das coisas breves

BEDA #2 – Casulo: Antes de amanhã é quase hoje

Eu vi a Divindade com o olho do coração. Eu disse: “Quem é você?”
Ele disse: “Você”.
(Mansur Al-Hallaj )

Ei, Agosto,

Os dias chegam diante do espelho. A vida passa igual aos flashes dos cinemas. Isso era ontem. Outro mês e outro dia. E as coisas aconteciam antes de ontem…

A manhã surge radiante espantando a cor — o cinza oco dos tempos dos corredores frios — e a cidade vista da janela se apresenta dourada. Um suspiro e tudo muda no final do dia. Antes de amanhã é quase hoje, e um novo mês que se inicia rompe as nuvens.

Trovões ao longe. Para os lados do sul. Para lá, cada clarão contrasta com o dourado que invade as cortinas, as frestas, a janela. Como se o céu rugisse para dar boas-vindas ao novo mês. Bem-vindo, mês febril! O calor e a fumaça tomam conta do meu lugar. A moça do tempo mais uma vez avisou que não vai chover.

Mas os dias passam tão rápidos e logo estarei aqui dizendo que ele se foi. É quase um piscar de olhos e essa manhã se tornará tarde-noite-madrugada e novo dia. São as rotinas soprando os calendários que marcam o santo do dia, a fase da lua, a frase de efeito, os dias que faltam para o fim do ano… Ufa!

Tudo isso em um tempo vivido antes de mim… Assim como os casulos rompendo as cascas e a metamorfose acontecendo. Antes de mim, as rotinas eram lentas, rastejantes. O dia podia ser contemplado da janela e as flores anunciavam as estações em ritmo de sementes — hoje, tenho sementes, flores e frutos no mesmo pé — e havia o tempo de plantar e de colher.

Desta janela, a cidade ainda dorme — ou grande parte dela — aos meus pés. As horas já avançam em sintonia com o tique-taque do relógio deste lugar… Os corredores lotados de pessoas que buscam cura e esperança umas nos olhos das outras. Outros desviam o olhar para depois.

Depois!

Mariana Gouveia

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