Afetos · Das palavras das cartas

Voar é humano… é transitório, momentâneo…

Mariana,

Ontem, depois de muito tempo, visitou-me uma sairinha de máscara.
Estava para sair, o tempo contadinho e a coisica veio procurar comida, colo, pouso, sei lá.
Queria ter ficado mais e a despedida foi meio como quem se despede do grande amor sem saber se era grande o suficiente para voltar.
Ninguém entende porque olho tanto para fora, para cima, para dentro: estou sempre esperando esse momento em que algo bonito pouse em mim mesmo que fique só um pouquinho.

NB: ainda preciso falar da cama auxiliar.
Luciane Recieri

Luci,

eu já estava com saudades de você… embora sempre esteja te vendo andando por aí, sendo pouso, conhecendo as ruas de Cuba e fazendo meus olhos se maravilharem com suas fotos.

Gosto muito dessa parte de ser pouso, Luci e de ver voos também e sei que é esse o motivo da gente olhar para dentro, para fora, para cima. Faz todo sentido para nós que somos seres alados.

Hoje, pela manhã, depois de vender os recicláveis para o projeto dos cães, eu lembrei-me de você quando Chiquinho chegou pousando no galho do pé de ipê e suas flores temporãs. Fui podar as plantas do quintal, mudar algumas de lugar, fazer mudas para quem pediu e o voo rasante dele em mim me fez chamar seu nome e repeti várias vezes: saudades de tu, Luci… lembrei-me de Lunna também que não entende a palavra saudade como nós.

Para ela, mi manchi soa melhor e achei lindo o contexto e o significado. Sinto sua falta… e foi daí que comecei a te escrever. Pensei na sua cama de não dormir e de como os embaixos de coisas não acontecem aí. Aqui é cheio de embaixos de coisas. Um dia te conto como são.

Janeiro está voando, Luci e parece que ainda há ontens perdidos em tempos que trazem saudade – olha a palavra aí, de novo – e de repente, o calendário nos mostra que já é metade do primeiro mês do ano e você já viu as ruas e os cães de Cuba e sorriu para seus sobrinhos. Tenho certeza de que, e a partir daqui, eu te copio em ser feliz. Não que já não seja. Mas não é desta felicidade amiúde que eu falo. É bem outra. Ando até a conferir a sinastria, porque acredito que entre as doze constelações, uma combina com a minha. Júpiter teria a ver com sinastria, Luci? Ontem ele estava esplendoroso na madrugada. Sabe lá, o que Júpiter nos reserva?

Recebi hoje algumas esperanças. Me deram sonhos antigos por ordem de importância, não data. Logo eu, que sou tão ligada em datas. Essa carta eu não vou usar os carteiros, Luci. Não haverá selos para ela. Por que amor, segundo minha mãe me disse um dia, antes de morrer, não tem selo. E hoje, eu só queria dizer que mi manchi

Beijo meu,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Luci,

Não perdi meu dom de criança: tudo que tem asas, ainda repousa em mim.
Luciane Recieri

Luci,

faz tempo que eu te devo uma resposta de sua carta. Mas, sabe, Luci… eu fiquei tempo demais em stand by. Acho que de muita saudade de gente que se foi, adoeci… e como eu não queria que ninguém me visse chorando por dores físicas e da alma, calei-me…

De vez em quando, eu dava apenas uns suspiros aqui e ali e demorou para eu sair desse trieiro que me levava para lugares tristes. Não vou dizer que sai totalmente, mas já deixei uma pequena fresta entrar.

Eu vi sua foto com seu pai nos 88 anos dele, Luci e lembrei-me de quando ele não queria comer e do estuque verde da parede que você descascava. Lembrei-me de tantas coisas que já se passaram e acho que senti a palavra quase declarada em sílabas: nos-tal-gi-a… e assim, de carreirinha, a palavra me dominou… tanto que corri para o seus lugares e fui te lendo para caber dentro dela. Acho que eu coube, Luci…

Hoje, no meu quintal lembrei do seu verso que cantam pousos na mão. Acho que somos iguais… tudo que é bicho que têm asas – e até os que não têm – buscam apoio ou pouso em minhas mãos, Luci… fico espantada, às vezes, como os espaços que nos ladeiam são elos que nos ligam.

Eu ficaria aqui a tarde toda falando de Almodóvar, de flores de orai pro nobis, de chuvas e livros… de cartas e de lembranças que nos ligam… mas, ainda estou em processo de cura e abril já se finda por aqui.

Eu só quis dizer que andar pelos seus lugares me deixa um pouco mais feliz.

Um beijo grande, Luci, com todo meu carinho e afago de mãos que acolhem os bichos que nos procuram.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que recebi

Parece o mar mas é o céu.
A rotina, Mariana, tem feito me esquivar da beleza, interromper soluços que fantasio para pensar em mapas e conceitos e mais mapas, tem também me feito entrar devagarinho nos lugares como quem evita fazer golos de impedimento.
Tenho estado (Tiago gosta quanto falo assim), logo, tenho estado abstrata, azulada e voadora como os personagens de Chagall. Hoje precisava trabalhar tanto e a poesia a me fazer muito mal, porque me força buscar metáforas para dizer o que se resolveria de chofre, o que me faz um bicho prolixo e esquisito.
Ontem pintei a lápis de cor. Precisava voltar ao hábito de colorir (colorir é como varrer, percebes, Mariana? Se não, me pergunte de onde tirei essa ideia).
Houve uma época em que pintei minúsculas marinhas, é tão fácil pintar marinhas, mas o azul me incomoda um pouco, porque sinto um frio quando uso azul tanto na pele, quanto no ver e tocar.
Já contei que, quando pequena, não suportava ter unhas? Achava que elas atrapalhavam e apertava contra as palmas para não sentir, aí que as sentia mais… São tão bobas as crianças pequenas que morro de ternura por elas.
Ainda hoje acho que poderia bem viver sem unhas. O azul, a poesia e as unhas me atrapalham, mas são coisas que existem e não posso fazer nada contra a existência delas.

Luciane Recieri

Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para Luci aos cuidados de Chiquinho

Gosto de você porque sei que pararia tudo
pra ficar olhando um passarinho perdido
na sacada numa manhã que exigisse sua pressa.
Luciane Recieri

Luci,

vi que você viu sua sombra, assim, de relance e eu corri na parede para encontrar a minha. Aqui já escurece, Luci e teve um temporal daqueles… mas como já se tornou rotina nas minhas tardes, logo que passa a chuva o sol vem em seus variados tons encantar meu quintal.

Durante a tempestade Chiquinho vem se aquecer em minhas mãos, mas logo voa rumo ao varal para se esbaldar na chuva. Acho lindo isso, Luci e fico com as mãos abertas esperando ele retornar.

Quis te contar isso no seu dia – não que os outros não sejam – e vim te abraçar dentro da nossa história. Já são alguns anos que começo março nesse ritual para te abraçar. Mas devo confessar, Luci, que parece que é desde sempre. Você não sente isso?

Dizem, Luci, que a probabilidade de duas pessoas se encontrarem e terem algo em comum é uma em duzentas mil… Conhecer alguém, Luci, é uma em dois  milhões… Isso é muita coisa… Ficar próximo dessa pessoa, é de uma em vinte milhões. Já imaginou isso nesse mundo de Deus, Luci? Chamá-la de amiga, então, é de uma em duzentos milhões. Fiquei pensando que estamos nesse tanto de milhões.

Eu já conheço seus bichos, sua fada – Anna – seus silêncios e você já sabe dos rumores de minhas borboletas, do meu Chiquinho e de minhas poesias. Você atravessou uma rodovia inteira e entrou inquietante na Mário de Andrade para me ver. Até ali, a gente era amiga de longe e você trouxe a chave e abriu meu coração. Tomou posse da parte sua que vive aqui, dentro de mim.

Mesmo que eu fure todas as paredes e encontre o estuque azul, nunca vou esquecer do sentimento de fome do seu pai e do seu, Luci e nem do que o pajé mandou eu te dizer. Isso já fazem mais de quatro anos, lembra?

Vim de novo reforçar o meu desejo para que você seja essa leveza de alma, que continue gostando de ratos, corujas e de sinos. Que seja sempre colo para os bichos e mãos estendidas para os amigos, Luci. que suas mãos sejam afagos sempre para os pássaros seus assim como as minhas são para os meus.

Te amo, te abraço,

Feliz aniversário1
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

E se voássemos para onde o sol se dobra?

Se alguém já não tem a terra,
mas tem a memória da terra,
então sempre pode desenhar um mapa.
Anne Michaels

Luci,

Eu já vi uma árvore desencantar e foi essa da foto, Luci… Ela ficava no quintal da vizinha da direita e eu só via seus galhos e folhas. Era uma goiabeira – igual a sua – e servia de morada para grande parte dos passarinhos que visitam meu quintal hoje.

Naquele tempo, Luci, eu não tinha tanta árvore grande. As minhas cresciam devagar, de acordo com o calendário das árvores – você sabia que elas têm um calendário próprio, Luci? – então, por isso, eu agradecia a goiabeira da vizinha por abrigar os pássaros que voavam por aqui.

Um dia, fui reparando que ela estava ficando murcha, quase seca e de repente, tudo secou. Nesse dia, eu chorei. Fiquei lembrando do sentimento que meu pai sentiu quando o pé de cedro que ele plantou – quase igual a música que ele gostava de cantar quando eu era ainda menina – morreu…

Acho que nunca contei, Luci que meu pai era lenhador antes de ser pai, tinha até uma fotografia em preto e branco, num quadro da nossa sala, onde letras garrafais escritas por alguém importante da cidade dizia ele ser O Rei dos Machadeiros… mas ele mesmo disse que havia plantado o pé de cedro para justificar as árvores que ele arrancava, seja para desbravar lugares, cidades ou mesmo na formação de roças.

Mas, um dia, ele ouviu uma árvore gemer, logo no primeiro golpe de machado. Foi ali que ele aposentou seu machado de vez, quebrou o quadro e depois disso, passou a criar florestas por onde a gente passasse.

Eu agora, Luci tenho no meu quintal um pé de jabuticaba, de algodão, de orai pro nóbis, um de ipê amarelo – que tinge meu quintal de dourado de vez em quando – e um pé de guariroba – uma espécie de palmeira – além outras plantas menores. Lembro-me de que meu filho quando veio de férias estranhou quando abriu o portão e disse: temos uma floresta aqui?

Para além da rua de cima, tenho árvores de estimação em alguns lugares preferidos. Um flamboyant na estrada da faculdade, um ipê rosa no ponto final da linha 609, um ipê branco no estacionamento do shopping, um araçá na rua de baixo e tantas outras em lugares que gosto de ir.

De vez em quando vou visitar esses lugares para falar com essas árvores, Luci… um dos meus amigos pajés me ensinou para abraçar elas quando minha alma estivesse triste. Isso tem funcionado, de alguma forma, em dias difíceis. E fiquei pensando se não seria elas algumas pessoas encantadas me consolando…. será, Luci? Eu não sei explicar sobre isso. Quem sabe um dia teremos uma resposta. Por enquanto, seguimos o calendário do sol, que já vai alto por aqui. E se voássemos para onde o sol dobra, Luci? Seria também uma espécie de encantamento?

Um beijo carinhoso,
Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Das cartas que recebi.

Mari,

Quando me mudei para essa casa, meu guarda-chuva tocava as árvores da rua. Nesses quase vinte anos, chegaram na altura adulta e mal vejo as copas.

Tenho muitas histórias com as árvores da minha rua, uma vez, cuidamos de uma goiabeira quebrada. Colamos com seiva e fizemos ataduras, mas ela se recusava a sarar. Pensamos num plano de roubá-la numa noite escura, mas um amigo advogado nos advertiu do perigo que há em salvar, poderiam chamar a polícia ao ver as gravações da rua e assistimos ao seu fim silencioso.

E ninguém percebeu que a menina esguia que já estava na inflorescência, havia morrido.

No verão de 15, um raio partiu minha figueira. Parecia uma nau com seu rangido quando atraca.

Sofri com o vazio que ficou.

Dessas que vê na fotografia, são sobreviventes: muitas caíram ao longo desses anos, parecem não gostar das estações das chuvas.

Outro dia percebi que fizeram um coração com iniciais em uma paineira. Isso me doeu tanto quanto fosse tatuada em mim um amor que nem dura a infância de uma árvore.

Mari, já te contei que vou virar árvore quando me encantar?

Carta e fotografia de: Luciane Ricieri

Afetos · Das palavras das cartas

Beda – Das cartas que recebi

Mari,
Escrevo para responder as palavras que me mandaram – suas e as de seu pai – estava no metrô quando sua carta chegou. Sorte estar sentada, daí pude ler com calma. Sabe, Mari, há coisas nessa vida que é preciso estar em paz para se aproveitar como se deve: comer é uma. Tem que ser sentada e sem frio e sem vontade de fazer xixi. Outra, é ler. Por muito tempo meu tempo de ler era no banco do ônibus (e como chacoalham os circulares!). Às vezes penso que, em parte, enxergar tão pouco é devido esse gasto de leitura em ônibus ou nos trens de subúrbio. Bem, estou respondendo hoje. Agosto passado, te respondi do pátio da escola… Era um lugar que adorava! Vestia uma bata xadrez e tinha uma cigarra pousada na mão. Do pátio se via a cidadezinha iluminada embaixo de uma lona esburacada de estrelas. Fazia calor, apesar de agosto à noite. Hoje faz frio e não estou no pátio. Muitas coisas aconteceram de lá para cá, inclusive a passagem do Teté. Sinto falta dele e ler os conselhos de seu pai me deram alento. É preciso falar do que se sofre ou se alegra, por isso escrever e fazer terapia é tão bom. Falo com você na minha cabeça e tenho fotografias que querem dizer isso ou aquilo. Sei de cada imagem que fotografo e para quem são… É minha comunicação secreta.
Fazer bolo é também dizer que amo muito. Se chego a fazer um bolo para alguém, é sinal de amor. Há lugares também que consagro aos que amo. A biblioteca Mário de Andrade é sua, faço vênia antes de entrar, assim como faço nos teatros e nas agências dos correios.
Fui a São Paulo te conhecer de verdade, porque para mim era coisa de livro. Contei isso pro chauffeur depois. Era um moço japonês de nome Sérgio, que me deixou perto da Sé, na despedida disse que queria ter amigas como nós.
Subi as escadas do prédio antigo que abrigava um partido e fiquei olhando a cidade, é um ritual meu. É preciso ter rituais quando se tem uma janela em cima de uma cidade para se pensar na sorte que se tem e a bendita da paz para aproveitar os instantes que nos dão.
Naquela noite, antes de todo mundo chegar, agradeci por ter te conhecido de verdade.
Amo vocês.


Luciane Recieri
Agosto é o mês de receber cartas e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Fotografia de Luciane Recieri

Das palavras das cartas · Geral

Das cartas que recebi.

Mari,


Dessa vez não te contei para não te preocupar e também porque o pajé voou para o céu dos passarinhos… Quem iria rezar meu retrato para me pôr o buchinho no lugar e igualar minhas pernas? Meu pai adoeceu e eu também, tanto que ando precisando de terapia e achei a Clara Marina para cuidar de mim, ela vive na serra no Rio e eu no Vale em São Paulo. Clara me perguntou como era meu medo e eu disse que meu medo andava no sentido horário: meu medo era o tempo, porque eu não queria que chegasse quarta-feira para eu colocar a reciclagem no portão e nem a sexta-feira para eu voltar pra casa e nem o domingo… Nem o domingo! Tinha medo que o tempo passasse e chegasse o dia da cirurgia do meu pai que é bem velhinho e quanto mais velhinho, mais eu vou gostando dele e da minha mãe. Tenho medo de ficar sem eles, por isso não te contei. Faltei pra ficar com ele, foi uma alegria tão genuína… Voltei de cabeça baixa sem olhar janela em fora o céu lindo que fazia, então, para não desperdiçar céu, passei acordada vendo todas as variações que faz a rotação. Ontem, pareceu que tinha gastado tudo que restava de vida, por isso de cabeça baixa.
Mari, meu pai tem alta amanhã e domingo vou amanhecer no portão deles. Isso se chama sorte. Tenho sorte de poder falar tudo sem ordem nem sentido e você me entender.
Bom é ter amigo que conversa com beija-flor.


Te amo, Mari.

Luciane Recieri