Parece o mar mas é o céu.
A rotina, Mariana, tem feito me esquivar da beleza, interromper soluços que fantasio para pensar em mapas e conceitos e mais mapas, tem também me feito entrar devagarinho nos lugares como quem evita fazer golos de impedimento.
Tenho estado (Tiago gosta quanto falo assim), logo, tenho estado abstrata, azulada e voadora como os personagens de Chagall. Hoje precisava trabalhar tanto e a poesia a me fazer muito mal, porque me força buscar metáforas para dizer o que se resolveria de chofre, o que me faz um bicho prolixo e esquisito.
Ontem pintei a lápis de cor. Precisava voltar ao hábito de colorir (colorir é como varrer, percebes, Mariana? Se não, me pergunte de onde tirei essa ideia).
Houve uma época em que pintei minúsculas marinhas, é tão fácil pintar marinhas, mas o azul me incomoda um pouco, porque sinto um frio quando uso azul tanto na pele, quanto no ver e tocar.
Já contei que, quando pequena, não suportava ter unhas? Achava que elas atrapalhavam e apertava contra as palmas para não sentir, aí que as sentia mais… São tão bobas as crianças pequenas que morro de ternura por elas.
Ainda hoje acho que poderia bem viver sem unhas. O azul, a poesia e as unhas me atrapalham, mas são coisas que existem e não posso fazer nada contra a existência delas.
Luciane Recieri
