã surge radiante espantando a cor — o cinza oco dos tempos dos corredores frios — e a cidade vista da janela se apresenta dourada. Um suspiro e tudo muda no final do dia. Antes de amanhã é quase hoje, e um novo mês que se inicia rompe as nuvens.

Trovões ao longe. Para os lados do sul. Para lá, cada clarão contrasta com o dourado que invade as cortinas, as frestas, a janela. Como se o céu rugisse para dar boas-vindas ao novo mês. Bem-vindo, mês febril! O calor e a fumaça tomam conta do meu lugar. A moça do tempo mais uma vez avisou que não vai chover.

Mas os dias passam tão rápidos e logo estarei aqui dizendo que ele se foi. É quase um piscar de olhos e essa manhã se tornará tarde-noite-madrugada e novo dia. São as rotinas soprando os calendários que marcam o santo do dia, a fase da lua, a frase de efeito, os dias que faltam para o fim do ano… Ufa!

Tudo isso em um tempo vivido antes de mim… Assim como os casulos rompendo as cascas e a metamorfose acontecendo. Antes de mim, as rotinas eram lentas, rastejantes. O dia podia ser contemplado da janela e as flores anunciavam as estações em ritmo de sementes — hoje, tenho sementes, flores e frutos no mesmo pé — e havia o tempo de plantar e de colher.

Desta janela, a cidade ainda dorme — ou grande parte dela — aos meus pés. As horas já avançam em sintonia com o tique-taque do relógio deste lugar… Os corredores lotados de pessoas que buscam cura e esperança umas nos olhos das outras. Outros desviam o olhar para depois.

Depois!

Mariana Gouveia