Bambina mia,
Sua missiva me encontrou em silêncio, tentando decifrar o mistério dessa escuridão que você chama de abrigo. Não há estranheza alguma em culpar Patti – olha só minha intimidades! Às vezes, os livros têm esse poder de nos desestabilizar e nos empurrar para dentro de cenários que preferíamos esquecer ou silenciar no fundo do casulo.
Suas trinta e seis exposições em preto e branco me fizeram pensar no que escolhemos registrar e no que deixamos esquecido em rolos de filme nunca revelados. Eu, que carrego os olhos atentos da fotografia, entendo o seu desconforto com os túmulos. São caixas de concreto feitas para reter o corpo, enquanto o casulo — esse sim — é feito para gestar a alma. A morte, essa senhora honesta que você evocou, talvez seja apenas a última metamorfose, o romper definitivo da crisálida. Acho que lido bem com ela também.
Mas são as suas bibliotecas empoeiradas e as livrarias esquecidas que me tocam de perto. Você sabe o quanto gosto delas. Desde as mais simples e isso me leva para minha infância, até as enormes, como a Mário de Andrade. Sabê-la sendo disputada por traças dói como ver um ninho abandonado no inverno. Foi nela que Cadeados Abertos se abriu para as pessoas. Foi o lugar onde pari o meu terceiro livro.
Por aqui, o dia avançou devagar. Olhei para o Yoshi dormindo encolhido no canto mais escuro da sala e entendi a frase: escuridão também é abrigo. Há dias em que a luz do sol é forte demais para quem está mudando por dentro. Precisamos da escuridão do casulo para aprender a enxergar com o olho do coração.
Acho que Patti vai guiar os seus passos por aí. Eu sigo daqui, no meu próprio recolhimento, limpando a poeira das minhas gavetas e esperando o eco das suas próximas linhas.
Bacio,
Mariana Gouveia

Fiz uma pausa na tarde para acolher “esse envelope” em minha matéria… e me lembrei de uma caixa de rolos de filme que tinha dentro da estante da sala. Ali era uma espécie de nicho das coisas esquecidas (gostei desse título). rs
Eu não herdei a necessidade de fotografar tudo… sou mais exigente! Tem coisas que eu digo: não serve nem para um clique e vou embora e tem outras que o único clique é o do meu olhar… sabes bem o motivo! rs
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durante a limpeza feita aqui nessa tarde estranha, achei numa das caixas os negativos dos filmes já revelados das fotos de Lauro bebê. Foi uma comoção total do pai aqui. Ainda ontem falávamos do tempo e eis que o bebê é um homem lindo.
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