Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes

BEDA #24 – A ruptura: A Costura do Que se Parte

Bambina mia,

Cuiabá é a capital da arte sacra. Não sei quem deu essa nomenclatura, mas o fato é que em cada rua no Centro Histórico há pequenas oficinas e salões onde são fabricadas essas artes. Os santos são variados e a fé também. Há quem tenha três ou mais santos ou santas para devoção. No corredor paralelo à rádio onde eu trabalhava funcionava o Museu de Arte Sacra, cujo acervo é composto por peças setecentistas. Hoje, por conta do mau estado do telhado, ele foi transferido para o Palácio da Instrução, no Centro.

O cuiabano é devoto por natureza e os artistas e artesãos, em sua maioria, têm um santo favorito para reproduzir. Um deles, e talvez o principal, seja São Benedito, ou Ditinho, ditando uma intimidade maior entre o santo e o devoto. É comum nos ateliês ver os santos expostos e toda espécie de arte sacra para venda.

Ler a sua caminhada atrás daquela signora com o São Francisco partido nos braços me fez pensar em como o divino afeta o povo de uma cidade inteira, claro que com algumas exceções. Há uma devoção muito bonita e quase secreta nos pequenos detalhes do cotidiano. Aquela mulher segurando a peça avariada como se fosse o próprio coração mostra o quanto nos apegamos às nossas primeiras versões e o quanto dói aceitar que nada volta a ser exatamente igual. O artesão da lona azul foi de uma sabedoria imensa: o que é feito à mão nunca se repete. Parecido, talvez. Igual, jamais. Acontece comigo quando faço meus artesanatos aqui. A comparação é diferente, mas quando um bordado tem de ser desmanchado por algum erro em um ponto, é difícil ficar igual. Melhor começar todo o trabalho de novo e seguir em frente.

Achei fantástica a sua observação sobre o olhar das estátuas. Escolher o São Francisco que ficou — aquele com os olhos voltados para o chão — é a tradução perfeita do que fazemos quando escrevemos. A santidade da escrita não está em olhar para o céu em busca de milagres abstratos, mas sim em curvar os olhos para a terra, para os bichos, para o rastro de saudade nas calçadas e para a humanidade que pulsa nas imperfeições. A beleza do trabalho artesanal, seja no barro ou nas palavras, mora justamente nessa incapacidade de ser cópia. Cada rascunho que a gente liberta é único.

No final das contas, o instante exato da libertação acontece quando aceitamos levar a peça nova, mesmo com o lamento do que ficou para trás. Seguimos valorizando os contornos feitos à mão e moldando as nossas próprias páginas, detalhe por detalhe, como se estivéssemos bordando histórias.

Bacio,
Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #22 – A ruptura: O Vento que Move as Nossas Saias.

Ilustração modificada por IA.

Dia desses falamos sobre a Rita Lee e o seu poder de liberdade. Eu era menina quando Leila Diniz se foi. Lembro-me de ver em revistas antigas a foto dela com a barriga de grávida exposta. Talvez aquelas imagens de uma mulher grávida, com a barriga de fora em plena ditadura, tenham ressignificado em mim a vontade de ser mãe. Aos meus sete anos, já gritava em mim o desejo pela liberdade que ela exibia naquelas páginas.

Conheço a sua rebeldia sagitariana e imagino a sua braveza diante das regras impostas. Rita Lee e Leila Diniz sabiam exatamente o preço e a delícia de não caber nos moldes que a sociedade desenha para nós. É uma violência sutil, mas cortante, ver tantas mulheres equilibrando pratos e trancando-se em calabouços invisíveis, apenas para julgar aquelas que decidiram assumir a brancura dos próprios cabelos e o balanço das saias longas. A liberdade alheia sempre assombra quem escolheu permanecer no casulo.

Acho fascinante quando você observa que muitas dessas mulheres só descobrem as próprias asas tardiamente, ou quando finalmente decidem não esperar mais nada para assumir as rédeas da própria vida. O direito de afrontar esses grilhões com a nossa própria verdade é o que nos mantém inteiras. Não estamos aqui para carregar as regras ditadas pelas nossas avós ou os padrões estipulados pelas revistas de shopping; estamos aqui para escrever as nossas próprias linhas, sem dosagens ou moderações.

Acho que um dos meus maiores gritos de liberdade foi pintar o cabelo de vermelho. Mesmo vivendo em outra época, em outra era, fui apontada como subversiva – e senti a mesma cobrança quando anos depois o deixei embranquecer naturalmente – embora dentro de casa eu tivesse mais liberdade do que minhas irmãs — que enfrentaram uma dureza de meu pai que eu desconhecia —, sempre pensei que podia dar as cartas na maneira e no modo de viver, sem ser condenada por isso. Acho que a poesia me deu esse poder para romper casulos, mudar as metamorfoses que me impuseram e quebrar muros para além de mim.

Toda mulher tem uma força revolucionária guardada no peito, mesmo que algumas ainda não saibam disso. Se o mundo insiste em inventar jeitos e gestos para nos deixar desconfortáveis, a gente liga a música bem alto e responde em formato de prosa e poesia. Seguimos espalhando nossas saias coloridas e nossas verdades mais sinceras. Afinal de contas, não somos cartas fora do baralho. Somos as próprias cartas e a jogada é nossa, mesmo com tantos blefes tentando nos impedir.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #21 – A ruptura: Quando as Paredes Viram Vento

Fotografia noturna em plano fechado da fachada de um casarão antigo em ruínas, exibindo duas janelas coloniais com venezianas de madeira desgastadas e uma coluna central de tijolos maciços expostos sob o reboco descascado.

O consultório da minha terapeuta ficava no Centro Histórico, em uma rua estreita com casarões antigos, a maioria tombada pelo patrimônio histórico. Feitos de adobe, com suas estruturas datadas do século passado, eles exibem fachadas em azulejos com as iniciais do dono ou de sua família, em grande parte tradicionais e relacionados à cultura cuiabana. Mas os casarões começaram a ruir e a se deteriorar por falta de manutenção, o que gerou a mudança do consultório para outro ponto.

As ruas com os nomes de Rua do Meio, Rua de Baixo e Rua de Cima são compostas de casas antigas e grande parte faz parte de disputas de herança, inventários ou vendas ilegais. É por elas que passo quando tenho sessões agendadas. Na última vez, muitas das casas pareciam saídas de um filme: desmanchavam ao menor toque. Paredes caídas sobre as calçadas, enquanto outras eram tapadas com placas ou tapumes.

Caminhar pelas calçadas e assistir aos cenários conhecidos virando poeira é uma das formas mais dolorosas de ruptura com o ontem. Ali, o tempo não pede licença e nem respeita as geografias do afeto. Lembrei-me uma tela de Hopper ao avistar uma mulher na janela de uma das casas que teima em ficar em pé, com suas cortinas de renda denunciando que mora alguém ali. Lembrei-me da carta que escrevi a Hopper, porque senti a solidão naquela janela entreaberta, mesmo com aquela mulher de olhar vazio mostrando presença.

Pensei no artista que sabia, como ninguém, pintar o isolamento e a alienação das cidades que crescem sem alma. Olhar aquele velho casarão com suas paredes “derretendo” e o portão ao lado entreaberto me trazia a sensação de olhar para meia casa. Não havia barulho de crianças, nem de cachorros ou gatos. Apenas o olhar triste da senhora e sua cortina de renda dançante, como se estivesse agarrada à única esperança de que as paredes não fossem ao chão. Imaginei a sala, as cadeiras de espaldar reto e um piano velho no canto, sem melodia nenhuma em suas teclas.

Acho fascinante como você encontra as casas dos seus personagens nas colisões inesperadas das suas caminhadas — como a da Alice ou o prédio da Raíssa no pós-CCBB. Para quem escreve, as casas nunca são apenas tijolos; são extensões da pele-alma dos personagens. Ver um teto ser devorado por cupins ou substituído por andares fantasmagóricos nos obriga a transformar a própria escrita em um arquivo histórico dessas ruínas ocupadas pelo mato, onde o ontem e o hoje insistem em se dissolver.

As fronteiras do mundo físico podem até cair sob as placas de demolição — no caso dos casarões daqui, há um projeto que nunca sai do papel —, enquanto a senhora quase não aparece mais na janela quando passo por lá. Mas a primeira lufada de ar puro vem quando percebemos que, nas nossas páginas, o passado permanece intacto. Seguimos fotografando os escombros do tempo e reconstruindo nossos próprios tetos, linha por linha, em paredes que atravessam nossos quintais.

Mariana Gouveia

Afetos · Corredores, Codinome Locura · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #20 – O Gole que Demora na Memória

aspirei o aroma do chá quando a manhã se desenhava aqui e fiquei imaginando as mulheres que você me trouxe pelas mãos, criando em mim uma intimidade a ponto de escrever cartas para elas. Não li esse livro da Lygia, mas foi em homenagem a ela que caminhei no meu lugar, da mesma forma que você fez aí, entre as prateleiras e os quintais da memória. O livro físico guarda o peso, o cheiro e a textura do tempo. É a primeira coisa que faço ao pegar um: cheirá-lo e apertá-lo ao peito. Curiosamente não empresto muito, mas pego bastante emprestado. Sempre devolvo assim que termino de ler; já tenho até as “minhas emprestadoras” de estimação. Os meus, quando já li e reli, esqueço-os em ônibus, em um banco de praça ou doo para as meninas do bairro.

A imagem de Lygia conversando com Mário em 1944 ou segurando a mão de Hilda Hilst em uma cumplicidade de cinquenta anos mostra que a verdadeira literatura é feita de encontros movidos pela paixão. E foi mesmo a paixão pela literatura que nos uniu, mesmo com os 1.540 km que nos separam. Acho que é essa paixão que rasga a alma e nos faz acreditar que um poeta não morre. Eles continuam vivos e viscerais a cada vez que a gente coloca a água no fogo e aceita tomar esse estranho chá com eles através das palavras.

Mário, Cecília, Clarice, Lygia e Hilda… todos eles continuam sentados à nossa mesa, dividindo os galhos mais altos da jabuticabeira ou do pé de ipê, e os rascunhos que insistimos em tirar do casulo. Seguimos encomendando nossos livros físicos e esperando o tempo da infusão, sorvendo lembranças que, de tanto que nos tocam, acabam sendo nossas também.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #19 – A ruptura: A coragem que mora na vulnerabilidade.

Lendo seu texto me veio à cabeça a frase de Virginia Woolf: “Durante muito tempo na história, ‘anônimo’ era uma mulher”. É inegável que a história literária foi sempre feita de exclusões, e a gente já falou sobre isso tantas vezes. Se hoje ainda enfrentamos tantas barreiras, imagina quando tudo começou. Grande parte das escritoras sofria limitações e restrições por causa da família e, em muitos casos, os nomes dos maridos eram usados nas primeiras publicações. Passamos a vida inteira sendo alimentadas com a jornada de heróis masculinos que precisam abandonar tudo para provar sua força, enquanto o verdadeiro heroísmo feminino quase sempre acontece em silêncio, dentro de quartos fechados e em folhas guardadas no fundo de uma gaveta. Apresentar Emily Dickinson como resposta foi um ato de justiça poética. Ela foi a maior das rebeldes justamente por se recusar a caber nas regras rígidas de uma sociedade que só aceitava a escrita das mulheres se ela ficasse restrita ao segredo dos diários e das correspondências.

Fiquei pensando no pedido final de Emily para que Lavinia queimasse tudo. Há uma linha muito tênue entre o desejo de proteger a própria intimidade e o milagre da nossa história ser salva por outra mulher. Se hoje os quase 1.800 poemas dela nos alcançam e enfeitam a nossa meninice, é porque houve uma irmã que compreendeu que o fogo não tinha o direito de apagar aquela voz. Olhar para a vulnerabilidade de Emily e enxergar ali uma força capaz de atravessar séculos é o que dá sentido a essa nossa busca. Nem toda heroína usa capa; algumas apenas seguram a caneta com uma coragem mansa.

Conheci Emily na pequena biblioteca da minha infância, em um livro já amarrotado e passado por várias mãos antes de nos ser doado. Depois, através de você, nossa intimidade foi adiante por causa das cartas que escrevi para ela. Confesso que, embora meu pai fosse de um outro tempo, eu tive muita liberdade e incentivo na escrita. Ele queria que eu escrevesse e que todos conhecessem o que eu produzia. Claro que, com toda coisa de pai, o orgulho surgia até nas situações mais simples.

A poesia escrita no avesso do mundo é o que realmente nos mantém vivas. Imagino que nenhuma das pioneiras da escrita se via ou queria ser taxada como heroína, mesmo porque a luta viva e diária para serem aceitas reverberava e se constituía em uma espécie de ensaio e identidade. Sentiam na pele a dor de se afirmar em um mundo, até então, inacessível. Até hoje, seguimos criando nossos casulos, com as metamorfoses necessárias para a ruptura de nossos caminhos, abrindo nossas próprias gavetas e compartilhando nossos segredos, página por página, de poesia em poesia.

Mariana Gouveia

Afetos · Literatura / Crônicas · Lunna Guedes

BEDA #18 – A ruptura: Cidades que Cabem em Páginas.

Uma resposta sobre mapas inventados, calçadas e nossas próprias cidades.

Lendo seu texto percebi que somos, antes de tudo, cartógrafos do invisível. Os mapas que traçamos nas memórias atravessam o habitar do Aleph de Borges, a Macondo de García Márquez e a “sua” Teodoro. Quando você visitou a Barcelona de Zafón e descobriu que a cidade dos viajantes não guardava os contornos sombrios do escritor catalão, você tocou no segredo mais bonito da criação: a realidade é só uma matéria-prima que a gente molda com as nossas emoções mais sinceras.

Teodoro é quase a minha cidade da infância. Vi nos personagens tanto em comum com os iguais que moravam em Arenópolis – GO. A igreja, a praça e eu — quase uma Alexandra — com as ruas de pedras e paralelepípedos… Você conseguiu reunir pedaços de tantos lugares em um único chão. A rua da nossa infância é sempre a primeira linha desse traçado; ela finca os alicerces e nos dá a bússola. Não importa se as calçadas são de paralelepípedos onde cresci ou se crescem verticalmente em São Paulo, o papel de quem escreve é exatamente esse: desinventar o cenário do mundo para erguer uma arquitetura que seja só nossa..

Já me encantei com várias cidades dos livros e vi nelas, muitas vezes, resquícios da cidade original. O livro Vermelho por dentro me trouxe uma Paris que sonhei conhecer e que ia muito além da famosa torre. Lua de Papel, além de Teodoro, me faz vagar pelas ruas de São Paulo como se eu fosse me perder logo após a próxima esquina; espiar através das janelas dos edifícios é como me “rever” como Alexandra, desde quando li o livro número um.

Adormecer com Borges e acordar com a certeza de que somos livres para desenhar nossas próprias esquinas é o que dá sentido a este agosto. Seguimos na contramão dos mapas convencionais, inventando os nossos próprios abrigos, página por página. É na escrita onde enfrento o frio sem precisar usar o aquecedor ou uma roupa quente para me agasalhar.

Mariana Gouveia